“NAZISMO DE ESQUERDA” E OUTRAS ASNEIRAS AFINS

21 set

Em 1987, durante meu primeiro ano de Graduação, fiquei conhecendo a triste história do filósofo Walter Benjamin. Ilhado em Portugal, fugindo do nazismo e sem perspectiva de conseguir passaporte ou visto para abandonar a Europa entregue à barbárie, Benjamin optou pelo suicídio. O pensador escolheu seus termos, ao invés de aceitar ser tangido como gado em direção ao extermínio.

 

Já mencionei aqui que uma das condições inerentes à juventude é a arrogância e, repito, naqueles tempos de faculdade éramos todos irônicos e blasés e pensávamos poder julgar até mesmo aqueles de quem jamais alcançaríamos ser sequer a sombra. A atitude de Benjamin, incompreensível naquele momento em que o mundo se abria para nós, adquire hoje um significado muito mais profundo e doloroso. Nenhum de nós jamais imaginou que viveria para ver a barbárie bater às portas do nosso prosaico “país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza”.

 

Eu, Anna Gicelle García Alaniz, brasileira naturalizada, com cinquenta e quatro anos completos neste ano de 2018, mestre e doutora em História Social e pós-doutora em Filosofia da Educação, esposa, mãe e dona de casa, venho aqui dizer humildemente que não sinto qualquer vontade viver na sociedade que se avizinha. O flerte suicida com a barbárie, que nos assola a cada dia e ameaça nossa integridade física, moral e intelectual está sendo demais para as minhas forças, prejudicando minha saúde e minha sanidade. Não consigo imaginar perspectivas de vida e sobrevivência para minha família e eventuais futuros descendentes e isso me aflige a um ponto de paralisia.

 

Vivemos tempos tão inimaginavelmente esquizofrênicos que as pessoas do meu bairro passam seus dias como se não tivéssemos nossa sobrevivência econômica retalhada por um governo ilegítimo. Meus vizinhos seguem suas rotinas sem questionar os rumos das nossas vidas e da sobrevivência de nossa sociedade. E eu tenho medo de toda essa “gente de bem”, que sabe lá o que guarda dentro de si, sob essa aparência de normalidade, enquanto as redes sociais deliram e destilam uma violência inaudita.

 

A internet encurtou a distância entre os estabelecimentos que se dispõe a “formar e influenciar opiniões” e o grande público massificado pela rotina esmagadora da modernidade. Antes, quando um oportunista escrevia um Best-seller deplorável sobre deuses alienígenas, era necessário que as pessoas lessem (ou ao menos assistissem a algum documentário medíocre) para que essas ideias se espalhassem. Hoje temos a produção massiva de conteúdos inescrupulosamente falsos sendo divulgados por canais a cabo (que se pretendem educativos) e canais e sites da internet financiados por ONGs e fundações de ética duvidosa.

 

É assim que, para nossa suprema vergonha, mimetizando o cidadão médio estadunidense (burro, ignorante, fanático e sem noção), um certo número de brasileiros resolveu dar as costas à educação formal e passar a acreditar em qualquer mentira ou falácia disponível nas redes. Energúmenos que defendem que a Terra é plana sequer imaginam que os manipuladores que disseminam esse tipo de asneira ganham dinheiro às suas custas e se congratulam com sua ignorância abissal. E fecham deliberadamente suas mentes à fartura de evidências físicas presentes no pensamento humano há milhares de anos, se considerarmos que Eratóstenes mediu a circunferência do nosso planeta duzentos anos antes da Era Comum.

 

Do mesmo modo que, nestas últimas semanas, outro grupo peculiar arrastou o nome do Brasil na lama da ignomínia, ao pretender ensinar aos integrantes da legação diplomática alemã no país que “o nazismo era de esquerda”. Não dá para imaginar que mente subdesenvolvida e que raciocínio porco consegue abstrair da fartura documental de evidências sobre o caráter de extrema-direita do nazismo, para defender dois ou três argumentos imbecis, mesmo diante de pessoas que dominam o assunto. A absoluta falta de educação, civilidade e “desconfiômetro” desse grupo de ignorantes, que os leva a chamar pesquisadores e intelectuais de “burros” e acreditar que sua visão tosca do mundo é mais real que a realidade, é estarrecedora.

 

Mas não surge do acaso. É apenas mais um capítulo no ignóbil desmonte (promovido por interesses classistas e financeiros) do sistema de ensino público: progressão continuada, currículos escolares sob ataque do fundamentalismo religioso, humilhação e maus tratos sistemáticos aos professores, promovidos por governos que jogam a cavalaria contra os docentes enquanto festejam suas polícias que executam jovens negros em plena luz do dia. Não, os imbecis de plantão não são obra do acaso e sim o projeto de nossas classes dominantes e seus apaniguados na gestão pública.

 

E não apenas isso. Podemos atribuir uma boa parcela da responsabilidade por esse bando de malucos sem controle à ausência de crítica parental: pais que não corrigem seus filhos (e que agridem os professores quando estes o fazem) são igualmente responsáveis. Nada de bom pode surgir quando os pais acreditam mesmo que seus rebentos espinhentos de doze anos sabem mais que um professor que estudou décadas.

 

E somos obrigados a ver o esfacelamento dos consensos democráticos tão duramente conquistados pelo Ocidente nos últimos duzentos anos, enquanto os ignaros berram “comunista” a tudo o que não conhecem, não entendem e nem tem capacidade para analisar. E se encaminham com alegria para um mundo em que tochas e forcados substituem livros e fogueiras e pelourinhos fazem o deleite de sua avidez pela violência. Enquanto nós tentamos argumentar e salvar um mínimo de sanidade em uma sociedade que mergulha com gosto no abismo da ignorância e da violência.

 

A profunda amargura que sinto, ao ver ex-alunos meus apoiando um projeto de poder baseado na exclusão social, que defende a tortura e a morte da diversidade, só pode ser comparada à perplexidade que me causa a inércia da sociedade civil perante o perigo que nos ameaça. Em nome da tolerância e da liberdade de expressão, a sociedade se omite diante de discursos de ódio e da promoção da violência gratuita contra minorias e da caça às bruxas promovida contra a universidade pública. Instâncias da administração pública pululam de fundamentalistas medíocres dispostos a rasgar a Constituição, a rifar Estado Laico e brandir suas bíblias da Idade do Bronze como única lei legítima para a Nação.

 

E ainda há quem acredite que basta uma eleição para colocar fim a esse descalabro. Essa tola ingenuidade suicida ainda vai ser responsável pelo declínio definitivo dos nossos padrões civilizatórios. Não é possível ser tolerante com a intolerância, é necessário ter uma ação social e jurídica exemplar contra o negacionismo e a cultura do ódio.

 

Doze dias nos separam do primeiro turno da eleição, marcados por toda sorte de manobras asquerosas e falsidades por parte da extrema-direita, mas também dos acólitos midiáticos do deus mercado. E depois haverá, quem sabe, um segundo turno igualmente feroz e suicida, alimentado por toda sorte de paranoias e ignorâncias. E depois haverá o resto de nossas vidas, espero.

 

E décadas serão necessárias para reverter a farta quantidade de asneiras que encontram fácil acolhida entre os que preferem amesquinhar a sociedade para poder sonhar com uma riqueza que nunca virá, a repartir e incluir todos sob o manto solidário da Humanidade.

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5 Respostas to ““NAZISMO DE ESQUERDA” E OUTRAS ASNEIRAS AFINS”

  1. Carlos Coelho 22/09/2018 às 11:20 pm #

    Descobri hoje seu canal. Confesso que a principio eu estava desanimado, pois seria mais um daqueles canais com um vasto potencial, mas, por causa do povo ignorante não teve continuidade e parou com a produção de conteúdo. Fico feliz por estar enganado, e espero que continue com o excelente trabalho!

  2. Franciele S 28/09/2018 às 2:55 am #

    Oi, sou estudante de licenciatura em Historia pela UNEB, acompanho seu canal desde o inicio desse ano quando entrei no curso. Como minha modalidade de ensino é ead acaba tendo um deficit de aulas muito grande… e sempre recorro as tuas aulas, vc tem sido minha professora. Sempre leio, é meu habito desde criança, tenho facilidade neste quesito… mas, gostaria de alguma dica pra ter mais disciplina nesta rotina acadêmica 😌😌

    • annagicelle 28/09/2018 às 11:55 am #

      Bom dia Franciele 🙂 Obrigada por sua mensagem. Estabelecer uma rotina para outra pessoa é difícil porque eu não sei da sua disponibilidade de horários. O que posso sugerir é que você separe horários de leitura durante a semana e procure cumprir esses horários. Selecione os títulos que precisa ler a cada semestre e vá usando esses horários para isso. Selecione também algumas leituras complementares e vá intercalando com as obrigatórias, para expandir sua bibliografia. Dê prioridade aos temas e disciplinas do semestre quando for selecionar as leituras complementares, assim sua leitura rende mais. 🙂 Não desanime e nem se cobre demais, o ideal é que mesmo depois de formada você continue lendo e aí pode recuperar o que não deu tempo durante a graduação. A gente não para nunca de estudar. 🙂 Boa sorte!

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