“EU SOU SPARTACUS”

4 out

Howard Fast (1914-2003) foi um prolífico escritor estadunidense, filho de imigrantes (sua mãe era uma judia inglesa e seu pai era ucraniano), que marcou época com seus romances quase históricos. Também escreveu romances policiais, contos, poemas, peças de teatro e uma vasta gama de textos políticos à esquerda. Leitor onívoro e protagonista dos momentos mais cruciais do século XX, a partir da Grande Depressão, sua obra reflete e reflexiona sobre a condição humana, de modo apaixonado e incisivo.

 

Entretanto, seu nome permanece em um escalão intermediário entre os grandes escritores com reconhecimento nacional em seu país e os produtores de Best-sellers, muitas vezes sendo injustamente arrolado junto a figuras duvidosas como Harold Robbins e Sidney Sheldon. Nesse patamar suspenso entre a genialidade e a mediocridade, comparte um lugar ao sol com Leon Uris e Jack London, sem jamais alcançar o reconhecimento público de um Steinbeck, Hemingway ou Fitzgerald. Para os nossos vizinhos do norte, Howard Fast é mais um incômodo que um orgulho nacional.

 

Em parte porque sua atividade política desafiou o macartismo, em parte porque mesmo quando escrevia sobre fatos históricos ou cotidianos dos Estados Unidos, este autor mantinha uma pretensão de universalismo que ainda incomoda seu leitor médio compatriota. O que muitas vezes configura o ponto de interesse de seus romances, para leitores de outras nacionalidades, ameaça a identidade daqueles que arrogam a si o direito de serem chamados de “americanos” como se esse não fosse o nome do continente e lhes pertencesse exclusivamente. Em suma, Fast é criticado ou ignorado em seu próprio país em função das qualidades de sua obra e não dos defeitos.

 

Entre as dezenas e dezenas de títulos publicados pelo autor, abordarei aqui apenas dois dos mais conhecidos – Spartacus e A Paixão de Sacco e Vanzetti – por motivos que vocês perceberão facilmente. Estes dois romances foram escritos respectivamente em 1951 e 1953, durante a vigência do macartismo, quando Fast foi perseguido e amargou vários meses de prisão por recusar-se a delatar os apoiadores de um hospital para refugiados da Guerra Civil Espanhola(!) ao Comitê de Atividades Antiamericanas. E, além de serem meus favoritos, são os que me propõem um desafio maior enquanto leitora e historiadora.

 

E isso porque quando Fast se apropria de eventos e sujeitos históricos e os verte em forma de romance, sua liberdade criativa incorre em mais de um anacronismo e se aventura perigosamente pelos pântanos da ambiguidade. Sua prosa apaixonada e sua meticulosa reconstituição psicológica das personagens transformam um escravo trácio dos anos 70 antes da Era Comum e um par de anarquistas executados injustamente nos anos 20 do século passado em criaturas atemporais e ícones dos valores humanísticos primordiais. E é por isso que eu considero seus romances “quase históricos”, porque embora se reportem a fatos e sujeitos reais, não tem a menor preocupação em manter a integridade do contexto original ou sua plausibilidade histórica.

 

Isso seria um pecado imperdoável nos meios acadêmicos, mas no ambiente literário não chega a ser uma grande preocupação. Fast não foi o único, nem o primeiro e nem o último a usar a História como pretexto para discutir a condição humana e os ideais desejáveis para a construção de um mundo melhor. E, verdade seja dita, é um autor que o faz com paixão e qualidade.

 

Edgar Rodrigues o chamava de desonesto porque em toda a extensão de A Paixão de Sacco e Vanzetti, Fast jamais deixou claro ou se referiu à filiação anarquista dos dois. Edgar ficava profundamente enraivecido ao tratar do assunto e considerava (como outros anarquistas que já conheci) que a omissão era uma tentativa comunista de apropriar-se de uma memória que não lhe pertencia. Eu penso diferente e por isso escrevo este texto porque considero que finalmente cheguei a uma chave de leitura coerente, que me permite entender a ambiguidade do autor, para além do idiossincrático.

 

E devo iniciar meu raciocínio então por Spartacus, o romance que começou a ser escrito na prisão e que se constitui em um libelo contra o macartismo, muito mais que um retrato da revolta de escravos em Roma. Da mesma maneira que a peça teatral The Crucible (As bruxas de Salem) de Arthur Miller, apresentada em 1953, que utiliza o episódio da caça e queima de bruxas no século XVII para criticar a perseguição aos comunistas no pós-guerra, Fast transforma a revolta de Spartacus contra Roma em um paradigma dos anseios humanos de liberdade contra um Estado opressor e perseguidor. Esses autores retiram, assim, os eventos históricos de seu contexto original e lhes atribuem novos significados, usando uma linguagem cifrada, adequada aos tempos de censura em que viviam.

 

Nesse sentido, cada sequência de Spartacus reveste-se de uma riqueza de significados que pode ser apropriada por qualquer ser humano em qualquer tempo para estabelecer uma identidade em comum na luta por Liberdade e Justiça. Tão grande se tornou esse caráter simbólico que transcendeu seu autor por ocasião da adaptação para o cinema em 1960, quando Dalton Trumbo (outro perseguido pelo macartismo, que constava de uma “lista negra” e não podia ter seu nome creditado em filme algum) foi chamado para roteirizar a obra. Kirk Douglas liderou um grupo de atores e profissionais de Hollywood, que exigiu terminantemente a inclusão de Trumbo nos créditos, quebrando dessa forma a ditadura do macartismo na indústria do entretenimento.

 

Contam que, na estreia do filme, muitas pessoas ficaram no cinema para a passagem dos créditos e aplaudiram de pé quando o nome de Trumbo apareceu na tela. Fast escreveu Spartacus em defesa da liberdade humana, mas foi o filme de Stanley Kubrick que transformou para sempre essa história em uma denúncia pungente contra a censura, a perseguição e o obscurantismo. Infelizmente, as posteriores refilmagens e a transformação em série despiram a trama de sua força e da identidade original e se centram nos combates de gladiadores, bem ao gosto da mediocridade do público atual.

 

A Paixão de Sacco e Vanzetti segue uma linha bastante parecida, mas está centrado em denunciar o caráter atroz de um erro judiciário, quando este não é um erro e sim o uso deliberado das estruturas do Estado para um assassinato político. Fast acusa pungentemente a cumplicidade de toda a cadeia de poder, polícia, promotores, juízes, governador, presidente, por ação ou omissão no assassínio político de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, travestido de processo judicial. Mesmo diante da comoção internacional provocada pela confissão de outro preso, que inocentava os dois, ambos tiveram todos os seus recursos e apelações negados e foram executados na cadeira elétrica em Boston, em 1927, causando horror e repúdio.

 

Ao longo do romance, Fast deixa vaga a filiação de esquerda dos dois ativistas, permitindo que cada um de nós se identifique com a perseguição sofrida e que perceba a ameaça que um Estado parcial e uma Justiça politizada podem ter para qualquer cidadão. A maestria do texto está exatamente em abstrair da especificidade anarquista e permitir que todos nós nos vejamos em Nicola e Bart (e a voz de Joan Baez ecoa neste momento em minha mente) e nos conscientizemos da nossa fragilidade, enquanto cidadãos, diante do Estado quando este nos escolhe como inimigos. E isso porque, novamente, o interlocutor de Fast neste romance é o macartismo, e não a Boston dos anos 20, o autor retrata a fragilidade da condição humana diante do poderio imenso das estruturas do mando e do poder.

 

E espero sinceramente que o querido Edgar (onde quer que se encontre) me perdoe por defender que a obra não poderia ter sido escrita de maneira diferente do que foi, diante das circunstâncias que a geraram e das intenções do autor. Justiça foi feita a Nicola e Bart por ocasião da realização do filme de Giuliano Montaldo (o mesmo diretor de Giordano Bruno) em 1971, e sua identidade anarquista é hoje pública e notória. O que não tira o brilho e nem a intenção do romance de Fast.

 

Em um momento histórico como o que ora vivemos, em que as pessoas forjam interpretações alternativas da realidade e da História e se escondem atrás da ignorância para defender o indefensável, o idealismo universalista de Howard Fast é como um bálsamo sobre nossas feridas. Quando o lemos, sabemos que os eventos não aconteceram na moldura em que ele os coloca, mas sabemos que essa moldura está ali para que nós saibamos mais sobre os sofrimentos vividos pelo autor e possamos inserir nossa própria cota de injustiças sofridas naquela narrativa atemporal. Assim, todos nós somos um pouco Spartacus e poderíamos berrar a plenos pulmões nossos anseios de Liberdade e Justiça, nosso inconformismo com os tribunais viciados e com a Justiça capenga e as perseguições políticas.

 

Os sentidos estão todos ali, aguardando para que nós os reafirmemos de acordo com a nossa Humanidade e os transmitamos às gerações futuras. EU SOU SPARTACUS. E você?

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