ENCRUZILHADA

8 out

“Caminante, son tus huellas, el camino y nada más

Caminante, no hay camino, se hace camino al andar,

Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás,

Se ve la senda que nunca se há de volver a pisar,

Caminante, no hay camino, sino estelas em la mar”

Antonio Machado, Poeta.

 

Este é o meu cantar favorito de Machado, mesmo que meus olhos marejem sempre que alguém declama propriamente El crímen fué em Granada. Ouço este cantar na voz de Joan Manuel Serrat desde a minha mais tenra infância, a tal ponto que meu cérebro já não consegue dissociar sua voz destes versos. E, ao longo da minha vida, estes versos de 1912 adquiriram o poder simbólico de me obrigar a seguir sempre em frente.

 

A grande ironia disso é que sou historiadora e minha profissão é debruçar-me o tempo todo sobre o passado. Reunir documentos, decifrá-los e analisá-los para compreender o passado e dimensionar no presente as heranças que nos perseguem e atormentam. E dar sentido à nossa trajetória de bípedes capengas neste lindo planetinha azul, que parasitamos como uma praga amaldiçoada.

 

E, no entanto, em minha vida pessoal, Antonio Machado e seus versos serviram de norte para a minha caminhada nos labirintos da incerteza e nos pântanos do desconhecido. Um poeta “idoso”, que morre exilado, fugindo do franquismo, mas que não se lamenta e limita-se a chorar seus amigos assassinados. Um lembrete de que a vida nos reserva cargas, angústias e amarguras, que precisamos suportar e superar, senão da maneira estoica de filósofos e crentes, ao menos da maneira sonhadora de poetas e artistas, ou da maneira lutadora e desafiante dos que não se rendem.

 

As encruzilhadas (ao contrário dos caminhos límpidos de Machado), lugares solitários em que os caminhos se encontram, podem ser mágicas ou sinistras, quem lhes atribui sentidos ou significados somos nós. Podemos voltar por onde viemos, podemos seguir avançando, ou desviar o caminho para outros ângulos, só não podemos ficar parados, catatônicos, sem escolher para onde ir. Podemos refazer os passos quando o caminho conduz a algum lugar sem saída e realizar novas tentativas de avançar, mas precisamos o discernimento de avaliar quando uma trilha não leva a lugar algum e desistir dela a tempo de aprumar nossas vidas.

 

Passada a ressaca do primeiro turno das eleições de 2018, aqui estamos em uma encruzilhada que ameaça nosso futuro de país soberano, ao mesmo tempo em que nos propõe o dilema de ver nossos vizinhos abrir mão de todo ganho civilizatório e escolher de livre e espontânea vontade um regime de morte e obscurantismo. Digo isso escrevendo do interior paulista, local em que os números não deixam dúvidas de que uma boa parte dos meus vizinhos mais anódinos escolheu a via da violência e do ódio. Pessoas tão comuns e banais que dá até medo pensar o que se esconde por trás de seus “bonsdias” sorridentes, mas que vão às urnas para defender um projeto de país que será construído a partir dos cadáveres de pessoas como eu.

 

E não sabem…

E quando sabem não se importam…

E quando dizem se importar, minimizam os riscos…

E quando minimizam os riscos, jogam com a minha vida…

E quando jogam com a minha vida (e a de tantos outros), abandonam a Humanidade…

E quando abandonam a Humanidade, tudo de pior pode acontecer…

 

A nossa encruzilhada não são os imbecis raivosos, defensores do indefensável, esses são uma parcela bem delimitada da população e existem desde sempre. A nossa encruzilhada não são os oportunistas, mercadores da fé, manipuladores de multidões e jogadores que enriquecem no caos, esses são uma minoria. A nossa encruzilhada são os cidadãos comuns, apavorados com fantasmas inexistentes e mergulhados na ignorância autocomplacente.

 

Perdemos as chaves de acesso ao diálogo com essas pessoas. Perdemos a batalha para pastores, padres, apresentadores de televisão, jornalismo desonesto e manipulação emocional. A racionalidade que defendemos não encontra eco no cidadão comum nestes dias tristes e amargos.

 

Para que nos ouçam seria necessário aderir ao discurso de manipulação pelo pânico, a que essas pessoas são mais sensíveis, e sacrificar nossos princípios, nossa honestidade no altar dos resultados. Seria necessário acenar com os cenários mais apocalípticos e usar a linguagem sensacionalista a que a televisão já os acostumou. Em suma, precisaríamos ser tão manipuladores e sem escrúpulos quanto o outro lado e denegar aos nossos vizinhos sua autonomia de seres pensantes.

 

E o resultado seria apenas a vitória em uma eleição que não resolverá a fratura civilizatória que divide a nossa sociedade e apenas adiará o pior. Haverá outras eleições e a escalada das tensões sociais recolocará esse mesmo dilema até sua superação. E não podemos encarar cada nova eleição como se fosse o fim do mundo ou a beira do abismo.

 

Elas são encruzilhadas. Os caminhos estão aí e a sociedade escolherá e superará os impasses, ou ao contrário, mergulhará no caos e na violência e deverá, ainda assim, superar seus impasses. Não há fórmula, não há profecia, não há solução pronta.

 

Talvez seja necessário esse mergulho esporádico nas profundezas dos atavismos mais primitivos para que, a cada duas gerações, exista um crescimento substantivo na maturidade social. Talvez nada disso tenha sentido e a nossa racionalidade nos paralise ao procurarmos atribuir significado a processos aleatórios. Talvez sejamos mesmo fantoches manipulados pelos mercados, quem sabe?

 

O que precisamos saber é que nem sempre o conjunto de qualidades, virtudes, ideias e expectativas que chamamos de bem vence as batalhas. Na maior parte do tempo são a mediocridade cega ou a banalidade indiferente que estabelecem uma alternância de poder. Precisamos parar de moralizar as lutas políticas para evitar esse sentimento de superioridade que nos cega em relação aos outros.

 

Como é que vamos capturar a imaginação do cidadão comum se passamos o tempo lhe dizendo o quanto é mau e ignorante e que suas escolhas vão destruir a sociedade?

 

Deixemos nossas angústias e frustrações fluir nestas primeiras horas, se isso é necessário para preservar nossas coronárias, mas quanto antes começarmos a pensar em soluções coletivas e meios de aproximação dos nossos vizinhos, mais perto estaremos de alguma solução. Eu não quero uma sociedade em que a Ordem e o Progresso serão pavimentados com meu cadáver, mas também não quero vencer por vencer aprofundando o abismo que nos tragará antes que a próxima década se finde. E esta é minha encruzilhada.

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