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“VOCÊ SÓ SE DÁ COM GENTE DE ESQUERDA?”

21 abr

A anedota da primeira metade do século XX começa com um paciente entrando no consultório médico e relatando os sintomas de uma profunda depressão. O médico lhe diz para se animar, que seu problema não é físico e lhe recomenda que vá assistir ao espetáculo de um famoso palhaço que se encontra na cidade. Então o paciente se vira e responde: “o senhor não entende, eu sou o famoso palhaço”…

 

Já vi essa anedota reproduzida várias vezes, desde um diálogo em um romance da Agatha Christie até ser contada por Gil Grissom, o entomologista emblemático que liderou a equipe do C.S.I. Vegas por nove temporadas. Uma variação interessante (e por variação eu entendo quando se usa o mesmo tema de modo inteiramente diferente) relata que Sinatra gostava de contar que ouvira dois caras em um bar se lamentando sobre mulheres, ao som da jukebox tocando uma música dele. Lá pelas tantas, um deles todo emocionado perguntara: “nós temos a ele, mas a quem esse cara ouve quando está na fossa?”.

 

Palhaços que não podem alegrar a si mesmos. Intérpretes que traduzem a angústia de suas gerações, mas que não tem quem lhes traduza. Poetas como Maiakovski, que para animar a um amigo suicida dissera “é preciso arrancar alegria ao futuro” e tempos depois acabara por se suicidar também. É condição dos artistas retratar os mal-estares de suas próprias épocas e refletir a ambiguidade do mundo.

 

Assim como é condição inerente à contemporaneidade este sentimento de que a cada momento estamos sendo deixados para trás, seja pela tecnologia, seja pela História. Os europeus do século XIX sentiam vertigens com a velocidade entre trinta e quarenta quilômetros horários de um trem a vapor ou apavoravam-se diante das imagens animadas de trens em movimento nos primeiros filmes cinematográficos. Que diriam das nossas tecnologias e desse sentimento de obsolescência que nos assalta diariamente diante da deterioração civilizatória que atravessamos?

 

Será que se sentiriam como o palhaço incapaz de encontrar alguém que o faça rir?

 

Conferindo minha TL no Facebook, verifico que foi no passado dia 7 de abril que fechei ao público a página do Cantinho da História. Rolando o mouse e revisando as publicações, descubro que foi em 10 de maio de 2013 que fiz minhas primeiras postagens por lá. Por um momento, meu TOC incipiente me faz desejar que eu tivesse conseguido resistir mais um mês para realizar um ciclo de cinco anos completos, mas me vejo obrigada a concluir que a data do encerramento é emblemática e que a duração da página é um período que fala por si.

 

Embora pessoalmente tenda a acreditar que o golpe de 2016 teve seu verdadeiro início em 2005 com a farsa do “Mensalão”, que permitiu condenações sem provas e distorções grotescas no processo penal (em um julgamento claramente político), as cronologias oficiais dirão que foi com os protestos de 2013 que tudo começou. Então, minha página (que se destinava inicialmente à divulgação dos vídeos do canal) durou o tempo exato que levaram para desestabilizar o governo legitimamente eleito, promover o golpe de estado, consolidar o governo golpista e retirar o candidato favorito às eleições que não acontecerão. E, mesmo não sento petista, assumo essa cronologia exatamente porque ela coincide com o processo de embrutecimento e radicalização da convivência social e a escalada da barbárie.

 

Nesse período, não houve um único dia sem que a página recebesse perguntas ou pedidos de vídeos, de indicações bibliográficas e até de conselhos acadêmicos. E respondi prontamente a todos os que me procuraram, mesmo quando não tinha certeza se algumas perguntas tão absurdas ou tolas eram dúvidas genuínas. E houve haters e trolls sabotando a página, bem como pessoas de todos os tipos, inclusive as interessantes que faziam com que o projeto valesse a pena.

 

Mas eu não podia fazer todos os vídeos que me eram solicitados, fosse por não ter acesso aos livros pedidos, fosse por ser humanamente impossível uma pessoa sozinha produzir tal volume de gravações. E, é claro, deveria ser evidente que não tenho a resposta para toda e qualquer pergunta que possa surgir. Preciso estudar muito e nem sempre as bibliotecas públicas ou os bancos de dados fornecem os materiais necessários.

 

Já reclamei demais neste blog sobre a falta de polidez e de civilidade, sobre a onipresença de gente folgada clamando que se lhes dê tudo pronto, sobre as agruras de estar publicamente na internet, enfim. Neste texto prefiro ir além e pensar na pergunta que lhe dá título e que me foi feita por um habitué do Cantinho, que jamais leu um único texto deste blog, mas que me abordava semanalmente com perguntas pessoais de todos os tipos. No dia em questão, o jovem me abordou para saber se estava triste com a questão do Lula e o diálogo foi avançando até chegar nesse questionamento.

 

Essa pergunta do internauta me fez pensar e refletir sobre o “núcleo duro” da minha vida. E, de fato, meu entorno afetivo mais próximo só tem gente dos vários espectros da esquerda e, embora eu tenha alguns parentes que são sabidamente de direita, não sou de conviver o suficiente para chegar a desenvolver atritos. Da mesma forma que há muito tempo que meu número de amigos de verdade vem sendo reduzido pelas parcas e pelas distâncias, mas ainda assim sua quase totalidade pode ser vista como de esquerda.

 

O Cantinho me trouxe muitos amigos virtuais, mas o tempo e as circunstâncias deixaram que somente aqueles com fatores de afinidade permanecessem. E “ser de esquerda” é um fator preponderante porque amizade (como eu a entendo) requer respeito, mas também requer um nível de afinidade acima das conveniências sociais. Eu não confio em quem diz que tem amigos de todos os matizes e não deixa a política interferir na amizade, isso me soa por demais hipócrita e superficial, a não ser que a amizade derive do respeito profissional porque aí as convenções são outras.

 

E eu encerrei a página do Cantinho no Facebook em parte porque a maioria dos oito mil inscritos não estava nem um pouco interessada nas questões políticas que me inquietam na atualidade. Recebi várias admoestações para me ater às questões históricas e historiográficas e “deixar de bobagens”, como se a minha disposição de ajudar tivesse se transformado em uma obrigação. E recebi também exigências de retirada de conteúdo, por parte de jovens prepotentes que (tenho certeza) jamais teriam sido tão invasivos e descorteses se eu me situasse no espectro do gênero masculino.

 

Considero o Cantinho da História como um projeto encerrado, que se esgotou exatamente porque o público a que era destinado passou a exigir mais do que minha ajuda e passou a querer ter ingerência em minhas ideias e convicções. Comecei o Ponderações movida pela necessidade de abordar o mal-estar contemporâneo do embrutecimento e da manipulação do pensamento por forças sociais situadas alhures de nós. E é um projeto de curta duração, que visa apenas a chamar a atenção para as armadilhas das narrativas hegemônicas e da homogeneização do ensino e do pensamento.

 

É a minha contribuição pessoal para combater os famigerados projetos de sujeição do ensino ao neopentecostalismo e outras aberrações religiosas. É uma afirmação dos ideais republicanos de uma escola laica, universal e gratuita, que hoje estão sendo destruídos pela sanha neoliberal. Existe um excesso de “neo” ideias visando a restauração de uma sociedade antiquada, decrépita e atrasada, baseada no fundamentalismo religioso e na sublimação da ignorância e da mediocridade.

 

E eu sei perfeitamente que não vou mudar o mundo sozinha, mas prefiro contribuir para a manutenção dos valores iluministas, do que me abster e deixar que a barbárie se alastre. Como poderia lutar por meu sonho comunista, se assistisse extática à demolição da nossa sociedade por parte daqueles que querem que regridamos a estruturas arcaicamente pré-modernas? Como poderia ser gentil e educada convivendo virtualmente com os brucutus que desejam a mordaça ou a morte para mim e meus pares?

 

Quando houver por bem de encerrar o Ponderações, outro projeto surgirá. Ainda quero estruturar um podcast para abordar meus autores favoritos, de Marx e Thompson a Le Goff e Sérgio Buarque, sem ser pautada por um público utilitarista que espera que eu os exima de ler e estudar. Só me falta o conhecimento tecnológico para viabilizar esse novo projeto, mas isso é apenas uma questão de tempo.

 

E dedico estas claudicantes e confusas anotações aos meus amigos e parentes de esquerda, que não me deixam desistir nem entregar os pontos. Aos loucos e sonhadores que pensam para muito além deste mundinho besta e sacrificam parte considerável de suas vidas na transformação e na esperança de uma vida melhor para todos, não apenas para os seus. Porque ser “de esquerda” é muito mais que defender um partido como se este fosse a camiseta de um time qualquer, é reivindicar o ser humano com todos os seus defeitos e contradições, mesmo que o preço a pagar seja tão alto que não exista ninguém que nos entenda ou nos defenda.

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VIVENDO NA RETRANCA

9 abr

Nunca vesti a camisa Canarinho e nem mesmo sou uma torcedora habitual da seleção brasileira. A variedade de jogadores medíocres, mascarados e carentes de cidadania e civilidade, que tenho visto em campo nas últimas décadas também não me entusiasma para torcer por times específicos. Tenho muita simpatia pela Ponte Preta aqui de Campinas e pelo Corinthians, mas abandonei definitivamente o São Paulo na década de ’90 quando ficou coalhado de garotos mercenários que invocavam Jesus em campo e ganhavam fortunas para apequenar o esporte.

 

E aí vai um pouquinho de contexto. Na casa da minha abuela materna nenhum Alaniz que tenha convivido com a tia Noemi poderia sequer cogitar de torcer para o Peñarol. Minha tia era uma mulher baixinha, magra, muito ágil, que ia de bicicleta trabalhar como encadernadora em uma gráfica e jamais recusava mais de um copo de vinho. Morreu solteira, amargando a maldição do câncer que nossa genética guarda, mas deixou uma lembrança muito profunda nos sobrinhos (mesmo aqueles como eu que não conviveram tanto assim com ela) de seus deliciosos bolos de limão com cobertura açucarada, de estar sempre segurando algum livro e de sua torcida fanática pelo Nacional e pela Celeste.

 

A única camisa de clube que já tive (e vesti até virar pijama e por fim sumir) foi uma camisa do Nacional que ganhei nos anos ’70. Ao chegar ao Brasil, demorei um pouco para escolher um time e na época escolhi o São Paulo principalmente por causa do Dario Pereyra, mas também para contrariar meu pai que era corinthiano. Não sou uma pessoa de contar títulos, gosto de ver um bom jogo e não me entrego há muito tempo a essa paixão desbragada que caracteriza muitos torcedores.

 

Nesse sentido, ao mesmo tempo em que não gosto das fanfarronadas das torcidas e das rivalidades fabricadas pelos jornalistas, também não suporto jogos burocráticos em que a alma e a garra dos times somem para privilegiar toda a “economia” gerada pelo futebol. Desde os comerciais ambulantes que se tornaram os uniformes, até as polpudas verbas que determinam se um jogador vai com tudo para uma bola dividida ou vai preservar seu corpo porque tem um contrato a cumprir. Por essas e outras detesto os times argentinos que jogam com a “linha burra”, meu pai costumava dizer que isso “não é coisa de homem”.

 

E que dizer desses moleques metidos a craques que se jogam a cada bola para “cavar” penalidades inexistentes? Que ganham fortunas e mesmo assim sonegam impostos e mantém dinheiro em paraísos fiscais e ainda são tratados como divindades? Ídolos e craques não substituem um bom jogo, com um time jogando com companheirismo e honrando sua camisa.

 

Tenho saudades de Vladimir e Sócrates, de Raí e Leonardo, de Tostão, de jogadores cidadãos, enfim. Mas também tenho saudades de Serginho Chulapa, que nunca enganou ninguém pousando de santo. Talvez por isso na Copa de 2014 torci mais para a Celeste (que contava com um time assim) que para a Canarinho, embora tenha apoiado incondicionalmente a realização da Copa diante do massacre ideológico que as próprias esquerdas promoveram, visando enfraquecer o penúltimo governo legítimo que tivemos. Sobre o 7×1, ainda descobriremos um dia o que realmente aconteceu e as responsabilidades serão cobradas a quem de direito. “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder” diria dona Anunciata, saudosa avó do Duda e grande corinthiana.

 

A partir do golpe de 2016, tenho acompanhado bem ressabiada qualquer manifestação de ufanismo, uma vez que a camisa Canarinho se tornou o uniforme dos patos manipulados que ajudaram a afundar nosso país na desgraça e na miséria. Por isso eu nem pensava em colocar as bandeiras à janela durante a Copa que se aproxima, mas minha família nem me deixou sugerir tal coisa e as bandeiras do Brasil e Uruguay serão penduradas aqui na frente de casa. Mesmo que algum vizinho ignorante pense que a bandeira é da Argentina, mesmo que algum fanático me jogue na cara (como já aconteceu décadas atrás) que eu vivo aqui e tenho que torcer para a seleção brasileira.

 

Tenho sérias dúvidas se veremos jogos bonitos e bem jogados na Rússia. Nem mesmo na época das ditaduras militares aqui na América Latina, o clima de uma Copa foi tão maculado pelo clima político malsão. As sombras de Putin, Trump, Merckel e seus projetos hegemônicos de dominação se sobrepõem às nulidades que ocupam governos por aí afora em outros países, classificados ou não.

 

As guerras derivadas da fome por petróleo e recursos naturais, os golpes brancos, as ofensivas econômicas das gigantescas corporações que controlam governos e meios também influenciam o futebol. Times retranqueiros, que jogam em função de poucos craques e se arrastam pelo campo apenas para cumprir resultados, me dão nos nervos (como se diz popularmente). E me incomodam exatamente porque são símbolos de uma era de sonhos perdidos e opressão sistemática do ser humano pelo capital.

 

Na disputa das narrativas políticas, o futebol sempre se prestou senão às metáforas, à manipulação emocional de servir de cortina de fumaça aos mais espúrios interesses. Muitas vezes dá vontade de nunca mais assistir, nunca mais torcer, nunca mais se deixar levar. Mas, da mesma forma que na política em si, muito mais do que de derrotas, se trata de mudarem as regras do jogo à nossa revelia e isso não podemos deixar.

 

Só porque cedemos o contra-ataque às forças do mal, não precisamos passar o resto da vida na retranca. Melhor seria jogar como um time e não ficar esperando milagres de um único craque. Quem entender, entendeu…

 

E vai Corinthians! J

TRAGÉDIA E FARSA

6 abr

Lá pelo fim dos anos 80, quem foi meu contemporâneo na graduação há de lembrar, a disciplina de Brasil III (que contemplava o período republicano) foi oferecida no IFCH da UNICAMP por Maria José Trevisan, conhecida como Mara. Era uma professora com um perfil não tão brilhante e assertivo quanto as estrelas que brilhavam na constelação do nosso curso de História, mas sempre foi muito querida por nós alunos. Guardo até o hoje o exemplar de seu livro com dedicatória, que ela ofertou a cada um de nós por ocasião de nossa formatura.

 

Ao abordar a disciplina, como era costume no IFCH, a ementa contemplava os principais debates intelectuais e historiográficos pensando o Brasil do período republicano. E não era pouca a expectativa, afinal a minha turma tivera Brasil I com Silvia Hunold Lara e Brasil II com Sidney Chalhoub. Mara, nesse sentido, me deixou uma lembrança muito honesta de alguém que sabia das próprias limitações e estava ali aprendendo junto conosco, o que (no final) possibilitou uma das disciplinas mais livres e proveitosas que já cursei.

 

Um dos debates mais interessantes que fizemos foi sobre a “polêmica das ideias”. Para quem não é da área vale uma rápida explicação, na década de ‘70 Roberto Schwartz, que na época era um dos maiores especialistas em Machado de Assis, publicou uma série de ensaios intitulada Ao vencedor as batatas, alusão evidente ao romance Quincas Borba. Ali se encontra o texto As ideias fora do lugar, que suscitou a polêmica.

 

Schwartz argumentava que no Brasil as ideias eram retiradas de contexto e absorvidas pelos grupos sociais dominantes para adaptar-se aos seus interesses. Tomava como exemplo o ideário liberal do século XIX, que considerava absolutamente desvirtuado ao ser pervertido nas argumentações tanto de liberais quanto de conservadores, ao sabor da ocasião ou das expectativas. E enveredava por uma análise que localizava o Brasil como um lugar exótico e sui generis fora do tempo e fora da História, onde as coisas aconteciam de modo bizarro (ao menos essa foi a nossa conclusão).

 

Maria Sylvia de Carvalho Franco respondeu a ele com um texto primoroso, alegando que as ideias não apenas estavam no lugar, mas também eram absolutamente coerentes com a vocação predatória das elites brasileiras. Mudando a perspectiva de análise, a autora conseguiu dar sentido e desconstruir a interpretação exótica de Schwartz, que era muito mais literária que histórica. E isso rendeu uma das polêmicas mais interessantes na nossa disciplina, dividindo os que concordavam com Schwartz (e identificavam “jabuticabas” em tudo o que acontecia no Brasil) e os que concordávamos com a Maria Sylvia e não alimentávamos nenhuma ilusão quanto ao caráter histórico das elites locais.

 

Elites perfeitamente enquadradas no mais selvagem capitalismo predatório, que aceitavam com alegria o papel de subalternos “capachildos” auxiliares do neocolonialismo europeu e estadunidense, desde que pudessem rapinar à vontade o país e entregar seu povo à própria sorte, sumido na miséria e na ignorância.

 

Lembro a vocês que este é um blog e não uma publicação acadêmica, então quem estiver interessado nas referências deve pesquisar por si mesmo. Neste momento, ao descrever de memória tanto ideias como eventos, torço para que meus leitores se interessem e vão ler os textos em questão. E vou além, adoraria ver as novas gerações apreciando devidamente Quincas Borba e Memorial de Aires, dois maravilhosos romances de Machado de Assis, que dissecam sem piedade (e com porções generosas de ironia) a elite brasileira do século XIX, tanto do meio rural quanto urbanizado.

 

Volta e meia, quando o grau de bizarrice do noticiário atinge níveis alarmantes, como é o caso dos últimos quatro anos, relembro com saudades os debates nas aulas da Mara, do Sidney, da Silvia, do Paulo Miceli, da Maria Helena Capelato e de tantos outros professores inesquecíveis nos meus treze anos de graduação e pós. Foram momentos épicos, quando pensávamos a construção da historiografia e, ao mesmo tempo, acompanhávamos o desenrolar da redemocratização. Afinal, para quem não percebeu, minha graduação se deu entre os governos Sarney e Collor e acompanhou a tristemente célebre eleição presidencial de 1989, bem como a vitória de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, e meu mestrado acompanhou o período de derrocada e o impeachment de Fernando Collor.

 

De certa forma, este blog e meus vídeos são uma maneira de manter vivo um espaço de discussão que já não existe mais em minha vida, uma vez que estou definitivamente fora do meio acadêmico. Uma maneira imperfeita porque a internet promove muito mais o monólogo que o diálogo, mas vá lá. Uma maneira de continuar pensando a sociedade brasileira e seus paradoxos, seus enigmas e suas aberrações.

 

Nesse sentido, o insight que temos para hoje, nesta semana triste e vergonhosa em que o golpe de Estado de 2016 se consolida (graças à pantomima judiciária ora em curso) é meio que uma homenagem tardia à lucidez sem par de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Porque nestes quatro anos de destruição sistemática de nossas estruturas democráticas, o Brasil conseguiu a proeza de viver a História como tragédia e farsa ao mesmo tempo. Na melhor tradição que nos irmana ao velho barbudo, podemos afirmar que as elites brasileiras não são “jabuticabas” (como afirmam uns e outros), mas um bizarro e asqueroso bando de carniceiros e rapinadores, que se alimenta com volúpia dos restos deixados pelas grandes potências, enquanto subjuga o resto de nós sem qualquer senso de decência.

OS CÃES E AS CARAVANAS

2 abr

Este é um daqueles textos com potencial para desagradar a todos e mais alguns e romper amizades contingentes. Dado o momento delicado da nossa vida política, ponderei demais antes de me sentar ao teclado e digitar estas “mal traçadas linhas”. O que tiver que ser, será.

 

Recentemente ouvi de um colega em plena viagem ufanista, que pessoas como eu são “cassandras do apocalipse” porque estão sempre vaticinando o pior dos cenários. Confesso que talvez essa crítica fizesse mais sentido em meus tempos de juventude, quando eu era pouco mais que uma mistura malfeita de Mortícia Adams e Funérea Covarasa. A passagem do tempo me castigou o suficiente para suavizar alguns desses aspectos da minha personalidade, mas não me trouxe a cegueira política que parece caracterizar esse meu amigo.

 

Continuo afirmando, como fiz meses atrás, que a probabilidade de que as eleições deste ano sejam adiadas para 2020 é um dado que está na mesa e que cresce a cada dia. Fingir que estamos vivendo dentro da normalidade institucional não ajuda a superar esta etapa política aziaga, da mesma forma que constatar que o golpe se consolidou parece não ser suficiente para motivar a resistência de amplo espectro. Parece que estamos brincando de política ao invés de nos comportarmos como seres políticos, como cidadãos pensantes e agentes.

 

Estão dados vários fenômenos que o meio acadêmico não nos preparou para perceber e nem para lidar. O ritmo lento da Academia, principalmente entre nós historiadores que precisamos de distanciamento temporal para analisar nosso objeto de estudo, parece ter contagiado a nossa percepção do presente. A velocidade de deterioração da nossa sociedade e das estruturas políticas que a representam, está deixando pelo caminho mais de um analista.

 

Em menos de uma década assistimos impotentes à “futebolização” do espectro político. De repente, alguns poucos setores da população acostumados à indiferença passaram a escolher partidos e candidatos como quem escolhe um time para torcer. E trouxeram para o cenário eleitoral toda a violência, fanatismo e paixões dos convescotes domingueiros regados a testosterona, que são usuais ao esporte bretão.

 

Os partidos políticos, sem exceção, a reboque da mídia, investiram nesse “vestir de camiseta” que afastou qualquer análise madura ou projeto de país possível. As redes sociais pululam de declarações de amor a candidatos (sem discussão alguma de seus projetos) e manifestações de ódio aos que são considerados seus “inimigos”, personalizando da maneira mais lamentável o cenário já caótico que vivemos. É uma armadilha que se fechou sobre nós e da qual está cada dia mais difícil escapar, à medida que o ódio se alastra.

 

Nesse tom de discurso, a função essencial da política que é o diálogo entre adversários para estabelecer a melhor governança da sociedade, passou a ser vista como sinal de fraqueza e de corrupção. A criminalização do diálogo político e sua substituição por uma pantomima de galos de briga estão transformando nosso país em pasto para as grandes potências se refestelarem com nossos recursos e ativos. E enquanto isso a sociedade troca impropérios, ofensas, sopapos e agora tiros.

 

Eu passei o ano de 2016 na rua lutando para impedir o golpe e manter o mandato da presidenta legitimamente eleita. Mesmo quando o campo majoritário do PT já a considerava uma baixa necessária para preservar a candidatura de Lula em 2018. Mesmo quando éramos poucas centenas de pessoas aqui em Campinas, transformando nossas passeatas em esforços patéticos, enquanto a população nos pontos de ônibus nos olhava como se fôssemos malucos.

 

Participei de passeatas, reuniões e livros. Por dois anos publiquei incansavelmente aqui neste blog uma série de análises e defesas do processo democrático republicano, apenas para ver cada estrutura do que identifica uma República esfacelar-se diante dos meus olhos, diante do rolo compressor do dinheiro e da indiferença geral. Da mesma forma que transformei meu canal no YouTube em um foco de resistência ao obscurantismo promovido pela evangelização da política, na forma dos projetos Escola sem Partido.

 

Porque lado a lado com a criminalização da política e a promoção de líderes messiânicos, avança a passos largos a evangelização de nosso Estado, que jamais chegou a ser inteiramente laico, como se espera de uma República. A ingerência de padres e pastores acreditando que podem e devem legislar, a partir de seu pensamento mágico e supersticioso, sobre os costumes da sociedade civil cresceu e se alastrou. E produziu boas teses e dissertações acadêmicas, mas não nos ajudou a resistir e a combater essa avalanche de moralismo barato e farisaico que hoje se abate sobre todos nós e ameaça transformar nosso sistema de ensino em um cemitério intelectual.

 

E essa deterioração sociopolítica não vai mudar porque este ou aquele candidato venha a ganhar as eventuais eleições majoritárias. Enganam-se e são enganados todos aqueles que se deixam embriagar pelas multidões, quer seja de aldeões com tochas e forcados, quer seja de ativistas com bandeiras vermelhas. Porque o desmonte do Estado e da economia, promovidos a partir da politização do Judiciário e das ações do governo golpista, apoiado pelo Congresso mais venal já eleito e com a conivência da grande mídia, não poderá ser revertido na canetada por presidente algum.

 

Da mesma forma que o esgarçamento das relações sociais nos setores médios da população está promovendo momentos de verdadeira barbárie, a ação sem pejo das forças policiais e militares criminalizando a pobreza e reprimindo de maneira violenta crimes cujos mandantes encontram-se alhures, estamos fabricando as bombas-relógio que vão detonar nosso cotidiano e ameaçam transformar-nos em médio ou curto prazo em uma nova Somália.

 

E isso porque acreditamos que nossas bolhas de convivência são representativas da sociedade como um todo, quando não passam de ambientes localizados. A maioria da população permanece indiferente, tocando suas vidas do jeito que dá, esperando o ônibus para casa enquanto nós marchamos pelas ruas. E votará a partir de uma postura contingente e pragmática, não por convicção política e nem empolgada pelo fla-flu dos setores médios, mas pensando em como colocar comida na mesa e garantir sua sobrevivência.

 

Para quem estamos falando quando formulamos nossos belos textos de análise sociopolítica? Para além da vaidade de ver nossos pensamentos formulados na página escrita existe um círculo vicioso de auto-referenciamento que não conseguimos superar. Não alcançamos a população mais simples, aquela que não frequenta comícios nem passeatas e que não vê a rua como sua porque as autoridades não deixam.

 

Nesse sentido, eu tenho plena consciência de que escrevo apenas para registro histórico e de que as minhas palavras são impotentes diante do cenário que me cerca. Venho votando nos candidatos “menos piores” desde que recebi meu título de eleitor e, eventualmente, anulando o voto quando a escolha que se me apresenta é inaceitável. Mas nem por isso considero que a destruição da política ou de suas estruturas seja viável ou um ganho ao processo civilizatório.

 

Não sou mais criança para acreditar em milagre e nem milagreiros ou em sistemas perfeitos ou em pensamentos mágicos de qualquer espécie. Se queremos uma sociedade justa e equitativa precisamos investir em educação radical e manter a sanidade e a racionalidade mesmo em face do inimaginável. Por isso não acompanho os delírios ufanistas desse meu colega que acredita que a vitória de seu candidato na eleição presidencial deste ano irá resolver de forma mágica todos os problemas do país.

 

Talvez eu seja mesmo uma Cassandra do Apocalipse. Se for esse o caso, aqui estarei de olhos abertos encarando a realidade, sem deixar-me seduzir por cantos de sereias mágicas. Foi um longo caminho para chegar a ser quem sou e pretendo seguir caminhando sempre.

QUAL É A SUA PÁSCOA?

28 mar

O Carnaval passou e chegou mais uma vez a Páscoa e com ela o festival de clichês e mesmices de sempre nas redes sociais. Desde os eternos resmungões sobre o preço dos chocolates aos que pensam que suas religiões deveriam dar o padrão do comportamento universal, cada um quer sequestrar ideologicamente o feriado, de acordo com seus próprios interesses. E são todos tão chatos e repetitivos!

 

Afinal, as celebrações pagãs que acompanham os ciclos naturais da Primavera em todo o Hemisfério Norte são muito mais antigas que qualquer religião surgida nos desertos do Oriente Médio. E resistiram ao impiedoso assédio cristão mantendo o ovo como seu símbolo maior de celebração da fertilidade, incorporando-o em receitas tradicionais como a torta pascoalina italiana e o artesanato em cascas de ovos do Leste Europeu. O acréscimo do chocolate é aquisição mercadológica muito mais recente, mas eu não reclamo, uma vez que ninguém nos obriga a comprar ou a consumir e é de muito mau gosto censurar o que os outros comem.

 

E, se me for permitido, diria que os cristãos estão no direito deles quando querem colar uma narrativa de morte e sacrifício nesta efeméride, mas extrapolam a civilidade quando buscam anular as outras leituras e impor a sua ao resto da sociedade. Porque se os ritos pagãos celebram a fertilidade da natureza, os ritos judaicos celebram a sobrevivência igualmente mitológica de seu povo no deserto, e todas essas celebrações tem o mesmo direito de existência. E a tolerância aos pensamentos diferentes ou antagônicos deveria ser o principal pilar da civilidade e não esse farisaísmo de vitrine virtual, que transforma uns e outros em juízes da vida alheia.

 

Da mesma forma que são igualmente aborrecidos aqueles militantes que acreditam que se combate o capitalismo atormentando as crianças para que não comam ovos de chocolate. Três barras do que quer que seja não tem o mesmo sabor de um Ovo de Páscoa porque não tem sua fantasia e seu fascínio, além da fórmula propriamente dita. E qualquer criança ou chocólatra sabe disso.

 

Então, qual é a sua Páscoa?

 

Eu celebro a fertilidade dos ritos ancestrais. Não a fertilidade de encher o planeta de gente até a exaustão e a extinção e sim aquela que olha para cada semente como uma promessa. Eu planto minhas ervas e flores e cuido delas e me maravilho a cada broto. E festejo nosso lar planetário que arranca vida até às rachaduras do concreto.

 

E celebro com ovos de galinha e com ovos de chocolate (se eu ganhar) e presenteio aos que amo com bolos ou biscoitos em que ponho todo o poder de vida que essa mesma natureza me propiciou. E não porque o papel social feminino a que a sociedade me relegou seja esse, mas porque presentear vida e amor é parte de quem eu sou apesar da sociedade, não por causa dela. E porque diante da deterioração evidente de nosso país e do esgarçamento da civilidade no mundo inteiro, a Páscoa milenar deveria ser um lembrete de que o planeta tem seu próprio ritmo natural e de que pode e sobreviverá a todos nós.

 

Nesse sentido, coma o que desejar, celebre como quiser e permita aos outros a mesma liberdade que você reivindica. Shalom para quem é de Moisés, Paz para quem é de Jesus, Ovos para quem só pensa em chocolate e harmonia e racionalidade para todos nós. E que a vida cumpra mais um ciclo, as sementes germinem, o trigo seja transformado em pão e todos sejam alimentados a contento.  🙂

A ONIPRESENTE QUESTÃO DO HUMOR EM TEMPOS DE INTOLERÂNCIA

21 mar

Em algum momento entre 1969 e 1974, durante a existência do programa exibido pela BBC Monty Phyton Flying Circus, foi ao ar o sketch do papagaio morto. John Cleese enfrenta uma série de peripécias tentando obter uma reparação da loja de animais que lhe vendeu um papagaio morto. Em uma sucessão de diálogos absolutamente absurdos, com um sotaque esnobe medonho que opõe duas pessoas de classes sociais diferentes, o sketch avança e você nem imagina como vai terminar (e eu também não vou contar).

 

O sketch tornou-se um clássico daquele humor britânico nonsense que encontra na linguagem falada mais do que na corporal o tempo da piada. Foi votado diversas vezes como o melhor de todos os produzidos pelo grupo e ainda é relembrado décadas depois e permanece como referência para atores como Stephen Fry e Hugh Laurie. Conheço fãs que são capazes de declamar trechos inteiros da fala de John Cleese quando tenta convencer o atendente que o papagaio está obviamente morto.

 

Mas, sendo os Phytons quem eram, em um dado momento resolveram anarquizar o próprio sketch. Em um teatro lotado, aparece o cenário da loja e os fãs ficam eletrizados, John Cleese entra e faz sua reclamação, que Michael Palin acata de primeira e devolve o dinheiro. E então Cleese volta-se para a plateia e diz “para alguma coisa a Era Tatcher serviu” e encerra o sketch perante os fãs estarrecidos.

 

E esse é o humor anárquico porque subverte expectativas, clichês, modelos ou bordões e tira o espectador da área de conforto. Nunca se sabe o que pode acontecer ou qual o rumo da piada, nada é previsível, nada é esquemático. A fórmula é que não existe uma fórmula fechada e sim um desenrolar de absurdos que nunca se sabe até onde vai levar.

 

O humor estadunidense só tem um fenômeno similar e é a trupe dos Irmãos Marx, liderada pelo inesquecível e imprevisível Groucho. Usamos a palavra “anárquico” para definir esse tipo de humor exatamente porque não aceita os cânones e modelos amplamente difundidos no teatro e na televisão. É um humor sem bordão, sem escada no sentido clássico do termo (aquele que prepara o clima para que outro arremate a piada), sem personagens fixos e imutáveis, sem o timing previsível e esperado.

 

E é anárquico mesmo. Não é anarquista porque não existe um humor anarquista (ou comunista ou socialista), quando grupos ideológicos tem seu senso de humor este se restringe a piadas internas apenas compreensíveis por quem compartilha o mesmo conjunto de referências (como aquele “humor nerd” de físicos, químicos ou matemáticos, que apenas eles entendem e mais ninguém). É anárquico por ser iconoclasta e demolir as certezas da sociedade e da própria comédia, mas sem fazer do discurso uma plataforma panfletária.

 

Em tempos de intolerância social e política precisamos mais do que nunca de mentes como as dos Phytons e dos Irmãos Marx, que chacoalhem as certezas estabelecidas e destruam os modelos que engessam o humor e a vida. E precisamos deles porque o humor popular, aquele celebrado em circos e programas de TV de auditório ou de bordão, tende a tornar-se agressivo e reproduzir as tensões sociais estereotipando quem não tem como se defender. E o humor político e crítico nem sempre dá conta de desconstruir a sociedade e seus preconceitos e está sempre a um passo de tornar-se panfletário.

 

Humoristas sem talento passam a vida agredindo grupos sociais já estigmatizados e reclamando quando são criticados por isso. Do stand up racista ao tiozão do pavê, passando pelo machista das piadas de loira, esse é um mundo referências que acredita que o humor não deve ter limite algum. O que é uma falácia porque no limite de qualquer manifestação artística estão o ultraje e a ofensa que se tornam crime.

 

Não se trata de uma questão de gosto pessoal ou suscetibilidade classista, trata-se de um ganho civilizatório que permite respeitar os direitos dos seres humanos e impedir que grupos majoritários zombem daqueles a quem oprimem. É o que separa o riso do escárnio, a crítica da calúnia e o próprio humor de tornar-se uma sucessão de agressões gratuitas a quem não gostamos ou não aceitamos. É a necessidade de resgate da nossa humanidade pelo riso que iguala e não pelo riso que humilha.

 

É o talento de retratar um negro machista com ênfase no machista e jamais no negro, permitindo que o público perceba que aquela personagem poderia ter qualquer outra procedência étnica. Para que o adjetivo não cole jamais em um único sujeito porque isso poderia levar a sociedade a ver esse sujeito apenas como aquele adjetivo. Para que quando a crítica social seja feita, qualquer um de nós possa vestir a carapuça e aprender mais sobre si e melhorar como ser humano.

 

E isso porque inserida em todo aquele palavrório nonsense dos Pythons estava uma crítica devastadora ao sistema de classes britânico, à religião, à monarquia, ao sistema financeiro e todo e qualquer meio de opressão, até mesmo a um lojista trambiqueiro que vendeu uma ave morta a um incauto.

 

E é assim que humor deveria ser. Uma manifestação do riso anárquico que iguala e emancipa. Não uma sucessão de escatologias e agressões gratuitas aos grupos mais estigmatizados e oprimidos da sociedade.

 

Achou que humor vive sem política? Achou errado, otário!  😀

OS RESTOS MORTAIS DE MARIELLE

19 mar

Remains é a palavra em inglês para restos mortais, mas também é a conjugação em terceira pessoa para o verbo permanecer, reforçando (muito mais do que seus equivalentes em português) a noção de que quando alguém falece não deixa apenas um cadáver para trás, mas também uma série de memórias e significados que permanecem. Nesse sentido, pode parecer natural que quando alguém se vai, em quaisquer circunstâncias, pessoas e grupos sociais inteiros reivindiquem para si suas memórias e seus legados. É uma das maneiras que nossa espécie encontrou para lidar com a morte, as perdas e os lutos decorrentes de tragédias ou de ausências.

 

A brutal e escancarada execução da vereadora Marielle Franco está sendo repercutida pela sociedade brasileira e revelando o esgarçamento de nosso tecido social de um modo como toda sua vida de ativista jamais conseguiu. Oriunda da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, e portadora de vários signos de identidade social (negra, LGBT, intelectual, socialista, ativista em prol dos Direitos Humanos), era também uma completa desconhecida para uma boa parte de nós do resto do país. As emissoras que hoje disputam como urubus os restos de suas memórias jamais lhe deram sequer um segundo de destaque em suas lutas políticas quando em vida.

 

Do mesmo modo que muitos dos meus contatos que hoje se dizem seus “amigos e companheiros de luta” jamais compartilharam sequer um post seu nas redes sociais que frequento. E olha que a minha TL no Facebook é majoritariamente esquerdista e diversa. Esse é um sintoma de que a luta pela reivindicação de sua memória já começou e não está sendo uma luta bonita.

 

Lado a lado com os abjetos detratores e inventores de mentiras caluniosas, demagogos que usam o ativismo para promover seus próprios egos também ofendem ao reivindicar uma solidariedade que não praticam. A morte domesticou mais uma mulher que em vida não podia ser controlada, e possibilitou que ela coubesse nos discursos de uns e outros e pudesse virar carne de palanque. Em meio a uma comoção justa e verdadeira, os oportunistas pululam e se apropriam de discursos que não lhes pertencem.

 

E a mídia?

 

A grande mídia corporativa e oficial está promovendo um festival de manipulação emocional e sensacionalismo barato encobrindo uma agenda intervencionista nada louvável. As mesmas emissoras que silenciam o extermínio da população jovem negra, que já dura mais de uma década aqui no Sudeste, querem transformar sua morte em tema central para impor a agenda da Segurança Pública nas eleições que se aproximam. E, nesse sentido, não tem pudor algum de desfilar hipocrisia e falso moralismo nas telas que adentram nossos domicílios diariamente.

 

A “emissora líder de audiência” tem o desplante de fazer crer que legitima a família de Marielle, ao exibi-la em sua justa indignação em busca de reparação judicial, quando na verdade está usando cada um de seus parentes enlutados para mandar recados à nossa sociedade daltônica. E eu apoio inteiramente que a família use todos os meios de visibilidade possível para estancar de vez a campanha caluniosa e abjeta promovida pelos bolsominions nos últimos dias. Mas que não se perca de vista que a emissora em questão também quer distância agora do extremismo que ajudou a promover e usará todos os meios possíveis para isso, inclusive reivindicar uma porção da memória de Marielle, que não lhe pertence.

 

O simbolismo desses urubus midiáticos e políticos disputando os despojos da memória de Marielle dói. Dói tanto quanto a realidade brutal de sua execução política sumária e escancarada, que ceifou mais uma jovem promessa negra e reforçou o caráter excludente de nosso meio social. Mas não podemos permitir que os signos que ela portava sejam homogeneizados e higienizados para caber no discurso dominante, precisamos manter viva sua diversidade perante aqueles que querem domesticá-la na morte.

 

Marielle não pode ser um álibi para a intervenção militar, mas também não pode ser uma bandeira para os sonhos eleitorais megalômanos de partidinhos nanicos. Que se respeite a família e se permita que eles mesmos decidam a quem pertencem suas memórias. E que se respeite sua vida parando de usar sua morte.

 

Finalmente, o que fica dessa série de reportagens sensacionalistas e manipuladoras é um recado aos coxinhas, pixulecos e o povinho do mbl: vocês nos foram úteis na hora de promover o golpe, agora contentem-se em ser apenas um “puxadinho” do DEM ou do PSDB. Dada a repercussão internacional dessa execução bárbara e desnecessária, a “emissora líder de audiência” quer distância dos esbirros sedentos de sangue que ajudou a promover. Cabe a nós não deixar que isso caia no esquecimento.

 

E cabe a nós não deixar que Marielle vire carne de palanque.