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A FILHA DO DATA

18 abr

Eu sofro de insônia. É muito raro conseguir adormecer antes das duas da madrugada, às vezes das quatro e às vezes varo a noite acordada. Mas mantenho a disciplina de desligar o computador à meia-noite e deitar mesmo assim, à espera do momento em que o sono chegue. Procuro descansar ao máximo para que o dia seguinte não seja um vagar “zumbítico” e possa levar uma vida normal.

 

E para evitar o cortejo de autocrítica e pensamentos sombrios que convivem intimamente com a insônia, assisto televisão. Nesse sentido, a TV por assinatura veio para aliviar a solidão das noites mal dormidas e nem sei o que faria se tivesse que voltar aos tempos em que só podia contar com o Corujão e seus filmes banais. Inclusive, a possibilidade de acessar um programa legendado e deixar o aparelho no mudo para não perturbar quem dorme a sono solto é uma das maravilhas da tecnologia.

 

Trash movies da série Sharknado (ou de tubarões de várias cabeças) ou de serial killers coreanos, com direito a uma sangueira absurdamente delirante e tramas toscas, são uma companhia inestimável quando se quer relaxar das tensões que constituem nosso viver neste Estado Teocrático Militarizado Demente. Tenho o hábito de evitar documentários políticos (até onde posso) para que minha mente possa ter algum alívio do clima apocalíptico em que fomos mergulhados nos últimos seis anos. Da mesma maneira que fujo das séries que retratam feminicídios, violência de gênero ou abuso de crianças, uma vez que não preciso que a ficção me lembre das misérias morais e do déficit civilizatório neste ocaso em que o patriarcado, em seus estertores mais violentos, resiste à Razão.

 

Assim, fiquei muito feliz quando o canal SyFy incluiu na programação noturna a reprise da série Next Generation, do universo Star Trek. Sou uma grande fã do universo criado por Gene Roddenberry e dos dilemas filosóficos retratados desde a série original até as continuações como a Deep Space Nine e a Voyager. A própria Next Generation apresenta uma complexidade narrativa que não envelhece, ao contrário, que surpreende no modo como o futuro poderia ser concebido para além das mazelas do presente, contrastando com o momento obscurantista que vivemos.

 

Rever o Capitão Picard, na contida interpretação de Patrick Stewart, e todas aquelas personagens icônicas dos anos 80-90, tem sido uma experiência sem par. E tem me ajudado a manter a sanidade diante do clima de medo e delírio promovido pelo atual governo e seus integrantes oscilando entre a velhacaria e a demência. Pensar no otimismo com que o Gene Roddenberry idealizou um futuro em que a Humanidade teria superado seus fanatismos e sua vulgaridade, dando lugar a uma busca desinteressada pelo conhecimento e a exploração espacial sem interesses econômicos ou geopolíticos envolvidos, usando sua experiência na superação desses atavismos para ajudar culturas mais primitivas e para aprender com as mais avançadas, sempre me deixa mais “leve” e a um passo de recuperar a esperança.

 

Pensar que podemos superar as condições do presente e chegar a uma sociedade em que a religião seja apenas uma manifestação antropológica (e não um bastião do fanatismo a impor seus valores limitantes às outras esferas da sociedade); pensar um futuro em que o atual sistema econômico e sua ideologia de exclusão, exploração e desigualdade homicida finalmente sejam apenas uma lembrança ruim, e todos tenham acesso à saúde, ao conhecimento e à prosperidade; pensar essa sociedade em que os preconceitos e a violência atávica sejam apenas patologias e sua condenação social e combate sejam efetivos e não apenas um simulacro hipócrita movido a falso moralismo, como acontece atualmente; pensar, enfim, que existe uma opção para a Humanidade além da autodestruição mergulhada no lixo e no ódio (que nosso presente acena), vai muito além do mero entretenimento.

 

Na noite passada, revi com deliciada surpresa o episódio em que o androide Data experimenta a experiência da paternidade, construindo uma “filha” igualmente androide e guiando-a na experiência de programação e autodescobrimento. A árdua jornada da Inteligência Artificial rumo à senciência, para superar as meras rotinas de coleta de dados e evoluir para uma observação inteligente do mundo à sua volta, é retratada de maneira delicada pelos roteiristas, construindo cuidadosamente as sequências de diálogos. E a impossibilidade material de Data desenvolver alguma espécie de carinho por sua criação é superada por seus elevados escrúpulos na hora de pensar as responsabilidades de trazer ao mundo uma nova forma de “vida”.

 

Não sei se o termo senciência pode ser usado como sinônimo da “consciência de si” ou se isso foi feito para caracterizar a ambiguidade envolvida nos processos de “sentir” e de pensar-se a partir das sensações. Sentimentos e sensações são âmbitos muito diferentes das dimensões de perceber o mundo à nossa volta ou de realizar jornadas introspectivas. E talvez a dimensão filosófica do episódio seja nos levar a pensar exatamente aquele momento em que um aglomerado de células passa a ser “vida” porque se torna capaz de sentir.

 

Do sentir ao pensar e do pensar ao pensar-se e adquirir consciência de si, qual é o momento em que uma Inteligência Artificial pode ser considerada uma vida com direito a autonomia e autodeterminação? E é claro que isso nos leva a pensar nos direitos e liberdades envolvidos no nosso próprio viver e nas desigualdades sociais e jurídicas que nos assolam. Nas hierarquias cruéis implícitas quando a raça, a origem ou o gênero nos limitam a uma subcidadania neste sistema deliberadamente excludente que muitos defendem.

 

Quando um representante da Frota Estelar está disposto a tomar a filha de Data sob a tutela do Estado, considerando que um laboratório ultramoderno teria maiores condições de desenvolver suas potencialidades do que a limitada seção de ciências de uma nave interestelar, a questão do pátrio poder é colocada na berlinda. Para os tripulantes da Enterprise, a jovem Lal é (para todos os efeitos) filha de Data e por ele deve ser educada e cuidada e o Capitão Picard deixa claro que não separará essa “família” permitindo que o Estado tome sua guarda. O episódio, que foi ao ar em 1990, já acenava para discussões que permanecem atuais, uma vez que a resistência das hostes conservadoras a reconhecer modelos de famílias, que não as aceitas e preconizadas pelas religiões, continua violentando os Direitos Humanos e patrocinando episódios de intolerância e barbárie.

 

Desde os Estados que têm sequestrado crianças indígenas e aborígenes a fim de aculturá-las, nos últimos quinhentos anos, passando pelo tráfico negreiro separando famílias, até a atualidade em que famílias homoafetivas enfrentam o ódio generalizado mesmo em países com legislações menos primitivas, a hierarquia da subcidadania persiste. O preconceito social e a violência estatal contra as mães solteiras, que muitos pensavam relativamente superados, renascem com a ascensão ao Poder de bancadas, secretários e ministros mergulhados na ideologia religiosa e incapazes de aceitar um mundo que não se curve aos seus limitados dogmas. Tristemente, a Enterprise se afasta a cada dia para mais longe de nós.

 

Recentemente, conversava com um internauta que não conseguia perceber porque eu preferia Star Trek a Star Wars. Por mais que eu argumentasse que as discussões filosóficas da série eram extremamente superiores ao universo maniqueísta criado por George Lucas, o rapaz continuava perplexo. Há episódios de ação e aventura em Star Trek, mas na maior parte do tempo tudo gira em torno de questões sociais, morais e filosóficas muito bem apresentadas na forma de diálogos coerentes e interessantes.

 

A ênfase das aventuras está em tentar o diálogo até a última instância e só recorrer à violência em momentos autodefesa. Por isso não há pirotecnia de explosões espaciais, tiroteios, correrias ou heroísmos desnecessários em Star Trek. Talvez seja por isso que muitos jovens preferem os insossos e bidimensionais espadachins jedis, com suas acrobacias e sua visão religiosamente estanque de mundo.

 

Algo me diz que serei trekker por muitos anos ainda, mesmo que os novos arcos narrativos recentemente surgidos não me chamem tanto a atenção. Sinto falta de otimismo e esperança em futuros possíveis, enquanto mergulhamos cada vez mais na “ultimate distopia capitalista”. Sinto falta de Gene Roddenberry.

 

E tenho uma nostalgia pungente da Humanidade que poderíamos ter sido.

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31 DE MARÇO DE 1974

28 mar

Em 09 de fevereiro de 1974, quando eu estava com nove anos (completaria dez em julho) cheguei à cidade de São Paulo, com minha mãe e minha irmã menor. Meu pai, que nos precedera no ano anterior, já estava trabalhando e havia alugado uma casa para nós; era uma casa de fundos, minúscula, em uma daquelas vilazinhas sem saída no bairro do Ipiranga, próximo ao Sacomã e à Vila Carioca, perto da saída para a Via Anchieta. E vocês que me seguem aqui no blog sabem partes dessa história, hoje eu vou contar mais um trecho, que considero adequado aos dias que correm.

 

Era um sábado à noite e pouco vimos da cidade, muito imensa e muito estranha. Na manhã de domingo, fomos de ônibus à Praça da República e passeamos pela feira hippie que ali se realizava. Naqueles primeiros dias tudo em São Paulo nos parecia tão diferente e esquisito comparado com Montevideo, que era difícil manter o entusiasmo inicial.

 

Naquela mesma segunda-feira dia 11, minha mãe percebeu que as aulas já haviam começado (no Uruguay começavam sempre em março) e perguntou a uma criança que passava qual era a escola mais perto. E nos levou até lá, sem qualquer preparo, procurando vagas passou por duas escolas e acabou voltando à primeira (que era a mais perto) e insistindo até que nos aceitassem. E ali ficamos, minha irmã e eu, sabendo apenas quatro ou cinco palavras em português, sem uniforme e sem material, para assistir à aula.

 

Devido às questões burocráticas e por causa da idade e da nossa total ignorância do idioma português, a minha mãe resolveu que repetiríamos o último ano cursado em nosso país de origem, para facilitar a adaptação. Por isso eu fui parar na quarta série da Professora Dulce Mazzotti, de quem já falei em algum texto anterior, na Escola Estadual de Primeiro Grau Professor José Escobar. E tive que vencer as barreiras da timidez, da vergonha, do medo e da total ignorância sobre o sistema de ensino brasileiro.

 

D. Dulce era durona, com uma voz potente, que (ao subir de tom) apresentava uma nota estridente que sempre me sobressaltava. Seu entusiasmo por fazer-nos cantar todos os hinos pátrios possíveis e imagináveis era (para mim) um claro sinal de que ela estava associada ao “regime”. E eu sempre sentia medo de dizer alguma bobagem e atrair a atenção indesejada para os meus pais.

 

Porque o meu pai era taxativo: nunca falem mal da ditadura com ninguém; não contem que somos de esquerda; não digam que somos ateus; não confiem e nem falem com estranhos, especialmente os taxistas, que são sempre espiões da polícia; e mais uma série de cuidados e senões, que eu ouvia quando ele se dirigia à minha mãe e guardava com muito cuidado na memória. E ia para a escola imaginando alcaguetes e dedos-duros a cada passo e pensando que qualquer erro meu acabaria sendo horrível para os meus pais. Hoje, ao lembrar percebo a grande solidão em que me encontrava, que fazia com que sempre me perguntasse até onde poderia conversar com os colegas e mantivesse uma distância envergonhada e agressiva.

 

Semanas antes do dia 31 de Março, a escola começou a preparar as celebrações, o “regime” completava uma década. D. Dulce chegou com um caderno com várias quadrinhas e selecionou quase metade da classe para montar um jogral, eu incluída sabe lá o porquê, com meu português capenga e meu rubor permanente de vergonha. Instintivamente eu sabia que meus pais ficariam tristes de me ver no palco celebrando a ditadura, mas esse mesmo instinto também me dizia que eu não devia me esquivar, que aquilo era alguma espécie de teste, de armadilha.

 

Aliás, eu estava sempre alerta para as perguntas pessoais que a D. Dulce me fazia, tinha todo um discurso ensaiado sobre como viéramos parar em São Paulo e passava um cortado ao ver como ela me observava ficar vermelha ao responder. Até hoje não sei se ela era mesmo alguém “do regime” ou se a paranoia dos meus pais havia penetrado meu olhar, a ponto de sentir-me sempre ameaçada. Não ajudava nada o entusiasmo com que D. Dulce contava como fora ao Paraguay, acompanhando uma delegação de professores para trocar experiências, afinal, a ditadura de Stroessner eu conhecia desde a primeira infância, de tanto ouvir os adultos denunciando, e se ela achava tudo isso normal, só podia fazer parte.

 

Na minha lógica infantil, pensei que poderia sair dessa situação me apresentando como ela mandava, mas sem festejar o regime. Para isso, procurei entre as quadrinhas do jogral uma que não tivesse qualquer alusão política explícita aos militares ou à data. Vocês devem se lembrar de que eu tinha apenas nove anos e a minha capacidade de discernimento era limitada pela pouca experiência de vida.

 

Escolhi estes versinhos, que me pareceram suficientemente inócuos:

“A abelha trabalha sempre,

Não pára, não é vadia.

Faz esse mel tão gostoso,

Que toda a gente aprecia”

D. Dulce me olhou fixamente, com o que eu supus que era a ironia de quem percebia minha manobra. E lá me fui, no dia da “maldita”, recitar esses malfadados versos, que faziam a apologia do “não reclame, trabalhe”, mesmo que à época eu nem soubesse, assim como eu não tinha como adivinhar que “vadiagem” era um termo pejorativo e um álibi para a repressão e a tortura.

 

Já do palco pude ver a cara de desagrado da minha mãe, que nunca foi uma pessoa fácil de agradar, e que não tinha muita capacidade de dissimulação. Sua seriedade pesou em mim porque eu acreditava que estava sacrificando-me, passando aquela vergonha toda, para que meus pais não fossem incomodados nem pela D. Dulce e nem pelos “milicos”. Só de lembrar penso no peso que as crianças são capazes de carregar para agradar os adultos que amam, e como os adultos nunca entendem nada (já falei sobre isso semanas atrás no texto sobre os exílios).

 

Até o fim da ditadura houve muitos outros 31 de Março. Nunca voltei a ter professores como a D. Dulce (de quem ainda guardo lembranças profundamente ambivalentes), por isso nunca mais tive que cantar tantos hinos e nem celebrar subindo ao palco. Com o tempo consegui conviver com professores tão legais, que toda aquela paranoia inicial foi se dissipando, à medida que crescia e conseguia dosar adequadamente o quanto de mim ia deixar que as pessoas conhecessem.

 

Uma das coisas que mais ajudou foi meu pai ter arrumado (em 1976) outro emprego em uma fábrica que estava de mudança para o interior. Jundiaí era uma cidade muito menos assustadora que São Paulo e tanto os colegas quanto os professores, que conheci na nova cidade, pareciam viver a anos-luz dos “milicos”. Na verdade, eu só consegui respirar “a mis anchas” quando o general Figueiredo finalmente entregou o poder e nada aconteceu.

 

Esta semana teremos outro 31 de Março. E depois de trinta anos de intervalo sofrivelmente democrático, pela primeira vez, um presidente se dispõe a pressionar para que o inominável seja festejado. Um troglodita mentecapto, que admira torturadores, pretende que o país celebre uma efeméride de morte e sofrimento.

 

Quando era adolescente, em plena ditadura, eu me recusava a pensar na possibilidade de ter filhos. Não queria, de modo algum, submeter uma criança ao que eu havia passado e (tão jovem) pensava que os militares nunca iriam embora. A democracia veio a duras penas e eu deixei para trás tudo isso e consegui dar uma infância e adolescência seguras à minha filha.

 

Hoje, quando ela adentra na idade adulta, encontramo-nos as duas diante de uma situação insolitamente esdrúxula, com um governo incompetente e um presidente tosco, que agride diariamente o nosso direito à existência. E nos encontramos diante da necessidade (também) de ir para a rua protestar contra as reformas canalhas, que nos arrancam direitos previstos em cláusulas constitucionais pétreas e contra a ofensiva e ostensiva celebração dos crimes contra a Humanidade. E eu nem consigo olhar para as pessoas “de bem” do meu entorno sem me perguntar quantas delas estão aguardando ansiosamente a volta dos “milicos”, se é que algum dia ele se foram.

 

Por isso, hoje, todos aqui em casa providenciamos camisetas pretas para vestir no dia da “maldita”. Este 31 de Março vai nos encontrar marchando de luto em memória de todos os silenciados, escorraçados, torturados, seviciados e assassinados. E eu, pessoalmente, vestirei luto pela infância feliz e inocente que me foi roubada, enquanto os adultos nem percebiam.

 

 

EFEMÉRIDES E CELEBRAÇÕES

26 mar

edgarrodriguesimagem

 Prezado amigo Edgar Rodrigues:

Já se vão quase dez anos desde que você se foi. Foi-me pedido que fizesse um vídeo comemorando sua memória, mas eu dediquei a você um vídeo na época do Cantinho da História, que ainda é relevante. É por isso que prefiro redigir esta carta, na esperança de que você (onde quer que esteja) possa perceber que não o esquecemos.

 

Não sou uma pessoa de efemérides e me custa muito “comemorar” aniversários de falecimento. Da mesma forma que, tanto quanto você, o misticismo do após vida não me seduz de modo algum. Esta carta, então, será um alívio para mim, mesmo que eu tenha plena ciência que você jamais a receberá.

 

E não é como se eu não tivesse honrado sua pessoa em vida. Afinal, quando você se foi, o livro que escrevi inventariando sua obra já se encontrava nas mãos de nosso querido amigo Robson Achiamé (que também nos deixou e faz uma falta imensa) e você já havia acompanhado todo o processo de escrita e revisão. Tenho para mim (e guardo sua carta dizendo-me isso) que lhe dei uma alegria quando a vida já o estava desertando.

 

Uma década nos separa daqueles momentos e guardo cuidadosamente os livros que me mandou, suas cartas e suas pequenas delicadezas que não me saem da memória. Guardo também seu exemplo de luta e denúncia contra a ditadura salazarista e contra toda opressão praticada pelos poderosos e contra a exploração do homem pelo homem (reiterei “contra” de propósito, para ressaltar sua capacidade combativa). Mas guardo, acima de tudo, seu exemplo de integridade e intransigência no combate à ignorância, à mentira e às falsas memórias.

 

“Cada um vale um” você costumava dizer e hoje temos um governo que defende abertamente a existência de “elites” com poder para dominar e exterminar os que não podem se defender. É uma tristeza enorme ver o país retrocedendo em direção às situações trabalhistas do século XIX, enquanto as pessoas aplaudem o sacrifício do Estado Laico e o retorno aos modelos de fé e domesticidade do século XII. Nem quero imaginar como você se sentiria em meio a este deserto intelectual, povoado de “fatos alternativos”, mentiras deslavadas e crenças fantasiosas, fruto da imaginação pervertida dos mais atávicos psicopatas.

 

Talvez você nem se lembre do dia, há bem uns quinze anos atrás, em que estávamos no CCS e eu, muito desanimada, lhe comentei que já não tinha esperanças na Revolução, fosse a minha comunista ou a sua anarquista. E você me respondeu que a Humanidade ainda estava presa em uma sucessão de atavismos, que seria necessário combater e superar para alcançar uma sociedade mais justa, solidária e igualitária. A impressão que tenho, hoje, é que o processo civilizatório se esfacela e esvai-se sem que possamos fazer nada, e só restam os tais atavismos.

 

Há uma volúpia de ódio, que eu só conhecia através de relatos históricos de épocas muito específicas. É muito angustiante ver este país que nos acolheu, a você e a mim, transformar-se tão radicalmente e abandonar sua face calorosa para abraçar com tanto entusiasmo as hostes rancorosas das viúvas da ditadura. É como se toda vergonha ou pejo tivessem se esfumado magicamente dado o modo como os atávicos de hoje celebram abertamente a morte dolorosa de crianças, os incêndios nas favelas, os assassinatos mais cruentos, a barbárie, enfim.

 

Enquanto parcelas consideráveis da população permanecem inertes e indiferentes, em outras camadas o ódio se alastra fomentando as situações mais bizarras e dantescas. Às vezes, quando o ritmo das barbaridades me faz esquecer de respirar e preciso parar e acalmar a mente, penso muito em você e em tantos outros que não estão mais conosco e sinto um alívio triste de pensar que não foram obrigados a presenciar tanta miséria ética e intelectual. Ao menos vocês foram poupados de ver nossos esforços solidários sendo destruídos por hostes de evangélicos ensandecidos e militaristas bêbados de esteroides.

 

O que me leva ao motivo de ter escolhido esta semana para escrever a você. A efeméride da “santa” completa cinquenta e cinco anos (que será minha idade em breve também, o que nunca me deixa esquecer que nasci no ano aziago do golpe) e temos um pseudopresidente que incentiva os festejos. Um mentecapto troglodita que idolatra torturadores e sonha com restaurar a repressão e a morte.

 

Por isso quero celebrar sua memória, sua obra e sua vida. Porque sua obra é um monumento à importância do registro histórico; o modo como você salvou, registrou e divulgou os documentos anarquistas do século XX, em Portugal e no Brasil, é algo tão gigantesco, que muitas vezes me faltam as palavras para expressar o quanto eu admirava sua pertinácia e sua coragem; essa obra tão significativa transformou você em um historiador completo, mesmo que jamais tenha frequentado ou sido aceito nos meios acadêmicos. Sua vida é uma lição para todos nós que nos preparamos para resistir aos dias medonhos que se avizinham, e por isso eu o celebro.

 

E eu o celebro também porque, apesar de todas as más línguas, comigo você sempre foi polido, respeitoso e cavalheiro. Algo que já se tornou uma raridade nos meios anarquistas, lotados de egos desmedidos de esquerdo-machos, o que me levou a tomar uma distância cada vez maior. Gosto de pensar que mereci seu respeito, que não se tratava apenas de uma convenção social e isso me alivia a consciência quando a autocrítica me ataca e começo a pensar que não estou lutando o suficiente.

 

Frequentemente, quando se torna necessário dizer verdades inconvenientes perante pessoas que se escondem na ambiguidade e vivem de glórias que não lhes pertencem, a sua lembrança me dá forças para ser aquela pessoa que vai romper o pacto medíocre da desmemoria e jogar o passado de volta na cara dos que o escondem. Porque foi isso o que você fez em suas memórias e, tenha plena certeza, que aqueles que sempre o criticaram e que se esforçam por obliterar sua memória, são os mesmos que fazem do Anarquismo um ganha-pão mercadológico e não a ideologia de toda uma vida, como você fazia. E nós sempre defenderemos sua vida, sua obra e sua memória, dos detratores e do “fogo amigo” que tanto atrasa as esquerdas neste país e no mundo.

 

Dedico a você o mesmo brinde que Joan Baez eternizou ao homenagear Sacco & Vanzetti:

 

À sua saúde Edgar Rodrigues

Descanse eternamente em nossos corações

O último e derradeiro momento é seu

Esta agonia é seu triunfo!

 

E que sua obra e sua vida em prol do Anarquismo não obscureçam o fato de que você foi, acima e além de tudo, um grande Humanista e um lutador incansável contra a ignorância.

 

Como você faz falta, Edgar!

 

Com carinho e admiração,

 

Anna.

AMÉRICA LATINA PRECISA MANTENERSE ALERTA

22 mar

Hoy, por vez primera, escribo en castellano en este blog. Y les pido a los amigos y hermanos que me han de leer, que me perdonen los errores de ortografía y los extranjerismos presentes en mi texto. Es que vivo en portugués hace más de cuarenta años y ya no tengo la misma flexibilidad para escribir en más de un idioma, que tenía durante mi juventud.

 

Llevamos ochenta y un días de este nuevo gobierno y ya se nos queda corto el tiempo disponible a cada día para pedir disculpas al planeta por un gobernante y sus parientes, amigos, ministros y secretarios, que cotidianamente nos cubren de vergüenza y ofenden al Universo con su mera existencia. Ayer ha sido la vez de que nuestros hermanos chilenos se vieran obligados a responder a las idiotices horrendas de uno de los ministros civiles que aún quedan, en medio a la escalada de militares, que tanto nos preocupa. No fue la primera gafe, no será la última y ni siquiera los integrantes de este gobierno tienen la inteligencia para darse cuenta de que sus gafes y delirios nos granjean el desprecio y la rabia de otros países.

 

Están todos tan convencidos de sus ideas reaccionarias, de sus simplificaciones baratas y mezquinas de la realidad, que se sienten dueños del mundo. No son apenas los Bolsonaro, sino todo un cortejo de bufones, mentecatos, fanáticos religiosos, anti-intelectualistas, anti-conocimiento y defensores de milicos asesinos, que se han esparcido en los corredores y ante-salas del poder “como los chanchos”. Y que no nos dejan oxígeno al resto del país.

 

Antes de más nada, debo explicar que no todos los hemos votado, que no son mayoría en instancia alguna de la sociedad civil. El universo electoral de Brasil se componía (en el momento de las elecciones de 2018) de 147.306.295 (ciento cuarenta y siete millones, trescientos y seis mil doscientos y noventa y cinco) votantes, de los cuales solamente 57.797.847 (cincuenta y siete millones, setecientos noventa y siete mil ochocientos y cuarenta y siete) votaron al actual gobierno. Eso supone poco más de un tercio del electorado en general, pero debemos llevar en cuenta que mucha gente los ha votado mucho más por un sentimiento de “anti-petismo” que por saber quiénes eran o cómo pensaban.

 

Y aquí comienza mi alerta a todos ustedes, amigos y hermanos. Lo que nos pasó en las últimas elecciones no ha sido obra del acaso, ni siquiera de algún conjunto de circunstancias del tipo “tempestad perfecta”, en verdad es el resultado de un proyecto de tomada de poder por parte de las peores derechas del planeta, que sigue la geopolítica que nos imponen los del Norte. No se trata apenas del sabotaje utilizando mentiras o de la manipulación electoral, hay que prestar atención a mucho más para impedir que este desastre se repita en sus países también.

 

  1. Cuidado con los programas que aquí llamamos de “mundo cão” y los “reality shows”. Desde hace unos veinte años se multiplican en las televisiones y emisoras de radio esos programas de reporteo policial, que se nutren de la afición por sangre y violencia y promueven el pánico entre los más amplios sectores de la población. No se trata apenas de una “estética de reportaje”, ese tipo de programa es pensado para mantener al público siempre en alerta y para vender la noción de que se necesita más y más seguridad. Y eso influye en las elecciones favoreciendo a los candidatos que muestran un discurso más violento, cosa que nosotros de las izquierdas somos incapaces de ensenar. Otro tipo de programa absurdamente popular son esos “reality shows” de eliminación (no importa si de culinaria, música, danza o “laberintos de ratones”) en que se comienza con más de veinte participantes y se van eliminando semanalmente hasta que solo reste el ganador. Esa dinámica “highlander” promueve la naturalización de la eugenia y la falsa noción de los méritos personales que se sobreponen al sistema. Una generación que internalice la eliminación (aún siendo simbólica) de los derrotados, es una generación que ha de permanecer indiferente al exterminio de los pobres y los enfermos. Eso no es apenas una forma de entretenimiento y si un proyecto de control social.
  2. Cuidado con la presencia de las iglesias evangélicas neo pentecostales. En los años ochenta del siglo pasado, muchos de nosotros nos gastamos una parte de la vida denunciando como los EUA sabotearon a los gobiernos seculares del mundo árabe (por temor a la izquierda y como estrategia de la Guerra Fría) fundando y esparciendo madrazas y escuelas islámicas para promover el fanatismo y el atraso. No nos dimos cuenta (y ese es un error que no me perdonaré jamás) que promovían aquí el mismo tipo de iniciativa, al mandarnos su peor basura neo pentecostal para combatir y eliminar a la Teología de la Libertación (uno de los únicos sectores progresistas y con compromisos sociales de la iglesia católica). Cuando finalmente reaccionamos, estábamos inundados de pastores oportunistas (dueños de horarios y canales de televisión y emisoras de radio) promoviendo el odio, la intolerancia y arrancando cada centavo de sus seguidores ignorantes. Angola y Mozambique han reaccionado y parecen estar combatiendo esas iglesias antes de que sea tarde. Piensen ustedes también en impedir que eso se alastre.
  3. No permitan los monopolios mediáticos. Cuando la prensa pertenece a media docena de familias poderosas, los intereses políticos de esas familias acaban impuestos a la sociedad a base de tanto “martillar” en los noticieros y son capaces de derrumbar gobiernos legítimos y dictar agendas a los que ayudan a elegir. Las fake news de que tanto se habla hoy ya existían en la forma de noticias tendenciosas y editoriales venenosos, escritos y divulgados por periodistas mercenarios, sin cualquier ética ni decencia.
  4. No se hagan la ilusión de que llegar al gobierno es llegar al poder. Un sector de la izquierda ha ganado aquí en Brasil cuatro elecciones seguidas, promoviendo la inclusión masiva de los pobres en el mercado de trabajo e implantando una agenda de reformas sociales e inclusión de derechos para todos los sectores marginados de la población. Y bastaron pocos meses después de un Golpe de Estado “blanco” para destruir toda esa obra. Ahora, gracias al voto de los inconscientes, de los resentidos y de los ignorantes, vamos perdiendo todos los derechos laborales, la seguridad social y se va destruyendo el sistema de educación. Todo de manera implacablemente deliberada y bajo los aplausos de los grandes intereses del Mercado y sus chacales internacionales del Norte.

 

Todo eso que parece un mero conjunto de circunstancias, es mucho más una estrategia deliberada, que se va dibujando en varios países (inclusive de Europa) para la ascensión de la ultraderecha al escenario político. Algunos artificios para el control y la manipulación de vastos sectores de la población estuvieron delante de nuestros ojos durante años y no fuimos capaces de detectar toda su letalidad. Aquí en este blog, he pasado los últimos siete años denunciando varias de esas manipulaciones, ante la indiferencia de mis propios compañeros de izquierda, a punto de haber sido llamada de “Casandra del Apocalipsis” por un lector.

 

No nos quieran mal, Brasil no es ni los Bolsonaro ni sus seguidores. Brasil es la señora Silmara Cristina, merendera de una escuela pública que salvó cincuenta alumnos durante un tiroteo, arrastrando y empujando solita una heladera y un congelador para hacer una barricada contra los asesinos. Brasil somos todos nosotros, autóctonos o extranjeros que aquí escogimos vivir y que no compactamos con esa política de alineamiento a los peores intereses del imperialismo yanqui.

 

La izquierda no ha podido derrotar a la indiferencia, al desgaste y al cansancio promovido por el constante bombardeo de unos medios canallas y venales. Pero también no se ha percatado que las estrategias vienen prontas del Norte y que precisamos mucho más que denunciar, precisamos empezar a combatir entendiendo las armas que se usan contra nosotros. El mundo digital hoy es como un playground para esa derecha que se dice joven pero que ya llega con doscientos años de edad.

 

El Partido de los Trabajadores ha sido acusado de “exceso de republicanismo” por otros sectores más radicales. Yo diría que Dilma Rousseff fue destituida por exceso de honestidad, de decencia y por creer tercamente que el apoyo popular derrotaría los fantasmas de la dictadura. Y que Lula está preso porque es mayor que su propia leyenda y constituye una amenaza electoral evidente para los otros sectores de la política.

 

Más allá de todo eso, el aplicativo Whatsapp fue ampliamente usado durante las elecciones y sigue siendo usado para diseminar mentiras y estupideces entre los incautos e ingenuos. Desde la idea de que se vivía en una “dictadura comunista” hasta la idiotice de que el candidato del PT (cuando intendente de San Pablo) había impuesto mamaderas con bocales simulando penes en las guarderías públicas para que los bebés se transformasen en homosexuales al crecer. La mayor parte de esas mentiras surgen en los institutos liberales, que hoy se esparcen por el mundo promoviendo intelectuales de tercera categoría e intentando destruir las universidades públicas.

 

Y es que los militares nunca se fueron. Más de treinta años después del término de la dictadura, están tan presentes y peligrosos como en los años 60. E igualmente orgullosos de su visión de mundo troglodita y dantesca.

 

Como decía mi Papá “sin paredón, ellos siempre vuelven”…

O DESEJO DE MORTE QUE NOS ESPREITA

15 mar

O Dia da Sobrecarga da Terra acontece mais cedo a cada ano. Esse é o dia em que o planeta chega ao ponto em que o consumo de recursos renováveis supera a sua capacidade de regeneração. Em 2018 foi fixado no primeiro dia de Agosto, o que significa que passamos metade do ano operando no vermelho e consumindo os recursos que faltarão aos nossos filhos.

 

Dois anos atrás, a população do nosso planeta ultrapassou os sete bilhões e meio de habitantes. Apenas um quinto dessa gente consome ativamente a maior parte dos recursos disponíveis e, calcula-se, que se todos nós tivéssemos o mesmo padrão de consumo, o planeta seria exaurido para além de qualquer possibilidade de recuperação.

 

Não obstante a brutal desigualdade social estar adiando a hecatombe planetária, já não podemos dizer o mesmo do clima. O forte impacto do aquecimento global está prejudicando as colheitas e criando as condições para enormes tragédias, seja através de tempestades cada vez mais críticas, seja através do desabastecimento alimentar. E da mesma maneira que estamos consumindo, já ultrapassamos qualquer possibilidade de reversão das mudanças climáticas.

 

Estamos preparando as condições de nossa extinção, de maneira ativa e sistemática. Mas também estamos extinguindo muitas outras espécies nesse processo e desequilibrando a vida em nosso planeta. Sabe lá o que deixaremos para trás quando não mais existirmos.

 

O que poderia ser feito se quiséssemos de fato reverter esse processo e restaurar a possibilidade de um futuro para nosso planeta? Os seres humanos já provaram de sobra que não tem capacidade para viver sem guerras, para consumir conscientemente ou para planejar sua reprodução para além do preconceito e da ignorância fomentados pelas religiões. Da mesma forma que já deixaram bem claro seu completo repúdio por sociedades mais justas, igualitárias, solidárias e coletivistas.

 

Ora, se o grande problema do planeta e da sociedade é a própria Humanidade, o que nos resta? A resposta mais racional seria que deveríamos eliminar uma parte considerável dos seres humanos para começar a reverter os efeitos nefandos de sua passagem pelo planeta. Nesse sentido, a eliminação de dois terços da população planetária nos deixaria com pouco mais de dois bilhões de pessoas para consumir conscientemente, usar de planejamento familiar para evitar a repetição da superpopulação e reduzir ao máximo os conflitos fabricados para comercializar armas e reafirmar a geopolítica.

 

E não seria difícil selecionar aqueles que deveriam ser sacrificados para salvar o planeta e a espécie:

  1. Os parasitas, que vivem de rendas e da exploração do trabalho alheio.
  2. Os criminosos, que espancam, estupram e matam mulheres.
  3. Os fanáticos religiosos, que pregam a morte de quem não pertence a suas igrejinhas.
  4. Os ignorantes que mutilam a genitália de meninas.
  5. Os anormais que estupram crianças e adolescentes.
  6. Os racistas que se pensam melhores que os outros.
  7. Os apologistas do totalitarismo, do armamentismo e da violência policial.
  8. Os vendilhões dos templos, que exploram a fé dos incautos para enriquecer.
  9. Os incapazes de empatia, solidariedade e amor.
  10. Os hipócritas de todos os credos, que defendem fetos, mas não se importam com pessoas.
  11. Os que se deixam definir como humanos através do consumo e por isso são incapazes de parar de consumir e depredar o planeta.

 

Conseguiríamos reestruturar nossa sociedade com os que sobrassem? Essa é uma pergunta pertinente, afinal, é provável que países inteiros fossem varridos do mapa se considerássemos seriamente a eliminação de toda essa vasta coleção de psicopatas, sociopatas, irresponsáveis, ignorantes e fanáticos listada acima. Será que, entre os que sobrassem, haveria um capital científico e intelectual suficiente para continuar a viver em patamares civilizados?

 

Ou, mais importante ainda, será que haveria agricultores, eletricistas, encanadores, técnicos, professores, médicos ou artistas suficientes para manter a logística da sobrevivência da espécie, da sociedade e da civilização? Essa é uma questão extremamente pertinente porque os desafios à sobrevivência da espécie passam pela nossa tosca especialização, que não nos permite ir além de papéis sociais previamente definidos. Quantos de nós seríamos capazes de retroceder cem anos para produzir familiarmente o sustento, a comida e a infraestrutura necessária para viver sem impactar tão negativamente o planeta?

 

Bem, se você chegou até aqui na leitura deste texto, há duas possibilidades. Ou você não me conhece e chegou ao blog por acaso e talvez até concorde com esse monte de besteiras racionalmente articuladas como solução para os graves problemas que nos afligem; ou você me acompanha há algum tempo e sabe que esta é uma homenagem à argumentação de Jonathan Swift em sua Modest Proposal. Não quero nem imaginar que quem me conhece possa acreditar, que eu seria capaz de defender o extermínio humano em bases racionais.

 

A ironia, quando não é suficientemente incisiva, pode gerar textos que serão entendidos por seu valor literal e não pela crítica que exercem à sociedade. Assim, quando o sarcasmo não se encontra escancarado, as pessoas podem acreditar mesmo que eu advogaria o genocídio brutal e sistemático de dois terços da Humanidade a partir de uma falsa racionalidade. Talvez seja esse tipo de advertência que se encontra na obra de Francisco Goya O sono da Razão produz monstros da década de 1790.

 

A racionalidade sem empatia produz reformas econômicas e sociais, que visam objetivos abstratos e desdenham a vida dos impactados. A racionalidade sem solidariedade tende a agrupar-nos em “igrejinhas”, que excluem todos os que pensam, se comportam e existem em condições diferentes das nossas. A racionalidade sem amor nos transforma em monstros, da mesma forma que o fanatismo religioso ou político.

 

A falta de Humanidade nos iguala aos monstros que combatemos.

 

A solução para o nosso planeta e para a nossa espécie talvez nem exista. A nossa marcha rumo à extinção continua firme e forte, até com alegria por parte de alguns, eu diria. Para além de qualquer proposta racional, prevalecem os interesses do sistema econômico, das vaidades gigantescas e do individualismo cruel na luta diária pela sobrevivência.

 

Eu não tenho respostas, só perguntas que vou refinando através do raciocínio, da pesquisa e da produção de conhecimento. Desconfie de quem pensa que tem todas as respostas para todas as perguntas. A Humanidade conseguiu produzir uma pedra que não pode carregar e o impasse deverá nos custar a vida.

 

Até lá, sejamos menos escrotos para que possamos partir do Universo com alguma elegância…

OS FILMES E A VIDA DE CADA DIA

3 mar

Hoje é domingo e eu fiz macarrão caseiro, fui à feira, cuidei de vários detalhes domésticos e quando finalmente sentei para respirar, encontrei um daqueles desafios do Facebook. Minha irmã havia-me marcado para ficar postando filmes sem referência durante dez dias e chamar outras tantas pessoas para participar da brincadeira. Em sua postagem constava a foto de Síndrome da China, um filme que assistimos juntas no cine Marabá de Jundiaí há bem uns quarenta anos.

 

Pessoalmente, abomino essas correntes da internet que nos constrangem a constranger outras pessoas e investem no efeito de manada. Por outro lado, o cinema (para mim) é uma relação pessoal e íntima de toda uma vida, muito embora já não frequente mais as salas públicas devido aos motivos que quem me acompanha aqui no blog bem sabe. Escolher apenas dez filmes que me marcaram chega a ser risível, uma vez que poderia listar uma centena sem piscar (fora aqueles que nem o nome sei porque era muito criança quando assisti).

 

Assim, resolvi arbitrariamente alterar os termos do desafio. Serão dez filmes, mas não serão “a prestação” e nem sem referências. Afinal, o valor de cada filme só pode ser aferido diante das ressonâncias que desperta em nossas memórias, para que lembrar senão? E eu não jogo por jogar, por isso aqui vão os dez filmes devidamente referenciados e com seu valor aquilatado na trajetória da minha vida.

 

  1. AS VINHAS DA IRA (1940, EUA, John Ford)

O filme me levou ao belíssimo livro de John Steinbeck quando eu estava na sétima série, em 1977. Foi o ano da morte de Elvis, mas eu estava muito mais interessada em “devorar” a biblioteca do G.E.V.A. Vendo as cenas e monólogos de Henry Fonda, de sua mãe, do pastor, ainda sinto o eco daqueles filmes italianos neorrealistas do pós-guerra (Roma Cidade Aberta que me fez chorar baldes).

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  1. OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA (1970, Itália/França/União Soviética, Vittorio De Sica)

Este é um filme que me remete à TV em preto e branco, no quarto dos meus pais e nós (minha mãe, minha irmã e eu) na cama grande chorando muito na cena do trem. Ainda me dói assisti-lo. Já vi gente dizendo que é um filme ruim, mas eu não ligo, a guerra vista a partir dos que não têm poder sobre suas vidas é um libelo poderoso.

 

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  1. FARENHEIT 451 (1966, França/Reino Unido, François Truffaut)

Este também me levou ao livro de sensacional de Ray Bradbury, que ainda permanece dolorosamente atual. Também foi visto em uma TV preto e branco e em companhia da minha irmã e da minha mãe. Ainda o revejo de vez em quando.

 

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  1. LAWRENCE DA ARÁBIA (1962, EUA/Reino Unido, David Lean)

Este talvez seja o favorito dos favoritos. Já o vi em cine-clubes, cinema, televisão e DVD. Já o vi com o Duda e sozinha e também na casa dos meus pais. Ele me levou a adquirir Os Sete Pilares da Sabedoria, que devorei várias vezes no início dos anos 80. E a cada reprise fica melhor.

 

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  1. CRIMES E PECADOS (1989, EUA, Woody Allen)

Em qualquer lista dos meus favoritos do Woody Allen, Crimes e Pecados tem um lugar de destaque. Assisti na televisão e depois mostrei ao Duda nos anos 90 e o assistimos várias vezes na época das videolocadoras. Tem a melhor discussão sobre metafísica e moral que eu já vi em termos de cinema.

 

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  1. CAMILLE CLAUDEL (1989, França, Bruno Nuytten)

Este é um filme de cineclube e é da minha época de graduação, quando algumas das questões abordadas pela narrativa ainda encontravam eco em minhas leituras sobre gênero, loucura e invisibilização feminina.

 

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  1. LA FLOR DE MI SECRETO (1995, Espanha, Pedro Almodóvar)

Nunca tive dificuldade de escolher meu favorito do Almodóvar. Adoro a grande maioria de seus filmes, mas este ainda me faz chorar quando o vejo e quando penso em como é penoso o processo de tomar consciência do envelhecimento para nós mulheres.

 

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  1. RAPSÓDIA EM AGOSTO (1991, Japão, Akira Kurosawa)

Nem preciso falar do grande mestre Kurosawa, com sua maneira por vezes crua e por vezes sutil de nos atingir com os grandes temas e as grandes tragédias da vida. Este é um daqueles filmes para ver sozinho e pensar demais.

 

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  1. DE PROFUNDIS (2007, Catalunha, Miguelanxo Prado)

Ao invés de ficar maluca tentando escolher apenas um dos vários excelentes filmes de animação de Ayao Miazaki (que mora para sempre em meu coração) escolhi esta primorosa animação catalã, que Débora e eu assistimos deslumbradas.

 

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  1. EL SECRETO DE SUS OJOS (2009, Argentina, Juan José Campanella)

Este filme foi sugerido por uma professora da Débora (quando ela estava no colegial). Qualquer filme da trinca Campanella-Darín-Blanco vale a pena por seu conteúdo humano e sua precisão ao retratar os ecos e dramas gerados pela ditadura militar argentina. O cinema argentino, aliás, foi muito além do nosso em contundência e estética ao abordar os temas políticos.

 

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Filmes, livros e vida dialogam sempre em meu cotidiano. Cada um destes me marcou para sempre e conquistou meu respeito e meu carinho. Mas são poucos diante de várias décadas de vivência cinéfila. Se algum amigo se anima a fazer suas próprias listas fique à vontade, eu não vou marcar ninguém no desafio.

A BRUZUNDANGA TEM PRESIDENTE, TALQUÉI!?

22 fev

Talvez não fosse preciso afirmar sua existência com tanta veemência se houvesse algum sinal positivo ou sensato de governança. Mas não é o que parece, afinal, a cada dia surge um escândalo envolvendo seu partido, sua campanha ou sua família, e o governo segue atabalhoado rifando o país. E nem assim conseguindo cumprir o que seus eleitores e seus apoiadores esperavam dele.

 

Nada a estranhar, uma vez que, oriundo de várias carreiras em que se revelou de uma inutilidade crassa, quem poderia esperar que pudesse ser um bom presidente? Militar prematuramente reformado por indisciplina e instabilidade mental, bem como deputado com quase três décadas de mandato sem ter jamais proposto ou aprovado qualquer lei relevante. E quando candidato, esquivou-se de debates e escondeu-se em hospitais, sob alegações variadas, e depois de eleito segue pelo mesmo caminho, isso para dizer o mínimo.

 

Seu programa de governo, se é que pode ser chamado assim, consiste em desmontar qualquer sistema de seguridade social e promover os interesses da Ianquilândia na Bruzundanga, mesmo que isso mate até o último de seus habitantes. Para tanto, as pautas de Saúde, Cultura, Educação, Meio Ambiente, Trabalho e Previdência vêm sendo sistematicamente destruídas e os direitos dos cidadãos (mesmo quando constitucionalmente garantidos) vêm sendo obliterados sob a égide de uma novilíngua hipocritamente atroz. E como solução para as mazelas decorrentes da pauperização deliberada da população, o beócio oferece a posse de armas de fogo e um discurso pateticamente anticomunista e perigosamente fundamentalista.

 

A julgar pelo andar da carruagem, os bruzundangas chegarão ao segundo quartel deste século pobres, sem chances de aposentar, dependendo de um sistema de saúde pública destruído, assolados por epidemias, violência, depressão e suicídios. Mas todos serão cidadãos de bem, tementes a seu deus surdo, defensores da família, da propriedade e de uma pátria que os rejeita para beneficiar o capital estrangeiro. E não aceitarão a doutrinação dos professores comunistas, ateus, hereges, defensores da Evolução, da Liberdade de Pensamento, da Justiça Social e da Igualdade Econômica.

 

Os setores médios da população, que precisaram de quase oitenta anos de favorecimento estatal para conseguir consolidar-se e apoiaram freneticamente a eleição do infeliz, hoje correm o risco de desaparecer por completo e juntar-se aos pobres, que tanto os incomodavam no governo anterior. Os pobres, que emergiram da miséria para um novo patamar de consumo e viraram as costas aos governos progressistas, abraçando a agenda conservadora como se fosse sua única identidade, já estão de volta às origens sem nem saber o que lhes aconteceu. Os ricos (os verdadeiramente ricos a ponto de figurar em listas de revistas estrangeiras e detentores de patrimônio e efetivos suficientes para três ou mais gerações de seus descendentes), esses continuarão enriquecendo e brindando à cobiça, à ignorância e à mesquinhez de seus compatriotas.

 

Mas a maior parte dos bruzundangas parece pensar que esse é um preço justo a pagar para livrar-se da “corrupção” e do “populismo” das agendas progressistas. Que seu deus surdo os livre e guarde de ter que conviver com famílias gays, mulheres independentes, cidadãos negros em condições de igualdade ou qualquer agenda minimamente civilizatória. Para eles qualquer genocídio é justificado desde que seja em nome de seus valores artificialmente fabricados pela mídia golpista e seus pastores fajutos.

 

Nesse sentido, o atual presidente cai como uma luva porque é a representação propriamente dita da mediocridade enfatuada, que seus ministros tanto alardeiam. Com sérias restrições cognitivas, parece incapaz de articular falas coerentes e análises minimamente aceitáveis da realidade, cobrindo de vergonha aqueles setores da população minimamente pensantes que ainda se preocupam com a opinião pública internacional. Chamá-lo de troglodita seria cometer uma injustiça com os homens primitivos, uma vez que a maior parte de seu comportamento violento, sádico e amoral provém mais de alguma sociopatia do que propriamente de algum atraso mental ou primitivismo.

 

E ele não vem sozinho, sua prole o acompanha. Três rebentos igualmente lombrosianos e (por que não dizer?) freudianos, mendigando a aprovação paterna através de gestos truculentos e intimidando os que consideram seus inimigos. Tempos atrás, porque eu acompanho a vida na Bruzundanga há décadas, pensei em apelidar ironicamente os rebentos de Uday, Qusay e Numsay, em referência evidente à malfadada prole do executado presidente do Iraque. Mal sabia eu que o tempo se encarregaria de transformar minha piada obscura em uma triste realidade.

 

O dito presidente da Bruzundanga mal esquentou a cadeira e já se revela um flagelo para seu povo, muito mais pela sua inutilidade e incompetência, do que pela sua agenda absurdamente destrutiva. Sua incapacidade para mediar os distintos setores do governo e sua falta de habilidade para articular o que quer que seja (a não ser petit crimes) diante dos outros poderes da República há de custar muito caro aos bruzundangas. Para regozijo das grandes corporações internacionais, dos banqueiros, da Ianquilândia e das elites endinheiradas que adorariam virar um protetorado ianque e abrir mão de sua identidade como país, tal sua natureza capachilda.

 

Mas, enquanto isso não acontece, os setores progressistas da Bruzundanga se estorcem à procura de uma saída, em meio à amargura e à depressão geral. Enquanto ministros fundamentalistas “expurgam” o setor público de qualquer simulacro de civilização, para implantar suas interpretações canhestras e infantilmente literais sobre educação, cidadania e religião, o presidente aplaude a vitória sobre a “conspiração comunista internacional”. Porque, no final das contas, a Bruzundanga está reduzida a ser governada por uma corja de saqueadores associada a um bando de malucos com papel alumínio na cabeça, replicadores das mais estapafúrdias lendas urbanas e teorias de conspiração.

 

E, a esta altura, o leitor amigo me perguntará: e você, a quantas anda na Bruzundanga? Qual é o seu papel enquanto Nero incendeia Roma? Será você Petrônio, aceitando a ordem de suicídio, ou será você apenas uma ninguém assistindo impotente à catástrofe anunciada?

 

Eu, meu caro leitor, sou uma ninguém impotente do ponto de vista do poder político e econômico. Mas também sou historiadora de formação e tudo o que me resta é preservar o conhecimento para as gerações futuras. E narrar e narrar e narrar e narrar e narrar a tragédia, até que ao menos alguém me tire este fardo ou se una a mim nesta missão.

 

Até lá, somente você meu leitor é testemunha de que os meus vaticínios de Cassandra do Apocalipse, neste blog, vão tornando-se a triste realidade nesta Bruzundanga tão sofrida e tão cega.