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MULHERES, MEMÓRIAS E IDENTIDADES

8 nov

Este é um texto que tem tudo para desagradar aos poucos que privam da minha companhia neste blog. E digo isso sem qualquer pretensão à polêmica, uma vez que percebo este blog muito mais como um registro do que uma interlocução social, dada a escassa atividade aqui realizada. Assim, aqui vou agora desagradar feministas, religiosos, liberais e alguns setores das esquerdas.

 

Toda essa gritaria histérica sobre os Estudos de Gênero, promovida pelos setores ultraconservadores e encampada por uma parte da sociedade que não tem o acesso necessário à informação para poder avaliar seu sentido, me levou a pensar sobre algumas questões bem pontuais do ser mulher. Foram também a releitura de Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade da filósofa Judith Butler, bem como o debate constante com a minha filha sobre diversos aspectos da Teoria Queer e outras tantas questões da moderna percepção da “mulherice”, que me levaram a querer pontificar esse tema. Muito mais, é evidente, do ponto de vista do historiador (como sempre faço) já que careço das credenciais e da experiência para discutir o tema em termos filosóficos.

 

Nesse sentido, não vou entrar nos aspectos filosóficos do ser, mas restringir-me a alguns aspectos do devir histórico feminino. Selecionar alguns conhecimentos prosaicos e ver como a percepção sobre eles foi mudando de acordo com a temporalidade e a historicidade dos sujeitos. E, como este é o meu blog, e não uma revista científica, pretendo manter o texto inteligível e leve o suficiente para permitir a leitura dos leigos.

 

A divisão de trabalhos e tarefas pode ser considerada uma das marcas da organização social em comunidades humanas desde o paleolítico. Não admira, nesse sentido, que Karl Marx a escolhesse como chave para o entendimento da evolução histórica das sociedades, ao criar o conceito de modo de produção. Para sobreviver, desde sempre, é necessário organizar quem vai caçar, quem vai colher, quem vai tecer e quem vai nos proteger dos predadores.

 

Sociedades assim organizadas, no início, não dividiam as tarefas de acordo com o gênero porque não se entendiam como homens e mulheres, havia uma hierarquia que se baseava na idade e na experiência, além da força e da destreza, que permitia que algumas mulheres caçassem lado a lado com os homens. A lenta transformação que possibilitou a supremacia social masculina nas regiões do Oriente, em que a civilização em termos históricos surgiu, pode ser entendida pensando-se a organização das religiões monoteístas, dos conceitos de propriedade privada e de herança, bem como o estabelecimento das monarquias. Nos setores dominantes dessas sociedades, a necessidade de manter o controle da pureza da descendência, tanto aliado ao exercício do poder quanto à transmissão da propriedade, acabou gerando formas de confinamento doméstico e criando modelos de sociabilidade em que essas tarefas passaram a ser vistas como femininas.

 

Simplista? Não necessariamente, afinal, o parágrafo acima apenas resume radicalmente vários séculos de transformações sociais e culturais. Não é uma análise em profundidade e sim um ponto de partida para pensar sobre tarefas e identidades.

 

A afirmação de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se, que já ninguém questiona academicamente, diz respeito exatamente a esse aprender de tarefas e comportamentos ligados histórica e socialmente ao feminino. Para entender, de um ponto de vista marxista, como esses elementos externos acabaram ligados intrinsecamente à identidade feminina é necessário pensar exatamente como a divisão de trabalhos foi sendo modificada ao migrar de um modo de produção a outro e como as mulheres acabaram perdendo o protagonismo nos mundos do trabalho à medida que as castas e as classes foram definindo-se. É uma tarefa complexa e nada inédita, já existe uma considerável produção acadêmica sobre esses temas, basta pesquisar, o que eu pretendo aqui é refletir um pouco sobre como esses processos nos impactam atualmente.

 

Na Europa pré Revolução Industrial (e em muitos locais no Terceiro Mundo até hoje) às mulheres pobres, camponesas ou citadinas, estavam reservadas tarefas pesadas e complexas de manutenção das condições de sobrevivência da família. Fabricação de sabão caseiro, agricultura de subsistência, fiar, tecer e costurar, dominar um repertório complexo de plantas e sementes usadas tanto na alimentação quanto na medicina caseira, ser as guardiãs dos rituais de passagem do nascimento à morte, ainda quando também acabassem sendo as provedoras do fogo (lar) na ausência ou morte do homem. Seguindo uma hierarquia que reproduzia os modelos primitivos de idade e experiência, essas mulheres pobres eram as guardiãs do que entendemos por cultura no sentido antropológico.

 

A industrialização ocidental redefiniu a maneira de encarar o trabalho e criou a hierarquia produtiva da remuneração. Embora miseravelmente pagos, homens eram valorizados acima das mulheres nesse novo modelo de produção e as tarefas domésticas (por não receberem qualquer remuneração financeira) passaram a ser desprezadas e relegadas ao feminino em um sentido pejorativo. Mesmo quando a exploração descontrolada nas tecelagens, minas de carvão e outros meios de produção obrigou ao trabalho insano de mulheres e crianças em jornadas de até dezesseis horas diárias para sobreviver, a existência de um serviço doméstico porcamente remunerado prestado às classes superiores em alguns locais (e a escravidão em outros) rebaixaram ainda mais a hierarquia das tarefas consideradas femininas.

 

E, mesmo assim, ao longo do século XX, em boa parte dos lares das classes médias ocidentais, a educação das meninas para uma vida de esposas, mães e donas-de-casa era tido como a normalidade social. Entre as mulheres pobres, o imperativo da sobrevivência sobrepunha as mais diversas formas de trabalho remunerado e não remunerado, mas entre os setores médios e altos da população ocidental o ideal de domesticidade implicava no recolhimento e nas tarefas manuais consideradas femininas. A necessidade de quebrar esse modelo impulsionou a organização das primeiras feministas ocidentais, oriundas desses setores médios e altos da população e com reivindicações bem diferenciadas daquelas das mulheres pobres e trabalhadoras.

 

Essencialmente diferentes também da primeira geração de mulheres revolucionárias na Rússia. No período soviético leninista, as mulheres tiveram uma liberdade de organização e protagonismo até então inédita nesse país, mas posteriormente (mesmo com sua participação massiva durante os combates na Segunda Guerra Mundial) sua autonomia acabou solapada durante o stalinismo. E, embora desempenhando cargas de trabalho similares às masculinas, foi o ressurgimento das restrições de cunho moral e comportamental que reduziu o protagonismo das mulheres soviéticas no período pós-leninista.

 

As ativistas ocidentais reivindicavam em um primeiro momento o direito ao voto (sufragistas) e posteriormente a liberdade para trabalhar (dentro dos setores médios e nos países em que o pai ou o marido podiam legalmente impedi-las) e finalmente a equiparação salarial com os trabalhadores masculinos (feministas). Sua lutas eram pontuais e classistas, não podendo ser entendidas como aspirações da totalidade das mulheres, uma vez que ignoravam as necessidades das trabalhadoras pobres, das camponesas e das mulheres não brancas. Ignoravam também as especificidades culturais ligadas à divisão classista da sociedade nos significados de ser mulher.

 

E quem me segue aqui há mais de ano sabe da minha implicância com esse tipo de militância. Passei mais de uma década me considerando pós-feminista, antes de descobrir que a minha defesa da incorporação das lutas classistas, étnicas e raciais se chamava interseccionalidade e tinha seu lugar no feminismo do século XXI. Devo essa percepção à minha filha, que já conhecia e participava desses debates antes de toda essa celeuma em torno de Judith Butler e da falsa interpretação das questões do gênero pelos conservadores.

 

A desvalorização dos saberes culturais femininos dentro dos modelos de produção e exploração capitalistas foi encampada (inadvertidamente) por diversos setores do feminismo devido a esse viés classista. A construção da percepção de uma eventual libertação mediante o abandono da domesticidade demonizou habilidades ancestrais ligadas aos trabalhos manuais e às memórias étnicas e culturais. Rendeiras, bordadeiras, tecelãs e trabalhadoras de todos os tipos de agulhas passaram a ser vistas como artesãs (no afã de monetizar todas as formas de trabalho) e esses saberes, que antes pertenciam a uma boa parte das mulheres, deixaram o cotidiano para radicar-se na periferia dos mundos do trabalho.

 

Do mesmo modo as sociedades médicas do século XIX perseguiram e baniram as remanescentes das curandeiras, herboristas e benzedeiras (que já vinham sendo demonizadas desde as fogueiras das bruxas), para poder promover a imagem do médico de família, que cobrava por consulta. Do mesmo modo os saberes culinários têm sido encampados na profissionalização dos ditos cheffs por homens excepcionalmente bem remunerados para cozinhar como se isso fosse uma grande coisa. Existe uma espécie de gentrificação profissional quando um saber que faz parte das chamadas atribuições femininas passa a ser desempenhado em termos profissionais por homens e seus salários relegam ainda mais a autoimagem feminina a um limbo marginal e desacreditado.

O estigma da submissão acompanha (nos meios politizados) qualquer mulher que sinta prazer nos trabalhos de agulha ou na culinária não remunerada. Da mesma maneira, nos meios populares, homens que façam trabalhos manuais considerados femininos como forma de lazer e sem remuneração são acerbamente criticados e tem inclusive sua sexualidade questionada. Nos modelos de produção e exploração capitalista, quem não “gera valor” (expressão odiosa) com seu trabalho, não tem sua identidade social reconhecida.

 

Se os meus leitores estão habituados às “tretas” das redes sociais, talvez se lembrem do menino crocheteiro, que teve sua página do Facebook denunciada e eliminada por uma dessas patrulhas moralistas. A denúncia afirmava que, sendo menor de idade, ele estava violando as normas do próprio Facebook ao manter uma página pública, mas o que estava por trás da sanha dos binários era o fato de que eles entendiam o crochê como uma atividade feminina e não conseguiam aceitar a felicidade do menino tecendo e ensinando a tecer. Afortunadamente, o menino refez sua página e vai de vento em popa, feliz com suas agulhas e conta com todo o meu apoio, por pouco que isso signifique.

 

As técnicas ligadas ao crochê são percebidas, ainda hoje, como algo feminino. Entretanto, entre as centenas de mulheres com quem tive que conviver em toda a minha vida, posso citar poucas que dominam esse tipo de saber sem ser profissionais. E não é um saber inútil, afinal, além de um excelente lazer é um meio de não depender da indústria têxtil, que explora sem remissão seus trabalhadores desde sempre.

 

Os saberes femininos ao longo da História permitiram a transmissão de meios de sobrevivência, de sociabilidade e de autonomia. A organização da divisão de trabalho capitalista precarizou os ambientes de transmissão desses saberes e usurpou o modo de disseminação do conhecimento mediante a manipulação da remuneração. Os diversos setores do feminismo que não conseguiram perceber esses conhecimentos como instrumentos de poder na luta pela sobrevivência ajudaram a precarizar ainda mais a condição feminina das mulheres pobres.

 

Isso significa que eu quero que todas nós aprendamos a bordar, tecer e cozinhar? Claro que não, do mesmo modo que também não quero correr pelada pelos bosques homenageando a Lua e nem quero estudar medicina ou engenharia. O que defendo aqui é que precisamos entender como se organiza a sociedade que nos alija de uma justa remuneração ao mesmo tempo em que nos rouba saberes ancestrais, enquanto perdemos tempo discutindo o que é ou o que não é ser mulher.

 

Nesse sentido, adorei o pensamento de Judith Butler exatamente porque ela entende que o feminino é uma série de aprendizados performativos e não uma condição inerente às portadoras de vaginas e úteros. Eu quero que ser mulher seja o que eu quiser ser, o que você quiser e o que todas nós imaginarmos, sem ser mediado por padres, pastores ou políticos. E que isso inclua desde uma camponesa do Nepal até uma acadêmica de Oxford, incluindo as mulheres trans e sem que modelos de feminilidade X ou Y sejam impostos de cima para baixo por quem quer que seja.

 

Isso é tão difícil de entender?

 

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AS PRINCESINHAS ROMANOV

4 nov

Acabei de ler o trabalho instigante de Marc Ferro A verdade sobre a tragédia dos Romanov e quero deixar registradas algumas considerações que me parecem necessárias. A obra, que é de 2012, recebeu este ano sua primeira edição em português, certamente na esteira da efeméride dos cem anos da Revolução Russa. E tem passado bastante ao largo da grande imprensa, pouco dada a fugir do sensacionalismo e enfrentar um debate historiográfico mais sério.

 

O argumento central de Marc Ferro é de que a czarina Alexandra e seus filhos não foram abatidos em Ecaterimburgo, como reza a lenda das atrocidades atribuídas ao governo bolchevique. Tendo conseguido acesso a alguns documentos inéditos e outros pouco estudados, Ferro constrói uma dúvida sólida e razoável à versão comumente aceita do fuzilamento, mutilação e queima dos cadáveres do último Romanov coroado e sua família. Lançando, também, alguma luz nos acontecimentos ao longo de 1918 tanto no âmbito dos sovietes quanto na situação europeia e seus desdobramentos.

 

É um livro bem modesto, muito mais uma complementação à obra já conhecida do autor sobre a Rússia do século XX. Expoente contemporâneo da escola historiográfica francesa dos Annales, Ferro tem uma vasta e eclética produção que vai do tema em questão à História do Cinema e é bem respeitado, embora não tão conhecido quanto Le Goff e Duby. E, a despeito do título bombástico, provavelmente sugestão editorial, o volume é bem equilibrado ao alinhar as inconsistências das versões existentes sobre o destino dos Romanov.

 

Se há algo que não se pode atribuir ao autor, em sentido algum, historiográfico ou político, é a condição de marxista. Se bem que não seja um entusiasta admirador da monarquia russa como Simon Sebag Montefiore, o tedioso autor do gigantesco Os Romanov 1613-1918, que passa as quase novecentas páginas de texto e notas da edição brasileira seduzido pela autocracia, Ferro também não tem qualquer espécie de admiração pelos revolucionários. Sua análise documental passa longe do sentimentalismo piegas de Montefiore, mas também não cai nas armadilhas do ativismo político inerente a muitos dos contemporâneos que se debruçam sobre a Rússia soviética.

 

E há alguns aspectos de suas inferências que eu quero aprofundar porque isso me parece extremamente importante em uma época em que qualquer autor de repertórios de almanaque ganha alcance televisivo, e se arroga o direito de estabelecer palavras finais sobre fatos à margem e a despeito do conhecimento acadêmico. Há que se pensar sobre como as versões correntemente aceitas para o destino dos Romanov foram estabelecidas e quais os interesses envolvidos para silenciar esta interpretação alternativa. Bem como não se pode deixar de explorar os contextos, os testemunhos e a longevidade das percepções populares sobre o tema, o papel do cinema e a contaminação dessas mídias por interesses muito além da necessidade do conhecimento histórico.

 

Marc Ferro dá ênfase ao cenário geopolítico da Europa de 1918, quando a Alemanha e os países da entente encontravam-se mergulhados em perdas monumentais decorrentes da guerra em curso e a Revolução Russa redefiniu o campo de batalha significativamente. Da mesma forma, preocupa-se em oferecer o cenário confuso e volátil dos primeiros anos da Revolução, quando os sovietes eram relativamente autônomos e o poder ainda não havia sido centralizado em Moscou. Assim como, cuidadosamente mostra que os russos brancos e os Romanov residentes em outros países europeus mantinham interesses bem escusos em relação à eventual eliminação da família alemã de Nicolau II.

 

A Primeira Guerra Mundial, em toda a sua complexidade, em que os impérios se defrontam e sucumbem, também é uma guerra familiar em certa medida, uma vez que a rainha britânica Vitória passara várias décadas estabelecendo alianças dinásticas, acreditando, ironicamente, que se as monarquias estivessem ligadas por laços consanguíneos, seria mais fácil evitar novas guerras. O rei britânico George V, o kaiser Guilherme II e o czar Nicolau II são primos, sendo as mães de Nicolau e George irmãs e o pai de George e a mãe de Guilherme igualmente irmãos, bem como a família da czarina Alexandra proveniente da Alemanha. E se Guilherme e George são netos de Vitória, Alexandra é sua bisneta e Nicolau é sobrinho de sua nora também chamada Alexandra, princesa dinamarquesa, transformando o jogo de interesses políticos e econômicos em uma arena que defronta parentes próximos e será o ocaso desse modelo monárquico.

 

Ferro não se atém a essa minúcia de detalhes, mas deixa claro que o destino da família Romanov era seguido com extremo interesse nas casas reais alemã e britânica. Debruçando-se sobre correspondências pessoais e diplomáticas, chama a atenção para a existência de negociações sigilosas entre os bolcheviques e as outras potências ainda em guerra, tendo como condição atrelada ao armistício, a eventual sobrevivência da família imperial russa. Da mesma forma que se aprofunda no avanço geográfico das diversas tropas sitiando a Rússia em 1918 e mostrando a importância de tchecos, russos brancos, dinamarqueses, alemães e da localização de Ecaterimburgo no cenário desse avanço.

 

Esses movimentos de tropas, tanto quanto os interesses familiares, são essenciais para entender a cronologia dos acontecimentos que precipitaram o fuzilamento de Nicolau II, a despeito das negociações procedidas por Chicherin, comissário soviético das Relações Exteriores, em nome de Lenin. Nesse sentido, a localização das tropas tchecas (associadas aos russos brancos contrarrevolucionários) a poucos dias de Ecaterimburgo, com possibilidades concretas de libertar a família Romanov, deixou os dirigentes do soviete dos Urais diante de um impasse e a autonomia de que desfrutavam nesses albores revolucionários permitiu que algumas deliberações fossem feitas e medidas tomadas, a despeito tanto de Lenin quanto de Chicherin. E a confusão reinante nas semanas que se seguiram à execução gerou versões e testemunhos extremamente diversos e contraditórios, que seriam posteriormente eclipsados na versão homogeneizada comunmente aceita por brancos e vermelhos de que toda a família havia sido eliminada.

 

Para Ferro, era mais conveniente para Lenin, e seus colaboradores mais próximos, passar por assassinos do que por traidores da Revolução Internacional por negociar com Guilherme II. Nesse sentido, baseando-se em escritos dos principais envolvidos, chama a atenção para o fato de que os comissários (e o próprio Lenin) não confiaram sequer em Leon Trotsky e o mantiveram às escuras sobre o destino da família de Nicolau II. À época o próprio Stalin ainda nem figurava nesse cenário de tomada de decisões e o autor nem mesmo o menciona.

 

Da mesma forma, ajudado pelos achados de outros estudiosos, Ferro dá pistas esparsas de que as jovens Romanov teriam sobrevivido, embora nada se saiba sobre o herdeiro. O testamento de Maria Romanov, datado de 1970, uma foto desta com Olga no fim da década de 50 e algumas cartas familiares que admitem que a mulher que se apresentou como Anastácia em 1919 era mesmo a princesa, mesmo que depois a família o tenha negado. Esses são indícios suficientes para levantar dúvidas sólidas e razoáveis sobre a versão oficial.

 

Eu mesma, durante muito tempo, duvidei da veracidade de Anna Anderson e atribuo meu ceticismo ao modo romântico e piegas com que a imprensa a tratou em um primeiro momento e à sucessão de versões em que foi definida desde a princesa esquecida do cinema, à doente mental ou à fraude atribuída por diversos setores envolvidos em analisar suas reivindicações. E, nesse sentido, devo agradecer a Marc Ferro por ser tão honesto ao mostrar que os testemunhos ambíguos e evasivos de Anastácia também contribuíram para dar solidez aos parentes Romanov que a renegaram para não dividir a herança familiar. E me atrevo a ir além do que o autor e pensar sobre algumas dessas contradições e ambiguidades.

 

Ferro usa os documentos para argumentar que Anastácia fugira duas vezes de Ecaterimburgo, falhando na primeira tentativa e sendo brutalmente seviciada, mas tendo sucesso na segunda tentativa e não estando presente quando o pai foi executado e o resto da família evacuado. Quando aparece na Europa, ela não sabe que a mãe e as irmãs sobreviveram e ninguém lhe conta, sendo que sua versão de sobrevivência implica em dizer que foi ferida quando a família foi exterminada, mas salva por alguns guardas. Nesse sentido, o autor fica perplexo sobre a mentira contada pela princesa, uma vez que ela nem estava mais em Ecaterimburgo quando os eventos fatais se deram.

 

E eu me permito analisar essa mentira de uma maneira que incorpora as outras informações sobre esses acontecimentos. Diz Ferro que Anastácia foi violentada por um guarda polonês e engravidou, dando a entender que para sobreviver a princesa se submeteu ao abuso e passou a viver maritalmente com seu salvador. O autor tem muito cuidado em deixar claro que essa não deve ter sido uma escolha e sim uma consequência de suas fugas.

 

Acredito que, ao apresentar-se publicamente e reivindicar seu quinhão monetário e dinástico da família Romanov, Anastácia contrariou profundamente os interesses de seus parentes russos que ainda a viam como alemã. Não apenas isso, o fato de que (para os padrões da época) a jovem constituía “material avariado” devido ao seu relacionamento sexual com o guarda (mesmo que este tenha sido fruto de violência), impedindo que pudesse ser inserida no complexo jogo de alianças matrimoniais que movia a realeza europeia. Do mesmo modo, admitir a sobrevivência de Anastácia constituía um problema dinástico e apaziguava levemente a lenda negra da barbárie bolchevique, o que nenhum de seus parentes russos queria.

 

E por que Anastácia mentiu sobre sua sobrevivência? Bem aí me atrevo a pensar que a culpa por ter fugido e abandonado sua família para morrer deve ter tido um papel importante à medida que os relatos sobre as atrocidades da execução se avolumavam. Como admitir que estivesse viva por que fugira e abandonava as pessoas que mais amava?

 

Certamente era mais fácil forjar uma história que se inserisse na narrativa oficial e lhe permitisse angariar a solidariedade de parentes e amigos. E falhou por não ter calculado que sua família estava longe de ser um exemplo de solidariedade, e que ao menos uma dezena de Romanov (ao longo de mais de duzentos anos) havia derramado o sangue familiar pelos mais diversos motivos ligados ao exercício do poder. Do mesmo modo que sua mãe alemã não era querida na Rússia, sendo motivo de desconfiança, as atitudes imaturas e imprudentes da princesa pesaram para que os parentes a considerassem mais alemã que russa.

 

E penso que nenhum parente (nem mesmo os que a aceitaram em um primeiro momento) lhe contou que as irmãs e a mãe estavam vivas e escondidas porque sabiam que não poderiam confiar em seu silêncio. Quer fosse porque seu estado mental inspirava cuidados ou porque continuava a mesma boquirrota que fora durante a adolescência, as pessoas que a conheceram preferiram silenciar sobre o destino de sua família, uma vez que a segurança das jovens sobreviventes requeria o anonimato. Nesse sentido, suas irmãs jamais vieram a público ou tentaram desafiar os Romanov russos que viviam na Europa desfrutando o luxo advindo da pilhagem imperial.

 

O livro de Marc Ferro abre as possibilidades de repensar a cronologia e os eventos de 1918 e olhar para os primeiros momentos da Revolução Russa com outros olhares. Em boa hora, uma vez que estamos rodeados de basbaques que a cada ano atribuem mais e mais atrocidades e “milhões e milhões” de cadáveres ao comunismo, sem jamais ter sequer consultado arquivos ou fontes soviéticas ou qualquer livro sério. Está mais do que na hora de desmistificar relatos propagandísticos de barbárie e encarar a Revolução Russa como o marco histórico que foi e o processo passível de estudo, que ainda precisamos desvendar.

PERDAS E AUSÊNCIAS

2 nov

Quando se conta a própria vida em décadas, uma das consequências mais naturais é o acúmulo das perdas. Perdemos amigos, parentes, sonhos, projetos, ilusões e até um pouco a nós mesmos. E passamos a lamentar essas ausências como se fossem “buracos” em nossas identidades.

 

No fim dos anos 60, meu finado tio Teodoro morava em Buenos Aires e, em uma de suas esporádicas visitas a Montevidéu, nos contou a seguinte história. O River Plate, eterno rival do Boca Juniors, amargava há um bom tempo uma fase de derrotas e não conseguia vencer jogos, que dirá campeonatos. A torcida, inconformada, cobrava do time a “raça” tão valorizada nas duas margens rioplatenses.

 

Para provocar os brios do time, os torcedores costumavam jogar uma galinha no campo, ao início de cada jogo. De nada adiantava revistar a torcida na entrada do estádio ou aumentar o policiamento, a cada vez que os jogadores se perfilavam para o início da partida, surgia a ave passando de mão em mão até ser arremessada em direção ao campo e desembestar em corrida alucinada entre jogadores a arbitragem. O galináceo apavorado a correr e os ocupantes do campo tentando grotescamente capturá-lo era a afirmação de que a torcida considerava o time “covarde” demais e queria que “acordasse”.

 

Meu gosto pelo futebol é suficiente para não me sentir excluída no ambiente latino-americano que cultua esse esporte de origem bretã. Não sou nem nunca fui fanática e dispenso as conversas intermináveis sobre estratégias e efemérides de cada time. Meu time do coração é o Nacional de Montevidéu porque eu sou Alaniz até o último fio de cabelo, mas tenho simpatias por muitos times brasileiros, incluindo a nossa “macaca” aqui de Campinas, que era o time favorito do Professor Amaral Lapa.

 

Isto posto, devo dizer que uma das perdas periféricas, que me afetou em menor medida ao longo das últimas décadas, é exatamente a que se refere às transformações sofridas pelo futebol. A transformação sistemática dos campeonatos em balcões de negócios e dos jogadores em vitrines de publicidade; o surgimento das “estrelas” com salários obscenos e personalidades execráveis; o abandono do gosto pelo jogo para privilegiar a obtenção de resultados. Todos esses fatores fizeram com que fôssemos obrigados a presenciar mais jogos medíocres e menos momentos de verdadeira “raça” e tiraram o brilho das Copas Mundiais, que foram momentos maravilhosos da minha infância.

 

Às vezes, a soma dessas perdas periféricas pode alcançar níveis insuportáveis e transformar a nossa vida em um inventário de ausências melancólicas e nostálgicas. E nem sempre percebemos o processo enquanto está ocorrendo, como é o caso da nossa população indiferente, que parece não entender que as reformas políticas e econômicas levadas a cabo pelo governo golpista estão perdendo para sempre a possibilidade de futuro e sobrevivência de uma boa parte da população e do próprio país. A soma de todas as perdas, cedo ou tarde, esmagará cada um de nós sem remissão.

 

E não há quem arremesse galinhas em nossa direção para nos “acordar” e exigir que reencontremos nossa “raça”. Como o River Plate que começava a década de 70 acumulando derrotas e amargava sua “mala racha” sem grandes ilusões, presenciamos o sacrifício de nosso país no altar do deus mercado, para benefício de uns e outros. E ruminamos as perdas como se fossem individuais e pessoais, sem a capacidade para sermos solidários e pensar coletivo.

 

E talvez seja o momento, tanto no futebol quanto na vida real, de parar de pensar em trajetórias individuais de sucesso, em “estrelas” e jogar pelo coletivo, pelo time, honrando a camiseta e pensando no futuro. Para evitar perdas maiores, para sair do marasmo, para “acordar” a nossa “raça” e retomar o rumo dos nossos destinos. Talvez.

 

É por isso que hoje, embora meu coração esteja mais para Bernarda Alba e a tentação de dizer os versos sublimes de García Lorca:

“Y no quiero llantos.

La muerte hay que mirarla cara a cara.

¡Silencio!

¡A callar he dicho!

Las lágrimas cuando estés sola.

¡Nos hundiremos todas en un mar de luto!

(…)

¿Me habéis oído?

¡Silencio, silencio he dicho!

¡Silencio!”

 

Prefiro levantar a taça e repetir o belíssimo brinde que Neil Gaiman atribuiu ao imortal Hob Gadling na graphic novel Estação das Brumas:

 

“Aos amigos ausentes, amores perdidos, deuses antigos e à estação das brumas; e que cada um de nós sempre conceda ao diabo o seu quinhão.”

 

Porque os meus mortos são muitos e minhas perdas estão gravadas nas carnes murchas que carrego sobre os ossos cansados. E quando a ausência dói é melhor celebrar quem se foi do que remoer o passado. E porque ainda penso no futuro e quero manter vivas minhas lutas e meus sonhos.

JUDITH, MILLIE E OS PAQUIDERMES

28 out

Estava eu ontem pensando em um texto sobre a ambiguidade e a genialidade de Machado de Assis em Dom Casmurro, quando dei de cara com a notícia de que um grupo de intolerantes corria um abaixo assinado virtual para obrigar a cancelar a conferência de Judith Butler. Perdi qualquer vontade de escrever e o peso da amargura acabou tomando conta do meu dia, secundado pelo apodrecido noticiário político nacional e a expectativa por notícias da Catalunha. Ainda mais que as notícias esparsas davam conta de que o lugar que sediará o evento vinha sofrendo agressões e manifestações de um grupinho ruidoso de delinquentes contumazes das liberdades civis.

 

Nestes dias aziagos, que correm rápido demais à medida que envelheço, é frequente minha perplexidade diante da arrogância e da prepotência desses grupos intolerantes, que defendem a ignorância como se fosse uma virtude e fazem da imbecilidade um pressuposto para a aceitação social. Afinal, aplaudem palestras de deputados que incitam ao crime contra os Direitos Humanos, em clara quebra de decoro das suas funções parlamentares, mas querem proibir eventos acadêmicos e encontros de grupos minoritários, em nome sabe-se lá de quê. A hipocrisia e o duplo padrão de moral presentes nesse tipo de atitude beira a canalhice, mas passa em “brancas nuvens” diante da cumplicidade e da covardia das autoridades e dos meios de comunicação.

 

Nesse sentido, escapa a esses tiranetes de vigésima categoria o óbvio do óbvio, a constatação de que não tem o direito de interferir nas atividades de outros grupos e nem de proibir o que quer que seja. E eu me pergunto onde estavam as mães desses infelizes, que não tiveram a capacidade de educá-los para viver em sociedade e demonstrar o mínimo necessário de bons modos. E que não lhes incutiram o menor senso de ridículo ou de autocrítica, para que tivessem a capacidade de perceber a vergonha que passam (e nos fazem passar) quando interpelam palestrantes muito mais inteligentes e preparados do que eles, aos berros e afirmando toda sorte de tolices como se fossem verdades autoevidentes.

 

O festival de imbecilidades que nos assola na boca dessas marionetes não tem fim. “Hitler era de esquerda”; “a Terra é plana”; “não houve ditadura no Brasil”; “só existe macho e fêmea porque deus criou assim”; “Arte Contemporânea não é Arte porque eu não gosto”; e todo um cortejo de afirmações igualmente incorretas, igualmente tolas, igualmente desonestas. Quem os manipula parece ter escolhido a dedo, dentre os mais arrogantes e orgulhosos da própria burrice, para esfregá-los na nossa cara e demonstrar nosso fracasso como professores, enquanto cinicamente nos acusam de “doutrinação”.

 

Judith Butler deverá enfrentar a incapacidade desses grupos de respeitar ou conhecer a praxe protocolar dos eventos acadêmicos, uma vez que interrompem os palestrantes sem qualquer constrangimento, demonstrando claramente sua xucrice e falta de educação. Deverá também enfrentar a completa ignorância sobre qualquer temática teórica vinculada aos Estudos de Gênero e à Teoria Queer (mesmo que sua conferência nem seja sobre esses temas), uma vez que (em sua absoluta maioria) esses indivíduos não tem formação nas áreas que criticam e combatem, ou não tem formação alguma. Afortunadamente, não sendo a primeira vez que a intelectual visita o Brasil e já conhecendo alguns de nossos mais destacados acadêmicos dessas áreas, a impressão que esses energúmenos causarão não se estenderá ao resto de nós.

 

Essa sanha anti-intelectual que toma conta dos movimentos ultradireitistas, e dos oportunistas que os manipulam, acaba gerando uma série de “palavras de ordem” e acusações desonestas visando a criminalização do pensamento e do senso crítico. Embora apoiem abertamente toda sorte de violências contra as mulheres que não se enquadram em seu ideal reacionário de submissão, escolheram os valores de “família” para mascarar seu ódio às liberdades individuais burguesas. Nesse sentido, o constante martelar do argumento de existência de “pedofilia” nos meios artísticos e intelectuais, não passa de uma manipulação cínica da ignorância de seus seguidores.

 

E não estou poupando palavras mesmo, essa caterva de ignorantes descerebrados que sexualiza diariamente crianças e adolescentes, para poder melhor exercer as prerrogativas de sua masculinidade vacilante é a mesma que acusa os outros de “pedofilia” diante do que não entende e nem quer entender.

 

Vivemos em uma sociedade em que muitos desses que se arrogam defensores da família são os mesmos que assediam mulheres nos transportes coletivos e olham cobiçosos para meninas de onze anos nos Shopping Centers. Afinal, família é só a deles mesmos, o resto de nós é pasto para a masculinidade hipervalorizada e o duplo padrão moral que normaliza o abuso e o assédio, desde que as hierarquias sociais vigentes permaneçam inalteradas. É evidente, nesse caldo de cultura, que qualquer tentativa de uma educação mais humanizada e uma construção mais adequada das questões de gênero nas escolas, enfrentará a hostilidade desses indivíduos.

 

E isso não é uma exclusividade tupiniquim. Os Estados Unidos, que são a referência cultural de uma boa parte desses arautos do conservadorismo, com seu neopentecostalismo televisivo agressivo, também são os maiores difusores do abuso e da sexualização de crianças e adolescentes em sua indústria cultural. Basta acompanhar o noticiário de variedades para constatar a que nível os atores mirins são transformados em “produtos” para consumo de um público extremamente predatório.

 

Ainda ontem, ao rolar o mouse pela minha TL do Facebook à procura de notícias sobre a Catalunha, me deparei com uma matéria dos Jornalistas Livres sobre Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things, de apenas treze anos, que é considerada uma das “mulheres” mais “sexies” em terras gringas. Não consigo sequer colocar em palavras o asco que me causa qualquer homem capaz de se excitar sexualmente diante de uma menina púbere (mesmo isso não sendo tecnicamente pedofilia e sim efebofilia) e o cortejo de lembranças horríveis da minha própria adolescência que esse tipo de crápula desperta. Sim, porque meu primeiro assédio ocorreu em um ônibus, quando eu tinha de onze para doze anos e foi algo tão impactante que só consegui verbalizar para minha família há poucos dias, essa masculinidade predatória não é um sinal dos tempos, é algo que existe entre nós desde sempre.

 

Mas vamos continuar fingindo que não existem paquidermes na sala, na cozinha e nos quartos, que elefantes e mamutes não se aglomeram em nossos espaços de convivência, esmagando qualquer possibilidade de autocrítica de uma sociedade que celebra o próprio abuso enquanto vira seu dedo acusador para seus desafetos (qualquer semelhança com a “corrupção” não é mera coincidência).

 

Vamos fingir que é verdade que o ensino da tolerância vai transformar meninos em gays; vamos fingir que a criminalização da violência doméstica vai retirar a autoridade do pater familias; vamos fingir que é normal e aceitável ver homens de mais de setenta anos desfilando com jovens de menos de vinte; vamos fingir que a masculinidade paradoxalmente tão frágil que pode ser ameaçada pela mera existência dos gays e tão predatória que deve atacar qualquer “mulher em potencial” mesmo que esta mal tenha menstruado, é um dado da natureza e não uma construção social; vamos fingir e fingir e fingir, afinal, se não fingirmos, a sociedade pode se esfacelar todinha se os “hômi” não tiverem tudo do jeito que querem…

OS NUS E OS MORTOS, DATA VENIA NORMAN MAILER

18 out

Viena e Berlim eram cidades efervescentes de cultura, arte e densos debates intelectuais na alvorada do século XX. E mesmo com todo o conhecimento de História, Filosofia e Literatura, poucos foram (estatisticamente) seus habitantes que perceberam a ascensão da intolerância, do autoritarismo e do perigo iminente para a civilização. Temos uma tendência, derivada da temporalidade judaico-cristã, a considerar que os avanços sociais não podem reverter, mesmo que o estudo dos eventos históricos nos mostre sempre o contrário.

 

E deveríamos prestar muita atenção quando a sanha utilitarista começa a visar aquelas áreas do conhecimento que “aparentemente” não produzem riquezas nos termos capitalistas. Quando as universidades começam a ser sufocadas para que reduzam seus programas de Ciências Humanas e Artes; quando as pífias políticas públicas de promoção cultural passam a ser perseguidas, estigmatizadas e eliminadas; quando museus, teatros, quadros e livros começam a ser censurados. Quando escolas se tornam antros de censura intelectual, à mercê da religião, o autoritarismo já se instalou e a intolerância é uma questão de tempo.

 

E o que vemos aqui, talvez numa imitação tosca do que aconteceu em Viena e Berlim, é o uso sistemático da perseguição pública e do escândalo em relação a artistas e intelectuais para mascarar a ascensão de projetos políticos e legislações destrutivas, visando manter os privilégios das ínfimas castas de posse do poder político e econômico e subjugar a sociedade em relações de trabalho abjetas. Isso significa que devemos parar de lutar pela liberdade de pensamento, expressão e consciência e concentrar-nos nas questões políticas e econômicas? Eu acredito que não e defendo que devemos encarar essa luta de forma sistêmica, uma vez que é tudo parte do mesmo projeto obscurantista e oportunista de tomada do poder.

 

A nudez não é um alvo novo da intolerância dos religiosos e nem dos ignorantes, isso ocorre em parte, porque o pensamento obcecado com pecados e culpas atribui conotação sexual ou erótica a cada centímetro de pele nua exposta publicamente. E não é um fenômeno tupiniquim, uma vez que em países como o Afeganistão, quando da ascensão dos talibãs, o mero uso de sandálias com as burkhas era considerado passível de castigo por provocar a lascívia masculina. É nesse contexto que deveríamos ter lido as atitudes microcéfalas de seguranças e usuários de shopping centers, que perseguiram mulheres por amamentar seus filhos em público.

 

Se uma sandália de camponesa ou um seio materno provocam essas reações entre os usuários do entorpecente religioso, imagine o que um nu artístico pode provocar… Não precisamos mais imaginar, já estamos vendo o festival de boçalidades e violência verbal e física protagonizado por essa massa de manobra dócil à manipulação de padres, pastores e políticos sem escrúpulos, mas violentamente selvagem diante de seus concidadãos que considera não “iguais”. E eu não tenho quaisquer dúvidas de que isso é apenas o começo de tempos obscuros e perigosos.

 

O imperador está nu.

Nua está a corrupção desenfreada desse governo golpista.

Nua está a ambição da bancada latifundiária que quer de volta a escravidão dos trabalhadores do campo.

Nua está a hipocrisia racista dos paneleiros.

Nua está a ambição de poder da bancada religiosa que quer a eliminação física dos que vivem pensam e amam diferente da sua leitura tosca das escrituras.

Nua está a mentalidade entreguista de capachos glorificados do partido que dá sustentação ao golpe.

Nua está a perseguição jurídica e política ao projeto progressista de país.

Nua está a disposição do Judiciário a se perpetuar como casta privilegiada em sua cegueira social impenitente.

 

E toda essa nudez obscena e abjeta nem sequer ofende os defensores da família e da moral. Um artista nu em uma exibição fechada ao público é transformado em “cavalo de batalha”, enquanto malas milionárias e seus carregadores sequer provocam a mínima reação. Simone de Beauvoir, filósofa francesa falecida há décadas, e cuja obra atualmente sequer se contesta mundo afora, recebe moção de repúdio de vereadores campineiros, que chegam ao ponto de qualificá-la como “devassa”, em uma triste demonstração de autocomplacente boçalidade e cafonice jeca.

 

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.” Quando Karl Marx iniciava seu 18 Brumário com esta reflexão, mal sabia que mais de um século depois ainda estaríamos sob o jugo de divindades mortas, profetas mortos, mentes mortas e com o cheiro cada vez mais pungente da própria morte em vida rondando nossa sociedade. O autoritarismo e a intolerância que vivemos hoje nos remetem à atualidade de uma parte significativa do pensamento de Marx.

 

Se a guerra e a necessidade física de sobrevivência revelam, com uma crueza desesperada, a nudez atávica de nossas personalidades, não é de estranhar que os momentos de tensão social extrema revelem o que há de mais abjeto em termos de ambições, exercícios de poder e violência real e simbólica. Do prefeito que desativa os programas sociais para oferecer ração aos pobres; dos pais que expulsam, perseguem ou matam os próprios filhos para não ter que lidar com sexualidades que não conhecem nem entendem; dos juízes que não vem problema em absolver um jovem rico que mata bêbado ao volante, mas perseguem gente pobre que rouba comida com uma sanha assassina; dos pobres que oprimem pobres; dos homens que torturam e assassinam mulheres para manter seu ego frágil e sua masculinidade broxa; dos policiais que torturam e matam impunemente, desde que as peles não sejam brancas; aos vendilhões da fé que amealham fortunas manipulando a desgraça e a ignorância alheias; nossa sociedade está vergonhosamente nua e morta em todo o auge da sua crueldade. E nós vivemos catatonicamente a espectacularização midiática desse nunca acabar de desgraças a cada dia em nossos sofás.

 

Com a devida licença a Norman Mailer, não é preciso estar encurralado em uma ilha sob fogo cerrado para trazer a nu os comportamentos extremos do ser humano. Basta que uma sociedade se entregue aos paroxismos do ódio, mascarados em combates morais. Foi assim em Viena, foi assim em Berlim, assim está sendo em muitas cidades do Brasil.

Amargura

6 out

É bem provável que esta postagem saia já com a data de amanhã devido ao fuso horário do WordPress. Entretanto, é bom que conste que na minha cidade ainda é dia 05 de outubro de 2017. O dia em que eu desisti.

 

Enquanto escrevia meu texto de hoje, alertando para a escalada da violência, um sujeitinho entrou em uma creche em Janaúba, norte de Minas Gerais, e ateou fogo em crianças de quatro a seis anos.  É certo que muito se falará sobre isso nos próximos dias, ao mesmo tempo em que se silencia sobre o suicídio do reitor da UFSC, acossado pelo terrorismo de Estado. O que quer se diga, não será suficiente para equacionar o que estamos vivendo.

 

Saí para caminhar à tardezinha e os bares estavam lotados de gente acompanhando as eliminatórias da copa. Entrei nesta página várias vezes e tive o desprazer de ter que deletar postagens procurando “tretas”. Crianças inocentes morreram queimadas porque um imbecil surtou ao perder o emprego e as mesmas pessoas, que passaram semanas denunciando falsamente exposições artísticas por pedofilia, hoje se omitem.

 

Nesse sentido, a hipocrisia dos defensores da família fica escancarada diante de tal tragédia. Os mesmos que não duvidam de condenar uma mulher à morte para salvar um feto, esbravejam em defesa de crianças hipotéticas e desviam o olhar quando crianças de verdade são afetadas. E depois vem dizer que nós é que somos o mal.

 

Como argumentar com quem não quer ouvir? Como explicar ou dialogar se a pessoa não sabe interpretar um texto? Como lidar com a perfídia pútrida que nos rodeia?

 

Cansei. Admito a derrota. Fui.

O TEMPO PARA OS MEMES JÁ ACABOU E PRECISAMOS IR À LUTA

5 out

A tentação de zoar essa direita energúmena, que emergiu para a esfera pública nos últimos anos, é um escapismo que precisamos superar. Charges, tirinhas e memes são recursos importantes, que auxiliarão os futuros historiadores a reconstituir o processo de esgarçamento da civilidade e do crescimento da violência real e simbólica praticada por esses extremistas. Entretanto, o tempo para o registro está se esgotando muito rápido e precisamos de estratégias para combater a ignorância e o obscurantismo.

 

Dos jovens liberais anacrônicos aos vociferantes defensores da tortura, estamos presenciando um festival dantesco de burrice, ignorância, intolerância, ódio e alienação. Gente que argumenta partindo de silogismos e falsas equivalências, repetindo argumentos fornecidos por seus mentores e que, quando confrontada com a tolice de seu pensamento, vocifera alucinadamente para calar o oponente no grito. Pessoas que perderam a noção do decoro social, se é que algum dia a tiveram, e se comportam como pirralhos birrentos que não aceitam ser contrariados.

 

Não satisfeitos em transformar as redes sociais e os portais de notícias em um quintal para suas explosões de vulgaridade e intolerância, agora escolheram vandalizar igrejas e terreiros e atormentar e perseguir artistas e museus. Desde a dona de casa desmiolada do Ceará que arrebentou imagens sacras do século XVIII a golpes de paralelepípedo, até a multidão de internautas ensandecidos que vê pedofilia em tudo o que desconhece ou não tem bagagem cultural nem capacidade cognitiva para entender, estamos descambando ladeira abaixo em direção ao triunfo da violência obscurantista. É um ajuntamento social complexo e variado que confere um significado completamente novo à expressão jocosa “a vanguarda do atraso”.

 

Com significativa presença legislativa, essa “nova direita” fundamentalista pretende silenciar o pensamento crítico nas escolas, censurar a Arte e expurgar o entretenimento em benefício de um modelo de cristianismo literal e pré-moderno, que envergonharia até mesmo luminares do conservadorismo como Alceu de Amoroso Lima ou Edmund Burke. Manipulando hipocritamente esse discurso de defesa da família “tradicional” e dos costumes, mascaram negociatas, desvios morais e até mesmo a ampla presença de abusos sexuais dentro das igrejas e templos que cultuam, para demonizar seus oponentes políticos e sociais e projetar o conteúdo de suas mentes pútridas naqueles que desejam destruir. Talvez seja por isso que acenam com o berro inconsequente de “pedofilia” até mesmo em pinturas barrocas, sobejamente conhecidas pela representação alegórica, mas se calam sobre os casos de abuso de crianças na vida real.

 

Há que saber diferenciar entre os mentores calculistas de toda essa balbúrdia e a multidão de barnabés com suas tochas e forcados metafóricos, que investe cegamente e projeta seu ódio contra quem os manipuladores mandam.  

 

Na década de 90, o jornalista Bob Fernandez afirmava que a pergunta essencial para analisar qualquer notícia do âmbito sociopolítico no Brasil era “quem está mordendo?”. Uma variante bem interessante do clássico “follow the Money” presente na cultura investigativa. Por isso aqui em casa nos habituamos a analisar o noticiário, entre muitos outros aspectos, verificando quem lucra monetariamente com as iniciativas de controle político e social.

 

E, de fato, sempre alguém lucra. Podem ser os produtores de conteúdos extremistas, youtubers, blogueiros ou formuladores de “movimentos” em prol de valores tradicionais, dispostos a abocanhar patrocínios privados ou verbas estatais para promover a confusão e manipular multidões ensandecidas e, assim, provocar resultados mercadológicos ou eleitorais que beneficiem X ou Y. Não há dúvida que corre muito dinheiro nessas iniciativas de patos e pixulecos, uma vez que um número significativo de seus promotores nem sequer tem como justificar a própria renda.

 

Mas é também sua inserção junto às redes sociais que acaba por produzir renda também. A cada curtida, comentário ou compartilhamento, os produtores de conteúdo “polêmico” ganham mais dinheiro e muitas pessoas bem intencionadas, na tentativa de denunciar esses produtos do ódio, acabam por servir de propagandistas desavisados. E assim o mundo gira e a lusitana roda…

 

Em parte, isso se dá porque algumas das situações ridículas proporcionadas por essa “nova direita” são tão estapafúrdias que se contar ninguém acredita. É o caso do infeliz que ameaçou “descarregar um ‘38” no jornalista que vestia uma camiseta em que estava escrito “Je suis gay” (em francês “eu sou gay”), alegando que o jovem estaria chamando Jesus de gay e demonstrando que não sabe sequer a grafia correta da divindade que adora. A tentação de compartilhar esse tipo de aberração mental é enorme, mas não deveria.

 

Em primeiro lugar porque deveríamos ser melhores do que rir da ignorância e do ridículo alheio. E em segundo lugar porque não deveríamos dar ibope e nem pasto para falsas polêmicas e nem curtidas em sites e postagens de quem vive disso e procura manipular o debate na rede para encobrir as falcatruas de seus políticos favoritos. Ao invés de compartilhar muitos desses conteúdos, bastaria “tirar um print” e produzir uma postagem própria, aí sim criticando.

 

Inclusive porque já passou o tempo de achar graça em gente que boicota museus aos quais nunca foi e nem pretendia ir e é tarde demais para fazer piadas hilárias com quem não sabe que os “anjinhos” e “putti” da Arte Barroca e Renascentista não representam nem nunca representaram crianças. O nível de ódio destilado nas “polêmicas” mais recentes deveria ser um aviso veemente de que essas pessoas estão a um passo de sair assassinando por aí. A destruição sistemática dos terreiros de matriz africana, a tentativa de depredação do túmulo de Chico Xavier e o ataque às imagens de santos católicos não são eventos aleatórios, são a arrancada de um surto odiento de intolerância e intimidação por parte de ignorantes manipulados por forças políticas e econômicas maiores.

 

A violência física contra os professores, que cresce a cada dia, é outro sintoma dessas multidões doentes. Bem como o linchamento e a tortura de “bandidinhos” e os ataques a casais gays (ou a pais, filhos e irmãos que demonstrem carinho em público e possam ser percebidos como gays) também refletem a deturpação de caráter de quem jura que está defendendo valores familiares. Se a situação agora está assim, imaginem como ficará quando houver proselitismo religioso nas escolas, com o aval do Estado…

 

Não vejo como esperar qualquer garantia de segurança social de nenhum dos três poderes, uma vez que lhes convém que nos digladiemos enquanto eles depredam o Estado e enchem os bolsos com polpudos salários cheios de penduricalhos obscenos. Também não acredito em candidatos “milagrosos” que possam abrir mares ou andar sobre as águas e assim frear esta onda pavorosa de demência social. O que nos resta então, senão manter a sanidade e lutar com todas as forças para permanecer vivos e torcer para que os ignorantes se matem entre si?

 

Porque eu não vejo mais a possibilidade de qualquer diálogo com pessoas que aderem cegamente ao linchamento de museus e artistas porque não tem capacidade cognitiva para entender o contexto de um nu na Arte. Muito menos consigo mais ter paciência com hipócritas que querem defender as crianças da pedofilia, mas calam clamorosamente quando padres e pastores abusam de mulheres e crianças. Também não posso ter mais pena de quem é tão reprimido pela educação religiosa, que atribui a todo e qualquer corpo nu um significado sexual.

 

A certeza que fica é que a nossa sociedade está doente. Doente de podridão nas mentes dos que manipulam e dos que se deixam manipular, e que dirigem seus ódios a tudo o que constitua qualquer ameaça (real ou metafórica) a seu viver comezinho e medíocre de ovelhas. E certamente merecem os “pastores” que tem.

 

Fica para nós a luta para manter acesa a tocha da Civilização.