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“NAZISMO DE ESQUERDA” E OUTRAS ASNEIRAS AFINS

21 set

Em 1987, durante meu primeiro ano de Graduação, fiquei conhecendo a triste história do filósofo Walter Benjamin. Ilhado em Portugal, fugindo do nazismo e sem perspectiva de conseguir passaporte ou visto para abandonar a Europa entregue à barbárie, Benjamin optou pelo suicídio. O pensador escolheu seus termos, ao invés de aceitar ser tangido como gado em direção ao extermínio.

 

Já mencionei aqui que uma das condições inerentes à juventude é a arrogância e, repito, naqueles tempos de faculdade éramos todos irônicos e blasés e pensávamos poder julgar até mesmo aqueles de quem jamais alcançaríamos ser sequer a sombra. A atitude de Benjamin, incompreensível naquele momento em que o mundo se abria para nós, adquire hoje um significado muito mais profundo e doloroso. Nenhum de nós jamais imaginou que viveria para ver a barbárie bater às portas do nosso prosaico “país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza”.

 

Eu, Anna Gicelle García Alaniz, brasileira naturalizada, com cinquenta e quatro anos completos neste ano de 2018, mestre e doutora em História Social e pós-doutora em Filosofia da Educação, esposa, mãe e dona de casa, venho aqui dizer humildemente que não sinto qualquer vontade viver na sociedade que se avizinha. O flerte suicida com a barbárie, que nos assola a cada dia e ameaça nossa integridade física, moral e intelectual está sendo demais para as minhas forças, prejudicando minha saúde e minha sanidade. Não consigo imaginar perspectivas de vida e sobrevivência para minha família e eventuais futuros descendentes e isso me aflige a um ponto de paralisia.

 

Vivemos tempos tão inimaginavelmente esquizofrênicos que as pessoas do meu bairro passam seus dias como se não tivéssemos nossa sobrevivência econômica retalhada por um governo ilegítimo. Meus vizinhos seguem suas rotinas sem questionar os rumos das nossas vidas e da sobrevivência de nossa sociedade. E eu tenho medo de toda essa “gente de bem”, que sabe lá o que guarda dentro de si, sob essa aparência de normalidade, enquanto as redes sociais deliram e destilam uma violência inaudita.

 

A internet encurtou a distância entre os estabelecimentos que se dispõe a “formar e influenciar opiniões” e o grande público massificado pela rotina esmagadora da modernidade. Antes, quando um oportunista escrevia um Best-seller deplorável sobre deuses alienígenas, era necessário que as pessoas lessem (ou ao menos assistissem a algum documentário medíocre) para que essas ideias se espalhassem. Hoje temos a produção massiva de conteúdos inescrupulosamente falsos sendo divulgados por canais a cabo (que se pretendem educativos) e canais e sites da internet financiados por ONGs e fundações de ética duvidosa.

 

É assim que, para nossa suprema vergonha, mimetizando o cidadão médio estadunidense (burro, ignorante, fanático e sem noção), um certo número de brasileiros resolveu dar as costas à educação formal e passar a acreditar em qualquer mentira ou falácia disponível nas redes. Energúmenos que defendem que a Terra é plana sequer imaginam que os manipuladores que disseminam esse tipo de asneira ganham dinheiro às suas custas e se congratulam com sua ignorância abissal. E fecham deliberadamente suas mentes à fartura de evidências físicas presentes no pensamento humano há milhares de anos, se considerarmos que Eratóstenes mediu a circunferência do nosso planeta duzentos anos antes da Era Comum.

 

Do mesmo modo que, nestas últimas semanas, outro grupo peculiar arrastou o nome do Brasil na lama da ignomínia, ao pretender ensinar aos integrantes da legação diplomática alemã no país que “o nazismo era de esquerda”. Não dá para imaginar que mente subdesenvolvida e que raciocínio porco consegue abstrair da fartura documental de evidências sobre o caráter de extrema-direita do nazismo, para defender dois ou três argumentos imbecis, mesmo diante de pessoas que dominam o assunto. A absoluta falta de educação, civilidade e “desconfiômetro” desse grupo de ignorantes, que os leva a chamar pesquisadores e intelectuais de “burros” e acreditar que sua visão tosca do mundo é mais real que a realidade, é estarrecedora.

 

Mas não surge do acaso. É apenas mais um capítulo no ignóbil desmonte (promovido por interesses classistas e financeiros) do sistema de ensino público: progressão continuada, currículos escolares sob ataque do fundamentalismo religioso, humilhação e maus tratos sistemáticos aos professores, promovidos por governos que jogam a cavalaria contra os docentes enquanto festejam suas polícias que executam jovens negros em plena luz do dia. Não, os imbecis de plantão não são obra do acaso e sim o projeto de nossas classes dominantes e seus apaniguados na gestão pública.

 

E não apenas isso. Podemos atribuir uma boa parcela da responsabilidade por esse bando de malucos sem controle à ausência de crítica parental: pais que não corrigem seus filhos (e que agridem os professores quando estes o fazem) são igualmente responsáveis. Nada de bom pode surgir quando os pais acreditam mesmo que seus rebentos espinhentos de doze anos sabem mais que um professor que estudou décadas.

 

E somos obrigados a ver o esfacelamento dos consensos democráticos tão duramente conquistados pelo Ocidente nos últimos duzentos anos, enquanto os ignaros berram “comunista” a tudo o que não conhecem, não entendem e nem tem capacidade para analisar. E se encaminham com alegria para um mundo em que tochas e forcados substituem livros e fogueiras e pelourinhos fazem o deleite de sua avidez pela violência. Enquanto nós tentamos argumentar e salvar um mínimo de sanidade em uma sociedade que mergulha com gosto no abismo da ignorância e da violência.

 

A profunda amargura que sinto, ao ver ex-alunos meus apoiando um projeto de poder baseado na exclusão social, que defende a tortura e a morte da diversidade, só pode ser comparada à perplexidade que me causa a inércia da sociedade civil perante o perigo que nos ameaça. Em nome da tolerância e da liberdade de expressão, a sociedade se omite diante de discursos de ódio e da promoção da violência gratuita contra minorias e da caça às bruxas promovida contra a universidade pública. Instâncias da administração pública pululam de fundamentalistas medíocres dispostos a rasgar a Constituição, a rifar Estado Laico e brandir suas bíblias da Idade do Bronze como única lei legítima para a Nação.

 

E ainda há que acredite que basta uma eleição para colocar fim a esse descalabro. Essa tola ingenuidade suicida ainda vai ser responsável pelo declínio definitivo dos nossos padrões civilizatórios. Não é possível ser tolerante com a intolerância, é necessário ter uma ação social e jurídica exemplar contra o negacionismo e a cultura do ódio.

 

Doze dias nos separam do primeiro turno da eleição, marcados por toda sorte de manobras asquerosas e falsidades por parte da extrema-direita, mas também dos acólitos midiáticos do deus mercado. E depois haverá, quem sabe, um segundo turno igualmente feroz e suicida, alimentado por toda sorte de paranoias e ignorâncias. E depois haverá o resto de nossas vidas, espero.

 

E décadas serão necessárias para reverter a farta quantidade de asneiras que encontram fácil acolhida entre os que preferem amesquinhar a sociedade para poder sonhar com uma riqueza que nunca virá, a repartir e incluir todos sob o manto solidário da Humanidade.

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O PARADOXO DA LEGALIDADE

17 set

Um dos elementos mais paralisantes da crise atual das esquerdas no Brasil é a obsessão por manter-se sempre nos princípios da legalidade. Talvez isso resulte, em parte, das feridas não cicatrizadas do período ditatorial, quando “pegar em armas” ocasionou o efeito oposto ao desejado, resultando em morte, tortura e prolongando a sobrevida de um regime asqueroso, ao invés de libertar o país como se desejava. No processo de redemocratização, as lideranças dos mais variados setores das esquerdas vêm porfiando em manter suas atividades dentro da mais estrita legalidade, mesmo que isso nos custe o país e a sobrevivência.

 

E não estou dizendo que, enquanto militante, eu mesma seja muito diferente do comportamento que ora critico. Está aí meu texto defendendo A Justiça Burguesa, por motivos históricos, mesmo em face do golpe de estado, postado aqui em Março de 2016. Existe na maioria de nós, por motivos dos mais variados, uma paixão cega pela excelência moral e comportamental, que nos leva a afundar com o navio, mesmo quando os botes ainda nos acenam com lugares suficientes para salvar a todos.

 

E sei que o massacre midiático sofrido na última década criou a impressão de que a esquerda é tão corrupta quanto a direita, senão mais. Sobre isso é quase impossível dialogar com a maioria dos defensores de mitos e mercados, uma vez que estão dispostos a acreditar na nossa demonização, para além de qualquer racionalidade ou sanidade mental. Um magote irrisório de corruptos foi o bastante para que toda a militância ficasse marcada, sabe-se lá até quando.

 

Nesse sentido, é preciso que o leitor deste texto tenha a sofisticação de raciocínio suficiente para distinguir a que me refiro quando uso o termo legalidade. É à defesa do Estado Democrático de Direito sejam quais forem as circunstâncias, que vimos consolidar-se no processo de democratização nos últimos trinta anos, sacrificando no altar da governabilidade, as memórias dos supliciados pela ditadura e os princípios mais caros ao ideário progressista, quando não socialista. É a defesa da estabilidade, mesmo em face de um golpe de estado que atropelou a própria Democracia e rasgou a Constituição, mas que recebeu por parte das estruturas dos poderes da República uma “maquiagem” tosca para se travestir de legalidade.

 

É nesse sentido que devemos ler o comportamento do ex-presidente Luis Inácio da Silva, o Lula, ao entregar-se feito cordeiro do sacrifício a um Judiciário parcial e classista. E ao continuar interpondo recurso após recurso, sabendo que serão negados porque esse poder está tão involucrado no golpe de estado quanto os outros dois, a ponto de desconhecer a Constituição e desrespeitar toda sorte de tratados internacionais, dos quais o Brasil é um signatário histórico. Ao tentar manter-se estritamente na legalidade, a defesa de Lula e ele mesmo alimentam a ilusão de que as instituições democráticas continuam funcionando, quando basta uma olhada superficial para constatar que perdemos nossas liberdades e direitos diariamente e sem remissão.

 

Nesse sentido, o processo eleitoral ora em curso apresenta-se como uma farsa, marcada pela mais escancarada desfaçatez com que os setores golpistas se dispõem a legitimar seu crime contra a democracia através das urnas. Não é apenas a prisão sem crime de Lula e a supressão sistemática de seu nome pelos meios de comunicação, muito embora fosse o franco favorito nesse pleito, é também a maneira insidiosa como esse funcionamento farisaico e “meia-boca” das instituições democráticas se destina a manter os imbecis na ilusão de que está tudo sob controle. E a esquerda disputa essas eleições como se realmente houvesse qualquer possibilidade de retomar o Executivo.

 

Há sinais de sobra no ar de que se as eleições não consolidarem o golpe e o projeto neoliberal, a escalada da repressão e do cerceamento político e social retomarão níveis ditatoriais. A saber, o flerte descarado da emissora líder de audiência com o candidato protofascista, a crescente presença de discursos militaristas e de militares pronunciando-se sobre temas que não lhes concernem, em suma, um total desrespeito à Constituição e ao Estado de Direito. De nada adianta a ONU cumprir seu papel, se os EUA e seus puxadinhos estão apoiando não apenas o golpe, mas a redução sistemática da América Latina a um grande “favelão” sem expressão política ou econômica.

 

E eu insisto que essa obsessão moral com a legalidade, que nos paralisa e nos leva a confiar nossas vidas a nossos algozes, é uma consequência direta do saneamento dos nossos discursos revolucionários, em prol de uma sociedade pacífica e estável. Sacrificamos nossos sonhos de Revolução para aceitar o possível oferecido por políticas de conciliação e reformismo, não percebendo que somos o elo frágil da corrente e seremos sempre sacrificados no altar dos mercados. Os partidos que conservaram o discurso incendiário transformaram-se em caricaturas nanicas e irrelevantes de uma voz social que deveria ser tratada com mais carinho e respeito.

 

O anacronismo das poucas vozes revolucionárias, que continuam dialogando com o século XIX, ao invés de ir ao encontro do século XXI, permitiu que o reformismo se consolidasse como a única política possível. O que fazer, então, quando o reformismo se transforma em uma camisa de força, que nos impede de enfrentar a realidade nua e crua? Essa é a pergunta que deveríamos estar discutindo e não as opções eleitorais furadas que ora se oferecem.

 

Quero dizer com isso que devemos pegar em armas? Claro que não, seria patético e fadado à derrota, nesta altura do campeonato, um bando de intelectuais barrigudos, estudantes sem preparo e movimentos sociais dispersos e pontuais enfrentando todo o aparato repressor e o sistema econômico mundial. Sem preparo, sem armas, sem projeto e sem acordo seríamos a presa fácil e quem diz o contrário deveria “maneirar” nas bravatas e respeitar mais a vontade popular.

 

Nesse sentido, a retomada do discurso revolucionário (proponho) deve passar por uma releitura das conjunturas sociais, econômicas e históricas e adequar-se ao momento em que vivemos. Deve propor ações factíveis, dentro dos limites possíveis, mas que sejam ações que perdurem, que não possam ser desmontadas sem mais por algum Congresso venal e traiçoeiro. E mais, ainda, deve sair dos ambientes universitários resguardados (por quanto tempo ainda?) e ganhar as ruas no cotidiano, não em passeatas, mas no diálogo com o resto da população.

 

Precisamos abandonar as “igrejinhas” em que se transformaram certos partidos à esquerda e formar uma grande frente progressista, se quisermos permanecer relevantes. Mas, no cotidiano, precisamos retomar os sonhos de Revolução e atualizá-los de maneira que possam ser compreendidos por qualquer cidadão minimamente pensante. Estamos órfãos de um ideário atualizado e continuamos pensando nos termos dos líderes de “antes de la guerra”, o que nos torna anacrônicos e solitários.

 

A onda reacionária da ultradireita, que varre o hemisfério Norte neste momento e nos ameaça com décadas de autoritarismo racista, xenófobo, misógino, homofóbico e intolerante é uma ameaça tangível, não se trata de mero alarmismo. E vem sendo “martelada” em maior ou menor medida em todos os países da América Latina, não apenas no Brasil, trazendo ao palco político o que existe de mais execrável e asqueroso em termos de liderança social e religiosa. Esses “talibãs” do cristianismo, que defendem a morte, a tortura e a sujeição da diversidade social, preferem o país massacrado e falido a diverso e livre.

 

Diante da minha própria experiência, considero esta a “crise das crises”, uma vez que a paralisia que toma conta das esquerdas, em níveis planetários, ameaça dissipar-se em discursos e narrativas, com vista aos livros de História e não à realidade da vida. Nunca fomos tão conscientes da nossa historicidade, o que faz com que lideranças e movimentos sociais joguem “para a galera”, “para ficar bem na fita”, para deixar suas narrativas impressas nos livros do futuro. E, enquanto isso, a sociedade se esfacela a olhos vistos e caminhamos direto para um tipo de barbárie cibernética desconhecida.

 

Este blog tem sido o único lugar em que consigo dimensionar minha perplexidade e meus medos com relação à nossa sobrevivência enquanto espécie pensante. À medida que as minhas perguntas se adensam, as respostas fogem e me abandonam à deriva. Um bote sem remo diante do navio que afunda sem remissão.

FOI CRIMINOSO

3 set

Em 2002, ao completar seis anos, Débora pediu para ir ao Rio de Janeiro para conhecer o “museu com a preguiça gigante”. Tendo assistido a uma reportagem sobre os fósseis e esqueletos do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, ficara fissurada na ideia de uma preguiça pré-histórica. E não fazia questão de festa ou bolo de aniversário, queria conhecer o Museu.

 

E nós vivíamos em uma pindaíba desgraçada. Contando cada centavo para pagar as contas e parcelando tudo o que podíamos, estourando limites para tentar superar o legado dos anos FHC, que nos custaram sacrifícios dos mais variados. Nunca viajávamos e a cada aniversário fazíamos uma festinha em prestações para que Débora pudesse ter boas lembranças.

 

Nenhum de nós teve sequer a coragem de explicar os custos desse tipo de viagem, afinal, ela estava pedindo para ir a um Museu e isso para nós era a validação de toda uma ideia pessoal de educação. Sentamos e começamos a fazer contas, de onde tirar, como parcelar, aonde ir, uma vez no Rio, considerando que só poderíamos passar um dia lá e que no dia seguinte ela deveria estar de volta à escola. E conseguimos, e levamos nossa filha também ao Paço Imperial e ao Museu de Belas Artes, uma vez que a Biblioteca Nacional (sempre em reformas) não estava aberta ao tour de visitação.

 

E tiramos apenas meia dúzia de fotos em uma daquelas maquininhas de plástico, a pilhas e com filme. Eram outros tempos, as fotos hoje se encontram em álbuns e os negativos em caixas, podendo ser “escaneados” e digitalizados conforme a necessidade. As lembranças se esgarçam com a idade e o tempo.

 

E passamos um dia lindo, jurando voltar sempre que pudéssemos, o que só aconteceu, de fato, em 2010. Ano passado, quando ia ser aberta a cápsula do tempo, estávamos novamente em momentos de aperto financeiro e não tivemos a menor condição de voltar. Agora não mais.

 

 

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Foto: Eduardo Ramos Dezena, 2002.

 

Haverá na grande imprensa um cortejo de lágrimas de crocodilo e de reportagens sobre como o Museu era importante e do acervo incomensurável que acaba de ser consumido pelas chamas. A mesma imprensa que aplaudiu a PEC do Teto dos Gastos, que condenou à morte não apenas este Museu, mas que fere fatalmente o exercício da Ciência e da Tecnologia e esmaga as Universidades sem compaixão. A mesma imprensa que promoveu e legitimou o golpe jurídico-legislativo, que vem arruinando nosso país e inviabilizando qualquer espécie de futuro, que não seja para aquele um por cento.

 

Neste momento nem tenho cérebro para assimilar a perda do acervo e choro pela minha profissão tão vilipendiada, pelas lembranças que terei que guardar para o resto da vida porque o lugar real não existe mais. Choro porque passei a semana convivendo com um grupo de estudantes maravilhosos e tenho vergonha do mundo que estamos deixando para eles. Da nossa impotência, da nossa insignificância, do país que poderia ter sido nosso e hoje se encontra sequestrado por ávidos congressistas, togados e administradores, que dessangram o Estado com seus salários e penduricalhos de cinco ou seis dígitos, enquanto as instituições realmente necessárias fenecem à míngua.

 

E é por isso que afirmo que foi criminoso. Pode até não ter sido premeditado, mas o descaso, o abandono, a sabotagem e a humilhação pública, a que cientistas e historiadores são submetidos diariamente, para conseguir sobreviver e realizar suas pesquisas, culmina hoje com o incêndio arrasador de nosso museu mais tradicional. Autoridades omissas, ausentes, indiferentes e até (por que não dizer) inimigas do conhecimento, provavelmente contam as horas para poder beneficiar algum “amigo” e construir um shopping onde o Museu funcionou por mais de um século.

 

Simbólico e emblemático. Toda a hipocrisia do mundo não alterará o fato de que o Museu Nacional foi deixado à míngua por dois anos, sem verbas para manutenção e funcionamento. Ao queimar, lançando as labaredas noite adentro, queima também uma parte da nossa esperança de manter a razão e a sanidade em meio ao caos de ódio e ressentimento, que caracteriza os dias atuais.

 

Não faltará, entre aqueles ignaros que consideram os estudos de História uma ameaça a seu mundinho limitado, quem comemore a destruição das perspectivas de pesquisa e do acervo. Temos visto chamados demais à queima de livros, para não perceber o simbolismo presente na própria “queima do saber”. O emblema do fogo parece por demais “adequado” neste presente, que celebra a ignorância e a truculência.

Por isso, permitam-me, no calor do momento, amaldiçoar cada golpista desgraçado, cada defensor do “nazismo de esquerda”, cada “terraplanista”, cada queimador de livros. E amaldiçoar também cada secretário, ministro ou mero burocrata, que do alto de seus cargos e salários auferidos para defender o livre exercício da pesquisa e do conhecimento, se omitiram e permitiram o descalabro em que nos encontramos. E amaldiçoar todo obscurantista, seja fiel, padre ou pastor, que acredita que basta um único livro para matar a sede de conhecimento da Humanidade.

 

Como um dia cantou Violeta Parra: “yo los maldigo de veras”. Que não tenham sequer um segundo de alento ou de descanso nesta vida e nas outras, que eventualmente possam existir (não que eu acredite). Que paguem com seu próprio sangue a tragédia que causaram ao país, da qual este incêndio é um dos tantos desdobramentos.

 

E mais não digo.

DÍVIDAS HISTÓRICAS

26 ago

Ontem morreu John McCain e, com ele, talvez um dos últimos lembretes constantes da atrocidade que foi a Guerra do Vietnã. O longevo congressista conservador foi abatido em 1967 ao bombardear civis e permaneceu durante cinco anos e meio sendo torturado pelos vietcongues até finalmente ser liberado. Por ter quebrado sob tortura e ter gravado retratações de propaganda de guerra, ao voltar para casa afastou-se das Forças Armadas dos EUA, quebrando uma tradição familiar de várias gerações.

 

Vivo, McCain era (ao mesmo tempo) um símbolo de vergonha e derrota. Morto, a imprensa e as redes sociais enterram com ele todo o embaraço das atrocidades cometidas em uma guerra covarde, empreendida contra um país muito mais pobre e muito mais fraco, e mesmo assim perdida. Enterram com ele qualquer possibilidade de retomar a discussão dos crimes contra a Humanidade cometidos pelos ianques no Vietnã.

 

É tabu falar mal dos mortos e por isso não pretendo falar da atuação individual de McCain e sim de todo o processo histórico de que ele fez parte e de como é pertinente a discussão sobre as dívidas históricas.

 

Tribunais revolucionários são acusados constantemente de parcialidade por personalizar dívidas históricas e permitir ajustes de contas entre setores da sociedade em guerra civil. Mas raramente se questiona a parcialidade e os interesses envolvidos nos tribunais de guerra do século XX. Se houve Nuremberg para os alemães, por que não houve um similar com o mesmo alcance e a mesma publicidade para os japoneses, responsáveis por toda sorte de atrocidades no Pacífico, na China e na Coréia? Por que os EUA não foram punidos por suas duas bombas atômicas? Por que a carnificina do Vietnã permanece impune?

 

Você poderia argumentar que são os vitoriosos em uma guerra que estabelecem o caráter dos tribunais que se lhe seguem. Assim, Nuremberg aconteceu (dizem) por instância e insistência do exército soviético, enquanto o interesse econômico dos EUA em ocupar o Pacífico permitiu que poupassem o Japão das humilhações a que a Alemanha foi submetida. E isso pode ser verdade em termos, mas a situação é muito mais complexa e requer todo um estudo geopolítico que não é o objetivo deste texto.

 

No caso de Hiroshima e Nagasaki, o armistício que se seguiu e a consequente vitória obtida na guerra parecem justificar as centenas de milhares de cadáveres de civis inocentes. Não se discute com a mesma intensidade dos campos de extermínio (nem em termos judiciais e nem entre os crimes contra Humanidade) o fato de que se a bomba atômica era para ter um caráter dissuasório, a segunda bomba não se justifica do ponto de vista estratégico. Não que a primeira bomba se justifique em hipótese alguma, mas ainda existem os infelizes que argumentam que, dando fim à guerra, essas bombas pouparam as vidas de milhares de soldados.

 

Pessoalmente, não apenas me recuso a “comprar” essa argumentação, mas também não considero que as vidas dos soldados fossem mais significativas e importantes que as dos habitantes de Hiroshima e Nagasaki. Para mim, o bombardeio permanece como um crime contra a Humanidade e um crime impune, que nenhuma vantagem comercial ou política pode sanar. E abriu um precedente para a impunidade de guerra que nos persegue e assombra até os dias atuais.

 

Nesse sentido, quando os EUA se abateram sobre o pequenino e miserável Vietnã (usando seu arsenal de bombas convencionais e agentes químicos, seus marines movidos a entorpecentes e toda a parafernália da indústria cultural martelando os argumentos da Guerra Fria contra o comunismo) esperavam uma vitória acachapante e por isso não tiveram pudores em cometer todos os crimes de guerra imagináveis. Usaram os desfolhantes químicos em florestas e plantações, contaminando a população, o solo e os rios; queimaram aldeias cheias de idosos, mulheres e crianças; bombardearam alvos civis com armas convencionais e químicas e deixaram um legado de morte, invalidez e miséria totalmente monstruoso. E ninguém foi responsabilizado ou punido nos termos minimamente necessários.

 

Durante duas décadas os vietcongues resistiram (com o apoio soviético) à coalizão de países anticomunistas, e quando finalmente conseguiram expulsar os estadunidenses de seu território, não eram significativos o bastante (em termos de geopolítica) para punir aos derrotados por seus crimes. Não houve tribunais internacionais para os marines, nem sanções para seu país. Sem sombra de dúvida, o poder econômico falou mais alto e o mundo manteve suas censuras apenas no âmbito literário ou documentário.

 

Nesse sentido, John McCain leva para o túmulo um dos últimos lembretes de que os vietcongues foram mais poderosos em sua luta do que o país mais poderoso do planeta. Que, apesar de todo o poderio e da “tradição”, os ianques foram escorraçados de um país asiático quase que apenas pela resistência sobre-humana de um povo que se recusou a ser esmagado. E que não recebeu reparações nem físicas e nem morais para tudo o que sofreu e ainda assim sobreviveu.

 

A recusa em discutir o papel de combatentes como McCain, desde a covardia da luta desigual e do uso de armas químicas, passando pela própria ação política dos EUA de esmagar qualquer tentativa de redimensionar seus mitos sobre essa guerra, está na categoria das dívidas históricas que perseguem a Humanidade até aqui e daqui para o futuro. Em vida, McCain chegou a ser perseguido e ridicularizado em seu próprio partido por ter “quebrado” sob tortura, mas jamais foi questionado por bombardear civis. Parece que quando as vítimas não são brancas, também não são vítimas.

 

Para nós, aqui no Brasil, o sentido de dívida histórica adquire um significado ainda mais premente. As sequelas hediondas de trezentos anos de escravização de africanos são vistas apenas como “mimimi” ou “vitimização” por amplos setores da nossa sociedade. Da mesma forma que as raízes patriarcais que construíram os papéis de gênero em nosso cotidiano são normalizadas e qualquer questionamento combatido com veemência.

 

O patriarcado e a escravidão não foram apenas heranças malditas do colonialismo, mas constituíram a identidade na construção da nação independente por mais de seis décadas após 1822. E são responsáveis pelos índices inauditos de violência que nos acompanham no cotidiano e que ultrapassam o espaço público e invadem a privacidade das relações familiares. Violência social, violência policial, violência de gênero, violência doméstica, violência institucional são faces da mesma dívida histórica, que hoje os setores dominantes da nossa sociedade escamoteiam e ridicularizam.

 

Redimensionar as dívidas históricas e propor reparações deveria ser prioridade em todo o planeta se queremos superar o limiar da nossa própria destruição. Que se respeitem os mortos, vá lá, mas que se respeitem TODOS os mortos. E que se discuta, se areje e se jogue a luz da razão em toda essa mixórdia maldita que nos rodeia.

OS NOVOS LOMBROSIANOS

14 ago

(alerta: texto com doses consideráveis de ironia e sarcasmo, leia com cuidado e atenção e procure ajuda se necessário)

 

Cesare Lombroso (1835-1909) é referência obrigatória não apenas para os estudiosos do século XIX, mas também para quem efetua recortes temáticos nas áreas de Direito, Medicina e História. Tido como o criador da Antropologia Criminal, exerceu e lecionou diversas disciplinas especializadas como Psiquiatria, Cirurgia, Criminologia e foi também higienista e alienista. Suas pesquisas e experiências, nos sistemas prisional e manicomial, influenciaram a Escola Positiva do Direito e causam sérios problemas sociais até hoje.

 

As teorias lombrosianas sobre o “homem criminal nato” e a “desigualdade das raças” alimentaram o “racismo científico” e dele se alimentaram em uma rara simbiose de cegueira e preconceito, que ainda encontra ecos nos códigos penais no Ocidente. O período passado exercendo o papel de antropólogo forense e seus estudos em cadáveres de criminosos, pacientes de hospício e internos do sistema prisional, deu lugar a uma série de tentativas de reduzir a delinquência a uma manifestação de doença mental. Não apenas patologizando comportamentos, mas também procurando no aspecto físico dos indivíduos as marcas que poderiam significar a propensão para a doença mental e para o crime.

 

Nós de Humanas brincamos muito e impiedosamente com essa ideia ridícula de que seria possível reconhecer um ladrão, um assassino ou uma adúltera pelo formato de suas orelhas, sobrancelhas ou pelo espaço entre seus olhos. Mesmo que Lombroso tenha passado décadas de sua vida medindo crânios, orelhas, frontes, narizes e criando tabelas e repertórios de “faces criminosas”, não existe qualquer vestígio de acuidade científica em suas teorias. Não passam de um empolado palavrório racista, historicamente datado e com um endereço classista muito bem demarcado.

 

Não sem ironia, Umberto Eco dedica um lugar em sua História da Feiura a Lombroso, reproduzindo algumas de suas sandices mais venenosas no que se refere à percepção da raça. Porque desde Leonardo e seus apontamentos sobre a perfeição da face até os modelos atuais de beleza, é no estabelecimento de um estereótipo de feiura que se nutre de preconceitos de raça e classe, que devemos ler as tolices lombrosianas. A rigor, podemos deduzir que este autor (sob toda a verborragia pseudocientífica) associa a bondade e a nobreza a um ideal de “beleza normalizada” e atribui aos que considera feios, toscos e animalescos o estigma da doença mental, do crime e da maldade.

 

Hoje, chamar qualquer indivíduo de lombrosiano implica em dizer que é feio, tosco ou bruto, daquelas feiuras que são consideradas quase atávicas. É uma daquelas brincadeiras que nós de Humanas utilizamos para caracterizar aquela fauna lastimável de políticos, pastores e milicos de ultradireita, sempre tão ignorantes, truculentos e intransigentes na própria intolerância. Ironias à parte, jamais nos ocorreria debochar desse modo de alguém realmente em situação periclitante, doente ou pertencente à vasta parcela da Humanidade que é tratada como minoria apenas porque não é identificada como “branca”.

 

Mas se você pensou que eu faria um texto para debochar da milicada tosca aspirante ao Planalto, sem querer ofender, como diria o Rogerinho do Ingá: “achou errado, otário”. Existe gente demais dando ibope e palanque para essas tristes nulidades, apologistas da violência e dos instintos mais primitivos do ser humano. Este texto é para refletir sobre outros setores à Direita e ao Centro, lombrosianos por convicção e não por aparências.

 

Os novos lombrosianos nada têm de novo, ao contrário, são figurinhas carimbadas na política nacional há décadas. Alguns se locupletaram durante o período ditatorial e sobreviveram à redemocratização parasitando partidos (tanto os sem qualquer expressão, que ganham na baciada ao unir-se a nulidades partidárias similares, quanto os grandes partidos de transição e polarização ao Centro e à Direita) e outros são membros de oligarquias regionais de várias gerações. Em comum, todos se consideram “brancos, cristãos, heterossexuais” e são velhos e ricos.

 

Desde cedo já preparam filhos, sobrinhos, netos, genros e até cunhados para atrelar ao Estado seus interesses pessoais e garantir rendas nababescas, enquanto rapinam sem piedade o erário público, tudo “dentro da lei” bem entendido. E quando a lei não ajuda, o Judiciário se encarrega de “aplainar e lixar arestas e calombos”, uma vez que juízes e promotores pertencem ao mesmo grupo social e se identificam com suas regalias e privilégios. E são todos “cidadãos de bem, tementes a deus e defensores da tradicional família brasileira”. E, claro, em sua grande maioria são homens.

 

Eles são lombrosianos porque compartilham com o “mestre” o pavor da aparência dos setores empobrecidos e marginalizados da população. Enquanto Lombroso patologizava os pobres com o estigma da doença mental e da criminalidade, seus atuais discípulos discutem às escondidas suas estratégias de extermínio e formulam leis e políticas destinadas a mergulhar a pobreza no crime e depois punir exemplarmente esse crime. Vivem em sua “bolha” de prosperidade meritocrática e relegam o resto da Humanidade aos lixões e periferias, na esperança de que desapareçam para que seu mundo seja melhor.

 

Os novos lombrosianos defendem radicalmente a vida quando esta não passa de um embrião ou um esfregaço de poucas células, mas são radicalmente contra toda e qualquer política social que possa garantir um mínimo de dignidade à sobrevivência dessas vidas e seu futuro. Acreditam que tem direito a todo tipo de regalia do Estado, mas acusam de populismo quando o mínimo necessário à sobrevivência é estendido ao resto de seus compatriotas. Defendem liberdades e valores abstratos quando se trata de discursar em público, mas adoram ser servidos e explorar a mão de obra barata até um nível análogo à escravidão.

 

Seus anódinos trajes sociais cinzentos e gravatas genéricas são a moldura perfeita para suas feições imobilizadas pelo botox e seus olhos arregalados depois da cirurgia estética para retirar pele e gordura das pálpebras. Alguns colecionam diplomas de cursos que não honram e outros são oriundos dos meios empresariais, mas o número de médicos e juristas entre eles chega a ser assustador. Todos legítimos herdeiros de seu “mestre” quando se trata de impingir aos pobres a culpa da própria pobreza e de lutar por seus elevadores sociais, seus aeroportos e seus shoppings centers livres de qualquer presença que possa empanar seu sonho burguês de prosperidade e sucesso.

 

Os novos lombrosianos se consideram superiores à fauna medonha de pastores e milicos arbitrários, que hoje infesta a política nacional. Sentem-se ameaçados pelo crescimento desse fundamentalismo nazifascista, que se alastra até mesmo em suas fileiras, mas flertam com esse ideário autoritário como única maneira de manter seu estilo de vida egresso dos tempos coloniais. Compensam sua falta de carisma e sua arrogância natural com o dinheiro proporcionado por sua vasta rede de apoio no meio bancário e empresarial.

 

Estes senhores se apresentam professorais, condescendentes, enfatuados e impecáveis ao consumir vinhos de três e quatro dígitos e discorrer sobre os destinos do país. Querem privatizar universidades, fechar cursos, demitir professores e controlar o que se diz em sala de aula, manipulando para isso seus sequazes daquela fauna nazifascista e atirando-os sobre nós como se fossem cães acossando a caça. Mas querem conservar o poder e não aceitam dividi-lo com seus cães de guarda e caça e por isso estão em pânico diante do quadro eleitoral que ora se apresenta.

 

Os novos lombrosianos oscilam entre o um por cento mais rico do planeta e o primeiro escalão de seus apaniguados. Quando meros burocratas a serviço da oligarquia podem ser muito mais perigosos do que quando realmente ricos e poderosos. Você que me lê deveria saber do que estou falando, afinal, nós os vimos depor uma presidenta legitimamente eleita e destruir o país ao longo dos últimos dois anos.

 

E os veremos recorrer às medidas mais desesperadas nos próximos meses para conservar o poder que acreditam lhes pertencer por direito divino. Não nos iludamos com discursos de espécie alguma, esses senhores não soltarão o osso que sua matilha tão duramente conquistou. E quem pagará o preço por isso seremos nós, como sempre.

OS BLOGS NÃO FINANCIADOS E O GOLPE DE 2016

9 ago

Quando eu me formei em História, no final de 1990, ainda usávamos computadores 286 e XT, em que a CPU ficava “deitada” sob o monitor e os disquetes eram uma novidade. CD’s e outros suportes tanto quanto equipamentos foram aparecendo nos anos que se seguiram. E a internet, até mesmo a discada, demoraria ainda um tempo a tornar-se disponível para a maioria dos pesquisadores.

 

Assim, a quase totalidade das minhas pesquisas de Graduação, Mestrado e Doutorado foi feita presencialmente, bloco e lápis à mão, em arquivos documentais, emerotecas e bibliotecas. O máximo de sofisticação daqueles tempos era ter acesso a material microfilmado no CEDHAL da USP e na Biblioteca Nacional. Os bancos de teses e periódicos de hoje são incríveis quando comparados com a nossa peregrinação pelas bibliotecas das universidades, consultando fichários e fotocopiando teses e periódicos científicos, acionando amigos e bibliotecários em outros estados e países para que nos enviassem materiais e usando mecanismos de empréstimo entre instituições.

 

E não é que fossemos “caipiras” em meio a uma revolução tecnológica, a velocidade das mudanças é que quase tornou nossa maneira de pesquisar obsoleta. Embora ainda acredite que usar o bloco e o lápis para copiar documentos é muito mais saudável (por exercitar partes do corpo e do cérebro que previnem uma vasta gama de males cardiovasculares) que andar com tablets e outras parafernálias, não posso negar que a internet é uma ferramenta fabulosa. Inimaginável Mundo Novo, que jamais sequer sonharíamos em 1981 quando concluí o Colegial (Ensino Médio).

 

Enquanto pesquisadores, temos a tendência de pensar a vida virtual pelo que ela pode oferecer como fonte de pesquisa e levamos mais tempo para perceber que estamos produzindo as fontes do futuro. Outros setores da sociedade, dedicados ao marketing e à formação de opinião, já perceberam há muito mais tempo as potencialidades da produção de conteúdo virtual. O alcance, a facilidade e os meios de interferência social, quer seja de modo educativo, quer seja de maneiras negativas ou meramente diletantes, que a rede permite.

 

Não pretendo aqui listar um repertório dos formatos e meios de produção de conteúdo virtual. Como o próprio título do texto indica, são os blogs que me interessam, enquanto veículo de transmissão de informações, ideias, análises e tutoriais. E são aqueles que não recebem financiamento algum de partidos políticos, fundações ou instituições que oferecem uma pluralidade maior e mais interessante para explorar.

 

E o que é um blog?

 

Blog ou blogue (forma aportuguesada menos popular) é aquele tipo de página que mais parece um diário virtual, podendo ser pessoal ou temático e com conteúdos variados como textos, vídeos, tirinhas ou fotografias. Você pode ter um blog dedicado a estudar o período Tudor na Inglaterra ou a divulgar receitas culinárias. Eles também podem ser políticos, jornalísticos ou artísticos.

 

O que não varia é a necessidade de uma plataforma onde hospedá-lo e que acaba determinando seu formato. Você está lendo este texto em meu blog www.compartilhandohistorias.wordpress.com e aqui você pode encontrar textos críticos sobre História, Política e Cotidiano, mas também clipes das minhas bandas favoritas e desenhos da minha filha ilustradora. Porque este é um blog pessoal não financiado, a propaganda que você vê é postada pelo WordPress e assim eu não tenho que pagar para ter este espaço de discussão.

 

Este formato de disseminação de informações, opiniões, ideias e análises se tornou tão popular, que as agências de notícias e os sites da mídia mais tradicional passaram a “hospedar” blogueiros mais afinados a seus perfis e ideologias. A crise que se abateu sobre os jornais impressos e revistas, que vem demitindo funcionários aos montes na última década, multiplicou a incidência de jornalistas independentes que se tornaram blogueiros. Alguns são realmente independentes e conseguem anunciantes que lhes permitem alguma autonomia financeira, outros nem tanto e ficam à mercê dos interesses das agências que os hospedam ou dos partidos que os financiam.

 

Mas é nos formatos pessoais, não financiados e raramente divulgados, que reside a diversidade maior desse meio. Feministas, ativistas de minorias, professores, historiadores, poetas e artistas oferecem seu trabalho e seus pontos de vista a quem estiver interessado em obter informações para além da “telinha”. E o acesso é absolutamente democrático.

 

E aqui, desculpem a prolixidade da exposição, chegamos ao objetivo descrito no título. Enquanto historiadora, os acontecimentos a partir de 2013 começaram a soar todo tipo de alarme na minha percepção do real e comecei a produzir cada vez mais textos críticos por aqui. Diminuí radicalmente as postagens mais bucólicas e até a confecção de vídeos sobre historiografia e passei a tentar “destrinchar” as notícias que se sucediam da maneira mais agourenta.

 

Embora não me considere foucaultiana em hipótese alguma, uma “arqueologia” dos fundamentos e origens de ideias e falas (que pareciam surgir espontaneamente no cenário social, mas só pareciam) tornava-se premente e necessária. Não fui a única, vários colegas de profissão passaram a denunciar, analisar, classificar os acontecimentos e a divulgar materiais críticos, para contrapor-se aos meios de comunicação solidamente alinhados (salvo raríssimas exceções) ao lado dos golpistas. Na tentativa democrática de produzir senso crítico que pudesse enfrentar o discurso único e hegemônico da grande mídia, passamos também a produzir fontes para o futuro.

 

E afirmo isso sem arrogância ou cabotinismo (embora nem todos vão acreditar) porque eu mesma só fui perceber o que estava fazendo quando um dos meus textos foi selecionado para fazer parte do livro Historiadores pela Democracia. Até então eu me sentia uma Cassandra clamando no deserto contra um golpe de Estado que se tornava cada vez mais iminente, uma vez que não sendo famosa e nem popular, o número de leitores dos meus textos mal passava de algumas centenas. Reconhecer que não estava só, e que minhas avaliações poderiam ajudar algum futuro pesquisador, ajudou a organizar meu pensamento e consolidar meu estilo mais coloquial de abordagem textual.

 

E se você, que ora me lê, se interessou por acompanhar essa trajetória, aqui vai o link para a publicação realizada no fim do ano passado, em que disponibilizei uma seleção em PDF das postagens no blog de 2012 a 2017:

https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2017/12/12/um-registro-deste-blog/

 

Nesse sentido, caberá aos estudantes e historiadores do futuro (talvez nem tão distante) “peneirar” entre nossa imensa produção material, as fontes necessárias para compreender os acontecimentos e os discursos gerados durante o Golpe de 2016. Utilizar a diversidade de vozes proporcionada pela blogosfera para contrapor aos discursos oficiais e ao consenso fabricado pela grande mídia. Sem perder de vista, evidentemente, o alcance restrito de cada uma dessas vozes, mas salientando seu caráter crítico em relação às interpretações do real.

 

Muitos de nós, longe de apenas constituir observadores passivos do processo, saímos às ruas, promovemos o diálogo em comunidades, divulgamos internacionalmente as denúncias sobre o processo arbitrário e fatídico que levou nosso país ao abismo em que ora se encontra. Não conseguimos impedir o golpe e muito menos conscientizar o número necessário de pessoas para articular uma resistência eficiente, mas isso já era esperado, bastava observar, para tanto, a tendência internacional e os humores da geopolítica. Mas não fizemos feio e ainda estamos aqui denunciando e discutindo os rumos da luta cotidiana.

 

A revolução tecnológica que nos isolou do espaço público e nos aprisionou frente aos teclados também nos deu (de uma maneira bem thompsoniana) a hospedagem necessária para produzir e registrar as vozes e os discursos que identificarão nossas lutas para as futuras gerações.

MANUSCRITO ENCONTRADO EM UMA GARRAFA ENTERRADA

3 ago

Saudações a você que resgatou esta mensagem desesperançada. Seja qual for o ano em que se encontra, receba um alô de agosto de 2018, de um país que quase foi, e que se chamava Brasil. É provável que quando esta mensagem for desenterrada, nada mais reste do que ruínas e desolação.

 

Por uma breve década, este país quase conseguiu aliviar as agruras da miséria constante a que vinham sendo submetidos muitos de seus habitantes. Meia dúzia de políticas não muito dispendiosas, mas bem dirigidas, encheram de esperanças toda uma geração, muito embora os apaniguados da classe dominante não parassem de vociferar e ranger os dentes de despeito e ódio. Por essa breve década diminuiu consideravelmente o número de crianças mendicantes, as universidades se coloriram em todos os sentidos e houve uma expansão da cidadania nunca vista nestes tristes trópicos.

 

Mas, e sempre existe um mas (ou dois ou três ou mais), o partido que promoveu esse surto progressista esqueceu-se (ou nunca parou para pensar) que a desigualdade não se abole por decreto. Se assim fosse, a princesa que assinou a lei extinguindo a escravidão teria com isso promovido uma sociedade mais justa já desde aquele então, o que jamais ocorreu. Leis e decretos podem ser destruídos tanto com sua supressão via parlamento, quanto com a indiferença dos que deixam de cumpri-los e os transformam em letra morta.

 

O ilustre partido e seus próceres, devidamente embriagados com o súbito prestígio internacional, deixaram de prestar atenção aos evidentes sinais de frustração dos estratos médios da população, que viam na ascensão social dos mais humildes uma séria ameaça e não um motivo de orgulho. Permaneceram cegos ao caráter conservador da população, que só os votava em função da prosperidade econômica, mas que não apresentava qualquer simpatia pelas pautas progressistas de seu programa. Confundiram resultados eleitorais com mudanças ideológicas e perderam a oportunidade dourada de realmente promover o progresso intelectual de largas parcelas da população.

 

É claro que suas políticas eram etapistas: pensaram primeiro em forrar os estômagos para depois alimentar os cérebros. Acreditavam que teriam todo o tempo do mundo para esse projeto tão louvável. Esqueceram-se de combinar com os outros sujeitos políticos do país.

 

E quando a reação chegou, foi esmagadora. Um Golpe de Estado engendrado nas entranhas dos três poderes da Nação, apoiado por uma mídia subserviente aos interesses mais escusos do capital estrangeiro e por uma súcia de vendilhões travestidos de pastores e padres. O país tomado de assalto por uma corja de abutres brancos, velhos, machos e sem escrúpulo algum.

 

E o desmonte… Você que me lê nem pode imaginar a amargura de ver dia após dia os direitos dos cidadãos sendo eliminados, as riquezas do país sendo rifadas por valores irrisórios e o sonho da soberania sendo imolado no altar do deus mercado para beneplácito dos basbaques e júbilo das corporações do Hemisfério Norte. Você, que encontrou esta garrafa enterrada, será que consegue sentir a dor de ver seu país se transformar em uma mixórdia amorfa de gente indiferente e sem futuro?

 

Quem escreve esta mensagem é uma professora sem cátedra, habitante de uma unidade da federação em que mais de vinte anos de desmando dos governantes destruiu a escola pública e colocou as universidades de joelhos. Crise após crise, vi o mercado de trabalho se fechando para pessoas como eu e a violência da repressão do governo estadual supliciando meus colegas de profissão. E agora, dois anos depois do golpe, essa política de terra arrasada se estendeu às escolas e universidades de todo o país.

 

É apenas uma questão de tempo para que mergulhemos de vez na mais absoluta e abjeta dissolução do ensino público nestas plagas brasilis. Tal estrago nos arremessará duzentos anos no passado e eliminará qualquer possibilidade de um novo surto progressista. As trevas da ignorância e do fanatismo já nos envolvem da maneira mais perigosa.

 

Professores são agredidos por alunos.

Professores são agredidos por seus superiores hierárquicos.

Professores são agredidos pelas forças de segurança.

Professores são censurados para que não ensinem.

Professores são obrigados a calar-se perante forças religiosas.

Professores são demitidos sem motivo justo.

Professores adoecem.

Professores se suicidam…

 

E a sociedade doente avança entre a miséria e a desesperança. Os desempregados se multiplicam, os miseráveis tomam as ruas, os abonados abandonam o país e os saqueadores se refestelam em cargos públicos bem remunerados. E o futuro que quase foi, já não é mais.

 

Você perguntará: por que não lutamos? O que posso dizer? Os partidos da esquerda (e não alivio e nem perdoo partido algum) cometeram a temeridade de acreditar mais na aparência da democracia do que em sua essência. Perderam tempo demais tentando vencer eleições, enquanto a democracia propriamente dita se esvaia diante de nossos olhos, um pouco a cada dia.

 

O grosso da população (e tratava-se de duas centenas de milhões) estava mais preocupado em sobreviver e cuidar de si. Delegando aos dirigentes políticos a tarefa de “salvar” o país e eximindo-se de qualquer esforço em prol da comunidade, pensando que já faziam mais que a obrigação depositando seus votos em urnas a cada dois anos. A maioria nem sequer percebeu o que estava acontecendo, apenas sentiam seus efeitos e dirigiam seu ressentimento e suas expectativas a quem a televisão e o pastor mandavam.

 

E quem seria louco de culpá-los? Trezentos anos de colonização sangrenta, duzentos anos de independência relativa e desigualdade constante não ajudam a formar uma Nação. Apenas grupos de interesses diversos que se digladiam em volta das miragens de poder e fortuna.

 

Mas…

 

Em parte foi essa idealização dos pobres (e essa infinita capacidade para condoer-se e evitar atribuir responsabilidades) que imobilizou as esquerdas. Sempre que um de nós erguia a voz para chamar o Povo às falas, dúzias de dedos nos apontavam como arrogantes, prepotentes e intolerantes. E então chegamos aonde chegamos, com um povinho que espera “salvadores” e não assume responsabilidade nem sequer por limpar os dejetos que seus cães deixam nas ruas, quanto mais por lutar pela sociedade que deseja.

 

Talvez você que me lê já saiba de tudo isso através dos livros de História e considere este manuscrito apenas como um documento interessante. Torço muito para que a sociedade brasileira tenha reencontrado seus caminhos e que você possa considerar este manifesto desesperado apenas como o eco de um passado triste, que já não é mais. Desejo de todo coração que quem me desenterrou ao menos saiba ler e dar voz à minha tristeza, dando sentido a este apelo do passado, em nome da sanidade e da Razão.

 

Um abraço a você do Futuro, desta que um dia sonhou com uma sociedade ferozmente justa e igualitária e uma Educação laica, universal e gratuita.

 

Uma professora.