Arquivo | Meus textos críticos. RSS feed for this section

REPRESENTAÇÕES, PÓS-MODERNIDADE E OS CRO-MAGNONS DA DIREITA

14 set

Que existe um problema de diálogo social no Brasil (e no mundo) é um fato público e notório, uma vez que estamos tendo que retomar algumas lutas do século XIX e outras, pasmem, pré-Iluministas. Senão vejamos, nos últimos três anos este blog já teve que se pronunciar defendendo um governo legitimamente eleito contra um golpe jurídico-parlamentar, denunciando a retirada de direitos sociais garantidos por uma Constituição soberana, combatendo o crescimento dos crimes de ódio contra mulheres, negros e a comunidade LGBT, denunciando a indústria da desinformação, dos fake news, da manipulação e da mentira propriamente dita, bem como o crescimento atroz da censura e da perseguição anti-intelectual diante da Ciência e da Arte. E, para amargura pessoal daquela que aqui escreve, perdemos todas essas batalhas e o país está hoje em uma situação que envergonha e humilha qualquer ser minimamente pensante, diante da indiferença da maioria de sua população.

 

A esquerda brasileira, sempre dividida, digladia-se atribuindo culpas e responsabilidades e clamando por autocríticas, como quem promove autos de fé e espera produzir catarse da violência autoinfligida. Enquanto isso, uma direita oportunista dá voz e protagonismo a uma súcia de trogloditas para que aterrorizem os espaços públicos e virtuais e mantenham a sociedade como refém do obscurantismo. E enquanto brigamos entre nós para descobrir onde erramos, as oportunidades de diálogo social se estreitam cada vez mais porque a direita apela ao atavismo visceral enquanto a esquerda procura por racionalidade onde esta sequer jamais existiu.

 

Vários de meus amigos marxistas são tão virulentos quanto a própria direita ao criticar o fenômeno da pós-modernidade. Enquanto a direita combate as pautas identitárias porque não considera o outro sequer como humano ou digno de interlocução, alguns setores da esquerda acusam essas mesmas pautas de provocarem rachas e rupturas na luta revolucionária. Não admira que, cada vez mais, os grupos perseguidos e espezinhados socialmente estejam procurando desempenhar suas lutas renegando filiações ideológicas tradicionais.

 

Não tenho a pretensão de dominar a bibliografia e nem o jargão pós-moderno, não apenas porque minha filiação teórica é marxista, mas também porque sempre tive a impressão de que esses teóricos estavam mais ligados à área das Ciências Sociais do que da História. É claro que essa é uma percepção minha e é provável que eu esteja enganada, além do que não compartilho a pretensão de dominar o conhecimento em todas as suas nuances, que acomete uma boa parte da nova geração. Prefiro dominar com propriedade a leitura de uma ou duas dúzias de autores, do que me aventurar a dar palpite em temas e domínios complexos apenas de orelhada (em parte por isso abandonei os vídeos, as pessoas solicitavam cada vez mais autores que me eram estranhos, e eu precisava ler muita coisa fora de contexto para poder responder, correndo o risco de interpretar equivocadamente algum autor, por estar fora da minha área de atuação).

 

O que entendo por pós-modernidade é um conjunto de conceitos que descartam a existência de um campo de existência real (desculpem a redundância) para trabalhar com suas leituras, versões, percepções e representações no âmbito social e cultural. É um tipo de leitura que rejeita filiações ideológicas e equaliza forças históricas e sociais (que de modo algum são iguais, idênticas ou igualitárias) e promove o primado das identidades em volta de áreas de concentração como gênero, raça e sexualidades, descartando sumariamente a divisão classista. É uma discussão de grande envergadura e, certamente, concordo que foi um dos fatores responsáveis por inviabilizar qualquer possibilidade de coesão nos movimentos de esquerda.

 

Entretanto, o que me assusta nessa discussão é a distância que ela adquire da sociedade real e das necessidades básicas do ser humano, o que permitiu que essa direita fundamentalista com ranço inquisitório ocupasse os espaços públicos e virtuais e sequestrasse o raciocínio de parcelas cada vez maiores da população. E isso se dá porque o nível de abstração dessa discussão é característico dos meios acadêmicos e está fora do alcance da grande maioria da sociedade, afinal, como tratar de versões e representações com pessoas que ainda precisam da ficção religiosa para manter a sanidade perante a vida? É evidente que a partir do momento em que uma parte considerável das discussões da esquerda migrou da fábrica para os meios intelectuais e adquiriu essa complexidade teórica, sua capacidade para promover qualquer mudança social se esvaiu em elucubrações abstratas.

 

E não estou dizendo, com isso, que a vivência acadêmica deva ser menosprezada, perseguida ou descartada. Ao contrário, sou defensora ferrenha da atividade intelectual e da necessidade constante dessa reflexão teórica sobre o mundo que nos cerca. Se ainda existe racionalidade nesta arena apocalíptica do capitalismo é exatamente devido à existência de uma sólida tradição intelectual contestatória que remonta ao século XII no Ocidente.

 

Quanto mais não fosse o atoleiro que estamos vivendo, bastaria o exemplo da cultura islâmica, que era intelectualmente florescente na virada para o segundo milênio e que a perseguição cristã, os interesses econômicos e o fundamentalismo religioso transformaram nesse deserto intelectual que hoje vemos. Os perigos de ceder ao discurso anti-intelectual estão cada dia mais presentes no convívio social e caracterizam uma tragédia anunciada. Por isso deixo claro aqui que, embora não simpatize com seus pressupostos teóricos, nada tenho contra os pós-modernos que justifique seu silenciamento.

 

O que estou argumentando, dentro das minhas limitações de expressão, é que existe uma esquerda blassé  que descartou a luta de classes e o materialismo dialético em prol do ideário pós-moderno. E esqueceu que vivemos em um país cujas instituições a duras penas se esforçam por sobreviver ao assalto das hordas predatórias de uma elite que se mantém intelectualmente ligada a um pensamento repleto de ranços coloniais. Se a modernidade e o Iluminismo não estão presentes nas percepções da maioria da população brasileira, que dirá a pós-modernidade.

 

Nesse sentido, parece que vivemos de anacronismo em anacronismo. Com grupos anarquistas primitivistas que defendem o isolamento social e o fim da civilização para agrupar-se em comunidades ciclistas veganas. Com feministas trotskistas brancas que defendem uma sororidade que ignora solenemente a clivagem de classe e raça. Com defensores da visão classista que renegam a existência do machismo e do racismo. Com militantes incapazes de gerar uma visão sistêmica que permita o agrupamento em lutas sensatas e plausíveis para além do espectro da política partidária. Com o esfacelamento da identidade básica do ser de esquerda que sempre primou pela solidariedade, pela defesa ferrenha da igualdade e da socialização de bens e serviços.

 

Enquanto isso na Sala da Justiça…

 

Pois é, enquanto isso existe uma direita troglodita que renega todo e qualquer processo civilizatório e se vale da ignorância e da falta de informação dos meios públicos e virtuais para promover o preconceito e a intolerância, emprestando as técnicas do fundamentalismo religioso para capturar a lealdade dos incautos. E nós estamos impotentes porque passamos a maior parte do tempo apelando para a racionalidade com pessoas que estão abandonando seu lado racional para entregar-se a atavismos catárticos, que compensam a miséria social e intelectual celebrando a violência que liberta das frustrações e amarguras pessoais. É uma questão de tempo para a convulsão social.

 

Principalmente porque essa nova geração de liberais, que renega a dicotomia entre a direita e a esquerda, promove as plataformas da direita sob o primado de um falso cientificismo, que atribui valores de veracidade a visões de mundo toscas e simplistas. E quando alguns setores da esquerda alcançam o limbo que se encontra acima do bem e do mal (e renegam a própria História do pensamento esquerdista) acabam por engrossar as hostes do não-pensamento tão ao gosto dos promotores do status quo direitista. Temos então o caldo de cultura ideal para a promoção de demagogos portadores de verdades milenares e soluções finais simplistas e autoritárias.

 

E aí o camarada Vladimir perguntaria o que fazer?

 

Precisamos descobrir como retomar as lutas essenciais e o espaço público, deixando que a Academia lide com o pensamento acadêmico e retomando o diálogo com a sociedade real. Precisamos ser menos professores e mais companheiros, reaprendendo com nossos semelhantes tudo aquilo que considerávamos superado pela História. Precisamos viver as condições do mundo em que vivemos para não correr o risco de que todos se tornem trogloditas e sejamos nós os únicos anacrônicos.

 

Paz, pão, terra e liberdade a todos os camaradas do mundo!

Anúncios

A ARTE E A VIDA

13 set

Há algum tempo que deixei para trás a pretensão de definir o que seja Arte, junto com outras arrogâncias da juventude. O conceito é por demais complexo e abrangente, ao mesmo tempo em que apresenta minúcias técnicas que desconheço, por pertencer a outro ramo das Humanidades. Movimento-me confortavelmente por uma História Social dos Movimentos Artísticos, mas não tenho erudição suficiente para ir além dessa leitura.

 

Por isso resolvi escrever este texto, que é muito mais um apanhado de experiências de vida perante a Arte, de que um tratado acadêmico. E resolvi entrar nesta seara porque os tempos aziagos em que vivemos são tão obscurantistas que estamos a um passo de ver fogueiras de livros. E, como em outros tempos igualmente tristes e perigosos, é a Arte que primeiro está sendo colocada na berlinda.

 

Sempre gostei de desenhar e, ao longo da vida, cometi algumas telas de que não me arrependo, mas nunca tive a pretensão de mergulhar no mundo da Arte porque me sinto muito mais confortável numa vida de contemplação que de produção. Principalmente porque nunca encontrei uma linguagem que fosse minha e sempre flertei com os artistas do meu agrado, seria inútil empreender uma carreira artística sem ter o quê e nem como dizer. E é por isso que tenho uma enorme admiração por quem se envereda pelos caminhos dilacerantes do autoconhecimento em busca de uma linguagem que diga de si e do mundo para produzir Arte.

 

20170907_101737

Hieronymus Bosch (1450-1516) As tentações de Santo Antão (acervo permanente do MASP)

A primeira exposição de Arte que visitei foi no início dos anos 70, quando a minha professora Mabel indicou que havia uma mostra de Rafael Barradas no parquinho do Prado. Era minha professora favorita e eu imediatamente pedi aos meus pais que me levassem para ver esse artista, que Mabel afirmava ser um dos maiores do Uruguay. O parquinho do Prado ficava relativamente perto de casa e ali funciona, desde os anos ‘30 até hoje, o Museo de Bellas Artes Juan Manuel Blanes, em um prédio que foi declarado monumento histórico nacional em 1975. O Prado (recebeu o nome do bairro em que está localizado e, por favor, não o confundam com o museu homônimo em Madri porque “prado” em espanhol designa qualquer pradaria) enfrentou altos e baixos, e passou por reformas, mas o prédio que abriga o museu é um delicioso exemplo de influência italiana rodeado de estátuas e “fontanas” de clara inspiração pagã.

 

Rafael Barradas (1890-1929) foi um pintor e desenhista uruguaio que fez sua carreira artística na Espanha, sendo amigo do grande poeta Federico García Lorca. Quando vi suas obras pela primeira vez e eu nem sabia o que era Arte quanto mais o que seria Modernismo ou Academicismo, o que me seduziu na época foi sua paleta de cores, que ia do pastel ao vibrante conforme o tema retratado. Qual não foi a minha surpresa quando em 2015, ao visitar junto a minha filha a exposição de Pablo Picasso no Centro Cultural Banco do Brasil, dei de cara com Barradas sendo considerado um expoente da Geração de 27.

 

barradas

Rafael Barradas (1890-1929) Homem no café (Atocha)

 

Sim, aquela primeira exposição que vi gerou uma vida inteira de visitas a museus e mostras, sempre que a condição financeira me permitiu. E despertou meu interesse e minha predileção por vários movimentos artísticos. Mas foi um comentário de outro professor, já no início dos anos 80 que me levou a sair do senso comum e procurar um olhar mais desafiador.

 

João Nanni, que tinha uma história de vida mais ligada ao teatro, um dia questionou em aula “quem disse que o Belo tem que ser bonito?”. E usando como exemplo os contos góticos de Edgar Alan Poe, tão primorosamente escritos em que cada palavra ocupa seu lugar cuidadosamente calculado, explicou que o horror pode ser Belo. Que em Arte, esse termo quase nunca é sinônimo de bonito e sim de impactante.

 

Já fui sozinha visitar algumas exposições e já me distanciei de companhias que desdenhavam ou desperdiçavam a ocasião ímpar da contemplação diante do que não entendiam. Quando não entendo uma obra ou um autor, minha reação é sair pesquisando e quando me sinto perturbada ou desafiada, prefiro mergulhar em meu íntimo e entender o porquê antes de sair desancando qualquer expressão artística. Mas eu precisei de uma vida para aprender a ser assim, tive a sorte de conviver com professores inteligentes, de ter pais tolerantes e de ter educado uma filha artista, com quem aprendo coisas novas sempre.

 

guernica 2

Pablo Picasso (1881-1973) Guernica (Museo Reina Sofia)

 

Por isso quando leio comentários do naipe de: “não quero que meu filho seja exposto a essas influências degeneradas” sempre extraio o seguinte subtexto: “não quero que meu filho aprenda a questionar minhas crenças porque o meu conceito de respeito exige que meu filho jamais seja mais inteligente do que eu”. É isso o que estamos vendo nessa mixórdia que critica desde a Lei Rouanet (que está longe de ser satisfatória) até a integridade moral dos artistas, para promover e manter uma educação que reproduza nos filhos, cópias medíocres e pioradas dos pais. Sobre Arte a discussão está longe de passar, até porque os críticos são ignorantes confessos que jamais visitam museus na vida e nada sabem sobre linguagens e movimentos artísticos.

 

Eu venho de uma linhagem de mulheres que sempre primou por lutar para que a próxima geração seja melhor e encontrei um companheiro de vida que compartilha esse e outros ideais. Por isso jamais me ocorreria limitar o acesso da minha filha a qualquer tipo de Arte, por mais polêmico ou ofensivo que possa ser às crenças do vulgo. Sempre acreditei e defendo que a Honestidade é condição indispensável para conseguir ser um educador decente.

 

20170907_103035

Diego Rivera (1886-1957) Os semeadores (acervo permanente do MASP)

 

Muito mais que o respeito inspirado no medo ou que o cultivo de uma imagem heroica, é a capacidade de dizer “não sei, não conheço, vamos descobrir juntos?” que faz um do relacionamento familiar um ambiente saudável de aprendizado. A escola não educa, no sentido de que a transmissão de disciplina, bons modos, valores e crenças é obrigação dos pais, cabe à escola transmitir conhecimento de maneira crítica e promover a formação de seres humanos com capacidade para compreender e questionar qualquer conteúdo com respeito e eficiência. Se isso não está acontecendo, é muito mais por ingerência dos pais, que não desempenham seu papel de maneira adequada, deixando os filhos ao léu de comportamentos quase animalescos de tão permissivos e mimados ou (quando o fazem) seguem premissas lastimavelmente autoritárias e antiquadas de educação, do que dos professores esmagados entre um Estado que os quer destruir e uma sociedade que os quer silenciar.

 

Se amanhã eu acordasse e nada me restasse da minha vida a não ser as lembranças, uma parte significativa delas seria percorrendo museus com minha filha e meu marido e sentindo uma paz indescritível na presença do Belo. Mesmo quando uma obra me tira o fôlego e o sono por sua crueza ou quando muda inteiramente minha perspectiva sobre um assunto que eu acreditava saber, mesmo quando as misérias do mundo retratadas na Arte me esmagam, eu não trocaria essa experiência por nenhum dinheiro no mundo. Se uma manifestação artística não nos “acorda”, desafia ou impressiona, então ela não é Arte e não passa de artesanato ou decoração, é o que eu penso.

 

20170907_102539

Cândido Portinari (1903-1962) Os retirantes (acervo permanente do MASP)

 

Mas, muito além dessa polêmica, deve ficar claro que as pessoas toscas e ignorantes tem todo o direito de não gostar, não frequentar e nem aceitar ambientes artísticos. Escolher uma vida medíocre ou limitada por imposição de crenças morais ou religiosas é uma escolha entre tantas outras, mesmo que com isso essas pessoas condenem seus filhos a uma vida incompleta perante o processo civilizatório. O que essas pessoas não tem direito algum (e nós não podemos permitir) é de perseguir artistas, instituições, professores, escolas, universidades e meios de comunicação, na tentativa de impor arbitrariamente à sociedade a sua ignorância como padrão.

 

Precisamos reagir urgente e prontamente, de maneira incisiva e categórica, antes que comecem a espancar artistas e queimar quadros e livros.  

A IDENTIDADE DA REPÚBLICA

11 set

O que identifica uma República? Muitos dirão que é o voto livre, secreto e universal e eu não nego sua importância. Mas será que isso basta?

 

Outros vão referir-se a instituições sólidas e fortes e à divisão tripartite de poderes. E é evidente que um equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário é o desejado e que esses poderes sejam autônomos e sólidos o suficiente para que um não domine os outros. Mas será que isso basta?

 

Há quem defenda que isonomia e soberania são indispensáveis a uma nação republicana. E eu sou a primeira a admitir que não se pode ser uma nação de verdade quando se depende política e economicamente de centros de poder localizados alhures. Mas será que isso basta?

 

Pessoalmente, eu acredito que não se pode ter uma República sem que exista uma separação radical entre Igreja e Estado. Qualquer regime que mantenha vínculos religiosos não pode ser chamado de República, não importa o quanto insistam seus integrantes. E qualquer estrutura política que permita clérigos e pastores como seus integrantes também não.

 

Para os que fugiram da escola ou tinham convicções pessoais fortes a ponto de ignorar a matéria em nome de suas crenças, basta lembrar como é que surgiu o conceito moderno de República. O momento que marcou a derrota pontual do Antigo Regime, das monarquias absolutistas de direito divino e dos clérigos coletores de impostos na França e estabeleceu as bases do que conhecemos hoje como regime republicano foi a Revolução Francesa de 1789. Montesquieu talvez seja o pensador que mais se debruçou sobre esse tema das leis e das instituições, mas certamente não foi o único.

 

De Kant a Nietzsche, passando por Marx e por todos os utopistas do arco socialista, a análise do Estado, seus desdobramentos e as identidades republicanas deixavam implícita a necessidade da separação entre Igreja e Estado.  Durante o século XIX, aos trancos, monarquias se travestiram em regimes parlamentares e Repúblicas foram fundadas e refundadas no Ocidente. E, se não foram do modo como se queria, uma boa parte da responsabilidade deve ser dividida entre os oligarcas e o clero.

 

Na América Latina, no século XIX viu-se o surgimento de vários modelos republicanos. Ideais no planejamento, mas certamente cheios de problemas na vida real porque, afinal, não se passa de sociedades estamentais a regimes universais da noite para o dia. Assim, revoluções e guerras civis estão na origem e na construção das mais variadas repúblicas que nos cercam.

 

E aí é que podemos observar porque eu considero a separação entre Igreja e Estado como essencial numa República. Sem o banimento da fé e seus arautos de volta para dentro de seus templos é impossível manter regimes universais. O pensamento religioso é excludente por definição e resulta na corrosão de qualquer instituição pública que a ele se associe.

 

Os idealistas republicanos do século XIX na América Latina defendiam que a educação deveria ser laica, universal e gratuita. Contra eles sempre vigorou o monopólio do ensino confessional, que ainda pode ser observado na profusão de colégios privados cristãos em nossos países. Bem adentrado o século XX ainda lutávamos para que educação pública superasse os ranços cristãos e oferecesse um ensino de qualidade a todas as crianças existentes nos países do nosso continente.

 

Mas o ensino religioso sempre separou meninas de meninos (quando não segregados em salas diferentes e com professores e conteúdo diferentes, ao menos tratados de forma diferenciada) e mascarou a reprodução constante da misoginia que caracteriza as práticas judaico-cristãs. É uma das batalhas mais insanas do século XX ter que transformar o ensino em obrigatório para conseguir que as meninas pudessem frequentar livremente as escolas sem ser podadas por famílias conservadoras a mando de religiosos fanatizados. Uma boa parte das denominações evangélicas e das prelazias católicas ainda considera as mulheres inferiores aos homens e preconiza seu papel de fêmeas reprodutoras em detrimento de sua humanidade de seres pensantes.

 

E que dizer da questão social?

 

Aos pobres o ensino público porque os colégios confessionais são destinados aos mais afortunados. Mas as massas que sustentam os templos são as mais miseráveis e ignorantes, então como permitir que exista um ensino laico de qualidade, que compartilhe com os estratos mais baixos da sociedade as ideias da modernidade política e científica? Nesse sentido, a ação massacrante dos interesses econômicos dominantes encontra no proselitismo religioso um parceiro à altura para a destruição do ensino público e a manutenção dos pobres em um sistema de crenças medieval.

 

Homofobia e misoginia são as faces mais evidentes de seu machismo, mas o racismo e um elitismo esnobe de amargar também caracterizam a educação de perfil confessional. Parece que a modernidade jamais chegou às hostes cristãs mais radicais, que dirá a contemporaneidade. E essas ideias são absolutamente incompatíveis com os princípios republicanos, não importa como venham travestidas de falsa modernidade.

 

Então, para vocês que estão aflitos para saber se teremos eleições livres em 2018, com voto secreto e universal, gostaria de lembrar que a pergunta pertinente é:

 

Ainda seremos uma República em 2018?

 

Afinal, não há qualquer equilíbrio entre os três poderes e o Judiciário obliterou os outros dois, adquirindo um protagonismo partidário de moldes inquisitoriais enquanto ignora a corrupção moral que o consome. Presunção de inocência, direito a todas as instâncias de defesa e a necessidade de provas cabais para qualquer condenação são princípios solenemente ignorados na atualidade, contanto que se consigam os benefícios pecuniários e políticos desejados por magistrados e promotores. Mesmo se para isso for necessário destruir o país até os parcos alicerces.

 

Isonomia e soberania são vistas como bobagens da esquerda, enquanto o governo golpista rifa alegremente cada pedaço do solo nacional aos interesses das corporações transnacionais. A chancelaria permanece nas mãos dos mesmos que defendem a dependência e uma política alinhada aos mais desprezíveis princípios imperialistas e neoliberais. Afinal, esses homens velhos, brancos (e outros nem tanto) e ricos que constituem o governo golpista nem se consideram parte da nação, mantendo vidas de luxo obsceno fora daqui sempre que podem.

 

E ainda há a presença massiva de bancadas religiosas nas três instâncias dos legislativos, que pressionam sem parar para encaixar seus apaniguados nos cargos dos executivos e aprovam seus projetos obscurantistas recorrendo a todo tipo de expediente duvidoso. Ignorando solenemente todo e qualquer avanço intelectual e científico e demonizando-nos em nome de sua fé. Sempre no primado da hipocrisia de defender religiões de “amor” enquanto espezinham e esmigalham todo aquele que não faz parte de sua fé.

 

Pois é, enquanto meus amigos anarquistas e socialistas passaram a década discutindo qual é o melhor modelo de socialismo ou quem é o anarquista mais puro, aqui no mundo real nós estamos quase de volta ao século XIX e a caminho do XVIII. Em um futuro muito breve, esses meus amigos correm o risco de mandar os filhos à escola para que aprendam que o Criacionismo é mais importante que a realidade científica, desde que seja a crença de alguém, e terão que conviver com os debiloides que defendem que a terra é plana e outras tantas sandices soltas por aí. Não admira que nesse caldo de cultura sinistramente “retrô” ainda tenhamos que ver os tão limpinhos e ainda assim “brancaleônicos” defensores da volta da monarquia.

 

E estaremos ainda mais longe do que jamais estivemos de ter uma sociedade realmente justa, plural e universal, com o agravante que as crianças aprenderão nas escolas, sob o olhar rigoroso dos clérigos e pastores, que qualquer utopia socialista ou comunista não passa de uma revanche social promovida por assassinos de criancinhas. Que as mulheres são inferiores aos homens e por isso devem permanecer trancadas em casa parindo filhos até a exaustão ou a morte e que toda expressão sexual fora do binômio macho-fêmea é anormal, antinatural e pecaminosa. E que a obediência aos superiores é a melhor das virtudes…

 

E o que faremos, então, quando os destroços da República forem mera lembrança? Será que teremos que emular a geração de 1789 e enforcar oligarcas políticos e juízes corruptos nas tripas de padres fanáticos e pastores venais? Em momentos como este em que a ironia tem um gosto amargo e triste, cadê meus amigos de luta?

“I HOPE THE KOREANS LOVE THEIR CHILDREN TOO”

5 set

Ontem dei de cara com esse status lacônico da minha irmã no Facebook. E imediatamente respondi “we share the same biology…” ecoando outro verso de Sting na canção Russians, de 1985. E pensei em quantos de nossos amigos entenderiam a referência.

 

De repente, meus mais de cinquenta anos pesaram ao lembrar que nós fomos crianças de Terceiro Mundo durante a Guerra Fria. Que acompanhamos o pouso na Lua, a Retirada de Saigon, os assassinatos do Che Guevara e de Salvador Allende, a derrubada do Muro de Berlin, a luta contra o apartheid e pela liberdade de Nelson Mandela. E tudo isso com o relógio nuclear pairando sobre nossas vidas.

 

E acompanhamos sim, desde a mais tenra idade, porque o nosso era um lar politizado. E, embora submetidas diariamente ao impacto da indústria cultural estadunidense, sempre tivemos acesso a uma pluralidade maior de autores e artistas, na medida em que nossa condição social permitia. E, claro, torcíamos pelos soviéticos diante da boçalidade constante dos americans e seus marines.

 

Vejam que hoje a eleição de Donald Trump nem chega a surpreender diante do impacto que foi a candidatura, a vitória e a reeleição de Ronald Reagan a partir de 1980. Reagan era um ator de terceira categoria, que teria que aprender muito para chegar a ser um canastrão, por isso se manteve na indústria cinematográfica agindo como informante das agências de inteligência de seu país e perseguindo comunistas reais e imaginários. Os Estados Unidos já tiveram muitos presidentes medíocres ou inexpressivos, mas Reagan era de uma burrice e ignorância atrozes.

 

Era um valentão dado a bravatas e frases de efeito, mas totalmente ignorante em relação à política externa e economia. Sob sua batuta, a tensão nuclear escalou a um ponto que as pessoas construíam bunkers em seu país, considerando a guerra como uma realidade iminente. A cada conflito protagonizado por países do Terceiro Mundo, inseridos na esfera de influência das duas potências, ficávamos esperando quem detonaria a primeira bomba nuclear, e tínhamos certeza que seria ele.

 

E não estou falando apenas de caipiras ignorantes nos grotões do Cinturão da Bíblia, crianças impressionáveis no terceiro mundo ou imprensa sensacionalista que usava a tensão nuclear para desviar a atenção das reformas neoliberais promovidas por Reagan e Margareth Tatcher, que mergulharam o ocidente em uma sucessão de crises, miséria e morte. A paranoia nuclear chegou a tal ponto que E. P. Thompson, um dos mais brilhantes historiadores britânicos, abandonou a pesquisa acadêmica para dedicar-se ao ativismo anti-nuclear, escrevendo livros e protestando nos portões dos silos e bases nucleares no Reino Unido. É nesse clima que a canção de Sting deve ser ouvida e foi todo esse cortejo de lembranças que o status da minha irmã trouxe de volta.

 

Para os jovens nascidos após o desmonte da União Soviética deve ser até estranho esse tipo de lembrança de viver em um mundo em crise permanente. A ideia de que éramos reféns dos cenários de guerra idealizados no Pentágono e no Kremlin e estávamos sempre pensando quem seria o primeiro a apertar o botão vermelho. E que mundo iríamos herdar desses velhos idiotas e encarquilhados.

 

A História se repete? Certamente não, nem como tragédia e nem como farsa, afinal a espirituosa tirada de Marx é muito mais uma provocação política que um axioma teórico, mesmo que seduza os voos retóricos de muita gente ainda. O que temos hoje é um cenário bem diferenciado, guardadas as devidas proporções para não incorrer em anacronismos baratos.

 

A Coréia do Norte não é a União Soviética. Não tem a importância geopolítica de Cuba, do Irã ou do Afeganistão. É um pequeno país miserável e inexpressivo no cenário internacional, que joga sua derradeira cartada nessa reedição barata do clima da Guerra Fria.

 

A Coréia do Norte é uma ditadura que de comunista nem sequer tem a sombra. É o espelho em negativo da Coréia do Sul, também miserável e tão ditatorial quanto, embora tenha o cuidado de camuflar seus governos corruptos em uma aparência de democracia eleitoral. E seus mísseis e bombas são uma tentativa patética de desviar a atenção do mundo da precária posição política e econômica em que se encontra.

 

Os Estados Unidos não tem interesse algum em impedi-la de produzir seus mísseis e bombas porque isso lhes fornece um álibi para ter um inimigo externo demonizado com quem apavorar sua população. Basta ver o caso do Irã, que é muito mais útil à geopolítica estadunidense sofrendo sanções por pretensa produção de armas químicas do que estabelecendo uma paz negociada na região. Haja vista a atitude mesquinha e hipócrita de Barack Obama e Hilary Clinton quando Brasil e Turquia conseguiram negociar com o Irã, indo contra as pretensões imperialistas dos EUA e de Israel.

 

Aos Estados Unidos interessa muito mais que a Coréia do Norte seja uma ameaça constante, do que entrar em uma guerra com que não podem arcar. Afinal, as incursões intermináveis e fracassadas no Oriente Médio cobram seu preço, mostrando que os alvos imediatistas podem tornar-se problemas crônicos a médio e longo prazo. A questão é: Donald Trump sabe disso?

 

Essa é a grande incógnita. Quando o comandante de um navio não tem a menor noção de navegação ou de geografia, torna-se necessário dormir de salva-vidas amarrado. E a essas quantas andamos.

 

Cabe ressaltar que a imprensa brasileira cumpre seu papel sensacionalista, gerando pânico em quem ainda presta atenção, para desviar o foco das nossas próprias mazelas. Afinal, a cada dia fica mais evidente que a emissora líder de audiência e suas concorrentes ajudaram a promover o golpe de estado jurídico-parlamentar e agora tem que lidar com o rescaldo de um país arruinado e loteado por quadrilhas de saqueadores. Nada mais natural que usar o perigo nuclear para escamotear as informações sobre figuras preponderantes da “República” involucradas até o pescoço em escândalos de corrupção, propinas e compra de sentenças.

 

E na esteira desse asqueroso caldo de cultura golpista, nossa política externa deixou de ter qualquer protagonismo ou importância, sacrificada no altar do ego entreguista dos partidos que promoveram e deram suporte à deposição fraudulenta da nossa presidenta legitimamente eleita. Partidos cujos luminares tiram os sapatos diante das alfândegas estadunidenses e falam fino com os poderosos, enquanto desprezam nossos vizinhos da América Latina. A ausência de uma vigorosa política externa pacifista do Brasil e seu alinhamento “capachildo” aos interesses dos EUA me preocupa muito mais em um cenário de guerra do que as bombas norte-coreanas.

 

Como dizia minha avó Maria Garbonez, em um dito popular que dispensa tradução, “al que mucho se agacha, el culo se le ve” e mais não digo.

“A SENHORA TEM PRECONCEITO COM LIBERAIS”

3 set

O comentário de um internauta me atingiu bem no peito e fiquei imaginando até o “beicinho” emburrado do jovem estudante que não conseguiu aceitar ser questionado e ainda me chamou de agressiva. Imagino que essa seja a rotina ultimamente para quem procura promover debates com quem tem mais certezas do que ideias para trocar. A agressividade aflora sob a forma de acusações contra o “outro” quando os argumentos não conseguem defender pensamentos insuficientemente estruturados.

 

E me deixou pensando durante semanas. Pensei e reli mais de trinta textos do meu blog, reli minhas respostas aos comentários nas páginas que mantenho nas redes e fiquei procurando os traços do meu preconceito e da minha agressividade na resposta dada ao rapaz, mas ele removeu seu comentário, impedindo o seguimento da discussão. E ainda estou pensando.

 

Pensando, em primeiro lugar, que algumas pessoas não sabem identificar a diferença entre preconceito e antagonismo.

 

O preconceito é construído na ignorância do ser e do outro. Quando expressamos um preconceito, ignoramos o que o outro tem em comum com nós mesmos enquanto seres e o categorizamos a partir de clichês e categorias fáceis de assimilar e de reproduzir. E é na distância que estabelecemos em relação a esse outro ser, que nossa própria identidade se define.

 

Para ser preconceituoso é imprescindível ignorar o ponto de vista da alteridade e abandonar a empatia, sacrificada no altar do egocentrismo. É necessário, do mesmo modo, atrelar a nossa identidade ao apagamento e ao silenciar das outras formas de pensar e de viver. Porque o preconceito é definidor e na medida em que todo ser humano tem algum, isso garante a preservação do ego, no sentido lato do termo.

 

Já o antagonismo é algo mais intelectual e menos visceral. Para ser antagonista é necessário conhecer as ideias do outro e opor-se a elas partindo de outros campos do pensamento. O conhecimento e a consciência do outro é que permitem que o aceitemos como antagonista.

 

Com o antagonista discutimos em termos de igualdade, mesmo quando não concordamos com nada do que pensa. Ao antagonista atribuímos uma identidade paritária à nossa, mesmo que divergente. E discutimos com ele por todos os meios civilizados, quer sejam coloquiais ou acadêmicos, esperando que esse diálogo dê bases para a construção de um conhecimento maior.

 

Pensando, em segundo lugar que o antagonismo requer maturidade e uma longa construção íntima, no sentido de aceitar que um antagonista é um interlocutor e não um inimigo.

 

Nesse sentido, o pensamento liberal e neoliberal está em um campo teórico absolutamente antagônico ao meu. Se eu fosse economista ou cientista política, meu diálogo com as pessoas que se dizem liberais se daria em termos técnicos dessas áreas. E eu poderia contrapor Adam Smith e Stuart Mill a Keynes e seus seguidores e dialogar a partir do pensamento marxista, com as ideias e teorias liberais.

 

No entanto, sendo historiadora, existe uma lacuna intransponível porque o liberalismo (enquanto escola de pensamento) não produziu teoria alguma de interpretação da História, que seja realmente relevante. Quando muito, os verdadeiros liberais ficaram lá no século XIX dialogando com os positivistas e os poucos que adentraram ao século XX permaneceram adeptos dos repertórios e almanaques, sem produzir pensamento teórico ou obras historiográficas relevantes. Hoje, quando já vamos para a segunda década do século XXI (e nem parece) a defasagem das ideias liberais em relação ao pensamento acadêmico transforma qualquer tentativa de debate em uma comédia de erros em que surdos conversam com loucos.

 

Porque, embora os jovens talvez não tenham maturidade, erudição ou conhecimento para perceber, o pensamento tanto na Teoria de História quanto na Historiografia do século XX manteve como interlocutor constante o Marxismo. Mesmo aqueles historiadores que nem marxistas são mantém diálogos proveitosos com as tradições de pensamento ligadas ao materialismo histórico. Um antagonismo saudável separa Thompsonianos de Foucaultianos, enquanto várias gerações da Escola dos Annales se contrapõem ao positivismo e constroem alternativas teóricas sólidas ao Marxismo.

 

E nenhum de nós sequer sonha em eliminar esses outros paradigmas de pensamento teóricos ou metodológicos. Podemos discordar da abordagem das fontes, dos pressupostos teóricos e até da capacidade de algumas dessas ideias para “dar conta” da realidade material objetiva. Mas isso não significa que personalizemos nossos antagonismos a ponto de querer “apagar definitivamente do mapa” o pensamento dos outros.

 

Quando dialogamos com nossos antagonistas, tanto nos meios acadêmicos quanto em ambientes menos sisudos, não existe a pretensão de “derrotar”, “refutar” ou “calar” ideias. A superação dos modelos teóricos se dá por sua exaustão para permanecer relevantes explicando a realidade material objetiva, tanto do presente quanto do passado. Não se supera um antagonista no grito, nem escamoteando suas ideias, banindo-as da educação através de decretos de censura.

 

Existe nessa nova geração de jovens “liberais”, que se acredita acima do bem e do mal e defende uma neutralidade impossível, uma vocação inequívoca ao anacronismo. Em parte por uma formação intelectual deficitária e em parte pela falta de maturidade que os leva a transformar suas visões políticas incipientes em um amálgama com suas posições teóricas profissionais. Mas também porque muitos desses jovens encaram a Historiografia com uma mentalidade de Shopping Center e acreditam que podem escolher qualquer pensador obscuro e irrelevante de cem anos atrás e passar a defendê-lo à revelia dos debates acadêmicos existentes.

 

Finalmente, acabei pensando que é muito árduo tentar entender quando foi que o sistema de educação permitiu que “opiniões pessoais” pudessem ter o mesmo peso que conteúdos críticos e conhecimentos solidamente constituídos.

 

Afinal, ninguém é obrigado a simpatizar com Robespierre, Lenin e suas Revoluções, desde que tenha a honestidade intelectual de avaliar suas ações dentro do contexto temporal, social e histórico em que foram realizadas. Sobram tribunais e sentenças anacrônicas na mentalidade julgadora tão característica da juventude e falta capacidade cognitiva e equanimidade teórica. E nada me tira da cabeça que parte da culpa é do sistema, que nos quer consumidores e não cidadãos, e a outra parte é nossa.

 

Nós professores, mesmo com tanto esforço e sacrifício, não conseguimos ainda perfurar a couraça da indiferença de muitos alunos e muito menos enfrentar os desafios de uma pós-modernidade que dispensa o pensamento crítico e o conhecimento em favor da egotrip individualista e consumista. Até o momento em que consigamos efetivamente mostrar aos jovens a diferença entre ter uma opinião e adquirir um conhecimento, continuaremos a ter que aturar esse festival de dedos anacrônicos apontados em direção ao passado. E isso é profundamente deprimente.

IDEOLOGIA DE GÊNERO

1 set

Você já parou para pensar que todo pensamento articulado em torno de uma visão de mundo estanque é ideologia? Nesse sentido, religiões são tão ideológicas quanto partidos políticos e teorias econômicas. As pessoas apenas não percebem porque todos nós somos educados para perceber nossas próprias ideias como “verdadeiras” e as dos outros como equívocos.

 

É por isso que muitas pessoas não tem dificuldade alguma em perceber os deuses gregos e egípcios como mitológicos, mas se ofendem profundamente quando colocamos os deuses judaico-cristãos na mesma categoria. Ao se deixar seduzir por uma ideologia religiosa, o fiel precisa acreditar cegamente que aquela visão de mundo é uma verdade absoluta e inquestionável para que sua vida faça sentido. Nessa, como em qualquer outra instância da vida, o autoengano preserva o ego frágil dos ignorantes.

 

Nesse sentido, para qualquer pessoa minimamente pensante, quando se fala em ideologia de gênero imediatamente vem à mente os hábitos ultrajantes de vestir meninas de rosa e meninos de azul, de oferecer bonecas às meninas e brinquedos complexos aos meninos, de restringir o acesso profissional às mulheres e privilegiar os homens com salários e oportunidades melhores. Isso sem nem nos aprofundarmos no duplo padrão de moral que permite aos homens uma liberdade sexual que é negada às mulheres, transformando os espaços de convívio em uma constante ameaça de assédio para mulheres e meninas. Essa é uma ideologia no sentido mais palpável do termo, que permitiu à sociedade organizar-se para o trabalho capitalista, manter a dominação das religiões mais ignorantes e ainda, de quebra, supervalorizar o ego masculino em detrimento da realidade objetiva e material.

 

E a realidade objetiva e material, conforme já vem sendo estudado de maneira sistemática nas grandes universidades ocidentais por mais de cinquenta anos, indica que os papéis sociais são construídos ideologicamente ao longo do processo de educação e socialização. Meninas não nascem gostando de bonecas, nem de lavar pratos, nem de cozinhar e nem tem a biologia como destino no papel de mães, isso é inculcado a elas pelos modelos educacionais arcaicos. Meninas podem ser engenheiras, pedreiras, astronautas, astrofísicas ou cientistas nucleares se assim desejarem e se a sociedade tiver um mínimo de senso de justiça.

 

Elas podem e elas são quando isso é permitido, e mesmo quando não o é, elas lutam e conseguem viver de acordo com seus próprios termos, mesmo que para isso tenham que enfrentar a hostilidade, o sarcasmo e a violência do mundo masculino. A ideia de que a biologia é um destino, ao invés de um mero componente de um conjunto muito maior de circunstâncias, conserva-se no imaginário popular porque isso convém a diversos interesses na organização sistêmica da nossa sociedade. E a educação reflete lastimavelmente esses interesses.

 

E isso não é de hoje. O pensamento moderno iluminista, que colocou a república laica como única opção política viável, foi incapaz de gerar um sistema de educação que superasse essa armadilha do gênero. Basta ler Jean Jacques Rousseau e sua nouvelle Heloise de 1761, que preconizava uma educação feminina apenas para que as mulheres se tornassem mães melhores que educariam seus filhos como homens modernos.

 

Essa visão de que a maternidade é um instinto nato, uma realização em si do ethos feminino e um destino biológico inescapável é uma ideologia construída como qualquer outra. E beneficia uma visão ordenada e confortável de mundo em que cada um conhece seu lugar e seu destino, e as religiões e o estado patriarcal podem prosperar à custa da submissão feminina. É por isso que os direitos reprodutivos ficam à mercê de bancadas parlamentares majoritariamente masculinas e com perfil religioso conservador, ao invés de serem discutidos e viabilizados pelas principais interessadas que somos nós, as mulheres vivas, pensantes e agentes de seu próprio destino.

 

Os estudos universitários sobre gênero têm mostrado com volumosos dados demográficos, judiciários e educacionais, que esse modelo é responsável pelas altas taxas de violência no trato social, que a cada ano vitimam centenas de milhões de mulheres no planeta. E essa violência que vai da mera intimidação ou cerceamento de direitos humanos, passando pelas altas taxas de estupros e desembocando no assassinato propriamente dito é naturalizada a ponto de parecer inerente ao convívio social para muitos. Nesse sentido, uma discussão aprofundada sobre essa ideologia de gênero nas escolas ajudaria a combater a violência e criar novas gerações mais saudáveis do ponto de vista psicológico.

 

Educar o cidadão para respeitar os direitos humanos significa, nestes dias obscuros e odientos, ter que lutar com unhas e dentes para defender a humanidade dos não-brancos, das mulheres, dos homossexuais, transexuais e dos pobres em geral, em uma sociedade que nos vê como cidadãos e cidadãs de segunda classe e estorvos ao equilíbrio político e econômico. Porque a ideologia de gênero em que estamos mergulhados desde priscas eras é parte de um conjunto muito maior de medidas restritivas que garantem a cidadania atuante e a humanidade reconhecida aos privilegiados pela cor, pela biologia e pela fortuna. E isso fica bem claro ao ver a demografia prisional, a estratificação nas administrações públicas e nas empresas e, evidentemente, os números da violência social.

 

Vejam vocês que esses números esmagadores da violência social são solenemente ignorados ou, quando muito, apreendidos como a ordem natural das coisas nessa visão deturpada de mundo que também considera o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial como algo muito mais chocante que a escravidão africana na colonização das Américas. Isso porque claramente existe uma hierarquia no sofrimento humano, que faz com que as tragédias vitimando alguns mereçam mais destaque, empatia e solidariedade do que as que atingem a todos nós outros. Uma avaliação desapaixonada, despolitizada e irreligiosa da História seria capaz de identificar na opressão feminina, na escravidão africana e no holocausto judeu, as diferentes etapas da disputa por uma hegemonia narrativa do destino humano, que privilegia a minoria branca dominante.

 

A ideologia de gênero, presente em todas as instâncias de nossa sociedade, aprofunda os abismos de desigualdade que atingem também outros grupos igualmente marginalizados. Mas como não nos dão a oportunidade de estudá-la nas escolas, novas gerações de machinhos prepotentes estendem seus preconceitos contra gays, lésbicas, transexuais, estrangeiros não-brancos e portadores de saberes alternativos e ideias políticas diferentes. No cerne da visão de mundo hierárquica, desigual e cruel que viabiliza a constante violência social no mundo, a ideologia de gênero reinante tem papel preponderante.

 

Nesse sentido, não admira que grupos religiosos ligados a interesses econômicos escusos tentem criminalizar os estudos e os números do gênero e viabilizem legislações para impedir que a ideologia dominante seja criticada nas escolas e na sociedade. Eles estão lutando para preservar o caldo de cultura que permite que suas fortunas prosperem em detrimento da sociedade e dos cidadãos. Uma sociedade preponderantemente justa, radicalmente igualitária e livre das opressões ideológicas por eles promovidas certamente nem precisaria de religiões para mediar o convívio e seria muito mais humana.

 

 

A PROFESSORA, O MENINO E A MISOGINIA NOSSA DE CADA DIA

25 ago

Quantas de nós já não fomos acusadas de agressividade ao elevar a voz ao mesmo tom de algum homem que nos confrontava? Ou ao olhá-lo nos olhos enquanto se empavonava ao criticar-nos? Ou ao responder a uma crítica de maneira categórica sem baixar a cabeça e sem nos desculparmos por existir?

 

Existe uma distorção na percepção masculina que faz com que muitos homens se acreditem perfeitamente razoáveis mesmo quando estão esbravejando feito energúmenos, mas que se sintam agredidos sempre que não concordamos com seus argumentos ou os olhamos nos olhos e regulamos nosso tom de voz pelo deles. Resultado de um processo de socialização inequivocamente sexista, esse tipo de comportamento beira a insanidade e contribui para os níveis catastróficos de violência de gênero. Que o digam milhões de vítimas diárias dessa violência pelo planeta afora, ou ao menos aquelas que sobrevivem.

 

Nos últimos quatro dias, venho tentando lidar com a agressão sofrida pela professora Márcia Friggi, em Indaial, por parte de um aluno de quinze anos. As fotos do rosto ensanguentado dessa colega, após tomar um soco brutal ao repreender seu aluno estão por toda a minha Linha do Tempo no Facebook. E eu relutei muito antes de escrever sobre o assunto porque não sou oportunista e todos os que me seguem sabem que não “bombo” este blog com a intenção de “viralizar”.

 

Mandei uma singela mensagem de solidariedade à professora Márcia, através do Facebook e pretendia ficar por isso mesmo. O que me traz hoje a refletir sobre os acontecimentos é a matéria absolutamente tendenciosa publicada ontem à noite no portal do G1, que dá voz ao advogado do aluno e deixa implícito que ele é a vítima e não nossa colega brutalmente agredida. Sinal dos tempos ou de um projeto de sociedade que já não nos serve mais?

 

O advogado do agressor está em seu trabalho quando minimiza inclusive uma agressão que o menor praticou contra a própria mãe e retrata a professora Márcia como instável. Ele é pago para isso e é o que já se espera que faça mesmo que para isso chegue a mentir, é parte de seu desempenho para livrar seu cliente das consequências de seus atos, cabendo ao judiciário interrogar as partes e as testemunhas e chegar o mais perto possível de uma versão plausível dos acontecimentos. Até aí nada demais, até pedófilos se defendem alegando que já foram abusados para fugir à monstruosidade de seus atos, se o menor era agredido em casa durante a infância isso não justifica sua covardia ao espancar mulheres.

 

O advogado eu entendo. Quem não entendo é a jornalista que endossou seu discurso e promoveu a impressão de que a vítima da agressão é que era responsável pelos acontecimentos. Em que universo se ouve apenas uma parte e se pré-julga a outra sem direito ao contraditório?

 

E aí é claro, meus amigos dirão “Anna, sua tonta, é o G1 ecoando a política editorial da Rede Globo, que escolhe quem demoniza e quem santifica e dane-se a realidade da vida”. Que seja, vá lá, admito que não guardo qualquer tipo de ilusão  quanto à idoneidade ou qualidade do jornalismo dessa rede de comunicações. O que me assusta é o conteúdo simbólico dessa terceira violência sofrida por Márcia Friggi, depois que (no segundo ato dessa tragédia grotesca) os minions nas redes sociais consideraram que ela mereceu a agressão por ser de esquerda.

 

Há três pontos a considerar nessa série nefasta de atrocidades:

 

  1. O aluno, que não tem qualquer justificativa para ter socado outro ser humano e deveria ter sido sumariamente expulso da escola e punido de acordo. Violência de gênero não pressupõe apenas o entorno familiar e a relação empregatícia, esse aluno já bateu em outra mulher antes (sua própria mãe) e apresenta os indícios de um perfil não apenas agressivo, mas também covarde e misógino. A idade não pode servir de desculpa, quando muito de atenuante.
  2. As redes sociais, que se de um lado conseguiram angariar atos de solidariedade, de outro abriram as portas dos chiqueiros e permitiram que vários mentecaptos fossem procurar no perfil de Márcia os argumentos para justificar a agressão. Dando vazão, desse modo, ao chorume cotidiano da misoginia que sempre responsabiliza a mulher pelas agressões sofridas, ainda mais se ela é de esquerda em um momento em que a escalada do conservadorismo resuscita ideologias pútridas do passado. Nesse sentido, politizou-se uma agressão de gênero e permitiu-se que qualquer desclassificado anônimo endossasse e aprofundasse o soco original.
  3. A campanha sem tréguas de várias emissoras, incluída a rede que hospeda o portal em questão, para demonizar e desqualificar os professores, mormente se eles forem de esquerda. E os jornalistas, que dependem do emprego para sua sobrevivência, acabam por endossar as políticas editoriais parciais e criminosas que levaram o país ao abismo em que se encontra. Não admira, então, que fosse uma mulher a escalada para desqualificar Márcia Friggi, dando voz à defesa do aluno e omitindo-se quanto à enormidade do fato acontecido, jogando simbolicamente a pá de cal ao escárnio já cometido nas redes sociais.

 

Em tempos de Escola sem Partido, não faltarão vozes para dizer que todos nós professores devemos ser espancados mesmo, isso já aparece nas redes sociais há meses e as autoridades sequer tomam conhecimento desses chamados à violência. Pudera, se os governadores jogam seus esbirros fardados sobre professores indefesos em manifestações e sequer são responsabilizados por sua truculência e covardia, o que esperar do resto da sociedade? O que esperar dos alunos, que a permissividade e incompetência das administrações escolares protegem e incentivam?

 

A agressão brutal e descabida a Márcia Friggi é mais uma etapa da escalada da violência de gênero, que poderia ter sido evitada se houvesse seriedade nas políticas públicas e não se entregasse as escolas ao arbítrio de vereadores igrejeiros e ignorantes. A omissão da administração pública diante do crescimento do movimento Escola sem Partido (absolutamente inconstitucional, racista, misógino e homofóbico), que visa desqualificar qualquer discussão sobre gênero nas escolas, partindo de premissas absolutamente falsas e fraudulentas sobre os conteúdos programáticos, é diretamente responsável por atos de violência desse calibre. A cumplicidade entre políticos e pastores para silenciar a educação crítica ainda há de gerar mais aberrações como esta e mais vítimas inocentes.

 

É violência de gênero e misoginia sim, quando a sociedade tenta responsabilizar a vítima e não lhe garante sequer a integridade física. Podem uivar e ranger dentes, mas não vamos ficar em silêncio diante desse tipo de agressão. Que cada um dos responsáveis receba as penas da lei e o escárnio das pessoas que realmente ainda tem cérebro e sensibilidade em nossa sociedade.

 

Deixo meu forte abraço solidário e meu desagravo a Márcia Friggi com meus melhores desejos de que continue na luta e consiga superar a covardia do mundo em que vivemos.