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UM CROATA

13 jul

No próximo domingo, 15 de julho, a Copa do Mundo chega ao fim. E a partida final será disputada entre França e Croácia, para decepção de meio mundo (inclusive eu mesma, que parei de torcer nas quartas de final, mas continuei assistindo aos jogos) e para delírio das redes sociais. E dá o que pensar.

 

Desde os argumentos anacrônicos sobre colonialismo, das patrulhas que se ofendem com quem torce pelos times europeus, até a visível acrobacia mental dos que vão ignorar o neonazismo na hora da final. E eu fico só acompanhando, sem querer entrar em polêmicas vazias, uma vez que nenhum time da Europa me fala ao coração (nem mesmo aqueles dos países de que tenho ascendência como Itália, Espanha e Portugal) e nem me sinto à vontade para rebater patrulhas pernósticas. O caso da Croácia, entretanto, é uma questão bem diferente.

 

Não estamos falando de massacres, invasões pilhagens ou ingerências culturais ocorridas entre cento e cinquenta e quinhentos anos atrás, nem mesmo sobre impérios que já foram e hoje nem contam. No caso da Croácia, estamos diante de uma opção cidadã pelo neonazismo, uma opção que se reflete no resultado das urnas e nos comportamentos de uma parte considerável dos croatas em seu próprio país e no exterior. E é um pacote que vem acompanhado das usuais atitudes chauvinistas, xenófobas e racistas de praxe aos que defendem esse tipo de ideologia.

 

Então, é evidente que eu vou assistir à partida final porque ainda considero as Copas como eventos emocionantes, mas também deveria ser evidente que não pretendo torcer por qualquer dos dois finalistas. Não são meus times de modo algum e não preciso torcer fanaticamente para apreciar o espetáculo, da mesma maneira que não preciso fechar meus olhos ao racismo francês apenas porque sua seleção está cheia de descendentes de imigrantes de suas ex-colônias (da mesma forma que o Brasil não deixa de ser um país hipocritamente racista só porque nossa seleção inclui jogadores negros). Mas a Croácia…

 

Na segunda metade da década de ’80, eu conheci pessoalmente um nativo da Croácia. Não vou entrar em detalhes como nomes ou lugares, basta-me com dizer que a filha desse senhor frequentava a mesma escola que a minha irmã e que essa família vinha da Argentina. Estavam aqui por motivos profissionais (o pai era contratado de uma multinacional), mas não queriam ficar e voltaram à Argentina assim que ele se aposentou e a economia ajudou.

 

Em um dado momento, ao saber que vínhamos do Uruguay e ainda falávamos espanhol, a mãe se aproximou e acabou por “convidar-se” a passar o final de ano conosco. “Vamos juntar nossas solidões” foi o argumento usado sem parar para pensar que talvez nós gostássemos do recolhimento e da paz da nossa própria companhia, mas vá lá… A partir daí começa um daqueles “micos” que viram anedotas com o passar do tempo.

 

Em algum momento a jovem dissera à minha irmã “meu pai é nazista” e, naqueles tempos pré-colapso da União Soviética, pensamos que se tratava de uma metáfora. Mas assim que tivemos o primeiro contato e fomos descobrindo a vida pregressa desse senhor, as “coisas” foram se complicando. Descobrimos que, ainda adolescente, fora abduzido pela Juventude Hitlerista e acabara sendo capturado (menor de idade) pelos aliados durante a Guerra e conduzido a um campo de prisioneiros, de onde saiu no pós-guerra como refugiado para a Argentina.

 

E isso não era tudo. Diferente de muitos sobreviventes, que assumem uma atitude crítica, esse senhor ainda admirava Hitler e demonstrava um preconceito discreto pelos brasileiros, que considerava todos como “negros”. Mais discreto que a esposa, esta sim mais agressiva, reduzia seus preconceitos a piadas e anedotas indigestas.

 

Logo ao chegar à casa dos meus pais, o retrato do Che Guevara (que voltara à parede com o fim da ditadura) deve ter-lhes avisado que éramos de esquerda. Isso e o fato de que minha mãe lhes ofereceu emprestados (para o caso de que quisessem gravar) os nossos discos da Mercedes Sosa, a quem a jovem e sua mãe se referiram como “essa índia gorda ridícula”. And so on and so on…

 

Ao saber que o senhor vinha da Iugoslávia, meu pai elogiou o Marechal Tito, de quem, tanto ele quanto eu, éramos admiradores declarados: silêncio glacial. Mas sobrevivemos e tivemos que engolir nossa perplexidade em nome da boa educação. E começamos a “bater em retirada” logo ali (e creio que eles também) de modo discreto, para evitar incidentes.

 

Ainda nos encontramos umas três ou quatro vezes, pagamos a visita e trocamos gentilezas sociais banais. Numa dessas ocasiões, ao referir-me ao irmão de uma amiga, que eu paquerava discretamente, ficou um clima daqueles que só quem viveu consegue avaliar. Ao ficar claro que o rapaz era negro, a mãe me disse “eu não sou a favor que as raças se misturem, você não vê os passarinhos fazendo isso, um pardal não se junta com um rouxinol” e eu sorri amarelo, na falta de uma resposta adequada.

 

Nunca mais nos vimos. Eventualmente o Facebook trouxe a filha (agora já não mais jovem) de volta ao nosso contato. Nos poucos meses em que figurou entre os meus contatos, acabou revelando-se um “combo” de reacionarismo e preconceito. Quando começou a divulgar fotos falsas de fetos “abortados”, eu desfiz a amizade e nem olhei para trás, o benefício da dúvida tem limites.

 

Um croata não define a Croácia, eu concordo. Mas somado aos criminosos da limpeza étnica dos anos ’90, aos neonazistas das torcidas organizadas, aos políticos que negam acesso aos refugiados e aos adoradores da suástica, aí temos um padrão bastante presente, mesmo que todos não sejam assim. A presença das ideias execráveis prospera e alcança os altos cargos governamentais, não é preciso esperar a que se torne política de Estado para admitir que existe um problema.

 

Não sou eu quem vai dizer para quem quer que seja “não torça pela seleção X ou Y”, cada um sabe de si. Só não digam depois que não sabiam. Na era da informação na ponta dos dedos, isso fica feio.

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PRECISAMOS REAVALIAR OS LUDITAS

12 jul

Se vocês chegaram à Revolução Industrial no currículo escolar de História, certamente ouviram falar sobre os “quebradores de máquinas”. Dependendo do material didático e da formação do seu professor, esse capítulo do surgimento do Movimento Operário no Reino Unido pode ter sido abordado como uma mera bizarrice cômica ou como uma das tradições derrotadas pelo “socialismo científico”. De qualquer maneira, a minha experiência ao abordar o tema sugere que poucos professores se detêm nele ou ajudam seus alunos a refletir fora da oposição entre modernidade e atraso, deixando a impressão de um quixotismo ingênuo.

 

Em minha trajetória escolar, durante os anos ’70, jamais sequer ouvi falar sobre os luditas e tudo o que vi foi uma apologia, sem qualquer pudor ou sombra de crítica por parte dos professores e do material didático, da Revolução Industrial e do progresso constituído por fábricas e máquinas. Durante o cursinho pré-vestibular, que fui obrigada a fazer em 1986 quando resolvi voltar a estudar, o episódio foi tratado como uma nota de rodapé cômica ilustrando o reacionarismo e a ignorância dos primeiros “operários” e as “dificuldades” vividas pelos primeiros industriais em sua “saga em prol do progresso”. Foi somente durante a minha Graduação, que tive acesso a materiais mais críticos e a uma discussão em profundidade sobre o “fenômeno ludita” e pude avaliar por mim mesma a barbárie que foi a consolidação da industrialização no Ocidente.

 

Tenho uma dívida profunda com meus professores Paulo Miceli (Moderna I e Tópicos sobre Marx e a gênese do Capitalismo), Adalberto Marson (Contemporânea I) e Sidney Chalhoub (Brasil II, Tópicos sobre E. P. Thompson e Tópicos sobre a transição da escravidão para o trabalho livre) por sua abordagem meticulosa, e largamente amparada em copiosa bibliografia, dos processos de acumulação de capitais, exploração de mão de obra e constituição dos movimentos operários na Europa e no Brasil. Bem como do papel intrínseco da escravidão e do tráfico nas Américas, para a compreensão do surto de industrialização no Reino Unido do século XIX. Aulas, discussões e leituras dirigidas maravilhosas, que ainda guardo com muito carinho na memória, e que contribuíram para o tipo de professora e de pessoa que me tornei, muito mais do que qualquer diploma.

 

Paulo Miceli nos apresentou a Étienne de La Boétie e seu Discurso da Servidão Voluntária, a documentos com listas de reivindicações das primeiras greves modernas, ao capítulo de Marx sobre a Acumulação Primitiva e à abordagem de Fernand Braudel sobre a Cultura Material na Europa dos séculos XVI a XVIII. Com o Miceli aprendemos (ou ao menos eu aprendi) como os camponeses foram gradativa e implacavelmente expulsos das terras comunais e sua cultura arrasada, no momento em que a produção de tecidos e lã intensificou-se e os grandes criadores de ovelhas avançaram sobre a estrutura fundiária para expandir seus negócios e prover de materiais e mão de obra barata a indústria nascente. A estruturação do tráfico negreiro como provedor de capitais de rápida obtenção e a escravidão nos regimes de plantation como garantia de rentabilidade no fornecimento de matérias primas, riquezas naturais e produtos alimentícios a uma Europa de ávidas metrópoles.

 

Com Adalberto Marson nos aproximamos da estrutura da fábrica, da operação das máquinas e da longa luta do Movimento Operário nascente para não ser tragado e moído por esse sistema sem escrúpulos e sem controles. Um novo olhar sobre as Workhouses vitorianas e a “benemerência” de um sistema em que os pobres deixaram de ser uma “carga” para as paróquias interioranas e se transformaram em “excedente” de reposição aos mutilados em fábricas e minas de carvão e uma garantia de manutenção de salários de fome. Amontoados nos insalubres cortiços londrinos, em cidades industriais como Manchester e portuárias como Bristol e Liverpool, os miseráveis explorados garantiam o sucesso da revolução tecnológica nascente, mas tornavam-se um problema quando explodiam em violência e sucumbiam à degradação urbana.

 

Com Sidney Chalhoub (o mais eclético desses incomparáveis professores) transitamos do estudo político do Segundo Reinado, pelas fontes judiciais para o estudo da escravidão no Brasil, pela criminalização dos libertos na virada do século XIX para o XX e por uma leitura pormenorizada dos três volumes d’A Formação da Classe Operária Inglesa, do maravilhoso E. P. Thompson. Sidney foi o único professor (além do Amaral Lapa) com quem fiz mais de duas disciplinas eletivas, além da obrigatória. Sua abordagem crítica das fontes e da bibliografia e suas aulas bem humoradas e impecavelmente esquematizadas ainda me trazem à lembrança alguns dos momentos mais felizes da minha Graduação.

 

E este preâmbulo foi necessário para que se entenda que não basta perguntar por que os luditas quebravam as máquinas. É preciso compreender ao menos três séculos de História Social e Econômica britânica para poder avaliar o impacto da fábrica e da máquina no cotidiano de artesãos e camponeses obrigados a transformar-se em operários da indústria nascente para não morrer de fome, empilhados com suas famílias em cortiços insalubres e malcheirosos. Trata-se de um processo que, visto a posteriori, impressiona pelo caráter implacável do “progresso” promovido à custa da vida e da saúde dos pobres, amparado por um sistema político conivente e secundado por grupos religiosos destinados a promover a obediência e a docilidade entre os novos trabalhadores.

 

Thompson, em mais de uma ocasião, reflexiona sobre o modo como a apropriação do tempo por parte dos patrões, retira a autonomia dos antigos artesãos e os submete a jornadas exaustivas, operando máquinas extremamente perigosas porque desenvolvidas pensando em que o homem deveria adaptar-se a elas e não o contrário. Nesse sentido, hoje é público e notório que a exploração do trabalho infantil nesses ambientes (devido a seu baixo custo e à possibilidade de reposição rápida dos mutilados ou mortos) também passava pela possibilidade de construção de máquinas com espaços tão pequenos que somente uma criança poderia operar. E o modelo (que perdurou até as primeiras décadas do século XX) de empilhar o máximo de máquinas em espaços exíguos, sem iluminação e nem ventilação adequada, transformava essas fábricas em armadilhas sem saída.

 

Expulsos do campo pela apropriação arbitrária das terras comunais e pelo avanço dos pastos para ovelhas em detrimento das lavouras familiares; atropelados pela produção fabril e destituídos dos saberes artesanais que lhes garantiam a sobrevivência; engrossando as periferias urbanas mais medonhas à espera de oportunidades de trabalho; obrigados a jornadas de trabalho de dezesseis horas ou mais em minas de carvão ou fábricas insalubres, em troca de salários aviltantes; atormentados por fanáticos metodistas para transformar-se em rebanho obediente; os “operários” da nascente Revolução Industrial ainda não são uma classe porque não tem consciência de si.

 

E é nesse contexto inicial que os luditas se armam com marretas e porretes e destroem as máquinas. Na impossibilidade de derrotar o processo avassalador de exploração e pauperização a que são submetidos, voltam-se para o símbolo mais aparente da mudança: a famigerada máquina, que amputa dedos e esmaga crianças. Nada há de ingênuo, quixotesco ou patético nisso, é o olhar anacrônico dos arautos do “progresso” que vai transformar os luditas e sua luta fundadora do protesto operário (junto ao movimento cartista) em mera nota bizarra de rodapé na História da industrialização britânica.

 

Isolados no calendário, em um curto período antes das guerras napoleônicas, os luditas foram rapidamente neutralizados e destruídos por um Estado já atrelado aos interesses da industrialização e por um império em expansão. Anos depois, Karl Marx ressaltaria que a destruição das máquinas não era suficiente, que a consciência dos operários como classe em si era o começo necessário, mas que somente a tomada, expropriação e socialização dos meios de produção (fábricas, máquinas, minas e equipamentos) levariam à emancipação da exploração capitalista. Argumento que, diante do acirramento atual da exclusão social e da exploração do trabalho, permanece relevante.

 

Duzentos anos nos separam dos luditas. As máquinas, as fábricas, os desenvolvimentos tecnológicos e os meandros do sistema econômico financeirizado estão mais sofisticados, mas seu objetivo ainda é o mesmo: subjugar o excedente de mão de obra e manipular a miséria para manter os salários baixos e extrair lucro em cima de lucro, através da exploração massiva. Sem escrúpulos, sem controles, sem tréguas.

 

Precisamos reavaliar e recuperar os luditas como referência, mas precisamos mais ainda recolocar o socialismo (comunista, anarquista ou democrático) na sua devida importância como ferramental para o enfrentamento a esse sistema de moer gente que nos impõe uma hegemonia de sangue. Mais que destruir ou boicotar, precisamos ser donos do nosso próprio destino e não conseguiremos isso se estivermos fragmentados em nacionalismos xenófobos ou identidades individualistas.

 

Também não o conseguiremos renegando as tecnologias e abraçando utopias campestres. Precisamos renovar nossas convicções éticas e aplicá-las no cotidiano, despindo a tecnologia de sua violência excludente e de seu avanço predatório aos recursos finitos de nosso planetinha azul. E nada disso virá dos meios virtuais, com seu narcisismo jeca.

 

Será que estamos minimamente conscientes e preparados?

 

FEY

18 jun

Por volta de junho de 2006, eu lecionava em uma faculdade particular no interior paulista, no curso de Ciências Contábeis. Minhas disciplinas eram Metodologia Científica e Cultura Brasileira, e eram oferecidas em semestres alternados, o que me garantia o vínculo empregatício. Não era um curso que tivesse qualquer aspecto em comum com minha área de estudos, mas eram disciplinas que eu gostava de aplicar, por tratar-se do momento de “formação” do ethos estudantil.

 

Quando eu terminei meu doutorado em 1999, as oportunidades de trabalho já estavam minguando, devido às políticas neoliberais do governo Fernando Henrique Cardoso, que interromperam os concursos públicos e incentivaram a precarização cada vez mais medonha do ensino universitário. Quando essa vaga no ensino privado surgiu (semanas após ter depositado a tese e encerrado a bolsa), eu nem mesmo pensei como isso afetaria meu currículo, afinal, nossa vida era um nunca acabar de dificuldades financeiras e qualquer emprego era emprego àquela altura. De certa forma, já tinha plena consciência de que jamais conseguiria uma vaga nos estabelecimentos de primeira linha porque éramos muitos, todos bem formados, e só alguns poucos escolhidos dispunham dos contatos requeridos na minha área de formação.

 

Por isso sempre me dediquei com muito afinco à docência, mesmo quando uma boa parte dos alunos não demonstrava maior interesse pelas disciplinas em questão, ou por aprimorar suas capacidades fora do restrito mundo das disciplinas de Comércio e Cálculo. Eram aulas exaustivas, tentando demonstrar a necessidade de articular o pensamento de modo científico e não apenas aplicar as normas da ABNT como se o formato de um texto fosse mais importante que seu conteúdo; ou destrinchando a História Econômica do Brasil (que era a ementa de Cultura Brasileira) para que os alunos entendessem a quem serviam ao aprender suas trucagens contábeis. Nesse sentido, é sintomático que, dos ex-alunos que me procuraram no Facebook, nenhum tenha vindo dos vários anos que lecionei no curso de Contábeis.

 

Mas, voltando a Junho de 2006, era um sábado após o almoço e eu me dirigia a uma daquelas insuportáveis reuniões de coordenação, em que o Coordenador do curso se pavoneava mês após mês de ter trabalhado nos EUA e ter feito mestrado na USP. No meu caso, a hostilidade dele se travestia de uma falsa cordialidade, sempre permeada por sua insistência em minimizar meu doutorado e valorizar seu mestrado, deixando implícito que profissionais como eu eram um “estorvo” às suas ideias de gestão. Por ser de uma geração anterior, ressentia-se a olhos vistos de que uma mulher mais jovem tivesse mais titulação que ele, mesmo que eu não tivesse interesse algum (ou sequer o menor vestígio de chance) em exercer seu cargo.

 

Mas, naquela tarde ensolarada e com um céu deslumbrante, eu desci do ônibus e atravessei a imensa avenida na entrada da cidade sentindo-me feliz. Parecia que, ao contrário de outros cursos da instituição em que eu já lecionara, Contábeis conseguira estabelecer-se e a cada ano a procura crescia, o que me permitia sonhar com um mínimo de estabilidade e a segurança do recolhimento para a aposentadoria. Nas poucas quadras daquela caminhada, eu me permiti momentos de alívio e de otimismo pela primeira vez em anos.

 

E então, durante a reunião, o Coordenador começou uma narrativa autocongratulatória de sua participação em um encontro de coordenadores de cursos de Contábeis em Brasília e passou a enumerar as mudanças propostas no evento e que pretendia aplicar entre nós. E já de cara estava eufórico porque poderia descartar matérias inúteis como Sociologia e Cultura Brasileira para pode ter mais Matemática e Cálculo, bem como reformular Ética para que passasse a ser apenas o estudo do Código de Ética dos Contabilistas e não precisaria ser mais aplicada por filósofos ou advogados, o que abriria vaga para alguém de sua própria área lecionar. Esse senhor acreditava, como “gestor” que nunca tivera a mínima formação em Educação ou qualquer interesse sequer em conhecer o mínimo para ser professor, que seu curso seria mais eficiente e atrativo sem a inutilidade da reflexão proporcionada pelas matérias de Humanas.

 

Ouvindo-o e vendo a felicidade com que destruía meu posto de trabalho, eu fiquei em choque. Custei muito a ter uma reação, parecia que alguém me dera uma “bordoada” bem no meio da testa e eu estava com dificuldade até para respirar. Quando finalmente perguntei o que aconteceria comigo, já que as mudanças só se dariam no ano seguinte, ele sorriu ao dizer que eu seria dispensada, e me deixou com a carga de trabalhar por mais um ano, mesmo sabendo que ao fim desse período estaria na rua.

 

Sobre esse ano torturante e as circunstâncias da minha dispensa, melhor nem falar, basta saber que minha pressão arterial disparou e tive que dobrar a medicação. Desde então, devido à precarização dos cursos superiores privados, que sofreram o “ataque” de instituições novas praticando preços baixíssimos, o que motivou a demissão em massa de professores-doutores e o encolhimento dos currículos, eliminando diversas matérias de Ciências Humanas, eu nunca mais consegui emprego. E os anos lecionando nessa instituição, longe do mundo acadêmico, somados a esta década parada, arruinaram meu currículo para eventuais concursos em universidades públicas.

 

Nunca me esqueço daquele sábado, e agora penso nele mais do que nunca ao comparar a sensação com o período que vivemos a partir de 2013 até o momento. Em maio de 2013 o país estava bem, com reservas em dólares, respeito internacional, emprego em expansão, e a possibilidade concreta de que os royalties do pré-sal fossem revertidos para a saúde e a educação, realizando um resgate das classes populares, jamais sonhado ou previsto. E, então, a ação implacável de uma imprensa sórdida, de uma súcia de congressistas mercenários e de um Judiciário inútil e conivente, somados a meia dúzia de passeatas cheias de gente saltitante vociferando imbecilidades, acabaram com nosso país.

 

A felicidade e a esperança que nos rodeavam até maio de 2013, hoje são apenas lembranças nostálgicas em meio ao caos e à barbárie. A entrega covarde de nossas divisas, nossas terras e nosso patrimônio mineral ao capital estrangeiro, as reformas neoliberais destinadas a arruinar as classes populares e provocar o extermínio sistemático de largas faixas da população, bem como a abjeta guinada conservadora que nos esmaga, são o legado de junho de 2013 e suas passeatas nada inocentes. O Golpe de Estado, que rasgou nossa Constituição e nos transformou em um simulacro de país, parece preparar uma ignomínia maior a cada dia, como se os detentores do poder estivessem testando quanto podem nos humilhar até que sejamos totalmente silenciados.

 

Em Morte no Nilo, Agatha Christie usa a palavra escocesa fey para definir esse “estado de felicidade exaltada que geralmente prenuncia uma tragédia”. E é essa definição que me vem à mente quando penso em minha caminhada em direção à reunião em 2006 e em maio de 2013, o momento mais feliz antes da queda. Dá até um medo irracional de voltar a ser feliz ou, como diria minha avó Maria Garbonez, de “contar com lós huevos em el culo de la gallina”.

A UM AMIGO

8 jun

A internet em geral, e a rede social em particular, são espaços propícios para descobrir aspectos de personalidade que a convivência social esconde. Ao menos, percebo que os integrantes da minha geração somos mais educados pessoalmente do que frente ao teclado. O modo como fomos socializados é mais difícil de abandonar quando se está face a face com o interlocutor.

 

Para muitos de nós, a internet se constituiu em um espaço libertador, em mais de um sentido. Em parte porque nos permitiu superar as barreiras do espaço geográfico e permanecer em contato direto com pessoas ao longe, em parte porque nos libertou da ditadura de outras mídias no controle da produção e circulação de informações. Ao menos esse é o meu caso, não sou do tipo que encontrou no teclado um álibi para a grosseria ou uma plataforma para o ódio.

 

Mas também me preocupo, a cada dia mais, com a simplificação exagerada promovida pelos meios virtuais levando a um binarismo primário, que quase assassina o ato de pensar. Acredito que isso começa devido à necessidade de ser conciso, que vários desses meios exigem, afinal mensagens de cento e quarenta caracteres não são suficientes para sequer para formular os termos de um argumento, quanto mais para esmiuçar possibilidades e particularidades. E frases secundando imagens tendem a desenvolver um tipo de profundidade paradoxalmente rasa, que depende da capacidade do leitor de conformar-se com meias-verdades e vazios categóricos.

 

E não nego que muito da minha prolixidade se deve à vivência acadêmica e aos hábitos de leitura e análise, que me acompanham desde então. A um hábito arraigado e quase “teimoso” de não me deixar atropelar ou arrastar por esse imperativo moderno da velocidade da informação e da vida, de sempre parar e tentar encontrar onde se encontra o sentido ou a “pegadinha” de cada argumento, de cada evento, de cada objeto. E é cansativo viver assim, mais de uma vez desejei ter a despreocupação da maioria dos meus conhecidos, de viver ao sabor da corrente e abraçar o espírito de manada sem maiores medos ou traumas, mas…

 

E é nesse sentido que argumento que a internet permite a revelação de facetas escondidas da personalidade, desnudando aspectos nem sempre agradáveis de amigos, parentes e de nós mesmos. Entre várias dezenas de primos tenho dois (um de direita e outro de esquerda) que na hora de compartilhar o veneno machista e o deboche em relação ao feminismo, apresentam-se de modo idêntico e compartilham as mesmas postagens. E tenho amigos de juventude, como você, que hoje já nem reconheço mais diante da alternância passivo-agressiva de suas postagens.

 

Dias atrás me deparei com um compartilhamento seu que me doeu de modo particular. Era a postagem de uma página anarquista qualquer, que equiparava como tiranos a Ernesto Guevara, Adolf Hitler, Josef Stalin e Vladimir Lenin, mal ajambradamente usando uma argumentação visivelmente anacrônica de Errico Malatesta como justificativa. Por onde eu começo?

 

Tirania é um termo específico, que historicamente designa um poder ilegítimo e usurpado. Nesse sentido, por mais pós-modernices que a internet tenha parido, fica difícil de aceitar quando você e seus amigos usam a palavra apenas como sinônimo de ditadura ou de totalitarismo, que são conceitos igualmente específicos. Ernesto Guevara, que participou temporariamente da idealização e consolidação de um governo revolucionário, dificilmente se enquadraria nessa categoria.

 

Seria à tirania das ideias que a postagem se referia? Repetindo por enésima vez a infantilidade anarquista de afirmar que a esquerda e a direita são iguais e só vocês prestam? Afirmando não haver diferenças e nem anacronismos nessa percepção tosca que iguala personalidades, épocas e lugares diferentes numa mesma mixórdia superficial?

 

Os autores da postagem parecem não se importar de contribuir para a ignorância que nos assola. Ao equiparar Hitler a algumas das figuras mais emblemáticas da esquerda, acabam legitimando a asneira dos que defendem que o nazismo era de esquerda. E isso porque não tem a capacidade de perceber como esse tipo de linguagem telegráfica e vazia irá impactar aqueles que não têm conhecimento suficiente para uma apreciação crítica do argumento. Ou percebem perfeitamente…

 

Essa mania de querer impactar dramaticamente, não importando se existe qualquer veracidade no que se posta, é o que está nos destruindo como sociedade a médio prazo. Você argumentaria que o Estado é pior e eu não nego que nos encontramos em um momento histórico por demais aziago, em que a revanche dos grupos detentores do poder está nos esmagando. Mas eu retruco, ainda, que a internet e as redes sociais são acessadas diariamente por uma vasta juventude que não tem como se defender desse tipo de impostura e acaba “comprando’ muito dessa barafunda como se fosse a verdade da vida.

 

E, diferente dos anarquistas históricos do movimento operário (que lutaram contra o sistema defendendo reivindicações e bandeiras claras e estritas), o que se vê hoje em páginas e mais páginas é um bando de gente hedonista, niilista, infantilizada e egoísta. Não admira que na Ianquilândia tenha surgido o anarco-capitalismo, em que o liberalismo levado às últimas consequências se encontra com o individualismo anarquista em um abraço de afogados. Postagens que igualam esquerda e direita contribuem ativamente para o embrutecimento, enquanto promovem o desserviço de universalizar a ignorância, bem ao gosto do que a direita sempre quis.

 

Não é à toa que os trotskistas estão roubando as bandeiras anarquistas uma a uma. De repente vemos grupos de troskos defendendo a ação direta e a autogestão como se tivessem descoberto a pólvora, só faltando que encampem também o apoio mútuo ou o cooperativismo. Enquanto uma parte considerável da juventude anarquista reverte a um primitivismo suicida, seduzida por frases de efeito.

 

As esquerdas estão em crise, catando seus cacos por aí, e nada me tira da cabeça que cabe uma parcela de responsabilidade ao Maio Francês, que deu protagonismo a um tipo sedutor de anarquismo, e quando fracassou politicamente seus defensores voltaram embirrados para casa e não brincaram mais. É evidente que a migração das ideias (comunistas, socialistas e anarquistas) para o meio acadêmico nos divorciou irremediavelmente da base social a que essas lutas se destinam. Assumo a parcela de culpa que nos cabe por não conseguir uma reaproximação com os espaços hoje ocupados por toda sorte de aventureiros e farsantes, um ou outro tido como mito.

 

O que não consigo aceitar, de lado nenhum, é que se manipule impunemente a capacidade contestatória dos mais jovens, povoando as redes sociais de frases feitas, falsas analogias e terrorismo barato de informação. Nós que lutamos para ter uma formação em Humanidades, e temos a plena noção do poder das palavras, deveríamos ser os primeiros a evitar esse tipo de simplificação criminosa. Porque de tanto transformar assuntos complexos em tolas oposições binárias, talvez acabemos vivendo em um mundo amargamente binário em que não nos sobre espaço nem para respirar.

 

Depois de quase três décadas aturando piadas, insinuações e xingamentos abertos aos “comunistas” como se eu mesma não o fosse, hoje eu abro mão. E me dói por tantas lembranças dos tempos de república e do modo como você me apresentou a Frank Miller e Alan Moore e todas as vezes ao longo destes anos em que nos encontramos esporadicamente e mudamos o mundo em mesas de bar ou mensagens inbox. Você permanecerá em minha TL enquanto quiser, mas eu não estou mais lá.

MEUS HINOS

6 jun

Eu estudei do Pré à Quarta Série no Colégio San Carlos Borromeo, que era anexo à igreja homônima na Calle Millán em Montevideo. Quando visitei por segunda vez meus parentes, na década de ’90, o prédio do colégio havia sido transformado na residência do Arcebispo aposentado Carlos Parteli (figura simpaticíssima que vimos, meu marido e eu, descer de um coletivo e dispensar com gentileza e humildade as pompas e cerimônias). Hoje já não sei em que foi transformado, restam as memórias.

 

Era um colégio católico, mas com professoras laicas e bastante engajado no que se chamava de Iglesia del Tercer Mundo, tanto que o Padre Silva (que era o diretor quando eu ingressei) acabou sendo afastado quando a ditadura se avizinhava e eu nem sei que fim levou. O Padre León, que o substituiu, já chegou mandando rezar o pai-nosso à entrada e exigindo um tipo de disciplina mais rígida, o que acabou causando seu afastamento. Quando eu emigrei, quem era o diretor era o Padre Pose, que foi quem me batizou (essa é uma longa história, que envolve um parto quase malsucedido e um pai ateu renitente, que não me cabe contar aqui).

 

As nossas professoras eram de formação laica e muito competentes: Sonia, Mabel, Ana María, Obdúlia, lembro delas com muito carinho. Obdúlia, que ocupava a direção pedagógica quando precisamos emigrar, veio despedir-se à nossa casa e nos trouxe um livro de figurinhas de paisagens do planeta, como presente de despedida. Toda a base da minha educação primária, devo a essas mulheres, que mesmo lecionando em um colégio católico, jamais nos impuseram ou questionaram qualquer princípio religioso.

 

Uma vez por semana tínhamos aulas de música com uma senhora chamada Catalina. Essas aulas eram basicamente de canto, era um colégio bastante pobre em termos de materiais pedagógicos, chegamos a construir pandeiros com tampas de garrafas, mas nunca tivemos instrumentos, havia apenas um piano, que servia para a professora marcar o ritmo quando cantávamos. E somente tantos anos depois, eu consigo aquilatar o que significava naquele início da década de ’70, quando a situação política se deteriorava a olhos vistos, nós cantarmos na escola uma versão em espanhol de Katiusha ou o candombe A mi gente, de José Carbajal, “El Sabalero”.

 

Logo que chegou, Catalina nos testou um a um (era um colégio bem pequeno) e separou os afinados para o Solo e o resto de nós para o Coro. Quando cantávamos, ela selecionava previamente as estrofes que deveriam ser cantadas por todos e as que seriam cantadas pelos solistas, mais afinados e harmoniosos. E dava um efeito lindo.

 

Quando cantávamos o Hino Nacional, eu sofria por não fazer parte do Solo porque eles ficavam com a estrofe mais bonita. Em compensação, no segundo “Tiranos, temblad!” (que poderia ser traduzido como “tremei, tiranos!”) Catalina sinalizava para que nós fôssemos “entrando” e quando chegava ao terceiro era apoteótico. Nas festas de fim de ano, ela colocava o disco com a melodia do Hino e nós cantávamos de fazer um pai ou outro chorar de emoção.

 

Quando da nossa chegada a São Paulo, minha irmã e eu fomos parar na EEPG Prof. José Escobar, que ficava na Rua Greenfeld, no Ipiranga, e era enorme, com centenas de alunos. Um contraste tão grande com aquele colégio tão pequeno, que mais parecia uma casinha de bonecas comparado ao prédio com salas enormes de quarenta alunos e quase sem espaço para o recreio, plantado em uma rua movimentada e barulhenta. Fazia com que nos sentíssemos ainda menores e isoladas.

 

Era 1974 e, na passagem de Médici para Geisel, os sinais do regime passavam pelas festas pátrias e o onipresente Hino Nacional, que era cantado todos os dias à entrada. Minha professora da Quarta Série (minha mãe achou melhor repetir o ano para que aprendêssemos o português e para que ficássemos com crianças da nossa idade) D. Dulce, visivelmente ligada ao regime, era forte entusiasta dos hinos. Com ela cantava-se o da Independência, da Bandeira, da Marinha, do Exército, dos Expedicionários (a cada dia era um diferente à saída da sala de aula até o portão) e seu olhar vigilante nos seguia.

 

Eu “dublava” na maior parte do tempo e só cantava quando ela chegava bem perto. Em parte porque morria de vergonha do meu português claudicante e, em parte, porque me doía no coração cantar um hino que não era meu. Não conseguia ver beleza naquele ritmo de marcha militar e nem no palavreado barroco, que mal entendia.

 

Com o passar dos anos passei a dominar a língua em mais de um sentido (embora ainda dê alguma escorregada, como uma gentil leitora me assinalou esta semana) e fiz do Brasil o meu país de eleição, abraçando a cidadania brasileira com sinceridade. Sem grandes entusiasmos (ainda há aspectos da identidade brasileira que não consigo decifrar ou me acostumar), mas com honestidade e sinceridade. Mas o Hino Nacional ainda está marcado demais pelos anos da ditadura, para mim.

 

Consigo ver beleza na Marselhesa, muito embora, por ocasião do segundo centenário da Revolução Francesa, alguns grupos tenham se manifestado contra esse hino por considerá-lo violento. Também tenho um carinho especial pelo hino da extinta União Soviética, que nas Olimpíadas de ’80 acompanhava a subida da linda bandeira vermelha, a cada medalha. E, embora não seja torcedora, considero o hino do Corinthians muito lírico e emocionante.

 

E sempre que ouço o Hino Nacional do Uruguay, em documentários, reportagens ou em alguma partida de futebol, a memória me remete ao Colégio San Carlos Borromeo e à nossa cantoria emocionada. E me remete à certeza de que o hino e a bandeira uruguaia não conseguiram ser usurpados pela ditadura militar e permaneceram junto ao povo a que pertencem. Minha tia Nelly Alaniz me contou, anos atrás, que nos estádios e nos desfiles, quando chegava à parte do “Tiranos, temblad!” os soldados tentavam em vão intimidar a multidão para que não cantasse.

 

E talvez seja por isso que me tornei esta criatura tão humanamente contraditória, que chora pelo hino de um “paisito” ao qual já nem pertence e também chora pelos hinos que internacionalizam a luta dos povos. Acredito que não é possível defender a Humanidade sem ter a total apreciação da sensação de pertencimento a um determinado grupo ou a uma determinada cultura. Somos o que somos por ter vindo de onde viemos e o carinho por nossas origens é o que nos capacita a abraçar o resto do mundo.

 

E, como já disse em um texto anterior, nesta Copa na Rússia, em nossa janela estarão penduradas as duas bandeiras, do Brasil e do Uruguay, porque somos o que somos para poder lutar pelo que sonhamos.

 

 

COSPLAY DE POBRE

2 jun

Quase ao fim do primeiro semestre de 1987, eu ainda estava tentando me enturmar na UNICAMP. Tendo ingressado ao curso de História naquele ano, após um vestibular massacrante e vindo direta do meio operário, demorei a entender alguns dos códigos de comportamento. E com o tempo acabei tendo uma série de amizades contingentes, que não foi muito além da formatura.

 

Naquele final de semestre, vários alunos do IFCH marcamos um churrasco. No meu meio social de origem, um churrasco era um acontecimento social, não era algo rotineiro (como depois se tornou durante os anos de prosperidade dos governos progressistas), churrascos aconteciam como comemoração a aniversários, conquistas ou mudanças de vida. Por isso eu me “arrumei” colocando uma roupa de sair e até passando um batonzinho (o que não era meu hábito cotidiano).

 

Quando cheguei ao local, uma república, todos estavam com as roupas de sempre, alguns até mais maltrapilhos de que na faculdade, e eu me senti sobrando. Episódios de constrangimento como esse me perseguiram durante todo o primeiro ano, até que eu desencanei de vez e parei de frequentar qualquer evento extraclasse e me concentrei nos estudos pelo resto do curso. Embora houvesse entre os meus colegas pouquíssimas pessoas realmente endinheiradas, éramos de mundos diferentes e a maior parte da “simplicidade” dos estudantes de Humanas de classe média não passava de afetação.

 

Eram pessoas que frequentavam churrascos sem motivo algum e que por isso podiam agir como se não fosse grande coisa. Eram pessoas que “comiam fora” com tal freqüência, que podiam se mover com naturalidade dentro de restaurantes, tratando garçons e funcionários com uma distância condescendente que eu não tenho até hoje. Quando eu entrei na universidade, aos vinte e dois anos de idade, podia contar nos dedos das mãos quantas vezes havia comido em um restaurante de verdade no Brasil.

 

Nesse sentido, as minhas roupas eram simples e puídas no cotidiano porque eu gastava toda a minha bolsa-trabalho em transporte e livros, mas eu tinha minhas roupas de sair, como toda pessoa pobre daqueles tempos. Vários de meus colegas ostentavam simplicidade com roupas gastas de grife, algumas até gastas artificialmente, compradas assim em butique. E eu fui percebendo essas nuances, principalmente entre os militantes do movimento estudantil, que me afastaram da militância por não considerá-la séria o bastante para os meus padrões.

 

Recentemente, minha filha que hoje frequenta a mesma universidade, mas em outro curso, estava relatando uma conversa com um amigo em que eles reclamavam do pessoal que faz “cosplay de pobre” na faculdade. São alunos de classe média alta, que vivem em repúblicas (financiados pelos pais), mas que mesmo assim andam maltrapilhos de grife e reclamando da falta de dinheiro e das privações de ser estudante. Tal e qual muitos dos meus colegas de trinta anos atrás, mas em uma escala mais grandiloqüente.

 

Adorei a expressão “cosplay de pobre”, usada por minha filha e seu amigo, porque expressa exatamente o caráter mascarado dessa prática juvenil. Para quem não está familiarizado com a cultura nerd, cosplay são aquelas fantasias de personagens de animes e quadrinhos, usadas pelos fãs do gênero em eventos e convenções. A ideia de que estudantes de classe média se fantasiam de pobres durante sua estadia nas universidades públicas, constrangendo os que de fato estão nas classes mais populares, combina com esse conceito de cosplay.

 

Para alguém que é pobre de verdade, ou que já o foi e hoje se aguenta na classe média baixa, como é o meu caso, ver esses jovenzinhos brancos de classe média “macaqueando” uma estética que julgam colocá-los no mesmo nível dos “oprimidos que defendem” (e ponha-se muitas aspas) é mais risível que ultrajante. Afinal, uma vez formados, a maioria abandonará essa militância romântica e se transformará no espelho dos próprios pais, exatamente porque não entende que a pobreza original (por não ter-se alternativa) é muito diferente do que essa experiência controlada, financiada por pais benevolentes e coniventes (ou não) com suas fantasias. Mais preocupante é ver os que perseveram na militância (ainda financiados pelos pais) e chegam aos quarenta e cinquenta anos fazendo cosplay de pobre e chamando isso de “princípios”.

 

Isso me traz à lembrança aquela célebre entrevista do Lula (e não vou lembrar se foi para o Pasquim mesmo ou para outro meio de imprensa) em que ele narra o estranhamento entre as operárias feministas e as feministas universitárias no primeiro Encontro de Mulheres promovido pelo PT em seus começos. Segundo o ex-presidente, as operárias foram ao salão e se prepararam, chegando ao local do encontro com suas melhores roupas de domingo, enquanto as universitárias usavam o tradicional look sem depilar, sem maquilar, sem concessões. E, embora Lula tenha considerado a situação hilária à época, talvez hoje ele possa refletir que as feministas universitárias com freqüência denominam como “escravidão aos modelos estéticos”, aquilo que muitas vezes é o sonho de consumo de muita menina pobre. E que esse é um dos motivos porque os extremos sociais das esquerdas não se entendem, pois buscam objetivos diferentes e não se veem representados uns pelos outros.

 

O projeto social progressista, defendido pelo PT, que visava trazer os pobre à modernidade e incluir socialmente através do consumo de bens duráveis, transformando uma franja considerável da população pobre em remediada ou classe média baixa, esbarrou exatamente nessas peculiaridades de comportamento. Esperava-se, penso eu, que as aspirações burguesas dos mais pobres fossem aceitas pela franja social que está “pendurada” entre e médio e o remediado, que a ascensão aos bens e serviços essenciais de alguns e a chegada de outros ao consumo mínimo de turismo e entretenimento não fosse pressentida como uma invasão de território. Já sabemos que isso não aconteceu, de um lado os remediados se sentiram “invadidos” e “rebaixados” ao ter que conviver com os pobres em ascensão e, de outro lado, uma boa parte desses pobres sentiu-se extremamente à vontade para abraçar o conservadorismo e voltar-se contra as políticas sociais que os beneficiaram.

 

E não vou criticar e nem censurar os pobres sem consciência de classe porque a consciência de si (vinculada à classe ou não) é um luxo que vem da politização precoce e da leitura constante, de uma educação completa, enfim. Considerando que a maioria da população, não apenas não tem acesso a uma educação de qualidade, mas também não tem a menor condição de suprir essas carências por si, devido às jornadas estafantes de trabalho, cobrar esse tipo de discernimento seria uma covardia. Mas é exatamente o que muitos militantes universitários, que vivem cosplay de pobres, costumam passar seus dias fazendo, acreditando que os pobres de que dispomos não são bons o suficiente para a Revolução.

 

Um amigo anarquista, que hoje mantenho à distância, nos visitou anos atrás e apontou o dedo acusador à casa própria que nos custou mais de uma década de sacrifícios. Alegando que jamais seria proprietário, parecia esquecer que sem os pais que lhe saiam de fiadores, jamais conseguiria alugar suas moradias e que nós, por sermos de famílias que não herdam, precisávamos de um teto próprio para ter ao menos a garantia de poder envelhecer sem a gigantesca preocupação da moradia. Aposentado do serviço público, esse amigo se sentia mais revolucionário do que nós por causa de uma reles escritura.

 

E são essas e outras que me fazem sentir cada vez mais longe da Revolução, um tanto por causa do povo, que demora a tomar consciência, mas muito mais por certas esquerdas, que ficaram no cosplay e não cresceram como seres humanos. Em parte por isso continuo escrevendo loucamente neste blog, à procura de uma via de acesso para o crescimento das consciências, mesmo que o resultado seja quase nulo. E vou fazendo meus vídeos e vou vivendo a minha Revolução pessoal um dia de cada vez.

A DITADURA E O CORPO FEMININO

30 maio

Nestes tempos de desinformação criminosa, de ignorância crassa e má-fé ignóbil, nunca é demais redimensionar algumas bobagens que é impossível ouvir calado. Tenho plena consciência de que os jovenzinhos entre treze e trinta anos que andam por aí pedindo intervenção militar, defendendo a ditadura, o assassinato e a tortura, jamais lerão este texto, até porque talvez lhes falte a capacidade cognitiva. Mas vá lá, este é um registro que precisa ser feito.

 

Em parte porque vem aumentando as afirmações pueris do tipo “meu avô viveu a ditadura e diz que era ótimo, que só morria bandido e que a família era valorizada e se podia brincar na rua porque não havia violência e tudo era respeito”. Por onde começar? Talvez dizendo que seu avô provavelmente é algum velho reaça que só lembra daquilo que quer ou que a passagem do tempo selecionou as memórias e destruiu qualquer coerência possível.

 

Nesse sentido, peço desde já desculpas aos autores e autoras de pesquisas acadêmicas nessa área porque este é um texto que contrapõe memórias e eu vou usar as minhas próprias ao invés da literatura especializada. Não duvido de que existam trabalhos sólidos sobre o tema, mas creio que para o grande público é muito difícil entender nossas metodologias e abordagens e prefiro ser tosca e direta. O momento da sutileza e da ironia já passou e pessoas que defendem tortura e assassinato merecem ser defrontadas com a verdade nua e crua.

 

E a verdade é que quando uma ditadura se instaura (seja ela civil, militar ou invasão estrangeira), a primeira baixa não é a estrutura democrática e sim o corpo feminino. Essa entidade quase abstrata que obceca padres, pastores, velhotes e adolescentes e que passa a receber uma carga de violência maior em uma sociedade já machista e misógina. A sanha dos poderes sociais se volta para regulamentar, constranger, torturar e assassinar mulheres com a conivência do silêncio geral.

 

A maior parte dos exércitos faz vista grossa aos estupros em tempo de guerra. É muito raro ver um soldado ser punido adequadamente ou meramente disciplinado quando ataca mulheres, é mais fácil que o saque seja punido porque implica em ofensa à propriedade. Em muitas culturas ao longo da História, o saque e o estupro eram parte do botim dos vencedores.

 

E isso acontecia e ainda acontece em muitos locais do planeta porque as mulheres ainda somos consideradas como “posses” e não como pessoas ou cidadãs. Quando uma facção política qualquer toma o poder e impõe uma ditadura, começa-se por legislar arbitrariamente sobre os direitos reprodutivos, obrigando-nos a submeter o controle de nossos corpos ao pensamento religioso que estiver na moda. Segue-se a perda do direito à vida, quando um feto passa a ser mais importante do que nós e a partir daí está aberta a temporada de caça para a tortura e morte de mulheres com fins políticos ou sem eles.

 

A recente ditadura brasileira, que se estendeu de 1964 a 1985, é um exemplo desse tipo de comportamento e quem diz o contrário está mentindo descaradamente. Este não é um texto para falar de Amelinha Teles, Dilma Rousseff, Inês Romeu e outras centenas de mulheres barbaramente seviciadas e torturadas e outro mesmo tanto que depois foram assassinadas. A história dessas mulheres eu só fui conhecer ao ingressar na universidade e à medida que o processo de redemocratização permitiu registrar e divulgar seu tormento.

 

O objetivo deste texto é deixar claro como era ser uma menina nos anos 70, quando os predadores agiam com o aval e o silêncio do Estado. Quando uma menina de doze ou treze anos, que ia a pé sozinha à escola ou à padaria, era obrigada a ouvir assovios e palavreado chulo e ordinário ao passar perto de oficinas, bares e construções. E muitas vezes nem se tinha coragem de contar aos pais, de medo que dissessem que a culpa era nossa.

 

Aos que dizem que as crianças podiam brincar nas ruas livremente, eu sempre pergunto: quais crianças e em quais cidades? Em cidades grandes, o trânsito já impedia todo esse bucolismo saudosista, em cidades pequenas, meninos podiam brincar na rua, meninas nem sempre. Em parte porque às meninas mais pobres ou remediadas já muito cedo era imposta uma cota de trabalho doméstico, em parte porque não era considerado que a rua fosse um local respeitável para o gênero feminino em geral (clara herança do pensamento colonial e patriarcal) e em parte porque todos sabiam que os perigos espreitavam.

 

Historicamente, meninas pobres sempre foram objeto de recreação para jovens endinheirados e as sociedades silenciaram diante do poder e do dinheiro das famílias importantes. Então, quando alguém lhe disser que na época da ditadura se respeitava a família, convém perguntar: a família de quem? Certamente não era a das meninas abusadas, sequestradas, assassinadas e jogadas em matagais ou valetas.

 

Lado a lado com a lista das militantes seviciadas, torturadas e assassinadas pelas “operações táticas” das forças de repressão (que muitos defendem e justificam demonizando-as como terroristas), podemos fazer uma lista muito maior de meninas, jovens e mulheres igualmente barbarizadas e assassinadas por agentes sociais dos mais variados, que desfrutaram da mais absoluta impunidade ao tempo dos militares.

 

Araceli Cabrera Sánchez Crespo, Cláudia Lessin Rodrigues, Ana Lídia Braga, Ângela Diniz são nomes de vítimas que você pode acessar facilmente hoje através de seu teclado e descobrir o nível de impunidade que o dinheiro dos apoiadores da ditadura conseguia para seus filhos cocainômanos e bêbados. Outras vítimas jamais alcançaram notoriedade na imprensa e também não conseguiram justiça. Eu mesma estudei com uma menina em São Paulo, cuja mãe precisara fugir de uma biboca qualquer no interior porque o marido (de família importante e poderosa) bebia sem controle e a espancava até quebrar ossos.

 

Então não me falem sobre respeito e família durante a ditadura porque isso é muito mais do que hipocrisia. Não me venha com relatos idílicos de um país com “ordem e progresso” porque essa ordem foi pavimentada com cadáveres de militantes e de anônimas de todas as idades. E o progresso se baseou na exploração de pessoas como meu pai, que fazia jornadas de doze horas por dia (uma semana de dia e outra de noite) em uma conhecida indústria têxtil, sem jamais receber uma única hora extra e sem sindicato ao qual recorrer.

 

Porque as ditaduras são assim. Oferecem todo tipo de benesses para os que as apoiam e para o resto da população resta a perda de direitos e o total desrespeito à vida. E se isso aconteceu na cara dos seus parentes e eles nem perceberam, talvez você deva se perguntar o porquê.