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O PROTESTO POPULAR E UMA SINGELA POLCA

26 mar

Tenho muita preguiça dos sindicatos e movimentos estudantis que acreditam ter inventado o protesto popular no Brasil. Estamos no ano em que se comemora o centenário da Greve Geral de 1917, a greve anarquista, tão significativa que aconteceu, inclusive, vários meses antes que a Revolução Russa. E mesmo assim, alguns movimentos sociais ainda teimam em apropriar-se da memória dos trabalhadores.

 

O protesto popular não é um fenômeno da História Contemporânea, como muitos parecem acreditar. Por volta do século quarto antes da Era Comum, os plebeus romanos se reuniam no Concilium Plebis (Conselho da Plebe), um tipo de assembleia popular que em tempos de miséria e fome acabava degenerando em motins. Os patrícios da República de Roma eram obrigados a negociar com a plebe e a aceitar seus tribunos.

 

Durante o período medieval, os motins do pão eram comuns na Europa e são (segundo E. P. Thompson) os precursores da organização dos trabalhadores nas revoltas cartistas e do próprio movimento operário inglês. No Brasil, as revoltas populares acompanham todo o período que vai do fim do século XVIII até 1935. O povo se reúne, quase sempre, quando a miséria e a carestia são tais que periclitam a sobrevivência objetiva.

 

Os protestos e greves populares nem sempre culminam em revolta, mas são um lembrete constante aos donos do poder de que existem limites na tolerância à exploração.

 

E a música é parte integrante da cultura popular do protesto. Das baladas irlandesas ao folk de Woodie Guthrie, de José Martí a Violeta Parra, uma vertente musical poderosa tem embalado e empurrado marchas e assembleias, quando não confrontos. O poder da música nessas horas reside na transmissão das mensagens e no diálogo com as origens populares dos movimentos.

 

Eu cresci em um lar politizado em que a música popular de protesto me acompanhou desde cedo. O folclore da América Latina ocupa minhas preferências musicais tanto quanto Pink Floyd, Jethro Tull ou Cartola e Adoniran Barbosa. E fico feliz que assim seja porque, à medida que envelheço, trata-se das minhas raízes e já é suficientemente difícil ser estrangeiro, que dirá perder os referenciais de origem.

 

É por isso que hoje trago a vocês esta pequena joia em formato de polca. Interpretada pela dupla folclórica uruguaia Los Olimareños e composta pelo inesquecível Víctor Lima, também originário das margens do rio Olimar. No esconda la mano foi lançada no longplay Quiero a la sombra de um ala de 1966 e eu me lembro de já saber a letra inteira aos meus sete ou oito anos, assim como de tantas outras canções igualmente importantes para a minha formação. Talvez aos ouvidos brasileiros soe um pouco tosca, mas esse tipo de música é um gosto adquirido.

 

Mas é interessante ressaltar que, na hora de protestar contra seu atual governo, algum argentino tenha recorrido a esta singela polca uruguaia para retratar uma realidade que perdura.

 

Los Olimareños não eram cantaurores, embora tivessem cometido algumas composições ao longo de suas carreiras, mas contavam com a possibilidade de gravar excelentes compositores como Ruben Lena, José Carbajal “el zabalero” e Víctor Lima. Eu gosto particularmente de várias zambas e cielos de Víctor Lima, tão lírico e preciso, representativo de toda uma geração. Pepe Guerra e Bráulio Lopez (Los Olimareños) perseguidos e exilados pela ditadura são uma referência de infância que me marcou demais.

 

Alguns anos atrás, lendo uma obra de Eduardo Galeano, descobri que os militares esmigalharam a mão de Bráulio Lopez para que não voltasse a tocar e que mesmo assim ele se recuperou e continuou tocando o violão tendo que superar dores horríveis. É dessas e outras histórias que as lutas populares se constroem e por isso vencemos, mesmo quando derrotados.

 

 

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