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MEMENTO MORI

8 mar

Hoje eu não quero e não vou falar sobre mulheres. A cultura das efemérides é um ranço que cheira a almanaque e é a desculpa perfeita para centrar a indignação ou a admiração em um único dia e ignorar solenemente os homenageados durante o resto do ano. E flores não podem ressarcir negligência, humilhações e desamor.

Hoje eu quero expressar minha tristeza e minha desesperança diante da nossa impotência para frear a ignorância e a banalidade do mal. Vivemos em um país que se encaminha a passos largos para uma solução totalitária e não conseguimos mais atravessar a couraça de mentiras criminosamente construída pelos formadores de opinião. Não existe mais diálogo.

Ontem, 07 de março de 2017, meu marido recebeu por engano um comentário em que um de seus clientes o caracterizava (em uma rede social) como “meu advogado ateu e petista doente”. O indivíduo em questão havia mandado uma mensagem com um “chamado” em defesa da Pátria, que era proto-fascista para dizer o mínimo. Quando meu marido respondeu alegando a necessidade de defesa da Constituição, o sujeito fez seu comentário desprezível ao encaminhar essa resposta (que era privada) a um de seus contatos.

Entretanto, como tanta gente com acesso a tecnologia, mas pouca capacidade para entender como funciona, mandou-a ao nosso número por engano. E eu me pergunto: o que Freud diria desse tipo de “engano”? Deduzam vocês mesmos…

Mas a pergunta que mais me persegue é: como é que um cliente de mais de quinze anos, que tinha acesso à nossa casa, além do escritório, e com quem conversávamos repetidamente, poderia ter passado esse tempo todo sem ouvir sequer um único de nossos argumentos e nos desprezando dessa forma?

“Petista doente” expressa a total incompreensão e ignorância sobre como funciona o campo progressista da nossa sociedade. Todos os que nos conhecem sabem que meu marido é anarquista há pelo menos trinta anos; que eu sou comunista desde sempre e que temos uma atuação comedida, mas constante, nas lutas sociais e nem sempre favorável ao PT. A nossa defesa intransigente da estrutura republicana, da Constituição e do mandato de Dilma Rousseff nos colocou em uma situação em que viramos o alvo dos radicais tanto de esquerda quanto de direita.

Temos uma vizinha que não nos olha na cara desde 2014 porque pintamos o muro de casa de vermelho, mas também temos colegas anarquistas que nos crucificaram junto ao movimento por termos escolhido defender o Estado de Direito contra o golpe político e a barbárie canalha que se lhe seguiu. E agora esse senhor, que pensávamos conhecer, revela que nunca nos estimou a ponto de ouvir nossos argumentos com um mínimo de respeito. Que em algum momento, tolo e crédulo, se deixou envolver pela manipulação odienta dos meios de comunicação e abandonou a sanidade no altar do ressentimento medíocre e invejoso que alimenta o antipetismo.

Para além do escárnio da mensagem, que nos expunha a uma terceira pessoa que nem nos conhece, foi o uso do termo “ateu” como caracterização pejorativa que mais me doeu. Demonstrando um preconceito que beira a intolerância, o indivíduo em questão parece ter deixado de lado tudo o que somos para concentrar-se no fato de que vivemos perfeitamente bem sem deuses. Eu perguntaria o porquê disso ainda incomodar tanto esse tipo de pessoa, mas essa é outra discussão.

O aumento desses incidentes me preocupa. Não tenho como dissociá-lo do crescimento na aceitação de um certo candidato defensor da tortura, do autoritarismo e da perseguição às minorias e aos direitos humanos. E muito menos ignorar o crescimento da virulência cotidiana entre os que defendem o fim da democracia.

Eu não tenho mais ilusões. Estamos nos encaminhando, a olhos vistos, na direção de eleger um proto-fascista travestido de patriota e que prega a eliminação física e a tortura de quem não pensa como ele. E quem concorda não são eventuais skinheads neonazistas ou muito menos carolas da Opus dei, quem concorda são nossos vizinhos e as pessoas que nos conhecem há décadas, mas que não nos veem mais como “gente”.

Então, ao invés de debates sociológicos sobre “pós-verdades” e autocríticas miseráveis, o campo progressista da sociedade brasileira deveria estar fortalecendo candidaturas para o legislativo. Precisamos de pessoas sensatas, minimamente inteligentes, tolerantes e com um mínimo de capital cultural para reverter as barbaridades com que a atual legislatura está destruindo nossas vidas e nossas possibilidades de futuro. Mas, acima de tudo, precisamos de um Congresso progressista porque o Executivo está em vias de ser capturado por projetos autoritários e totalitários e precisamos de barricadas em todos os locais possíveis.

Afinal, mesmo na eventualidade de Lula chegar a 2018 vivo e solto e conseguir ganhar a eleição, precisaremos de um Congresso que o ajude a consertar o estrago praticado pelos golpistas. É de bom alvitre lembrar que Dilma não conseguiu governar a partir de 2013, trancada por uma legislatura que visava apeá-la do poder a qualquer custo. O Judiciário por si só já será oposição suficiente, sem ter que ainda aturar um Congresso retrógrado, ignorante e belicoso.

Por isso, aos que me mandarem flores hoje (reais, virtuais ou metafóricas), sugiro que atentem para a hipocrisia contida no gesto de homenagear as mulheres enquanto caminham para eleger aqueles que defendem nosso total apagamento como indivíduos, quando não nossa eliminação física. De nós feministas, comunistas, progressistas, da comunidade LGBT, dos indígenas e de tudo o que signifique diversidade e diferença. Dos movimentos sociais organizados na luta por direitos civis, inclusão e direitos humanos, das ideias que questionem o patriarcado cristão e branco, de tudo enfim que signifique liberdade, igualdade e fraternidade.

É um risco eminente e eu não quero ter que deixar essa mixórdia como herança às próximas gerações.

Vídeo

Sultans of swing – de Dire straits (com eric clapton)

13 jun

esse concerto para Nelson Mandela é uma lembrança dos meus tempos de juventude, do boicote ao apartheid, da mobilização para a libertação de Mandela, da idéia de que o mundo pode mudar para melhor ainda em nossos dias…