Amargura

6 out

É bem provável que esta postagem saia já com a data de amanhã devido ao fuso horário do WordPress. Entretanto, é bom que conste que na minha cidade ainda é dia 05 de outubro de 2017. O dia em que eu desisti.

 

Enquanto escrevia meu texto de hoje, alertando para a escalada da violência, um sujeitinho entrou em uma creche em Janaúba, norte de Minas Gerais, e ateou fogo em crianças de quatro a seis anos.  É certo que muito se falará sobre isso nos próximos dias, ao mesmo tempo em que se silencia sobre o suicídio do reitor da UFSC, acossado pelo terrorismo de Estado. O que quer se diga, não será suficiente para equacionar o que estamos vivendo.

 

Saí para caminhar à tardezinha e os bares estavam lotados de gente acompanhando as eliminatórias da copa. Entrei nesta página várias vezes e tive o desprazer de ter que deletar postagens procurando “tretas”. Crianças inocentes morreram queimadas porque um imbecil surtou ao perder o emprego e as mesmas pessoas, que passaram semanas denunciando falsamente exposições artísticas por pedofilia, hoje se omitem.

 

Nesse sentido, a hipocrisia dos defensores da família fica escancarada diante de tal tragédia. Os mesmos que não duvidam de condenar uma mulher à morte para salvar um feto, esbravejam em defesa de crianças hipotéticas e desviam o olhar quando crianças de verdade são afetadas. E depois vem dizer que nós é que somos o mal.

 

Como argumentar com quem não quer ouvir? Como explicar ou dialogar se a pessoa não sabe interpretar um texto? Como lidar com a perfídia pútrida que nos rodeia?

 

Cansei. Admito a derrota. Fui.

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O TEMPO PARA OS MEMES JÁ ACABOU E PRECISAMOS IR À LUTA

5 out

A tentação de zoar essa direita energúmena, que emergiu para a esfera pública nos últimos anos, é um escapismo que precisamos superar. Charges, tirinhas e memes são recursos importantes, que auxiliarão os futuros historiadores a reconstituir o processo de esgarçamento da civilidade e do crescimento da violência real e simbólica praticada por esses extremistas. Entretanto, o tempo para o registro está se esgotando muito rápido e precisamos de estratégias para combater a ignorância e o obscurantismo.

 

Dos jovens liberais anacrônicos aos vociferantes defensores da tortura, estamos presenciando um festival dantesco de burrice, ignorância, intolerância, ódio e alienação. Gente que argumenta partindo de silogismos e falsas equivalências, repetindo argumentos fornecidos por seus mentores e que, quando confrontada com a tolice de seu pensamento, vocifera alucinadamente para calar o oponente no grito. Pessoas que perderam a noção do decoro social, se é que algum dia a tiveram, e se comportam como pirralhos birrentos que não aceitam ser contrariados.

 

Não satisfeitos em transformar as redes sociais e os portais de notícias em um quintal para suas explosões de vulgaridade e intolerância, agora escolheram vandalizar igrejas e terreiros e atormentar e perseguir artistas e museus. Desde a dona de casa desmiolada do Ceará que arrebentou imagens sacras do século XVIII a golpes de paralelepípedo, até a multidão de internautas ensandecidos que vê pedofilia em tudo o que desconhece ou não tem bagagem cultural nem capacidade cognitiva para entender, estamos descambando ladeira abaixo em direção ao triunfo da violência obscurantista. É um ajuntamento social complexo e variado que confere um significado completamente novo à expressão jocosa “a vanguarda do atraso”.

 

Com significativa presença legislativa, essa “nova direita” fundamentalista pretende silenciar o pensamento crítico nas escolas, censurar a Arte e expurgar o entretenimento em benefício de um modelo de cristianismo literal e pré-moderno, que envergonharia até mesmo luminares do conservadorismo como Alceu de Amoroso Lima ou Edmund Burke. Manipulando hipocritamente esse discurso de defesa da família “tradicional” e dos costumes, mascaram negociatas, desvios morais e até mesmo a ampla presença de abusos sexuais dentro das igrejas e templos que cultuam, para demonizar seus oponentes políticos e sociais e projetar o conteúdo de suas mentes pútridas naqueles que desejam destruir. Talvez seja por isso que acenam com o berro inconsequente de “pedofilia” até mesmo em pinturas barrocas, sobejamente conhecidas pela representação alegórica, mas se calam sobre os casos de abuso de crianças na vida real.

 

Há que saber diferenciar entre os mentores calculistas de toda essa balbúrdia e a multidão de barnabés com suas tochas e forcados metafóricos, que investe cegamente e projeta seu ódio contra quem os manipuladores mandam.  

 

Na década de 90, o jornalista Bob Fernandez afirmava que a pergunta essencial para analisar qualquer notícia do âmbito sociopolítico no Brasil era “quem está mordendo?”. Uma variante bem interessante do clássico “follow the Money” presente na cultura investigativa. Por isso aqui em casa nos habituamos a analisar o noticiário, entre muitos outros aspectos, verificando quem lucra monetariamente com as iniciativas de controle político e social.

 

E, de fato, sempre alguém lucra. Podem ser os produtores de conteúdos extremistas, youtubers, blogueiros ou formuladores de “movimentos” em prol de valores tradicionais, dispostos a abocanhar patrocínios privados ou verbas estatais para promover a confusão e manipular multidões ensandecidas e, assim, provocar resultados mercadológicos ou eleitorais que beneficiem X ou Y. Não há dúvida que corre muito dinheiro nessas iniciativas de patos e pixulecos, uma vez que um número significativo de seus promotores nem sequer tem como justificar a própria renda.

 

Mas é também sua inserção junto às redes sociais que acaba por produzir renda também. A cada curtida, comentário ou compartilhamento, os produtores de conteúdo “polêmico” ganham mais dinheiro e muitas pessoas bem intencionadas, na tentativa de denunciar esses produtos do ódio, acabam por servir de propagandistas desavisados. E assim o mundo gira e a lusitana roda…

 

Em parte, isso se dá porque algumas das situações ridículas proporcionadas por essa “nova direita” são tão estapafúrdias que se contar ninguém acredita. É o caso do infeliz que ameaçou “descarregar um ‘38” no jornalista que vestia uma camiseta em que estava escrito “Je suis gay” (em francês “eu sou gay”), alegando que o jovem estaria chamando Jesus de gay e demonstrando que não sabe sequer a grafia correta da divindade que adora. A tentação de compartilhar esse tipo de aberração mental é enorme, mas não deveria.

 

Em primeiro lugar porque deveríamos ser melhores do que rir da ignorância e do ridículo alheio. E em segundo lugar porque não deveríamos dar ibope e nem pasto para falsas polêmicas e nem curtidas em sites e postagens de quem vive disso e procura manipular o debate na rede para encobrir as falcatruas de seus políticos favoritos. Ao invés de compartilhar muitos desses conteúdos, bastaria “tirar um print” e produzir uma postagem própria, aí sim criticando.

 

Inclusive porque já passou o tempo de achar graça em gente que boicota museus aos quais nunca foi e nem pretendia ir e é tarde demais para fazer piadas hilárias com quem não sabe que os “anjinhos” e “putti” da Arte Barroca e Renascentista não representam nem nunca representaram crianças. O nível de ódio destilado nas “polêmicas” mais recentes deveria ser um aviso veemente de que essas pessoas estão a um passo de sair assassinando por aí. A destruição sistemática dos terreiros de matriz africana, a tentativa de depredação do túmulo de Chico Xavier e o ataque às imagens de santos católicos não são eventos aleatórios, são a arrancada de um surto odiento de intolerância e intimidação por parte de ignorantes manipulados por forças políticas e econômicas maiores.

 

A violência física contra os professores, que cresce a cada dia, é outro sintoma dessas multidões doentes. Bem como o linchamento e a tortura de “bandidinhos” e os ataques a casais gays (ou a pais, filhos e irmãos que demonstrem carinho em público e possam ser percebidos como gays) também refletem a deturpação de caráter de quem jura que está defendendo valores familiares. Se a situação agora está assim, imaginem como ficará quando houver proselitismo religioso nas escolas, com o aval do Estado…

 

Não vejo como esperar qualquer garantia de segurança social de nenhum dos três poderes, uma vez que lhes convém que nos digladiemos enquanto eles depredam o Estado e enchem os bolsos com polpudos salários cheios de penduricalhos obscenos. Também não acredito em candidatos “milagrosos” que possam abrir mares ou andar sobre as águas e assim frear esta onda pavorosa de demência social. O que nos resta então, senão manter a sanidade e lutar com todas as forças para permanecer vivos e torcer para que os ignorantes se matem entre si?

 

Porque eu não vejo mais a possibilidade de qualquer diálogo com pessoas que aderem cegamente ao linchamento de museus e artistas porque não tem capacidade cognitiva para entender o contexto de um nu na Arte. Muito menos consigo mais ter paciência com hipócritas que querem defender as crianças da pedofilia, mas calam clamorosamente quando padres e pastores abusam de mulheres e crianças. Também não posso ter mais pena de quem é tão reprimido pela educação religiosa, que atribui a todo e qualquer corpo nu um significado sexual.

 

A certeza que fica é que a nossa sociedade está doente. Doente de podridão nas mentes dos que manipulam e dos que se deixam manipular, e que dirigem seus ódios a tudo o que constitua qualquer ameaça (real ou metafórica) a seu viver comezinho e medíocre de ovelhas. E certamente merecem os “pastores” que tem.

 

Fica para nós a luta para manter acesa a tocha da Civilização.

TODOS FOMOS IGNORANTES NA JUVENTUDE

27 set

Em algum momento de 1989, Carlo Ginzburg apresentou uma palestra no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Eu estava no terceiro ano de graduação e, acompanhando outros colegas e alguns professores do departamento de História, juntei-me ao pequeno público que presenciou esse momento épico. Naqueles tempos, Ginzburg ainda não era uma unanimidade nos currículos universitários e poucos dos nossos professores estavam aptos a analisar o paradigma indiciário por puro desconhecimento, era uma abordagem documental relativamente recente.

 

E devo dizer que para nós, orgulhosos estudantes do IFCH e profundamente ignorantes sobre a estrutura de qualquer curso que não fosse o nosso, era quase um absurdo pensar que aquele historiador maravilhoso estivesse apresentando-se para os alunos de Letras e não no nosso instituto. Eu mesma nada sabia sobre Linguística e devo à posterior convivência profissional com Émerson de Pietri, e outros professores dessa área, o meu “desasnamiento” e a minha compreensão sobre morfologia. À época de graduação, olhávamos para os alunos de Letras com uma implicância carinhosa, mas implacável.

 

E eis que, estando na plateia, entra Carlo Ginzburg, um homem alto e imponente, e uma professora já idosa do IEL procede à sua apresentação. Toda emocionada ela menciona ser fã da mãe do historiador, Natalía Ginzburg, e quase vai às lágrimas citando um trecho de memórias em que se refere a “i bambini” e ela, vendo-se diante de uma das crianças, gagueja uma apresentação que para nós foi absolutamente constrangedora. Ginzburg, que parece uma pessoa bem contida, agradece e começa sua palestra (que foi proferida em inglês porque os descendentes de italianos éramos minoria e fomos voto vencido).

 

Era um tempo em que não existia internet, pesquisávamos nas bibliotecas frequentemente defasadas e nossos professores completavam nossa formação com cópias de textos que traziam de volta de suas viagens para participar de eventos no exterior. As apresentações nas orelhas dos livros acadêmicos eram, geralmente, atinentes apenas ao meio profissional, citando idade e procedência dos autores e mais nada. Tudo o que sabíamos sobre os historiadores vivos que estudávamos era o que nossos professores nos contavam.

 

Então, evidentemente, eu não sabia quem era Natalía Ginzburg, uma vez que não fazia parte das minhas referências literárias e pouco sabia do próprio Carlo, apenas que vinha da Universidade de Bolonha. Algum tempo depois até encontrei um livro dessa autora na livraria, mas era tão caro e eu tão “remediada” que nem pude comprar. E com o tempo essa referência me fugiu à memória e ficou sepultada por quase três décadas de uma vida de referências.

 

Também superei a pessoa que era naqueles tempos. A pessoa jovem e ignorante que olhou para aquela professora (que não conhecia) e julgou-a uma “pata choca” que nada sabia sobre a importância historiográfica de Carlo Ginzburg. E é maravilhoso poder constatar que a idade, a experiência, os dissabores e os sofrimentos da vida têm a capacidade de expurgar nossa persona dessas arrogâncias e ignorâncias juvenis.

 

Ginzburg não foi o único historiador que pudemos assistir durante a graduação. Seymour Drescher, Dale Tomich, Thomas Holt, Christopher Hill e, pasmem, Eric J. Hobsbawm passaram pela UNICAMP naqueles quatro anos gloriosos. E hoje penso que foi um desperdício ser tão jovem a ponto de entregar-me à tietagem, mas não ter leitura suficiente para fruir de suas conferências e palestras como seria devido.

 

Vez por outra, ao reler algum ensaio do Ginzburg, pensava naquela palestra no IEL, mas não me detinha demais nas lembranças que começavam a ficar embaçadas. Nunca mais pensei naquela professora e sua apresentação informal e “desajeitada” do “nosso” historiador. Até ontem.

 

Ontem abri o exemplar da Carta Capital da semana passada e comecei a ler uma resenha sobre um documentário a respeito dos intelectuais italianos que resistiram ao domínio fascista durante a guerra. E, de repente, lá estava Leone Ginzburg, casado com Natalía Levi (e pai de Carlo Ginzburg), ensaísta, professor universitário e tradutor de literatura russa, que foi assassinado pela GESTAPO em 1944, aos trinta e quatro anos. E todo o contexto e o sentido do gaguejar emocionado sobre “i bambini” daquela idosa professora me atingiu como um soco no peito.

 

E eu chorei também. E tive a certeza de que também estaria aos prantos diante de uma história de vida como essa, fosse eu quem estivesse lá para apresentar Carlo Ginzburg a uma plateia que nada sabia. E, sem pretender, cresci mais um pouco.

 

E cresci não apenas por poder prestar uma homenagem tardia àquela professora que nunca conheci, mas também por poder pensar sobre a juventude que me rodeia e que repete meus mesmos erros em direção à maturidade. Esses que com frequência eu considero como não passando de meros pirralhos arrogantes e ignorantes são, em parte, um espelho da minha própria juventude. É claro que um espelho um tanto distorcido porque eu não tinha a liberdade, a informação e a tecnologia que eles desfrutam hoje.

 

Mas ainda assim um espelho.

 

E, se há algo que posso afirmar com conhecimento de causa, é que um dos aspectos preponderantes do meu processo de amadurecimento foi que os adultos da minha juventude não tinham pena nem escrúpulos de esfregar todos e cada um dos meus erros na minha cara. Naqueles tempos, palavras como autoestima nem sequer existiam e, para cada professor maravilhoso como o Amaral Lapa, havia ao menos dois sarcásticos que não perdoavam chances. Devo a esse conjunto de circunstâncias e de pessoas do meu entorno a capacidade de ainda me maravilhar e aprender a esta altura da vida, de saber que humildade pessoal não equivale a submissão e que respeito implica sempre em empatia e solidariedade humana.

 

E tenho consciência de que ignorar fatos básicos da vida é inerente a todo aquele que não viveu, a informação de segunda mão não basta e é preciso a experiência para entender muito do que nos rodeia. A arrogância juvenil é sempre um empecilho nesse aprendizado, mas ela passa, é preciso que passe para alcançar a idade adulta e a maturidade que vai nos presenteando com a compreensão da complexidade e da completude da vida. É um processo em constante construção e nunca cessamos de aprender.

 

Agora só preciso mesmo é de mais e mais paciência…

O ESCOLA SEM PARTIDO E A DITADURA DO PENSAMENTO ÚNICO

26 set

Quem acompanha este blog ou meu canal no YouTube há mais tempo, sabe perfeitamente o quanto já me debati contra os projetos do Escola sem Partido. Meus vídeos de 27/04 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=_gVbMik_BdA ) e 31/05 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=8keXEPy9IOQ ) do ano passado já têm vários milhares de visualizações e abordam aspectos inerentes ao objetivo obscurantista dessas iniciativas. O que em um primeiro momento pode parecer apenas banir o pensamento crítico do currículo escolar, a médio e longo prazo implica em trazer a bíblia para dentro da sala de aula e dar-lhe estatuto de autoridade pedagógica.

 

Nesse sentido, há mais de ano e meio que venho denunciando o crescimento dessas iniciativas de censura e repressão ao livre pensamento. É uma pena que só agora alguns setores da sociedade civil começaram a reagir. É muito tarde e é muito pouco.

 

As vereanças de muitas cidades, de perfil conservador, já estão arregimentadas e aparelhadas para aprovar esses projetos. E padres e pastores já passaram mais de um ano martelando essa baboseira nos sermões e cultos, convencendo seus fiéis. E nós professores ficamos sozinhos esse tempo todo.

 

Há dois extremos nesse movimento que precisam ser considerados. Sobre a questão das salas de aula, já me estendi o suficiente em vários textos. Hoje quero falar também sobre a questão da ingerência nas universidades e no pensamento teórico.

 

Quem tem presença nas redes sociais já deve ter visto mais de uma vez o slogan defendido por alguns dos arautos do Escola sem Partido “- Marx e + Mises”. Esse grupo defende que os cursos de Ciências Humanas no Brasil deveriam descartar o pensamento marxista e estudar a obra de um certo Ludwig von Mises, pensador tão obscuro que nem sequer mereceu um volume entre as coleções de pensadores e economistas que adornam as bibliotecas por aí. Sem a mínima noção de como se constrói o pensamento acadêmico, esses vociferantes ignaros, que fecham exposições, querem também ditar cátedra silenciando o que não entendem.

 

Não tenho procuração para falar por outras áreas das Ciências Humanas, mas posso expressar alguns dos princípios da minha área, a História.

 

O pensamento acadêmico em História é estruturado a partir do diálogo historiográfico. Aprendemos Teoria e Filosofia da História para poder realizar a sua escrita, que recebe o nome de Historiografia, essa escrita é o modo como analisamos, catalogamos e narramos os fatos, dentro dos pressupostos teóricos e da nossa própria noção de historicidade. E a Historiografia implica em dialogar com outros autores, inseridos em escolas teóricas e interligados por praxes acadêmicas de escrita e análise.

 

A isso chamamos diálogo porque não se constrói conhecimento sem esse constante interrogar das evidências e sem essa comparação com os achados dos outros autores. Quando um autor escolhe não dialogar com o conhecimento já existente em sua área e deliberadamente renega os métodos necessários para a autenticidade de sua pesquisa, a tendência é que seu trabalho se torne irrelevante, mesmo quando aclamado por um público menos apto. O destino de vários desses aventureiros é engrossar as listas de best-sellers e capturar a imaginação de quem não tem o mínimo conhecimento sobre a área estudada.

 

Academicamente, não há como eliminar o pensamento de Karl Marx do diálogo historiográfico porque a maior parte da produção intelectual dos últimos cento e trinta anos dialoga de algum modo com este autor. Seja para inserir-se na tradição marxista ou para contestá-la, seja nos pressupostos teóricos ou nos paradigmas metodológicos, a presença de Karl Marx é necessária nos currículos universitários para entender uma boa parte da trajetória histórica da nossa disciplina. E isso não torna todos os que estudam Marx, automaticamente, marxistas, ao contrário, em toda a minha trajetória acadêmica sempre estivemos em minoria.

 

E isso certamente não transforma em comunistas todos os que reconhecem a importância de Marx para a História do pensamento intelectual no Ocidente.

 

O que grassa nesses meios do Escola sem Partido é, não apenas, a mais profunda ignorância sobre tudo o que seja pensamento acadêmico, mas também uma raiva acéfala contra o conhecimento em si. Não é senão por isso que bobagens como o criacionismo, a demonização das vacinas e o terraplanismo estão na ordem do dia para grupos que recusam a pesquisa científica como se fosse algo maligno. É uma mistura tosca e explosiva de religião com pseudociência, que redunda em ilhas ou bolhas de ignorância categórica e intolerante e promove o obscurantismo e o ódio.

 

Minha filha costuma argumentar que a rebeldia adolescente, em sua essência mais tosca, é em parte responsável por esse estado de coisas. Em uma sociedade que se encaminha para direções mais progressistas, os adolescentes escolhem pautas conservadoras para diferenciar-se e posar de rebeldes nas redes sociais. Ao contrário da minha geração, que precisou enfrentar o conservadorismo e, por isso mesmo, dirigiu sua rebeldia para defender liberdades e direitos de um espectro mais amplo.

 

No dizer da minha filha, e eu concordo, hippies eram antibelicistas porque conviviam com uma guerra monstruosa, hipsters são esnobes porque estão rodeados pelo consumo massificado e muitos adolescentes, atualmente, se viram para o conservadorismo mais canhestro porque querem chamar a atenção, mas não tem maturidade nem inteligência para admitir as consequências de seus pensamentos e atos. E é com essa massa de manobra que aqueles que estão por trás do cenário contam para servir de “tropa de choque” e intimidar o pensamento crítico. Diante da desinformação reinante e das bolhas criadas pelas redes sociais, até ser neonazi pode ser “descolado” para grupos sociais famintos por protagonismo e pertencimento.

 

Somem-se a isso os rebanhos pentecostais e carismáticos e é uma receita para o triunfo da ignorância e do não-pensamento. O messianismo demonstrado pelos defensores do Escola sem Partido já nos dá uma amostra do que pode vir por aí. Não admira que, nesse cenário absolutamente delirante, o Supremo Tribunal Federal esteja cogitando em liberal o ensino religioso confessional nas escolas públicas, em flagrante desrespeito ao Estado Laico e às mais caras tradições republicanas.

 

Se esse arremedo de Inquisição vingar, teremos em um extremo os professores escolares sendo perseguidos pela emissão de qualquer pensamento crítico e no outro extremo a eliminação de qualquer relevância intelectual de nossas universidades devido à supressão sumária do diálogo acadêmico que nos liga a um vasto grupo de instituições neste e em outros continentes. Em seu lugar entrariam repertórios de almanaque como substitutos ao material didático e obscuros pensadores de guetos intelectuais inexpressivos para obliterar os currículos das nossas universidades. E a presença religiosa seria cada vez mais opressiva e obscurantista, em retorno a estruturas e pensamentos do passado que deveriam ser motivo de constrangimento e não de orgulho.

 

E eu me pergunto: o que aconteceria se, de repente, os anarquistas enlouquecessem e resolvessem exigir a substituição de Marx por Proudhon e começassem a atormentar os meios acadêmicos e as escolas e encontrassem grupos sociais que lhes dessem respaldo nessa insanidade? Seria patético e impossível, não é mesmo? Afinal, mesmo que muitos não gostem, Proudhon fora de seu diálogo com Marx parece um pensador muito menor, mesmo tendo gerado uma tradição de seguidores na academia e fora dela.

 

Guardadas as devidas proporções, os delírios dos seguidores de Mises estão nessa categoria do patético e do impossível. Apenas que, diferente dos anarquistas, que se situam na extrema-esquerda do espectro e não conseguem seduzir o senso comum ou a imaginação dos ignorantes, os seguidores de Mises, por encontrar-se na extrema-direita, acabam por receber o apoio e o beneplácito dos centros de poder. E é por isso que hoje estamos na iminência de mergulhar no caminho irreversível da mais obscurantista teocracia.

 

Nesta altura do campeonato, perdemos tempo e pontos preciosos e não temos uma defesa que impeça a goleada, se me perdoam a metáfora futebolística. É hora de começar a pensar em cautelares para garantir o direito à liberdade de cátedra e em ações coletivas para impedir vereadores de extrapolar suas funções, invadindo salas de aula e violando flagrantemente os direitos dos professores. Se não começarmos a fortalecer nossas defesas, nem adianta cogitar em contratar bons ataques.

O APOCALIPSE ZUMBI 

18 set

(com alerta veemente de figuras de linguagem e outros recursos literários)

 

1.

 

Sábado, oito horas da manhã, a campainha toca e Amanda pula da cama apavorada sem saber o dia, a hora ou o lugar. Respira fundo e percebe que era um dia em que poderia ter descansado dormindo até mais tarde, mas agora esse despertar brusco vai espantar de vez qualquer sono. Maldizendo da sorte, calça seus chinelos e vai em direção à porta. Protegida dos olhares externos, dá uma espiada e depara com uma dupla de Testemunhas de Jeová e solta um palavrão involuntário.

A vontade de Amanda é abrir a porta e mandar os dois para um lugar bem sonoro, mas ela não o faz porque tem plena consciência de que, para a mentalidade masoquista desse tipo de crente, qualquer hostilidade que possa ser encarada como “sofrer para espalhar a palavra” é um prazer muito maior até do que converter alguém com suas lorotas. Depois de algum tempo, os dois desistem e vão para a próxima porta invadir a privacidade de outro incauto, desrespeitando qualquer direito constitucional com seu proselitismo fanático.

 

Com a manhã perdida, a professora Amanda desencava um pacote de provas para corrigir e, depois de encher a máquina de lavar, ventilar a casa e retirar da geladeira os ingredientes para o preparo do almoço, senta-se e passa duas horas seguidas corrigindo garranchos, erros de concordância, raciocínios lineares e uma porção de “enrolation” de alunos que não estudam e enchem as provas de “piadinhas” esperando safar-se por causa da progressão continuada. E a professora respira fundo, mas não encontra o ar necessário para seus pulmões e vai cuidar da casa, do almoço e ligar o computador para pagar as contas pela internet.

 

O orçamento está estourando e Amanda não sabe como fará para comer na semana seguinte, mas ao menos os remédios que precisa ainda pode conseguir de graça. Há tempos que não sobra grande coisa para roupas, sapatos e muito menos livros ou cinema. A internet é a companheira mais barata, já que a televisão aberta é tão lastimável que nem dá para descrever.

 

Amanda apostou suas fichas na democracia, nos governos populares, saiu à rua para defender a presidenta legitimamente eleita, assinou dúzias de petições online para defender seus direitos e os das minorias, inundou as redes sociais de textões e memes ultracríticos e, no entanto, o golpe veio, os direitos foram atropelados, seus textos no Facebook valeram-lhe vários bloqueios e uma reclamação na escola que deixou suas aulas por um fio.

 

A professora precisa comer, morar e vestir mesmo que o que ganha mal dê para isso, mas também precisa pensar e expressar seu pensamento e agora não pode mais. O medo das retaliações calou Amanda, notícias de professores sendo perseguidos, espancados, virando balconistas em lojas de conveniência pipocam todos os dias em sua TL e o clima de ameaça é constante. A escola chegou a um ponto em que mandar um aluno prestar atenção pode criar um incidente de proporções desmedidas.

 

Amanda toma seu chá e espera um milagre.

 

2.

 

Josué quer chorar e não consegue. Seu irmão foi assassinado, mas ele não pode sequer pronunciar-lhe o nome porque o pastor disse que seu irmão era um pecador pervertido e o expulsou da igreja e da comunidade. Seus pais passaram a fingir que ele jamais havia existido, nunca mais pronunciaram seu nome e nem falaram com ele ou sobre ele.

 

Mas Josué se lembra o tempo todo de como seu irmão o protegia na escola, quando ser crente era motivo de chacota. Lembra-se de como estava sempre lhe mostrando músicas que eles não poderiam ouvir e falando de temas que eram proibidos. De como ficou assustado quando seu irmão contou publicamente que gostava de rapazes e queria ser feliz. Da solidão que sentiu quando os pais o proibiram até de visitá-lo.

 

E agora Jeremias está morto, assassinado por gente que não gosta de rapazes que gostam de rapazes. E essas e outras pessoas dizem que foi castigo de deus e que seu irmão era um pecador. Josué quer gritar ao mundo que seu irmão era bom, ele não entende o pecado e nem entende deus. E tem medo.

 

E senta-se em seu canto com a bíblia aberta e o choro engasgado, esperando por um milagre…

 

3.

 

Fernando é um sujeito “antenado”. Frequenta a academia e cuida muito para que seu corpo esculpido mantenha os músculos firmes. Come o que o instrutor manda e não tem tempo para “frescuras”. Conversa com seus amigos sobre muitas coisas e tem opiniões fortes como ele mesmo.

 

Fernando jamais leu um livro, na escola estava sempre colando e dando “jeitos” de passar de ano. Não lê revistas também, só as de fisiculturismo. Para se sentir informado, conversa com algum colega que lê as revistas da recepção do dentista. Gosta de filmes de porrada e de carros velozes, se o filme tiver gente dando porrada e carros que correm até acabar em porrada, melhor ainda.

 

Fernando e seus amigos não gostam de gays, mas eles não dizem “gay” e sim “bichona” porque eles são muito machos e não usam palavras de florzinhas. Quando sai na noite e vê um gay, ele tem vontade de desancar de porrada o desgraçado para ver se vira homem na marra. E às vezes, quando está com seus amigos em bando, é exatamente isso o que fazem, espancam gays.

 

Ele e seus amigos não entendem nada de política, mas gostam de candidatos com atitude. Odeiam qualquer um que defenda os “direitos humanos”, que chamam de comunista e “esquerdopata” e também sentariam porrada se seus caminhos se cruzassem, mas os comunistas estão todos nas universidades e nas escolas doutrinando as criancinhas e isso é inaceitável.

 

No dia anterior houve um desfile gay e Fernando e seus amigos ficaram na saída do metrô a postos. Quando viram um rapaz com toda a pinta de “bicha” sair em direção ao terminal começaram a segui-lo. Depois de um tempo, o rapaz percebeu a apressou o passo, essa foi a deixa para que o alcançassem e o espancassem brutalmente, chutando-o quando já se encontrava no chão desacordado. Depois foram comemorar.

 

Hoje Fernando ouviu na televisão que um jovem gay, brutalmente espancado a caminho do terminal, faleceu sozinho na calçada e seu corpo ficou horas aguardando o IML. A enormidade de ter ajudado a assassinar uma pessoa nem sequer perturba o “maromba”, afinal, era só uma “bichona”…

 

Fernando acreditou que derrubando os “esquerdopatas” canalhas acabaria com a corrupção. Quando alguém lhe diz que a corrupção piorou, ele começa logo a berrar para calar o interlocutor porque não quer ter o trabalho de pensar. Agora deu para dizer que direita e esquerda é tudo a mesma coisa e que bom mesmo eram os militares. Por isso, ele e seus amigos resolveram votar num candidato que chamam de “mito” e que vai acabar com a “putaria” dos direitos humanos.

 

Fernando puxa ferro todo dia e espera por um milagre…

 

4.

 

Ricardo é advogado e é liberal, estudou sempre em boas escolas e faculdades bem ranqueadas. Acredita em meritocracia, afinal, filho de um juiz e uma promotora sempre estudou muito e merece conquistar seu espaço. Ele sabe que o mercado só premia quem se esforça e por isso despreza os pobres, os bolsistas e toda essa renca de fracassados que clama por justiça social.

 

Ricardo passou os últimos três anos estudando feito louco para prestar concurso para um juizado federal. Sonha com o prestígio e a estabilidade do cargo, com o alto salário e com o orgulho que seus pais vão sentir quando passar. Ele sabe que vai passar porque é impossível alguém que ralou tanto na vida não conseguir capturar seus sonhos.

 

Ele apoiou o impeachment porque estava cansado de ver a economia sendo gerida por pessoas incapazes de aceitar que o mercado é soberano. Quando vê alguém falando em golpe, imediatamente “carteira” o incauto e coloca para correr. Detesta esses mimimis de esquerdistas e quer mais mesmo é que sejam todos presos.

 

Ultimamente anda preocupado, boatos de suspensão por tempo indeterminado de qualquer concurso público se sucedem em sua TL do Facebook e ele e seus colegas concurseiros se perguntam se já não seria hora de descarar este governo e implantar um parlamentarismo eternamente ao centro para dar jeito neste país desgraçado.

 

Enquanto nada disso acontece, Ricardo estuda suas apostilas. E nas férias torra ao sol em Miami esperando por um milagre…

 

5.

 

E naquele sábado, naquele país, para aquela gente, o único milagre possível acontece. Subitamente os mortos brotam das sepulturas rasgando a terra e quebrando as pedras e marcham rumo aos que pensam que estão vivos. E arrastam-se pelas ruas arrancando as pessoas de seu marasmo e esmigalhando suas carnes tristes e solitárias, enquanto partem seus crânios e consomem seus cérebros mecanicamente. E tanto se esperou que agora já não há para onde correr e aqueles que perceberam sabem que é tarde demais…

REPRESENTAÇÕES, PÓS-MODERNIDADE E OS CRO-MAGNONS DA DIREITA

14 set

Que existe um problema de diálogo social no Brasil (e no mundo) é um fato público e notório, uma vez que estamos tendo que retomar algumas lutas do século XIX e outras, pasmem, pré-Iluministas. Senão vejamos, nos últimos três anos este blog já teve que se pronunciar defendendo um governo legitimamente eleito contra um golpe jurídico-parlamentar, denunciando a retirada de direitos sociais garantidos por uma Constituição soberana, combatendo o crescimento dos crimes de ódio contra mulheres, negros e a comunidade LGBT, denunciando a indústria da desinformação, dos fake news, da manipulação e da mentira propriamente dita, bem como o crescimento atroz da censura e da perseguição anti-intelectual diante da Ciência e da Arte. E, para amargura pessoal daquela que aqui escreve, perdemos todas essas batalhas e o país está hoje em uma situação que envergonha e humilha qualquer ser minimamente pensante, diante da indiferença da maioria de sua população.

 

A esquerda brasileira, sempre dividida, digladia-se atribuindo culpas e responsabilidades e clamando por autocríticas, como quem promove autos de fé e espera produzir catarse da violência autoinfligida. Enquanto isso, uma direita oportunista dá voz e protagonismo a uma súcia de trogloditas para que aterrorizem os espaços públicos e virtuais e mantenham a sociedade como refém do obscurantismo. E enquanto brigamos entre nós para descobrir onde erramos, as oportunidades de diálogo social se estreitam cada vez mais porque a direita apela ao atavismo visceral enquanto a esquerda procura por racionalidade onde esta sequer jamais existiu.

 

Vários de meus amigos marxistas são tão virulentos quanto a própria direita ao criticar o fenômeno da pós-modernidade. Enquanto a direita combate as pautas identitárias porque não considera o outro sequer como humano ou digno de interlocução, alguns setores da esquerda acusam essas mesmas pautas de provocarem rachas e rupturas na luta revolucionária. Não admira que, cada vez mais, os grupos perseguidos e espezinhados socialmente estejam procurando desempenhar suas lutas renegando filiações ideológicas tradicionais.

 

Não tenho a pretensão de dominar a bibliografia e nem o jargão pós-moderno, não apenas porque minha filiação teórica é marxista, mas também porque sempre tive a impressão de que esses teóricos estavam mais ligados à área das Ciências Sociais do que da História. É claro que essa é uma percepção minha e é provável que eu esteja enganada, além do que não compartilho a pretensão de dominar o conhecimento em todas as suas nuances, que acomete uma boa parte da nova geração. Prefiro dominar com propriedade a leitura de uma ou duas dúzias de autores, do que me aventurar a dar palpite em temas e domínios complexos apenas de orelhada (em parte por isso abandonei os vídeos, as pessoas solicitavam cada vez mais autores que me eram estranhos, e eu precisava ler muita coisa fora de contexto para poder responder, correndo o risco de interpretar equivocadamente algum autor, por estar fora da minha área de atuação).

 

O que entendo por pós-modernidade é um conjunto de conceitos que descartam a existência de um campo de existência real (desculpem a redundância) para trabalhar com suas leituras, versões, percepções e representações no âmbito social e cultural. É um tipo de leitura que rejeita filiações ideológicas e equaliza forças históricas e sociais (que de modo algum são iguais, idênticas ou igualitárias) e promove o primado das identidades em volta de áreas de concentração como gênero, raça e sexualidades, descartando sumariamente a divisão classista. É uma discussão de grande envergadura e, certamente, concordo que foi um dos fatores responsáveis por inviabilizar qualquer possibilidade de coesão nos movimentos de esquerda.

 

Entretanto, o que me assusta nessa discussão é a distância que ela adquire da sociedade real e das necessidades básicas do ser humano, o que permitiu que essa direita fundamentalista com ranço inquisitório ocupasse os espaços públicos e virtuais e sequestrasse o raciocínio de parcelas cada vez maiores da população. E isso se dá porque o nível de abstração dessa discussão é característico dos meios acadêmicos e está fora do alcance da grande maioria da sociedade, afinal, como tratar de versões e representações com pessoas que ainda precisam da ficção religiosa para manter a sanidade perante a vida? É evidente que a partir do momento em que uma parte considerável das discussões da esquerda migrou da fábrica para os meios intelectuais e adquiriu essa complexidade teórica, sua capacidade para promover qualquer mudança social se esvaiu em elucubrações abstratas.

 

E não estou dizendo, com isso, que a vivência acadêmica deva ser menosprezada, perseguida ou descartada. Ao contrário, sou defensora ferrenha da atividade intelectual e da necessidade constante dessa reflexão teórica sobre o mundo que nos cerca. Se ainda existe racionalidade nesta arena apocalíptica do capitalismo é exatamente devido à existência de uma sólida tradição intelectual contestatória que remonta ao século XII no Ocidente.

 

Quanto mais não fosse o atoleiro que estamos vivendo, bastaria o exemplo da cultura islâmica, que era intelectualmente florescente na virada para o segundo milênio e que a perseguição cristã, os interesses econômicos e o fundamentalismo religioso transformaram nesse deserto intelectual que hoje vemos. Os perigos de ceder ao discurso anti-intelectual estão cada dia mais presentes no convívio social e caracterizam uma tragédia anunciada. Por isso deixo claro aqui que, embora não simpatize com seus pressupostos teóricos, nada tenho contra os pós-modernos que justifique seu silenciamento.

 

O que estou argumentando, dentro das minhas limitações de expressão, é que existe uma esquerda blassé  que descartou a luta de classes e o materialismo dialético em prol do ideário pós-moderno. E esqueceu que vivemos em um país cujas instituições a duras penas se esforçam por sobreviver ao assalto das hordas predatórias de uma elite que se mantém intelectualmente ligada a um pensamento repleto de ranços coloniais. Se a modernidade e o Iluminismo não estão presentes nas percepções da maioria da população brasileira, que dirá a pós-modernidade.

 

Nesse sentido, parece que vivemos de anacronismo em anacronismo. Com grupos anarquistas primitivistas que defendem o isolamento social e o fim da civilização para agrupar-se em comunidades ciclistas veganas. Com feministas trotskistas brancas que defendem uma sororidade que ignora solenemente a clivagem de classe e raça. Com defensores da visão classista que renegam a existência do machismo e do racismo. Com militantes incapazes de gerar uma visão sistêmica que permita o agrupamento em lutas sensatas e plausíveis para além do espectro da política partidária. Com o esfacelamento da identidade básica do ser de esquerda que sempre primou pela solidariedade, pela defesa ferrenha da igualdade e da socialização de bens e serviços.

 

Enquanto isso na Sala da Justiça…

 

Pois é, enquanto isso existe uma direita troglodita que renega todo e qualquer processo civilizatório e se vale da ignorância e da falta de informação dos meios públicos e virtuais para promover o preconceito e a intolerância, emprestando as técnicas do fundamentalismo religioso para capturar a lealdade dos incautos. E nós estamos impotentes porque passamos a maior parte do tempo apelando para a racionalidade com pessoas que estão abandonando seu lado racional para entregar-se a atavismos catárticos, que compensam a miséria social e intelectual celebrando a violência que liberta das frustrações e amarguras pessoais. É uma questão de tempo para a convulsão social.

 

Principalmente porque essa nova geração de liberais, que renega a dicotomia entre a direita e a esquerda, promove as plataformas da direita sob o primado de um falso cientificismo, que atribui valores de veracidade a visões de mundo toscas e simplistas. E quando alguns setores da esquerda alcançam o limbo que se encontra acima do bem e do mal (e renegam a própria História do pensamento esquerdista) acabam por engrossar as hostes do não-pensamento tão ao gosto dos promotores do status quo direitista. Temos então o caldo de cultura ideal para a promoção de demagogos portadores de verdades milenares e soluções finais simplistas e autoritárias.

 

E aí o camarada Vladimir perguntaria o que fazer?

 

Precisamos descobrir como retomar as lutas essenciais e o espaço público, deixando que a Academia lide com o pensamento acadêmico e retomando o diálogo com a sociedade real. Precisamos ser menos professores e mais companheiros, reaprendendo com nossos semelhantes tudo aquilo que considerávamos superado pela História. Precisamos viver as condições do mundo em que vivemos para não correr o risco de que todos se tornem trogloditas e sejamos nós os únicos anacrônicos.

 

Paz, pão, terra e liberdade a todos os camaradas do mundo!

A ARTE E A VIDA

13 set

Há algum tempo que deixei para trás a pretensão de definir o que seja Arte, junto com outras arrogâncias da juventude. O conceito é por demais complexo e abrangente, ao mesmo tempo em que apresenta minúcias técnicas que desconheço, por pertencer a outro ramo das Humanidades. Movimento-me confortavelmente por uma História Social dos Movimentos Artísticos, mas não tenho erudição suficiente para ir além dessa leitura.

 

Por isso resolvi escrever este texto, que é muito mais um apanhado de experiências de vida perante a Arte, de que um tratado acadêmico. E resolvi entrar nesta seara porque os tempos aziagos em que vivemos são tão obscurantistas que estamos a um passo de ver fogueiras de livros. E, como em outros tempos igualmente tristes e perigosos, é a Arte que primeiro está sendo colocada na berlinda.

 

Sempre gostei de desenhar e, ao longo da vida, cometi algumas telas de que não me arrependo, mas nunca tive a pretensão de mergulhar no mundo da Arte porque me sinto muito mais confortável numa vida de contemplação que de produção. Principalmente porque nunca encontrei uma linguagem que fosse minha e sempre flertei com os artistas do meu agrado, seria inútil empreender uma carreira artística sem ter o quê e nem como dizer. E é por isso que tenho uma enorme admiração por quem se envereda pelos caminhos dilacerantes do autoconhecimento em busca de uma linguagem que diga de si e do mundo para produzir Arte.

 

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Hieronymus Bosch (1450-1516) As tentações de Santo Antão (acervo permanente do MASP)

A primeira exposição de Arte que visitei foi no início dos anos 70, quando a minha professora Mabel indicou que havia uma mostra de Rafael Barradas no parquinho do Prado. Era minha professora favorita e eu imediatamente pedi aos meus pais que me levassem para ver esse artista, que Mabel afirmava ser um dos maiores do Uruguay. O parquinho do Prado ficava relativamente perto de casa e ali funciona, desde os anos ‘30 até hoje, o Museo de Bellas Artes Juan Manuel Blanes, em um prédio que foi declarado monumento histórico nacional em 1975. O Prado (recebeu o nome do bairro em que está localizado e, por favor, não o confundam com o museu homônimo em Madri porque “prado” em espanhol designa qualquer pradaria) enfrentou altos e baixos, e passou por reformas, mas o prédio que abriga o museu é um delicioso exemplo de influência italiana rodeado de estátuas e “fontanas” de clara inspiração pagã.

 

Rafael Barradas (1890-1929) foi um pintor e desenhista uruguaio que fez sua carreira artística na Espanha, sendo amigo do grande poeta Federico García Lorca. Quando vi suas obras pela primeira vez e eu nem sabia o que era Arte quanto mais o que seria Modernismo ou Academicismo, o que me seduziu na época foi sua paleta de cores, que ia do pastel ao vibrante conforme o tema retratado. Qual não foi a minha surpresa quando em 2015, ao visitar junto a minha filha a exposição de Pablo Picasso no Centro Cultural Banco do Brasil, dei de cara com Barradas sendo considerado um expoente da Geração de 27.

 

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Rafael Barradas (1890-1929) Homem no café (Atocha)

 

Sim, aquela primeira exposição que vi gerou uma vida inteira de visitas a museus e mostras, sempre que a condição financeira me permitiu. E despertou meu interesse e minha predileção por vários movimentos artísticos. Mas foi um comentário de outro professor, já no início dos anos 80 que me levou a sair do senso comum e procurar um olhar mais desafiador.

 

João Nanni, que tinha uma história de vida mais ligada ao teatro, um dia questionou em aula “quem disse que o Belo tem que ser bonito?”. E usando como exemplo os contos góticos de Edgar Alan Poe, tão primorosamente escritos em que cada palavra ocupa seu lugar cuidadosamente calculado, explicou que o horror pode ser Belo. Que em Arte, esse termo quase nunca é sinônimo de bonito e sim de impactante.

 

Já fui sozinha visitar algumas exposições e já me distanciei de companhias que desdenhavam ou desperdiçavam a ocasião ímpar da contemplação diante do que não entendiam. Quando não entendo uma obra ou um autor, minha reação é sair pesquisando e quando me sinto perturbada ou desafiada, prefiro mergulhar em meu íntimo e entender o porquê antes de sair desancando qualquer expressão artística. Mas eu precisei de uma vida para aprender a ser assim, tive a sorte de conviver com professores inteligentes, de ter pais tolerantes e de ter educado uma filha artista, com quem aprendo coisas novas sempre.

 

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Pablo Picasso (1881-1973) Guernica (Museo Reina Sofia)

 

Por isso quando leio comentários do naipe de: “não quero que meu filho seja exposto a essas influências degeneradas” sempre extraio o seguinte subtexto: “não quero que meu filho aprenda a questionar minhas crenças porque o meu conceito de respeito exige que meu filho jamais seja mais inteligente do que eu”. É isso o que estamos vendo nessa mixórdia que critica desde a Lei Rouanet (que está longe de ser satisfatória) até a integridade moral dos artistas, para promover e manter uma educação que reproduza nos filhos, cópias medíocres e pioradas dos pais. Sobre Arte a discussão está longe de passar, até porque os críticos são ignorantes confessos que jamais visitam museus na vida e nada sabem sobre linguagens e movimentos artísticos.

 

Eu venho de uma linhagem de mulheres que sempre primou por lutar para que a próxima geração seja melhor e encontrei um companheiro de vida que compartilha esse e outros ideais. Por isso jamais me ocorreria limitar o acesso da minha filha a qualquer tipo de Arte, por mais polêmico ou ofensivo que possa ser às crenças do vulgo. Sempre acreditei e defendo que a Honestidade é condição indispensável para conseguir ser um educador decente.

 

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Diego Rivera (1886-1957) Os semeadores (acervo permanente do MASP)

 

Muito mais que o respeito inspirado no medo ou que o cultivo de uma imagem heroica, é a capacidade de dizer “não sei, não conheço, vamos descobrir juntos?” que faz um do relacionamento familiar um ambiente saudável de aprendizado. A escola não educa, no sentido de que a transmissão de disciplina, bons modos, valores e crenças é obrigação dos pais, cabe à escola transmitir conhecimento de maneira crítica e promover a formação de seres humanos com capacidade para compreender e questionar qualquer conteúdo com respeito e eficiência. Se isso não está acontecendo, é muito mais por ingerência dos pais, que não desempenham seu papel de maneira adequada, deixando os filhos ao léu de comportamentos quase animalescos de tão permissivos e mimados ou (quando o fazem) seguem premissas lastimavelmente autoritárias e antiquadas de educação, do que dos professores esmagados entre um Estado que os quer destruir e uma sociedade que os quer silenciar.

 

Se amanhã eu acordasse e nada me restasse da minha vida a não ser as lembranças, uma parte significativa delas seria percorrendo museus com minha filha e meu marido e sentindo uma paz indescritível na presença do Belo. Mesmo quando uma obra me tira o fôlego e o sono por sua crueza ou quando muda inteiramente minha perspectiva sobre um assunto que eu acreditava saber, mesmo quando as misérias do mundo retratadas na Arte me esmagam, eu não trocaria essa experiência por nenhum dinheiro no mundo. Se uma manifestação artística não nos “acorda”, desafia ou impressiona, então ela não é Arte e não passa de artesanato ou decoração, é o que eu penso.

 

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Cândido Portinari (1903-1962) Os retirantes (acervo permanente do MASP)

 

Mas, muito além dessa polêmica, deve ficar claro que as pessoas toscas e ignorantes tem todo o direito de não gostar, não frequentar e nem aceitar ambientes artísticos. Escolher uma vida medíocre ou limitada por imposição de crenças morais ou religiosas é uma escolha entre tantas outras, mesmo que com isso essas pessoas condenem seus filhos a uma vida incompleta perante o processo civilizatório. O que essas pessoas não tem direito algum (e nós não podemos permitir) é de perseguir artistas, instituições, professores, escolas, universidades e meios de comunicação, na tentativa de impor arbitrariamente à sociedade a sua ignorância como padrão.

 

Precisamos reagir urgente e prontamente, de maneira incisiva e categórica, antes que comecem a espancar artistas e queimar quadros e livros.