A MÁGICA, OS NEM-NEMS E A FUGA DA MODERNIDADE

19 maio

Você já se perguntou por que integrantes de uma geração que não lê fariam filas imensas para adquirir um volume de Harry Potter em seu lançamento? Afinal, os livros dessa série não passam de pastiches glorificados de uma boa parte do que já foi escrito ou pensado em termos de ficção e fantasia. Redimensionam os órfãos heroicos de Dickens em um mundo de mágica e oferecem às crianças e adolescentes um sucedâneo de escapismo da realidade, na mesma medida que as religiões e mitologias o fizeram em outros tempos.

 

Uma das minhas maiores frustrações com o meio acadêmico, nos meus tempos de estudante, advinha de ter que participar de discussões pós-modernas. Abomino do fundo do meu ser toda essa literatura vã sobre representações e abstrações, que traz em seu bojo uma interpretação blasé da vida e da História, em que os seres humanos são joguetes impotentes de superestruturas gigantescas e onipresentes. Em parte porque esse é um debate bem ao gosto de alguns setores das Ciências Sociais, que interpretam a realidade a partir de conceitos e categorias, e de alguns historiadores que conseguiram a proeza de inventar a “História Sem Gente”.

 

Mas a minha maior crítica vem do efeito paralisante que toda essa literatura produziu no “fazer” das esquerdas ao longo dos últimos cinqüenta anos. A pós-modernidade nos dividiu, pulverizou nossas identidades e nossas lutas e nos transformou em fanáticos de discursos e narrativas. E impediu que percebêssemos que a modernidade nem sequer chegou.

 

Os Enciclopedistas do século XVIII, fanáticos defensores da Razão e das Luzes, ficariam extremamente surpreendidos ao saber que em pleno século XXI, uma parte significativa da Humanidade ainda nega a modernidade. O sonho de compartilhar o conhecimento e combater a ignorância e o obscurantismo (que gerou a invenção da enciclopédia, veículo que pretendia transformar todos e cada um em detentores de um repertório variado e abrangente de conhecimentos, bastando apenas saber ler) não gerou um modelo de escola inclusiva (laica e plural) nem conseguiu neutralizar a reação das forças sociais obscuras. Ainda lutamos contra o mesmo fascínio que as interpretações mágicas da vida e do mundo exercem naqueles que tem medo da realidade.

 

O que diria Diderot se fosse defrontado com os terraplanistas? O que diria Bakunin dos anarco-capitalistas? O que diria Marx dos que acreditam que o nazismo é de esquerda? O que diria Pasteur dos que recusam as vacinas? O que nós podemos dizer?

 

Neste mês de Maio de 2018, quando comemoramos o segundo centenário do nascimento de Karl Marx, o ferramental marxista permanece relevante para interpretar a evidência histórica e para pensar e dimensionar nossas mazelas muito além dos delírios abstratos dos pós-modernistas. Afinal, parece que precisamos refazer nossos caminhos para entender como foi que a reação religiosa auxiliou os Estados e os Mercados a esmagar o sonho Iluminista e, de quebra, demorou cem anos, mas conseguiu pulverizar toda a pauta de organização e conquistas dos trabalhadores. Vitórias das minorias étnicas e da diversidade de gênero em direção à igualdade real, que considerávamos consolidadas, estão sendo demolidas sem quartel e sem trégua por movimentos surgidos espuriamente e apoiados por largas parcelas dos meios populares.

 

A Razão fracassou em tornar-se inteligível aos mais simples porque esbarrou no pavor de ter que viver em um mundo sem mágica. E não se trata apenas de ter que lidar com a incerteza e a indefinição enquanto a Ciência avança palmo a palmo na compreensão da vida e do Universo. Trata-se, acima de tudo, de ter que viver em um mundo em que não se pode esperar e nem pedir nada a deuses mágicos e em que é preciso enfrentar cada desafio contando apenas com a realidade nua e crua das nossas limitações.

 

Nada além desse pavor atávico, responsável pela invenção das religiões, poderia explicar a alegria e o alívio com que largas parcelas da sociedade abraçam o anticonhecimento, e defendem a censura de todo e qualquer pensamento que ameace sua frágil segurança mental.

 

E, nesse sentido, a sensação de exílio e estranhamento vivida por uma parte considerável dos jovens (que na minha época era considerada apenas como uma parte normal da adolescência, e em outras épocas sequer era considerada) hoje encontra na indústria cultural vasto material de escapismo para uma realidade hostil. A incerteza na escolha dos caminhos para a própria vida, as pressões sociais para ser perfeito, bonito e feliz (e magro mesmo quando a oferta de comida podre promete aliviar a angústia com açúcar e gordura) podem levar a procurar refúgio em Harry Potter e outros fenômenos de consumo mais complexos. Da mesma forma que, entre alguns setores da população, podem superlotar as igrejas neopentecostais que prometem barganhas com deus como se fossem aqueles vendedores estereotipados de carros usados retratados nas séries e filmes dos Estados Unidos.

 

A primeira vez que ouvi falar dos nem-nems foi através das reclamações dos meus primos do Uruguay (lá são chamados de ni-nis) e a expressão denomina um tipo de jovem que não estuda e nem trabalha porque não quer, vivendo às custas dos pais ou do Estado. Oriundos das classes médias e remediadas, esses jovens não vêm uma perspectiva de realização social para seus sonhos exacerbados de consumo e preferem desistir de estruturar suas vidas nos modelos oferecidos pela suposta meritocracia, para viver parasitando o sistema. Nesse sentido, os estatísticos brasileiros não entendem esse fenômeno e quando fazem suas estimativas da nossa juventude incluem erradamente nelas aqueles que não conseguem estudar nem trabalhar porque a sociedade lhes nega essa oportunidade, deturpando a principal identidade dos nem-nems , que é a escolha.

 

Talvez seja necessário, para entender a abrangência desse fenômeno, pensar o caso japonês. O Japão é um dos países em que o capitalismo quase conseguiu esmagar totalmente qualquer iniciativa da população que não o seja o trabalho e o consumo. É nesse país que surgem alguns dos presságios mais assustadores do que nos ameaça.

 

KAROSHI é um termo que significa “morrer de tanto trabalhar” e que denomina um fenômeno crescente em uma sociedade em que não existe mobilidade social e nem garantia de sobrevivência ou seguridade. E quando um pai de família morre nessas circunstâncias, muitas vezes a família não tem como se responsabilizar por sua viúva que não encontra meios para sobreviver, o que vem aumentando o número de senhoras que cometem pequenos crimes para ter teto e comida na cadeia. O que assusta é que esse tipo de morte está acometendo pessoas cada vez mais jovens.

 

HIKIKOMORI designa aquele que se isola da sociedade. Que se tranca em casa e passa a viver sustentado por seus pais, ou desempenhando tarefas através da internet, mas que rejeita qualquer convívio ou contato humano. Talvez venha daí a sofisticação de brinquedos sexuais disponíveis atualmente na sociedade japonesa.

 

Voltando às nossas latitudes, é preciso compreender esses fenômenos e o papel da indústria cultural como paliativo, mas também como fator de alienação na vida de quem faz essas escolhas. Da mesma forma que o gordinho que sofre assédio na escola pode procurar refúgio no mundo mágico de Harry Potter ou das RPG’s, ele pode escolher ser um nem-nem e abandonar de vez a pressão para passar no vestibular e ser bem sucedido na vida. Ou entrar para um culto e abdicar da racionalidade para deixar que o espírito de manada comande sua vida.

 

O desafio de ser professor em uma época e em um mundo que oferece todas essas possibilidades de alienação, enquanto somos perseguidos por aqueles que querem determinar os limites do aprendizado e do conhecimento, são imensos. Como chegar às mentes dos alunos quando o assédio do consumo e da ignorância é tão intenso e desproporcional? Como defender valores positivos e inclusivos em uma encruzilhada em que o ódio espreita a cada canto?

 

Como defender a Razão, quando as Luzes da modernidade parecem cada vez mais fracas e distantes?

 

Certamente não será aderindo ao cada um por si pós-moderno.

 

Talvez seja a hora de dar por perdido mesmo o século XX, com seus extermínios e suas ideias extravagantes e retomar o bom e velho Karl Marx e recomeçar do zero. Ou Diderot. Ou William Morris.

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Ponderações 6

17 maio

FÊNIX

14 maio

Ao fim do ano passado, considerei que este blog já havia cumprido seu objetivo, reuni o material produzido em um PDF e comecei a planejar um podcast sobre Teoria de História e Historiografia. A escalada da violência verbal e virtual era tamanha que considerei 2018 como o ano em que seria mais prudente ficar longe das redes sociais, ao menos até passada a eleição. Imaginava que este ano seria difícil e aziago, como os quatro anteriores, mas não pensava que o esgarçamento do processo civilizatório seria tão rápido.

 

Quando da covarde execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson, e toda a violência verbal (as notícias inventadas pelos office-boys do golpe e o papel asqueroso e demagógico da grande mídia) que se seguiu, retomei o blog e comecei a ponderar mais amargamente sobre o fardo que ora carregamos. Estamos em maio e o Dia das Mães Sangrento (e as chacinas que se lhe seguiram) está completando doze anos, e aqui no Tucanistão ainda se resolve a ocupação do espaço urbano queimando os pobres e suas moradias. Na iminência de uma nova eleição, a paisagem política chega a ser desesperadora de tão previsível.

 

Mas, evidentemente, o tom de urgência (e a velocidade frenética do bombardeio informativo) das mídias que nos rodeiam e sufocam promove a sensação de que estamos próximos ao fim do mundo. Que as escolhas são todas de vida ou morte, que a moral é binária e que as pessoas são burdamente unidimensionais. Que se o rumo da vida e das coisas não seguir um certo roteiro, estaremos fadados ao Apocalipse.

 

Nós da esquerda somos tão tristemente conscientes de nossa identidade ontológica, como agentes da História, que temos a tendência a racionalizar nossos atos, para ter um mínimo de controle sobre o legado da memória que deixaremos. Talvez porque muito de nós sejamos oriundos das Ciências Humanas, em que o grau de autoconsciência é intensificado à medida que amadurecemos nossas percepções da vida e do mundo. O certo é que a obsessão atual por controlar narrativas não é nova e nem original, uma vez que escalada desta atmosfera anticlimática também não o é.

 

Da mesma forma que o martírio sebastianista vivido hoje por Lula (eterna figura de proa, capitão, imediato e timoneiro do PT) parece rememorar sacrifícios similares, tanto históricos quanto míticos. O que é novo (ao menos para mim) é esse clima de histeria coletiva em setores mais aguerridos da militância, sujeito a paroxismos de desespero e incorporando uma cegueira seletiva assustadora em relação a suas possibilidades reais do participar da eleição ou mesmo de ser libertado da prisão. Só me lembro de ter vivido tal desespero em função de uma eleição em 1971, no Uruguay, quando ainda acreditávamos que se poderia barrar a iminente ditadura com uma vitória nas urnas. E eu só tinha sete anos.

 

Atualmente, quando olho à minha volta e procuro as panelas que tanto soaram em favor do golpe de 2016, só encontro sussurros e vergonha. Do mesmo modo que as esquerdinhas que ajudaram a promover o clima de falsa contestação social que favoreceu ao golpe, os paneleiros & friends association hoje mal envergam suas camisas amarelas (mesmo em ano de Copa) na ânsia de passar despercebidos. E não é apenas porque o governo golpista promoveu o desmonte sistemático da sociedade como a conhecíamos, atingindo-os como dano colateral na sanha de penalizar os pobres.

 

É também porque a orgia de ódio desenfreado a que se entregaram sem pensar nas conseqüências hoje contagiou amplos setores da população e parece um romper de barragem, semeando destruição e pânico. Na esteira desse comportamento deplorável crescem as chances eleitorais daquele deputado lastimável, misto de protofascista e macho alfa de última categoria, tão admirado por velhos e adolescentes. E aquela classe média composta por funcionários públicos e profissionais liberais (hoje esmagada pela política econômica suicida dos golpistas) assiste atônita ao seu ódio sendo cuspido de volta pelos partidários da ditadura e da tortura.

 

E, nesse sentido, eu não seria humana se a tentação de dizer “bem feito” e “eu avisei” não me atazanasse a cada vez que encontro essas figuras patéticas na feirinha de orgânicos ou no supermercado. E não apenas isso, a vontade que me acomete quando os vejo desviando o olhar das minhas camisetas vermelhas é de desejar que esse deputado brutamontes e ignorante ganhe mesmo as eleições e termine o trabalho de destruição que esses paneleiros sem cérebro começaram. Aos liberais para que aprendam finalmente que a economia não é nada sem a História, aos ignorantes para que percebam que os atos odientos tem conseqüências trágicas e aos defensores da ditadura e da tortura para que finalmente sofram na própria carne o que desejam aos outros.

 

E me surpreendo com a tentação de jogar de vez a matéria fecal no ventilador e sair fazendo a crítica da crítica da crítica. Já que os “companheiros” de sempre passam a vida cobrando autocrítica do resto de nós, mas nunca assumem as idiotices que fazem. Ou simplesmente fechar minhas redes e me refugiar entre os livros pela próxima década.

 

E já que os militantes (e uma parte da classe média apavorada) associam o tal deputado ao Apocalipse, por que não? Talvez o país precise implodir e queimar até a mais insignificante estrutura para purgar esse ódio malsão e toda essa mesquinharia ordinária que minou o projeto progressista. Para que renasça como uma fênix ou para que se acabe de vez nas cinzas do próprio opróbrio.

 

Só o tempo dirá o que será necessário para reconstruir a civilidade. Certo é que remendos e paliativos não garantem a superação das crises e apenas adiam a hecatombe que nos ameaça. Então, por que não abraçar de vez os fados e mergulhar no abismo de olhos abertos?

 

E que 2018 seja o fim deste interregno medonho, mesmo que o que nos espera seja o caos, ainda será melhor que esta escalada sem fim de expectativas anticlimáticas. Ou não?

 

Concluo com um aviso. Este texto está repleto de oposições dialéticas, paradoxos, ironia, sarcasmo, hipérboles e metáforas. Lamentavelmente, vivemos uma época tão aziaga pela superficialidade dos leitores, que é preciso avisar. Paz.

O ÓDIO ESTÁ LIBERADO

9 maio

atenção: texto com alta concentração de ironia e sarcasmo (só avisando)

 

Aleluia! Não precisamos mais nos preocupar com boas maneiras, gentileza, consideração, civilidade ou respeito aos sentimentos alheios. O ódio está liberado e embarcamos em uma nova etapa da viagem humana rumo à aniquilação.

 

Que alegria poder trombar em alguém na rua e, não apenas não pedir desculpas, mas ainda berrar impropérios e culpar um desconhecido por um erro que é nosso. Dirigindo carro então, que maravilha, levantar o dedo para quem questiona nossa direção imprudente, soltar a buzina encima de quem está devagar e atrapalha nossa pressa e assustar pedestres acelerando quando estão atravessando a rua. Nunca mais o stress insuportável de ser educado e polido.

 

Dia de jogo, que beleza, nada melhor que soltar meia dúzia de rojões na porta do vizinho, mesmo sabendo que ali vive um idoso inválido ou um bebê recém-nascido. O que importa? O mais importante é festejar nosso time e humilhar o adversário.

 

Se precisar “sair na porrada” com o adversário, nada melhor do que “ir de turma”, de preferência totalmente alucinados, embriagados com a falsa coragem produzida por álcool e outras substâncias, que suplantam o cérebro e o caráter quando necessário. Afinal, quem mandou não ser “um de nós”? Todo mundo tem a obrigação de tomar conhecimento da nossa existência e vamos providenciar isso da maneira mais ensurdecedora e ordinária possível.

 

Festa só é festa se o barulho dos gritos e da “música” se espalhar em um raio de mais de um quilômetro. Para que dar uma festa se ninguém for ficar sabendo? A civilidade e a convivência urbana são para “frutinhas”, bom mesmo é incomodar o máximo de gente possível para que todos saibam que estamos vivos.

 

E a internet? Ah, a internet, paraíso inviolável da grosseria e da vulgaridade…

 

Nada melhor para começar bem um dia que entrar em um portal de notícias e escrever um comentário absolutamente ultrajante em caixa alta. Mesmo sem ter lido o artigo, sem entender nada do assunto e sem necessidade alguma de expressar opinião. Estamos aqui e vão ter que nos engolir!

 

Uma professora foi espancada? Aí vai um comentário cheio de misoginia, no mais baixo calão imaginável e sem qualquer pudor ou consideração. Quem mandou não ser homem? Tem que apanhar mesmo.

 

E a esquerdalha? Nada melhor que entrar nos sites, páginas e posts de pessoas que nem se conhece e xingar da maneira mais ordinária, ameaçando com violência e morte, em nome de deus, da pátria e da família. É preciso que essa escória seja eliminada ou reduzida à imobilidade total.

 

Que maravilha votar naquele vereador ou deputado, homem de verdade, gente de bem, temente a deus, que vai acabar com essa farra de “vitimismo” e direitos humanos e “baixar o cacete” e todos os vagabundos das humanas. Toda essa gente que lê muito, se expressa com precisão e domina os assuntos que nem conhecemos deveria ser morta e os livros queimados, as universidades fechadas, para que parem de mostrar como somos ignorantes e estúpidos. Somos maioria e não devemos nos curvar a essas ditaduras intelectuais, eles é que tem que descer ao nosso nível se quiserem ficar vivos.

 

Odiamos autores que não conhecemos, assuntos que não entendemos e pessoas que são diferentes do que consideramos normal. O mundo deveria ser à nossa imagem porque nós acreditamos em deus e na bíblia (mesmo que jamais tenhamos lido sequer uma linha do que está escrito nela e só conheçamos Jesus através dos filmes) e não queremos que nada mude. O conhecimento nos ameaça e por isso apoiamos qualquer um que queira destruí-lo, mesmo que isso também nos destrua.

 

E se alguém tenta nos convencer a ser mais tolerantes, nada melhor que berrar a plenos pulmões qualquer besteira para conseguir que a pessoa se cale. É assim que “refutamos”, berrando e intimidando quem é mais educado, para que saiba quem é que manda. Pena que não mandamos em nada ainda, mas mesmo assim nada se compara a poder alardear nossa superioridade energúmena.

 

A polícia nos apoia. A mídia nos protege. O “sistema” conta com nosso apoio para combater o comunismo e a civilização.

 

Imagine quando as armas forem liberadas e cada um de nós puder defender nossos argumentos descarregando um “tresoitão” encima dos sub-humanos que não pensam e nem vivem como deveriam… Será um sonho realizado. Armas e comprimidos azuis ilimitados em um mundo regido e abençoado por deus, em que as mulheres conheçam seu lugar e a caça às bichas, aos pretos e aos comunas seja liberada.

 

Nunca mais ser chamado de “coxinha” por ser orgulhosamente de direita. Nunca mais ser confrontado com a própria ignorância por pessoas que entendem de verdade sobre economia, política, história, geografia e arte. Nunca mais ser ameaçado por mulheres com capacidade superior nos empregos, na escola ou nas ruas.

 

Mal posso esperar para completar dezesseis anos e lutar por um mundo assim.

O EMPODERAMENTO FALACIOSO NO FILME DA MULHER MARAVILHA

2 maio

Sim, vou falar de um filme do ano passado. E deixem-me explicar o porquê desse meu hábito tão anacrônico. Em parte é porque me ressinto dessa tendência dos blogueiros de opinar sobre tudo “em tempo real” (seja lá o que for que essa expressão signifique, afinal, o tempo é uma abstração em todos os seus sentidos e uma convenção em mais alguns) e prefiro respirar fundo e refletir sobre os assuntos após passado o “calor da hora”. Por outro lado, embora eu seja suficientemente adulta para não me incomodar com spoilers, eu respeito quem não quer ver críticas antes de assistir a um determinado filme no cinema, nesse sentido discutir filmes já batidos pode ser útil e não vai estragar o divertimento do leitor.

 

Para além da rivalidade entre Marvel e DC, venho me sentindo bastante frustrada e incomodada com o rumo que os filmes de fantasia de super-heróis tomaram na última década. A breve influência narrativa dos excelentes criadores de quadrinhos britânicos (Alan Moore e Neil Gaiman, principalmente) parece ter-se esvaído e o retorno da moralidade binária estadunidense empobreceu o alcance das tramas atuais. É como se a decadência de Frank Miller tivesse contaminado todo o gênero.

 

Quando o Cavaleiro das Trevas (a graphic novel não o filme) foi lançado no fim da década de ‘80, minhas possibilidades econômicas eram nulas, mas eu acabei lendo a edição brasileira emprestada de um amigo e fiquei apaixonada por aquele Batman maduro e desiludido. Coisas da juventude, eu também cultivava desde a adolescência uma paixão mal resolvida por Poe e seu romantismo gótico e tétrico. Quando o filme homônimo surgiu, eu até gostei, mas não encontrei qualquer vestígio dos quadrinhos e isso me deixou pensando na grande indústria do entretenimento e suas manipulações sórdidas atrás do lucro.

 

Quando finalmente Frank Miller lançou a sequência da graphic novel quase duas décadas depois, minha frustração foi maior ainda porque senti que o crítico da sociedade capitalista havia-se transformado em um libertarian qualquer. Uma moralidade binária e superficial substituíra o impasse civilizatório, e uma choradeira sem fim por um tempo que nunca foi transformava a narrativa em um pastiche da anterior. Se Alan Moore foi ao âmago do Anarquismo em V de Vingança, Frank Miller se perdeu pelo caminho e seu Cavaleiro das Trevas se transformou em um paladino para hypsters e ancaps.

 

E eu parei de ir ao cinema depois que Zack Snyder conseguiu arruinar Watchmen.

 

Então, quando da estreia de Wonder Woman (direção de Patty Jenkins, 2017), não tive de fazer muito esforço para aderir ao boicote e não ir ao cinema. A escolha da atriz principal era francamente ofensiva a todos os meus princípios. E continua sendo.

 

E nem sequer teria assistido ao filme na televisão, não fosse o fato de viver em família e não impor minhas ideias aos que me são caros. Apesar de toda a aversão provocada pela hipocrisia da protagonista, acabei assistindo e me surpreendi ao ver a ignorância dos roteiristas. E vocês provavelmente pensarão que estou maluca ao cobrar coerência desse tipo de entretenimento, mas é o que vou fazer.

 

Nesse sentido, tenho duas críticas a desenvolver neste texto. A primeira diz respeito à questão principal do julgamento da Humanidade pelos deuses; e a segunda remete à ilusão de empoderamento absolutamente cínica e hipócrita na figura da atriz principal. Sei que vou acabar ofendendo e contrariando fãs e interesses, mas o mais provável é que este seja mais um texto apenas lido pela mesma meia dúzia de leitores fiéis deste blog.

 

A batalha entre Diana e Ares e seu “julgamento” da espécie humana é uma das maiores patacoadas que já vi, e olha que os estadunidenses têm o péssimo costume de arruinar a mitologia grega desde os primórdios da indústria cultural. Seja porque não têm profundidade intelectual para entender os mitos gregos, seja porque acreditam que seu público é medíocre demais para apreciar um raciocínio mais sutil, o resultado é que os roteiristas sempre transformam os deuses gregos em cópias baratas de seus heróis de quadrinhos. Mas neste caso em particular, o que ofende qualquer ser pensante é o fato evidente de que nenhum deus grego pensaria em exterminar a Humanidade porque esta se revelou falha e vil.

 

Esse tipo de moralidade maniqueísta e besta de “bem contra o mal” é característico do cerne ideológico da mitologia judaico-cristão e nada tem em comum com o universo grego. Os deuses gregos eram arquétipos dos piores comportamentos humanos; eram lascivos, beberrões, ciumentos, irascíveis e coléricos. Suas vinganças eram desproporcionais às ofensas, mas não eram motivadas por tipo algum de moralidade, antes pelo evoluir de seus desejos e suas paixões.

 

Os deuses gregos se divertiam manipulando os humanos e usando-os como fantoches para promover suas próprias guerras. Quem leu Homero e Heródoto há de concordar que nada mais incongruente que um deus grego chocado e ofendido com guerra química contra crianças, quando o sacrifício de crianças era algo corriqueiro nos tempos mitológicos. Nesse sentido, transformar Diana (assim mesmo com o nome romano), que neste caso é filha de Hypólita, rainha das Amazonas, e não corresponde a Ártemis, filha de Leto e irmã de Apolo, em paladina da justiça é uma suprema tolice.

 

Minha segunda crítica, entretanto, é o que me levou a aderir ao boicote proposto por vários ativistas de direitos humanos, em função da contratação de Gal Gadot para o papel da “heroína”. A ex-miss, com pouco ou nenhum talento artístico, é uma fanática defensora do Estado de Israel e do extermínio do povo palestino. Suas declarações apoiando a detenção e o assassinato de crianças pelos soldados invasores do território palestino são públicas e notórias.

 

Nesse sentido, suas falas antibelicistas no filme soam como um escárnio ao sofrimento do povo palestino. Não existe argumento de empoderamento feminino que justifique a aceitação de uma protagonista sabidamente simpatizante de genocídio. Nem mesmo se ela tivesse um mínimo de talento artístico, o que não é o caso.

 

Eu sou da época em que Lynda Carter era a Mulher Maravilha no seriado de televisão, em uma interpretação sóbria e irreverente, sem histrionismo barato e sem grandes demagogias. E mesmo assim não vejo em que esse tipo de heroína poderia ser positivo para uma menina ou adolescente formando sua visão de mundo. Helen Keller e Valentina Tereshkova foram muito mais importantes para mim do que qualquer infeliz seminua correndo atrás de bandidos patéticos.

 

O empoderamento vem do exemplo e jamais poderá ser auferido da indústria cultural, que homogeneíza e empastela um sucedâneo tanto da realidade quanto da fantasia para acumular fortunas às nossas custas.

COMPANHEIROS DE VIAGEM

28 abr

Folheando a edição número 1000 de Carta Capital, datada desta semana, encontro a reprodução de dois ensaios sensacionais de Umberto Eco. Em A sociedade líquida (publicado originalmente em 2015), o Mestre afirma “Com a crise do conceito de comunidade, emerge um individualismo desenfreado, onde ninguém mais é companheiro de viagem de ninguém, e sim seu antagonista, alguém contra quem é melhor se proteger.”. E o eco dessas palavras reverbera em mim de uma maneira tão pungente que preciso escrever.

 

Se você que está lendo este texto já foi meu aluno, deve lembrar-se de uma das minhas citações favoritas. Já contei e recontei este trecho de Érico Veríssimo em aulas, formaturas, palestras e mesmo assim continua sendo um dos pontos definidores da minha vida. Se você nunca foi meu aluno, preste atenção com paciência e carinho e quem sabe também se apaixona pelo autor gaucho.

 

Em Olhai os lírios do campo, Eugênio conversa com Olívia na noite de formatura e compara a vida com um transatlântico, afirmando que fará tudo o que estiver ao seu alcance para não passar sua existência na terceira classe. Anos depois, Olívia retoma o assunto em uma carta e lhe diz que a pergunta essencial na vida não é “em que classe eu quero viajar?” e sim “estarei sendo um bom companheiro de viagem?”. Essa resposta epistolar para um diálogo nunca encerrado é meio que o ponto de virada no livro e, ao menos para mim, uma das argumentações mais bonitas sobre a vida e seus assuntos.

 

A expressão companheiro de viagem adquire significados mais profundos para nós comunistas e para mim em particular. E isso porque eu encaro a vida e o próprio comunismo como uma viagem em que, mais importante que o destino, é o processo de crescimento e transformação durante a caminhada. Se isso lembrou a você a concepção de utopia de Eduardo Galeano, então você me entendeu perfeitamente.

 

Muito tenho argumentado neste blog sobre o “ser ou não ser” que acomete as esquerdas planetárias e sobre a incapacidade da “nova” direita para entender quem somos e como pensamos, motivo pelo qual é mais fácil defender nossa eliminação. A triste realidade é que nem a direita mais tradicional e nem mesmo alguns setores que se consideram mais puros da própria esquerda conseguem ir além das analogias primárias com regimes e grupos que já se afirmaram comunistas um dia e se perderam pelos caminhos da vida e seus percalços.  E é por isso que passamos mais tempo discutindo o pensamento raso de quem não nos entende, do que fazendo-nos entender por quem vale a pena.

 

Um dos motivos que me levou a usar na internet o bordão “Stalin matou foi pouco” (e seja quem for o autor, eu rendo minha homenagem à perspicácia dessa síntese) foi exatamente essa fixação da direita e dos trotskistas com estatísticas e contagens de mortes coligidas de maneira obscura e incluindo até intempéries como se até estas fossem responsabilidade do velho bigodudo. Não há uma única vez (nos últimos dez anos) em que eu me reafirme comunista, sem que apareça algum infeliz para jogar na minha cara, nas minhas costas e na minha conta as “mortes do Stalin”. E a cada ano aumentam, de vinte milhões no começo já passaram recentemente a mais de cem milhões, parece que todas as pessoas que faleceram na extinta União Soviética e no Leste Europeu, por ocasião da Segunda Guerra Mundial e nas décadas de 30-40-50 são culpa direta dele, como se as tivesse assassinado com as próprias mãos.

 

Se não fosse anacronismo, até a Peste Negra e a Gripe Espanhola entrariam na conta dos crimes de Stalin…

 

Poucos (bem poucos na verdade) têm um entendimento minimamente aceitável sobre o ideário comunista, tanto teórico quanto pragmático. A maioria repete sem cessar e sem pensar os argumentos de uns poucos críticos, nem sempre honestos. E menos ainda são aqueles capazes de entender que se possa defender uma utopia revolucionária sem necessariamente pregar a morte como única solução de conflitos.

 

A utilização da expressão companheiro de viagem vem de uma época em que o axioma do manifesto “Proletários do mundo, uni-vos!” ainda ecoava nos versos da Internacional e levava várias gerações de idealistas a colocar a mochila no ombro e combater os franquistas na Espanha, os nazistas na guerra europeia e o colonialismo branco nos outros continentes. Eram companheiros de viagem que se reconheciam e se ajudavam na luta, mas com o surgimento de líderes e vanguardas, a viagem virou um saudosismo de militantes velhos e o termo companheiro foi banalizado a ponto de ser aplicado até a amantes não casados. Mas o comunismo autêntico não vem através dos líderes e nem das vanguardas, ele surge da união dos que se dispõem a mudar e a lutar.

 

Em um mundo de possibilidades, quem é comunista escolhe viver percebendo no outro uma identidade passível de união, ao invés de um inimigo que é necessário destruir. Mas, que isso não signifique que nos tornamos carneiros indo para o abate nas mãos das hostes de ignaros com forcados e tochas (e agora com 9mm’s). É necessário que saibam que nos temem pelos motivos errados, mas que ainda assim devem temer-nos.

 

Porque um dia, distante ou não, as pessoas vão compreender o que significa “uma terra sem amos” e aí seremos todos realmente companheiros de viagem. Até lá, cuidado, porque Newton já dizia sobre as forças contrárias equivalentes provocadas quando se exerce pressão. Mesmo quando não estamos dispostos a sair matando, este lastimável cabo de guerra (provocado pela mídia grande e por grupos de interesse e políticos sem escrúpulos) pode acabar arrebentando.

 

E quem despertou estas forças certamente terá motivos para se arrepender.

A NEGATIVA POLIDA E O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA (MESMO ENTRE NÓS QUE SOMOS DE ESQUERDA)

24 abr

Uma boa parte das mulheres da minha geração sabe o que é uma negativa polida, embora nem sempre a denominem assim, esse é o modo como eu me refiro àqueles momentos em que não queremos fazer o que nos pedem, mas não temos a capacidade de perder a cortesia. Talvez as mais jovens e a maior parte dos homens não entendam o mecanismo, por isso vou tentar explicar como funciona, neste meu modo intimista e pessoal que caracteriza este blog. Então, não esperem um tratado acadêmico ou um panfleto político, apenas as minhas mal ajambradas memórias.

 

Quando alguém sugere ou pede algo com que não concordo, eu me expresso de maneira polida com um “eu preferiria não fazer isso” ou “não acredito que essa poderia ser a melhor atitude (ou solução ou abordagem)” esperando que a pessoa entenda que eu não pretendo atender a seu pedido ou sugestão. Nove entre dez mulheres da minha idade ou mais velhas entendem de primeira, mas nunca conheci homem de geração alguma que entendesse, e com as companheiras mais jovens ainda é preciso um certo diálogo, mas no fim acabamos nos entendendo. A maior parte dos homens que conheci jamais percebeu a polidez como uma negativa e aqueles que a percebem assim, acreditam que eu farei o querem (mesmo não querendo) porque eles me pediram e a sociedade exige que eu os atenda.

 

Em parte é por isso que eu considero risíveis algumas dessas campanhas de “não significa não” porque a nossa programação social não nos permite a emissão de um não rotundo sem nos rotular como “grosseiras” e os meninos são educados para pensar que devem sempre nos convencer (não importa por quais meios) a aquiescer a suas vontades, mesmo quando isso nos humilha ou nos violenta. E, nesse sentido, o machismo é onipresente na nossa sociedade mesmo entre as hostes mais “libertárias” no seio das esquerdas mais radicais, com a diferença que estes não se veem como machistas (alguns porque se pensam superiores aos outros homens, outros porque nem sequer consideram o assunto como uma questão relevante) e não importa o quanto se lhes explique o absurdo de várias atitudes. São aqueles que, em momentos de ironia e sarcasmo, chamamos de esquerdomachos na falta de um substantivo melhor, para diferenciá-los daqueles elementos fundamentalistas de centro e de direita que consideram a opressão de gênero como sinônimo da normalidade da vida.

 

E comecei a pensar nesse tema há muito tempo, mas foi somente a experiência do Cantinho da História e deste blog que me proporcionou um conjunto de elementos para verbalizar o que tanto me incomodava desde a primeira juventude. Na internet conheci um interminável cortejo de jovens (e outros nem tanto) que não sabiam interpretar uma negativa polida para suas sugestões e passavam a cobrar por um conteúdo que eu não poderia ou não desejaria produzir, bem como aqueles que exigiram (e ainda exigem) que eu remova diversos conteúdos apenas porque não concordaram com a minha abordagem ou minhas opiniões. E olha que até mesmo relatando aqui algumas abordagens mais grosseiras que sofri, ainda uso o verbo no condicional para manter a polidez, haja pressão social nas questões do gênero!

 

Nos últimos três ou quatro anos aprendi na internet (e com minha filha também), com pensadoras e ativistas do feminismo interseccional, a identificar conceitualmente as violências sofridas desde menina. O mansplaining, o gaslightning e a anulação até me tornar invisível talvez sejam os mais frequentes, os outros ainda estou aprendendo a identificar. E é um processo doloroso de descompressão social, e muito solitário, ruminando e rememorando etapas inteiras da minha vida.

 

E, para muitos dos meus amigos tudo isso pode parecer um amontoado de lamúrias insignificantes de meia-idade, sempre percebo isso quando abordo a questão publicamente. São os mesmos que me cortavam a palavra até mesmo quando era eu quem estava proferindo a palestra no “Expressões Anarquistas” ou nas reuniões e eventos do CCS (Centro de Cultura Social de São Paulo). Com a desculpa de que os anarquistas não toleram hierarquias e praxes opressivas, fui sistematicamente interrompida por homens de todas as idades, que passaram a discorrer sobre assuntos que nem sequer eram pertinentes ao tema da palestra e não viram a grosseria e a misoginia de suas atitudes.

 

Por essas e outras (além do fato de jamais ter surgido um único vivente que dissesse “cala a boca e deixa que ela continue com sua fala”) é que eu me afastei dos eventos anarquistas. Isso e o fato de que sempre surpreendia um ou outro olhar dirigido ao meu marido quando eu tomava a palavra (como dizendo “você traz essa comunista aqui no nosso meio e nem é capaz de mantê-la calada”). E levei quase cinco anos para dimensionar esse mal-estar e ver o quanto precisava me afastar para manter a integridade, tanto no sentido físico (da saúde cardiovascular) quanto psíquico (da saúde mental e do equilíbrio pessoal).

 

Mas não são apenas as interrupções grosseiras, que aconteciam mesmo quando eu lecionava e que nunca vi um professor do gênero masculino ser o alvo. Existe aquele fenômeno insuportável da explicação condescendente (mansplaining), quando um sujeito qualquer (e pode até mesmo ser um adolescente) resolve nos explicar com um tom ofensivamente paternal e repleto de paciência, qualquer assunto que nós conhecemos muito melhor que ele. Já vi isso acontecer com professoras sexagenárias, que olhavam com ironia para o impertinente e preferiam nem responder, porque é assim que nós somos orientadas a reagir a esse tipo de grosseria invasiva, com paciência e resignação.

 

A resignação tão louvada pelos poetas que nos reputam nada além do amor.

 

E sempre me perguntei o porquê dentre os mais diversos setores da esquerda, o anarquismo ser um dos mais misóginos, podendo ser equiparado aos partidos comunistas mais tradicionais da primeira metade do século XX. E sempre recebia como resposta (de mais de meia dúzia de amigos) a certeza arrogante de que eu estava ficando “louca” ou “histérica” e que os homens da esquerda são companheiros e nos respeitam como nenhum outro. De louca a feminazi a fronteira ficou por demais tênue e ambos “substantivos” passaram a exemplificar uma longa trajetória de segregação e anulação social.

 

E eu continuaria ruminando minhas memórias em silêncio, não fosse um mero acaso. No passado domingo resolvi “caçar” na minha TL do Facebook alguns poemas antigos e comecei a rever minhas atividades e postagens a partir de 2011 e não gostei do que vi. Encontrei comentários sarcásticos, agressivos e sem noção em muitas das minhas postagens, por parte de dois “anarquistas” veteranos, que deletei em 2013, quando seu despudor e irresponsabilidade política ficou patente. E comentei com meu marido e passamos dois dias “descascando” a misoginia de vários dos nossos amigos e chegando a um denominador comum: Proudhon.

 

Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) é considerado um dos fundadores do Anarquismo do século XIX, frequentemente citado e incensado por muitos de meus amigos (até os mais queridos) e tido pelos mais jovens como um crítico inteligente de Marx, o que já por si só seria risível. E digo isso porque Proudhon escrevia muito mal, construindo seu fraseado com a prolixidade daqueles autodidatas que escondem a falta de capacidade “empolando” a linguagem. Igualmente indigesto em francês e em espanhol, em português esse autor foi “melhorado” por diversos tradutores com interesse próprio na construção de seu mito fundador.

 

Diferente de Edgar Rodrigues, que aliava a simplicidade de uma prosa inteligente a uma honestidade intelectual rigorosa (motivo pelo qual uma geração inteira de “jovens anarquistas” nunca o suportou), Proudhon se escondia em mesquinharias e preconceitos, que travestia de “saber” e “filosofia”. E os amigos que o defendem escamoteiam os textos mais desonestos e desconversam quando tentamos estabelecer um diálogo sobre eles. É o caso de Filosofia del Matrimonio (estudio de filosofia practica), um texto absolutamente asqueroso que se encontra em francês na internet, e que recebeu uma edição em espanhol (Editorial Tor, Buenos Aires, sem datação), mas que jamais vimos em português.

 

Nesse sentido, embora se encontre uma alusão ou outra a essa obra na internet, tive dificuldades para conseguir uma datação exata e por isso nem me atrevo a afirmar de quando seria sua publicação original. Se alguém mais versado nos alfarrábios do autor puder fornecer essa informação, agradeço muito. Assim como adoraria que o livro em questão recebesse uma tradução honesta para o português e fosse divulgado com o mesmo afinco que se divulgam suas divagações sobre a propriedade e suas críticas a Karl Marx.

 

Nesse livro, Proudhon discorre da maneira mais pernóstica analisando a inferioridade física, moral e intelectual da mulher em relação ao homem. Chega ao desplante de atribuir porcentagens de valor matemático a essa inferioridade, afirmando o valor masculino em várias vezes o valor feminino. Usa textos de escritoras de sua época para comprovar suas afirmações e ignora totalmente seus contemporâneos com outras ideias que não as próprias.

 

Não apenas o autor reduz a mulher a suas funções reprodutivas como única função de relevância social, como defende o argumento de que as mulheres que se destacam somente o fazem porque assim foram ensinadas e instruídas por seus pais, irmãos ou maridos, o que daria o mérito de seu sucesso a eles e não a elas. Critica as noções de igualdade jurídica e reputa como impossíveis as reivindicações femininas e usa argumentos que não destoam de padres e pastores ao criticar as noções emergentes de “amor livre” de sua época. Em suma, um arrazoado de misoginia patriarcal por parte do patrono dos que hoje se dizem libertários.

 

Estou sendo anacrônica nesta crítica? Não creio, e digo mais, chamar alguém do século XIX de machista seria anacrônico, mas o caso de Proudhon é de uma misoginia tão miasmática e venenosa, que deve ter escandalizado alguns de seus próprios contemporâneos. É o silêncio sepulcral de seus atuais admiradores sobre isso que mais me assusta e choca.

 

Sinto uma saudade imensa de Edgar Rodrigues, que sintetizou de maneira magistral seu ideário anarquista no axioma “cada um vale um” e sempre me tratou com integridade e respeito. E não estou dizendo que exijo perfeição dos meus amigos (seja qual for sua coloração política), o que digo realmente é que espero e torço para encontrar coerência ao invés de autocomplacência hipócrita. Como o próprio Edgar, eu só atribuo a alguém a denominação de anarquista depois que as parcas impedirem qualquer “virada de casaca”, afinal, enquanto vivo o ser humano sempre tem potencial para renegar seu passado e cometer os desatinos mais variados.

 

E ainda sonho com o dia em que vou abrir minha boca de mulher em público e não vou ver mais revirar de olhos algum. E não vou ser interrompida, atropelada, “ensinada” e nem reduzida por homem algum. Nesse dia talvez eu me convença de que conquistamos algum tipo de paridade, até lá a luta continua, mesmo nas nossas fileiras mais próximas.