JATINHOS

15 jun

Não são apenas os políticos brasileiros que adoram viajar em jatinhos de terceiros. Autoridades dos três poderes, de primeiro e segundo escalão frequentemente são acusadas de prevaricar com a iniciativa privada em viagens suspeitas. E sempre dá em nada.

 

Quando não estão embarcando nos jatinhos de grandes empresários, costumam atormentar a Força Aérea para ter caronas gratuitas em seus aviões. Aparentemente são pessoas “boas demais” para pagar uma passagem e viajar como o mais comum dos mortais. E também viajam muito.

 

Eu estou em vias de completar cinquenta e três anos e posso afirmar que viajei de avião sete vezes em toda a minha vida. A maior parte no período dos governos petistas, quando as passagens passaram a ser mais acessíveis, embora nem tanto assim. Mas muitas autoridades brasileiras viajam de avião do mesmo jeito que eu ligo a máquina de lavar, a cada três dias.

 

A promiscuidade dessas “caronas” nem sequer fica no âmbito da privacidade. É comum ver fotos e outras evidências desses contatos pouco republicanos sendo divulgadas em redes sociais e na imprensa “amiga”. Como uma grande e simpática família feliz.

 

Neste momento aziago (para dizer o mínimo) em que o golpe de Estado atinge uma voracidade pantagruélica, engolindo instituições, direitos, nosso futuro e os sonhos e esperanças das próximas gerações, vemos a devassa realizada entre autoridades que se digladiam. E como não poderiam faltar, denúncias de voos em jatinhos particulares atingindo uma boa parte dos envolvidos. Políticos, gestores, juízes, ministros e golpistas em geral em algum momento privaram da intimidade dos hoje delatores (e de tantos outros), em voos locais ou internacionais.

 

Autoridades que recebem salários cheios de “penduricalhos” varando anos e anos acima do teto constitucional, que pressionam para receber aumentos muito acima da média do que o resto de nós cidadãos comuns recebe, e que ainda por cima percebem seus privilégios como direitos, enquanto nos esfolam vivos para continuar se regalando nos jatinhos dos poderosos do mercado econômico.

 

Se uma devassa tivesse qualquer possibilidade de ser empreendida, eu poderia propor que se começasse afastando os usuários de jatinhos. Que cada vez que um infeliz se candidatasse a qualquer posto nos três poderes (eletivo ou concursado), fosse feita uma análise e indeferidos sumariamente os usuários de jatinhos. Que ao votar, levássemos em conta esse tipo de promiscuidade, antes de compactuar com o nepotismo e o patrimonialismo que historicamente caracterizam a política brasileira.

 

E que as autoridades brasileiras passassem a usar aviões comuns, como o resto dos cidadãos, pagando do próprio bolso (sem auxílio público algum) suas passagens e restringindo sua circulação geográfica ao estritamente necessário. A partir daí, quem sabe, outras “mordomias” poderiam ser repensadas e talvez estivéssemos mais perto de ter “servidores” públicos ao invés de parasitas do Estado. Mas é claro que, no mundo real, o mais provável é que os privilégios cresçam enquanto o golpista espalha nosso dinheiro para angariar apoios.

 

Ironias à parte, fica aqui a sugestão para que algum blogueiro mais antenado comece o levantamento dos “usuários de jatinho” antes das próximas eleições. Garanto que as informações surgidas seriam de utilidade pública indiscutível. Sempre é um começo…

FEMINISMO E LEGADOS

8 jun

No segundo semestre de 1991 fiz minha primeira disciplina no Mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Era precisamente a disciplina da minha orientadora, a saudosa Professora Eni de Mesquita Samara, referência obrigatória nos Estudos de Gênero. Profissional eclética, Eni reunia em torno de si uma variada fauna de orientandos que ia desde os estudos sobre Família Escrava (que era o meu caso) até Relações de Gênero e História das Mulheres.

 

Guardo ótimas lembranças das acaloradas discussões sobre bibliografia, documentos e conceitos, sempre levadas com bom humor e seriedade acadêmica. Eu já era feminista de um jeito meio acanhado e difuso porque não conseguia me situar no meio “chique” da USP, com minhas origens operárias. As plataformas defendidas por várias das minhas colegas eram tão diferentes da realidade de três gerações da minha família, que frequentemente me sentia deslocada nesse meio. Mas aprendi com minha orientadora a diferenciar quem era feminista de fato de quem o era apenas de discurso.

 

A Professora Eni era cirúrgica em seus comentários e não tinha meias palavras. Mais de uma vez a vi defendendo a remuneração correta para todo e qualquer tipo de trabalho feminino e os direitos inclusive das empregadas domésticas, o que naqueles tempos era considerado uma excentricidade e hoje (em seu meio social) uma traição. Além de seu combate ao “parasitismo” praticado por dondocas e patricinhas, que pareciam pensar que os homens tinham a obrigação de sustentá-las.

 

Se alguém dissesse à Professora Eni que, em pleno 2017, uma acadêmica respeitada seria levada aos tribunais por uma ex-orientanda e humilhada publicamente pelos esbirros da ignorância e do fundamentalismo, quem sabe como teria reagido. Uma coisa é certa, ela jamais teria ficado parada vendo essa mixórdia de pensamento conservador, intolerância e cerceamento de direitos. Provavelmente estaria na linha de frente no combate ao obscurantismo e à perseguição que ora ocorre.

 

Tristes dias vivemos, mas não apenas tristes, frustrantes, infelizes e odientos também. Quando a ignorância, em seu sentido mais lato, espalha-se como um incêndio devastador, apoiada pela intolerância e pelo fundamentalismo. São dias em que uma postura crítica pode custar uma carreira e quem arbitra isso é quem menos tem condição ou legitimidade, uma vez que a inviolabilidade da cátedra é uma tradição universitária medieval.

 

Ainda me lembro de uma discussão da historiografia hispano-americana sobre misoginia, que classificava o “marianismo” (culto à virgem Maria) como uma forma de discurso regulador na dominação patriarcal. Eram outros tempos, a graduação não era relâmpago nas instituições particulares e nos programas de pós havia uma compreensão tácita de que estávamos analisando discursos e não crenças. Tive mais de uma colega católica que sabia perceber perfeitamente a diferença entre analisar criticamente os discursos da ideologia religiosa, produzidos nas instâncias do poder clerical a serviço do domínio social, e questionar a própria fé.

 

A sociedade ficou mais rasa. Com o crescimento do fundamentalismo religioso é muito difícil fazer alguém muito jovem entender as nuances conceituais de uma discussão qualquer, quanto mais uma densa discussão acadêmica. A interpretação e aceitação literal dos textos impede que uma parte razoável dos jovens estudantes desenvolva sua capacidade intelectual plena e gera situações chocantes e constrangedoras.

 

Eu aprendi com Eni de Mesquita Samara que o Feminismo vai muito além das feministas. Que um debate acadêmico se dá a partir da compreensão em profundidade dos textos produzidos pela historiografia e para isso é necessário um domínio cada vez maior da análise e desconstrução dos discursos e das narrativas. Também aprendi que personalizar as discussões e usar exceções como argumento é um recurso da pobreza intelectual que não consegue se aprofundar o mínimo necessário para entender um texto teórico.

 

Os estudos envolvendo Gênero, Família e História das Mulheres têm mais de três décadas de vivência no mundo acadêmico brasileiro e no âmbito internacional datam da primeira metade do século XX com Simone de Beauvoir. E não foram tempos fáceis, mesmo entre uma parte considerável dos marxistas levou tempo demais para que essas linhas de estudo fossem toleradas, precisou surgir o trabalho da Professora Heleyeth Saffioti para reconciliar as duas tendências. E mesmo assim muitos acadêmicos ortodoxos ainda torcem o nariz e relativizam a importância desses estudos.

 

E para quem pensa que são textos de um panfletarismo apaixonado, repletos de invectivas e anátemas contra o machismo, a religião e os “hômi”, deixem-me dizer que estão redondamente enganados. São textos densos, estudos de Demografia Histórica, Geografia Humana, Sociologia e História, repletos de tabelas e planilhas analisando os números do gênero, da violência, da natalidade, da mortalidade e do impacto das ideologias de dominação na trajetória das mulheres em diferentes locais e épocas.

 

São textos que mergulham no universo documental através de várias abordagens teóricas e metodológicas e dialogam com a produção internacional em termos de igualdade, embora isso nada signifique para a indigência intelectual de algum vereador campineiro arauto da “nova” onda conservadora. Tenho o maior respeito pela produção intelectual dos GT’s de Gênero ligados à ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), que em mais de vinte anos de existência conseguiram mapear as questões da opressão e da violência e desmascarar os discursos produzidos na política, na religião e na medicina para excluir as mulheres de sua cidadania plena. Não estamos falando aqui de nenhum grupo de estudantes que desnuda os seios em praça pública e sim das carreiras acadêmicas de algumas das intelectuais mais sólidas de nosso país.

 

Ativismo feminista é uma necessidade em uma sociedade que elege mentecaptos apoiados pelo poder econômico para as casas legislativas e permite que algumas instâncias do Judiciário “concursem” uma casta de tecnocratas movidos a decoreba e sem qualquer capacidade cultural relevante. A ofensiva do neo-pentecostalismo, em sua voracidade por cargos públicos, ameaça superlativamente os direitos reprodutivos femininos e nossa própria integridade física, uma vez que sua visão moral binária limitada está sempre pensando em “castigos” para tudo o que não se enquadre em sua tosca visão de mundo. Ser feminista é resistir a essas forças esmagadoras para que nossas filhas e netas tenham perspectivas na vida e para que a memória de nossas lutas não se perca.

 

Mas somente uma leitura rasa, tosca e ignorante poderia confundir o debate acadêmico com “doutrinação” ou “assédio”. Do vereador campineiro que conseguiu aprovar uma moção de repúdio a Simone de Beauvoir (em nome da família tradicional), passando pelos delirantes defensores de que ensinar sobre a igualdade de gênero nas escolas vai obrigar nossos filhos a “virar gays”, até a pobreza intelectual e a indigência mental de alguns alunos de pós que não sabem ler um texto acadêmico ou analisar um discurso, nosso país mergulha nas águas profundas da intolerância e do obscurantismo. E corremos o risco de regredir um século em nossos direitos devido a essa maré neo-conservadora (que de novo só tem a tecnologia).

 

A memória e o legado de pesquisadoras sérias e exímias professoras como Eni de Mesquita Samara e Heleyeth Saffioti nos cobram uma postura. As nossas companheiras na linha de frente do debate acadêmico não podem ficar sozinhas. Precisamos apoiar e reverberar nossa indignação com essa tentativa infame e canalha de desqualificar os Estudos de Gênero e a Universidade propriamente dita.

 

Mas, acima de tudo, precisamos desmascarar os manipuladores que passam a vida divulgando estereótipos negativos sobre as feministas. As minhas professoras na USP e na UNICAMP eram mulheres que não abriam mão de ter amor em suas vidas, que tinham filhos e lutavam por eles. Que, mesmo quando sozinhas, não faziam juízos de valor ou caráter sobre a vida pessoal de suas alunas.

 

Minha filha nasceu enquanto eu cursava o doutorado. E, nos anos que se seguiram, sempre que precisei ir à USP para participar de algum congresso, banca ou qualquer outra atividade acadêmica, eram as minhas professoras feministas que mais ficavam felizes de ver as fotos que esta mãe coruja não parava de tirar. Eni de Mesquita Samara e Maria Helena Capelato até me passaram um “sabão” bem humorado, entre gargalhadas, na única ocasião em que apareci sem um álbum recente de fotos, porque o deixara com a minha mãe para mostrar às vizinhas.

 

Não somos espantalhos mal-amados nem passamos a vida movidas pelo ódio e a inveja às genitálias masculinas. Somos mulheres trabalhadoras que queremos equidade total de direitos para todos sem exceção, para nós, para a comunidade LGBT, para indígenas e quilombolas, para pobres e remediados. Queremos que o nosso quinhão na cidadania não seja uma concessão paternalista e sim um direito inalienável.

 

Queremos que nossa cidadania seja plena e que não esteja sujeita ao arbítrio dos fanáticos religiosos e nem dos interesses econômicos escusos que dominam as casas legisladoras.

Nós que estamos na casa dos cinquenta anos, somos a terceira geração de lutadoras e precisamos manter o legado para as que virão. Por isso eu apoio Marlene de Fáveri e defendo seu direito à inviolabilidade da cátedra. Porque um dia Eni de Mesquita Samara me abriu as portas da USP e apoiou meus estudos muito antes das cotas sociais.

CACHORROS VELHOS

4 jun

Quando eu estava crescendo, na segunda metade dos anos 60 e mesmo durante a década seguinte, não se viam cachorros velhos. E nem mesmo tantas raças quanto vemos hoje: a maior parte dos nossos conhecidos eram vira-latas ou pastores. “Perros falderos”, aquelas raças pequenas que vivem enroscando-se nas pernas das mulheres eram mais raros, mas ainda presenciei a coqueluche dos pequineses no fim dos anos 70.

 

A expectativa de vida dos cães, por aqueles tempos, não passava de dez anos. Havia muito menos vacinas e os serviços veterinários eram raros e caros nas cidades. A ênfase estava na pecuária e os cães domésticos ainda não se haviam tornado um objeto de consumo.

 

E eles se tornaram mesmo um objeto de consumo. Abundam raças que mais parecem pelúcias e bonecos e recebem cuidados que jamais sonharíamos trinta anos atrás. E há todo um comércio de comidas, utensílios e acessórios, como se ao invés de um amigo canino, estivéssemos dando vazão a mais uma desculpa para o consumismo desbragado.

 

De uns anos para cá, tenho visto cada vez mais focinhos brancos e patinhas vacilantes. E pessoas que cuidam e dedicam boa parte de seu cotidiano a manter confortáveis aqueles que foram seus amigos por anos a fio. Eu mesma passei algo em torno de três anos preparando comida especial, medicando e pajeando nosso saudoso Biscoito, que nos acompanhou por incomparáveis dezesseis anos.

 

Talvez seja por isso que quando vejo um desses velhinhos aquecendo seus ossinhos ao sol ou passeando cambaleante com seu dono, às vezes tão idoso quanto ele, fico emocionada. Os espanhóis costumam dizer que “el perro viejo sabe más por viejo que por perro”, ou seja que os cachorros velhos tem a experiência muito mais que o instinto. E quanta vida, paciência e resignação existem no olhar de um cachorro velho, quanto carinho e quanta carência!

 

Biscoito, em seus últimos tempos, não tinha a mesma disposição de sair correndo e pulando e fazendo festas, então se deixava ficar quietinho (deitado ou sentado) e apenas balançava o rabo ritmadamente quando nos via. E olhava como que pedindo alguns momentos da nossa atenção e uns cafunés, de quebra. E, claro, sempre soltava seu cheirinho de felicidade quando podia aninhar-se para dormir no sossego, ouvindo nossas vozes.

 

Cachorros velhos são como soldados sobreviventes de uma guerra que não acabou, sua presença é sempre um aviso do que nos espera. E é evidente que do mesmo modo que existem pessoas que abandonam filhotes, também existem pessoas que jogam na rua os velhinhos doentes, cegos ou “imprestáveis” para suas expectativas. Afinal, se existe quem abandona um cachorro que cresceu demais para um apartamento, por que não existiria quem abandona um idoso que não pode mais acompanhar o ritmo de sua vida?

 

É por essas e outras que eu não me surpreenderia se algum “ousado empreendedor” resolvesse abrir uma rede de lares para caninos idosos. Já existem “creches” caninas, daí para a abertura de asilos é um passo. E é provável que isso seja visto como uma solução perfeita por muita gente.

 

E não teremos aprendido nada, nem sobre a vida e nem sobre lealdade ou decência.

 

Estaremos aplicando aos nossos amigos caninos, a mesma lógica que o sistema nos obriga a aplicar aos nossos parentes idosos. É sempre a praticidade capitalista se sobrepondo às necessidades humanas ou caninas. Daycares, asilos ou clínicas existem porque a sociedade não nos deixa alternativa entre cuidar de quem amamos e trabalhar para sobreviver.

 

Nem todos os idosos internados hoje estão abandonados. Há famílias que se sacrificam para pagar os custos extorsivos de tratamento nas clínicas e nunca desistem e nem os abandonam. Lembrem-se disso quando as reformas passarem e a nenhum de nós ou nossos filhos for dada a alternativa de envelhecer com dignidade, rodeados por quem amamos, rumo a uma boa morte.

 

Viver para trabalhar e consumir, e morrer sem estorvar não são um destino. Nenhum de nós nasceu para ser carne de especulação. Não deveríamos extrapolar nossa lógica social doente para nossos amigos caninos.

 

 

A MASCULINIDADE QUE ASSASSINA

31 maio

Há alguns meses apareceu em meu pacote de televisão por assinatura um canal chamado TNT Séries. Especializado em reprises, me deu a oportunidade de rever Criminal Intent, Rizzoli & Isles, The Mentalist e todos os CSI. É a companhia perfeita para as manhãs de faxina ou para o tempo despendido na cozinha.

 

Foi nesse canal que descobri a série Major Crimes, que me deixou perplexa em um primeiro momento ao apresentar a mesma delegacia e os mesmos detetives de The Closer, mas sem a Kyra (mis’scarlett) Sedgwick. Com o desenrolar das temporadas acabei descobrindo que uma série era desdobramento da outra e consegui me situar na trama. E destrinchar tramas é tão bom para afastar o Alzheimer quanto os jogos de tabuleiro.

 

Houve um episódio que vem a calhar para o momento em que vivemos. Ao investigar o cadáver de uma moça barbaramente espancada e estuprada, a equipe descobriu uma postagem em um chat sobre fantasias sexuais, em que a vítima fornecia o roteiro para a própria violação. Investigação vem e vai e descobre-se que outra pessoa é quem fez a postagem em nome dela e um dos integrantes do chat pensou que seria uma boa ideia arrombar sua porta e brutalizá-la seguindo as instruções ali explicitadas.

 

Imagine o pavor da vítima com um estranho invadindo sua casa e praticando tais atos de violência. É lógico que ela reagiu, a situação escalou e acabou em seu assassinato. Nada mais previsível em uma série policial.

 

Mas, e é aí que os autores parecem ter percebido a insanidade da violência de gênero que nos rodeia, a investigação leva à descoberta de que quem postou as mensagens foi um ex-namorado. Inconformado com o rompimento devido a uma discussão que degenerou em violência, o miserável pensou que se ela fosse estuprada, acabaria percebendo que ele nem era tão violento assim e voltaria aos seus braços, arrependida de tê-lo descartado. O psicopata, em sua lógica egoísta e insensível jamais sequer entendeu que não se impõe uma violência desse nível a ninguém em nome de um suposto amor.

 

Estamos rodeadas de psicopatas que recebem o aplauso da sociedade herdeira do patriarcalismo abrâmico. Estupros corretivos são corriqueiros em boa parte do planeta. E a violência de gênero cresce na medida em que a masculinidade se vê fragilizada pelo caráter esmagador do capitalismo pós-moderno.

 

Não é apenas que os papéis sociais femininos impostos desde priscas eras relutam em ser superados. É, principalmente, que a masculinidade se sente constantemente ameaçada e precisa reafirmar-se à custa de nossas carnes humilhadas. Tanto portas adentro de muitos lares, quanto ao vivo em cores nos produtos da indústria cultural.

 

Preocupa-me imensamente o crescimento, entre adolescentes e jovens, de uma percepção de masculinidade que só se realiza a partir da subjugação do outro. A nova geração deveria ser melhor do que nós e, no entanto, há um quase culto ao deputado caricato que não sabe se expressar a não ser em termos violentos e abusivos. A internet se transformou no quintal da violência verbal desses aprendizes de torturadores, não admira então que sub-celebridades a procura de audiência encenem atos de violência simbólica, destinados a esse público microcéfalo.

 

A cada dia, mais e mais homens incapazes de conviver com a igualdade de gênero atravessam a fronteira da violência simbólica para a física. E mais mulheres são agredidas, humilhadas ou assassinadas. E como elas também o são gays, lésbicas, travestis, transexuais e toda sorte de ser humano que evoque de forma minimamente visível qualquer gênero que não seja o masculino.

 

Urge discutir violência de gênero nas escolas. Desde o menino que beija à força uma ou mais meninas no maternal até o bando de adolescentes que espanca um colega gay, precisamos humanizar o ensino e discutir essa masculinidade que só se realiza na subjugação do outro. E para ontem.

 

Mas cada vez podemos menos…

 

Uma ofensiva para silenciar professores está em curso. Patrocinada por fanáticos religiosos de todos os espectros do cristianismo, e desenvolvida por funcionários públicos que desonram o Estado Laico, essa censura asquerosa se espalha pelo país. E nos calam aos gritos.

 

E queimam livros. E humilham professores. E agridem alunos que não se adéquam a seus estereótipos religiosos.

 

E a violência aumenta, legitimada por uma interpretação canhestra das escrituras e promovida por um simulacro de parlamento que atende aos interesses mais escusos. Retirando nossos direitos e liberdades um a um, até que só nos reste vestir a burca e nunca mais sair de casa. Ou pior…

 

E agora? Apenas reagir ou começar a agir e tomar a ofensiva? Quem sabe?

VOCABULÁRIO E DICIONÁRIOS

31 maio

Só há uma coisa que me apavora mais do que um hispanoparlante arriscando um portunhol e é um lusoparlante enrolando um espanhês. Ao longo das décadas de convivência com as duas línguas, tenho percebido a generalização dos dois lados da fronteira de que “quem fala uma pode perfeitamente hablar la otra porque são línguas irmãs, parecidas en sus estructuras, e fáceis de aprender. E com que frequência tive meus ouvidos torturados por argentinos e uruguaios ensaiando um português espanholado e brasileiros falando um espanhol digno dos Idiomas Luxemburgo (cujo slogan “transformando poliglotas em trogloditas” foi um dos momentos mais brilhantes dos Sobrinhos do Athayde).

 

Em 1975 estávamos com visitas do Uruguai em casa, lá no Ipiranga, e uma vizinha muito expedita resolveu enrolar uma panela de brigadeiros e oferecer às nossas convidadas. Quem resiste a um brigadeiro caseiro bem-feitinho? Ninguém mesmo, só que lá pelas tantas, uma das moças comentou:

 

– Está exquisito!!!

 

E foi o que bastou para criar um incidente que nunca mais foi esclarecido. De nada bastou explicar que a palavra em espanhol tinha um significado completamente diferente. Como a vizinha em questão era uma pessoa bastante ignorante, não nos acreditou e ficou com essa mágoa durante anos, mesmo que tivesse continuado a amizade.

 

Porque “exquisito” em espanhol significa sublime, delicioso e é o maior elogio que se pode fazer a um cozinheiro. Ao passo que, para significar esquisito (na região do Rio da Prata) usa-se “raro” ao invés de “extraño”. Embora “raro” também designe o que tem caráter esporádico ou intermitente, “extraño” é usado muito mais para o que é desconhecido, do que para o que é esquisito.

 

Sentiram o drama?

 

Vou além, um jovem amigo meu que viajou recentemente por terras espanholas, ficou inconsolável ao descobrir que quando perguntava pelo “rango” ninguém entendia que se tratava de comida. É claro que vai daí a arrogância da juventude de pensar que uma gíria tão específica seria compreendida em um país com uma língua diferente. Mas ele parecia não querer entender que a mera existência de uma palavra “rango” em espanhol não lhe dava o direito de esperar ou exigir ser entendido.

 

Sim, porque a palavra “rango” em espanhol designa a estirpe nobre. Quando dizemos que alguém “és duquesa por rango própio” significa que essa pessoa é duquesa por ser filha de um duque e não por ter casado com um. Quem tem “rango” tem estirpe ou ascendência nobre, é um distintivo social.

 

Agora imagine o infeliz entrando em um restaurante de Madri ou Barcelona perguntando pelo rango…

 

Há muitos outros exemplos que poderiam ser usados, mas suponho que esses dois são um bom ponto de partida para o meu argumento. Para aprender uma língua não basta saber sua estrutura ou seu fraseado, como lidar com pronomes e conjunções ou como conjugar verbos. O vocabulário é tão importante quanto qualquer outra instância linguística.

 

Mas, por desgraça da modernidade, há um encolhimento significativo na capacidade dos estudantes e ainda mais dos adultos para aquisição de vocabulário. As pessoas se acomodam com algumas centenas de palavras que lhes bastam para movimentar-se em seu próprio círculo social e só incorporam as palavras que podem compartilhar com seus contatos próximos, como gírias televisivas e neologismos tecnológicos. Quando leem um livro ou um texto e esbarram em palavras desconhecidas, empacam e não tem o saudável hábito de empregar dicionários.

 

Qualquer pessoa que tenha um repertório de palavras mais elaborado passa por esnobe e é francamente hostilizada na maioria dos ambientes. Para manter um rol de amizades e conviver com parentes sem ser estigmatizados, muitos jovens optam por permanecer na zona de conforto do vocabulário comum.  E, em consequência, acabam tendo um péssimo domínio de seu próprio idioma, o que se reflete perfeitamente na hora de aprender ou adquirir o mínimo domínio em uma língua estrangeira.

 

Um vocabulário pobre limita a capacidade de expressão dos próprios pensamentos e sentimentos. Embrutece, poda, restringe, incapacita a compreensão de si, do mundo e dos outros. Por isso fica tão fácil induzir comportamentos massivos na sociedade contemporânea.

 

Se eu tivesse a capacidade de influenciar ao menos algumas dúzias de pessoas, aconselharia bons dicionários. Convencionais, de sinônimos, enciclopédicos, dicionários são uma das mais sensacionais criações do intelecto humano. E muito além da consulta, servem também para quem deseja enriquecer o vocabulário e entender melhor o mundo que nos rodeia.

 

Se devemos partir de algum ponto para reverter o descalabro em que se transformou a nossa sociedade, um bom dicionário é um excelente ponto de partida. Já que o diálogo necessário para refrear os níveis alarmantes de violência, que nos cercam, precisa ser inteligível para as partes e passível de ser decodificado de acordo com as experiências sociais e pessoais de cada um. Não basta entender a língua falada, é preciso expandir a mente domando as palavras que dão forma aos pensamentos e designam objetos, conceitos, sentimentos, sonhos e esperanças.

 

Para melhorar nossas comunicações e diminuir a violência social tanto física quanto verbal. Para conciliar os mundos que nos cercam. Para viver uma existência plena.

 

E no dia em que conseguirmos o domínio efetivo dos meandros e ritmos de nossa própria língua, aí estaremos prontos para não assassinar as línguas dos outros, no mínimo. Até lá, cuidado para não pedir “rango” em um restaurante de Montevideo, Madri ou Buenos Aires, ou para elogiar qualquer comida no Brasil usando o termo “exquisito”. Nem sempre as pessoas tem flexibilidade ou paciência nessas horas.

A IMPOSSÍVEL FOTO DO FUZILAMENTO DE LORCA E A DESINFORMAÇÃO NO MUNDO DOS MEMES

24 maio

Federico García Lorca foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, mas foi também um incansável pesquisador da cultura de seu povo e um divulgador do teatro popular e um ativista por demais interessante. Inteiramente avesso a qualquer tipo de violência física, Lorca dedicou seu fervor republicano a um ativismo cultural itinerante. Uma parte considerável de seus poemas e obras teatrais dialoga diretamente com as tradições de crítica e contestação populares e desnuda uma Espanha violenta, ignorante e fratricida, permeada por uma religiosidade opressora e uma classe dominante despótica.

Lorca-Marcelle-Auclair

Em agosto de 1936, logo depois do início da Guerra Civil Espanhola, o poeta foi arrestado, a partir de uma ordem escrita das autoridades franquistas e foi fuzilado na madrugada de 18 para 19 do mesmo mês. As circunstâncias do assassinato de Lorca permaneceram obscuras durante décadas, seu corpo nunca foi encontrado e, somente recentemente, documentos provando a autoria e a procedência das ordens superiores para sua morte vieram a luz. As circunstâncias do encobrimento desse assassinato foram exaustivamente pesquisadas por Ian Gibson, autor de farto material sobre Lorca.

Por essas e outras é que fiquei muito surpresa ao ver uma foto circulando pela internet como sendo do fuzilamento do poeta. Não apenas por tratar-se de uma impossibilidade histórica, uma vez que o fuzilamento ocorreu de madrugada, em surdina e sem testemunhas. Mas, principalmente, por tratar-se de uma imagem visivelmente pousada, heroica, quase cinematográfica de uma pessoa que nem sequer tinha o mesmo tipo físico de Lorca.

falso fusilamento de Lorca

No mundo dos memes a veracidade das imagens pouco importa, o que realmente interessa é a mensagem que se passa. Então, se a imagem for suficientemente impactante para estimular as reações emocionais desejadas, tanto melhor, nada significando sua falsidade. As frases de efeito mascaram a pouca solidez de um mundo virtual alucinado.

É assim que se constrói a pós-verdade? Talvez. Mas efetivamente é assim que se cria o consenso em cima de mentiras.

Afinal, o aspecto mais monstruoso do assassinato de Lorca é exatamente seu caráter clandestino e criminoso. Os franquistas não tiveram a coragem e nem decência de prendê-lo abertamente como fizeram com outros tantos intelectuais. Ele foi arrastado para a prisão em surdina e depois de assassinado foi jogado em alguma vala comum ou sepultado em local desconhecido para impedir que sua memória fosse respeitada.

O fato de Federico ser homossexual era considerado inadmissível no mundo católico franquista e esse foi um dos fatores que precipitou sua eliminação. A covardia das autoridades espanholas, que durante décadas se recusaram a assumir qualquer responsabilidade nesse crime e nada fizeram para localizar seus restos mortais e devolvê-los à família, figura na galeria da infâmia da humanidade. Bem como a recusa de admitir que o poeta não representava qualquer perigo físico aos falangistas e foi assassinado por motivos torpes ligados ao machismo patriarcal.

É evidente que se você não é historiador, não pertence ao mundo cultural ibero-americano e nem ao espectro das esquerdas comunistas e/ou anarquistas, você não tem a obrigação de conhecer todas estas circunstâncias. Muitos de nós já repostamos hoaxes e caímos na sedução dos memes bombásticos alguma vez na vida. Mas, agora que você sabe, dá para imaginar que esse meme pode criticar ditaduras, mas é um insulto à memória de Federico García Lorca.

FAREWELL LORD BRETT SINCLAIR

23 maio

Hoje era para ser um dia feliz, temos aniversário na família. E, ao abrir a internet, junto ao cortejo de misérias diárias da nossa política, descubro que Roger Moore se foi. E com ele se foi minha primeira paixonite de pré-adolescente.

 

Os tempos em que ficava até tarde acordada para vê-lo aparecer como Lord Brett Sinclair, ao lado de Tony Curtis na série Persuaders exibida pela extinta TV Tupi. Os anos 70, quando fazíamos fila na porta do Cine Marabá de Jundiaí toda vez que estreava um novo filme de James Bond. E, de uns tempos para cá, desfrutar de rever esses mesmos filmes ruins na TV, junto ao meu marido, e apreciar seu estilo leve e cavalheiresco de atuar.

 

Porque Roger Moore foi o mais cavalheiro dos James Bonds, o mais divertido, o menos afeito à pancadaria e o mais elegante. Seus filmes são muito mais paródias que filmes de aventuras, e sua interpretação irônica coloca o ridículo agente nada secreto na categoria dos clowns mais que dos heróis. Impecável.

 

No entanto, foi sua ação como embaixador da UNICEF e seu modo discreto de lidar com a fama que sempre me agradaram. Sua disposição para representar papéis como o paraquedista badass gay de O cruzeiro das loucas e conferir dignidade a um papel que era para ser uma mera ponta. Seu modo irônico de desdenhar da própria carreira, dando razão aos críticos que o chamavam de canastrão.

 

E do mesmo modo que Vincent Price, Peter O’Toole e Christopher Lee, Roger Moore pertencia à estirpe dos grandes canastrões. Daqueles canastrões imensos, que se tornam Cult e carregam legiões de fãs, mesmo depois que se vão. Agora só restou Michael Caine…

 

Que vá em paz e que a terra lhe seja leve e que as novas gerações apreciem seus filmes e séries. Uma parte da minha adolescência vai-se com ele. E eu que raramente escrevo obituários porque prefiro celebrar as pessoas em vida, aqui me despeço mais da minha juventude do que do homem em si.