TODOS FOMOS IGNORANTES NA JUVENTUDE

27 set

Em algum momento de 1989, Carlo Ginzburg apresentou uma palestra no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Eu estava no terceiro ano de graduação e, acompanhando outros colegas e alguns professores do departamento de História, juntei-me ao pequeno público que presenciou esse momento épico. Naqueles tempos, Ginzburg ainda não era uma unanimidade nos currículos universitários e poucos dos nossos professores estavam aptos a analisar o paradigma indiciário por puro desconhecimento, era uma abordagem documental relativamente recente.

 

E devo dizer que para nós, orgulhosos estudantes do IFCH e profundamente ignorantes sobre a estrutura de qualquer curso que não fosse o nosso, era quase um absurdo pensar que aquele historiador maravilhoso estivesse apresentando-se para os alunos de Letras e não no nosso instituto. Eu mesma nada sabia sobre Linguística e devo à posterior convivência profissional com Émerson de Pietri, e outros professores dessa área, o meu “desasnamiento” e a minha compreensão sobre morfologia. À época de graduação, olhávamos para os alunos de Letras com uma implicância carinhosa, mas implacável.

 

E eis que, estando na plateia, entra Carlo Ginzburg, um homem alto e imponente, e uma professora já idosa do IEL procede à sua apresentação. Toda emocionada ela menciona ser fã da mãe do historiador, Natalía Ginzburg, e quase vai às lágrimas citando um trecho de memórias em que se refere a “i bambini” e ela, vendo-se diante de uma das crianças, gagueja uma apresentação que para nós foi absolutamente constrangedora. Ginzburg, que parece uma pessoa bem contida, agradece e começa sua palestra (que foi proferida em inglês porque os descendentes de italianos éramos minoria e fomos voto vencido).

 

Era um tempo em que não existia internet, pesquisávamos nas bibliotecas frequentemente defasadas e nossos professores completavam nossa formação com cópias de textos que traziam de volta de suas viagens para participar de eventos no exterior. As apresentações nas orelhas dos livros acadêmicos eram, geralmente, atinentes apenas ao meio profissional, citando idade e procedência dos autores e mais nada. Tudo o que sabíamos sobre os historiadores vivos que estudávamos era o que nossos professores nos contavam.

 

Então, evidentemente, eu não sabia quem era Natalía Ginzburg, uma vez que não fazia parte das minhas referências literárias e pouco sabia do próprio Carlo, apenas que vinha da Universidade de Bolonha. Algum tempo depois até encontrei um livro dessa autora na livraria, mas era tão caro e eu tão “remediada” que nem pude comprar. E com o tempo essa referência me fugiu à memória e ficou sepultada por quase três décadas de uma vida de referências.

 

Também superei a pessoa que era naqueles tempos. A pessoa jovem e ignorante que olhou para aquela professora (que não conhecia) e julgou-a uma “pata choca” que nada sabia sobre a importância historiográfica de Carlo Ginzburg. E é maravilhoso poder constatar que a idade, a experiência, os dissabores e os sofrimentos da vida têm a capacidade de expurgar nossa persona dessas arrogâncias e ignorâncias juvenis.

 

Ginzburg não foi o único historiador que pudemos assistir durante a graduação. Seymour Drescher, Dale Tomich, Thomas Holt, Christopher Hill e, pasmem, Eric J. Hobsbawm passaram pela UNICAMP naqueles quatro anos gloriosos. E hoje penso que foi um desperdício ser tão jovem a ponto de entregar-me à tietagem, mas não ter leitura suficiente para fruir de suas conferências e palestras como seria devido.

 

Vez por outra, ao reler algum ensaio do Ginzburg, pensava naquela palestra no IEL, mas não me detinha demais nas lembranças que começavam a ficar embaçadas. Nunca mais pensei naquela professora e sua apresentação informal e “desajeitada” do “nosso” historiador. Até ontem.

 

Ontem abri o exemplar da Carta Capital da semana passada e comecei a ler uma resenha sobre um documentário a respeito dos intelectuais italianos que resistiram ao domínio fascista durante a guerra. E, de repente, lá estava Leone Ginzburg, casado com Natalía Levi (e pai de Carlo Ginzburg), ensaísta, professor universitário e tradutor de literatura russa, que foi assassinado pela GESTAPO em 1944, aos trinta e quatro anos. E todo o contexto e o sentido do gaguejar emocionado sobre “i bambini” daquela idosa professora me atingiu como um soco no peito.

 

E eu chorei também. E tive a certeza de que também estaria aos prantos diante de uma história de vida como essa, fosse eu quem estivesse lá para apresentar Carlo Ginzburg a uma plateia que nada sabia. E, sem pretender, cresci mais um pouco.

 

E cresci não apenas por poder prestar uma homenagem tardia àquela professora que nunca conheci, mas também por poder pensar sobre a juventude que me rodeia e que repete meus mesmos erros em direção à maturidade. Esses que com frequência eu considero como não passando de meros pirralhos arrogantes e ignorantes são, em parte, um espelho da minha própria juventude. É claro que um espelho um tanto distorcido porque eu não tinha a liberdade, a informação e a tecnologia que eles desfrutam hoje.

 

Mas ainda assim um espelho.

 

E, se há algo que posso afirmar com conhecimento de causa, é que um dos aspectos preponderantes do meu processo de amadurecimento foi que os adultos da minha juventude não tinham pena nem escrúpulos de esfregar todos e cada um dos meus erros na minha cara. Naqueles tempos, palavras como autoestima nem sequer existiam e, para cada professor maravilhoso como o Amaral Lapa, havia ao menos dois sarcásticos que não perdoavam chances. Devo a esse conjunto de circunstâncias e de pessoas do meu entorno a capacidade de ainda me maravilhar e aprender a esta altura da vida, de saber que humildade pessoal não equivale a submissão e que respeito implica sempre em empatia e solidariedade humana.

 

E tenho consciência de que ignorar fatos básicos da vida é inerente a todo aquele que não viveu, a informação de segunda mão não basta e é preciso a experiência para entender muito do que nos rodeia. A arrogância juvenil é sempre um empecilho nesse aprendizado, mas ela passa, é preciso que passe para alcançar a idade adulta e a maturidade que vai nos presenteando com a compreensão da complexidade e da completude da vida. É um processo em constante construção e nunca cessamos de aprender.

 

Agora só preciso mesmo é de mais e mais paciência…

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O ESCOLA SEM PARTIDO E A DITADURA DO PENSAMENTO ÚNICO

26 set

Quem acompanha este blog ou meu canal no YouTube há mais tempo, sabe perfeitamente o quanto já me debati contra os projetos do Escola sem Partido. Meus vídeos de 27/04 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=_gVbMik_BdA ) e 31/05 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=8keXEPy9IOQ ) do ano passado já têm vários milhares de visualizações e abordam aspectos inerentes ao objetivo obscurantista dessas iniciativas. O que em um primeiro momento pode parecer apenas banir o pensamento crítico do currículo escolar, a médio e longo prazo implica em trazer a bíblia para dentro da sala de aula e dar-lhe estatuto de autoridade pedagógica.

 

Nesse sentido, há mais de ano e meio que venho denunciando o crescimento dessas iniciativas de censura e repressão ao livre pensamento. É uma pena que só agora alguns setores da sociedade civil começaram a reagir. É muito tarde e é muito pouco.

 

As vereanças de muitas cidades, de perfil conservador, já estão arregimentadas e aparelhadas para aprovar esses projetos. E padres e pastores já passaram mais de um ano martelando essa baboseira nos sermões e cultos, convencendo seus fiéis. E nós professores ficamos sozinhos esse tempo todo.

 

Há dois extremos nesse movimento que precisam ser considerados. Sobre a questão das salas de aula, já me estendi o suficiente em vários textos. Hoje quero falar também sobre a questão da ingerência nas universidades e no pensamento teórico.

 

Quem tem presença nas redes sociais já deve ter visto mais de uma vez o slogan defendido por alguns dos arautos do Escola sem Partido “- Marx e + Mises”. Esse grupo defende que os cursos de Ciências Humanas no Brasil deveriam descartar o pensamento marxista e estudar a obra de um certo Ludwig von Mises, pensador tão obscuro que nem sequer mereceu um volume entre as coleções de pensadores e economistas que adornam as bibliotecas por aí. Sem a mínima noção de como se constrói o pensamento acadêmico, esses vociferantes ignaros, que fecham exposições, querem também ditar cátedra silenciando o que não entendem.

 

Não tenho procuração para falar por outras áreas das Ciências Humanas, mas posso expressar alguns dos princípios da minha área, a História.

 

O pensamento acadêmico em História é estruturado a partir do diálogo historiográfico. Aprendemos Teoria e Filosofia da História para poder realizar a sua escrita, que recebe o nome de Historiografia, essa escrita é o modo como analisamos, catalogamos e narramos os fatos, dentro dos pressupostos teóricos e da nossa própria noção de historicidade. E a Historiografia implica em dialogar com outros autores, inseridos em escolas teóricas e interligados por praxes acadêmicas de escrita e análise.

 

A isso chamamos diálogo porque não se constrói conhecimento sem esse constante interrogar das evidências e sem essa comparação com os achados dos outros autores. Quando um autor escolhe não dialogar com o conhecimento já existente em sua área e deliberadamente renega os métodos necessários para a autenticidade de sua pesquisa, a tendência é que seu trabalho se torne irrelevante, mesmo quando aclamado por um público menos apto. O destino de vários desses aventureiros é engrossar as listas de best-sellers e capturar a imaginação de quem não tem o mínimo conhecimento sobre a área estudada.

 

Academicamente, não há como eliminar o pensamento de Karl Marx do diálogo historiográfico porque a maior parte da produção intelectual dos últimos cento e trinta anos dialoga de algum modo com este autor. Seja para inserir-se na tradição marxista ou para contestá-la, seja nos pressupostos teóricos ou nos paradigmas metodológicos, a presença de Karl Marx é necessária nos currículos universitários para entender uma boa parte da trajetória histórica da nossa disciplina. E isso não torna todos os que estudam Marx, automaticamente, marxistas, ao contrário, em toda a minha trajetória acadêmica sempre estivemos em minoria.

 

E isso certamente não transforma em comunistas todos os que reconhecem a importância de Marx para a História do pensamento intelectual no Ocidente.

 

O que grassa nesses meios do Escola sem Partido é, não apenas, a mais profunda ignorância sobre tudo o que seja pensamento acadêmico, mas também uma raiva acéfala contra o conhecimento em si. Não é senão por isso que bobagens como o criacionismo, a demonização das vacinas e o terraplanismo estão na ordem do dia para grupos que recusam a pesquisa científica como se fosse algo maligno. É uma mistura tosca e explosiva de religião com pseudociência, que redunda em ilhas ou bolhas de ignorância categórica e intolerante e promove o obscurantismo e o ódio.

 

Minha filha costuma argumentar que a rebeldia adolescente, em sua essência mais tosca, é em parte responsável por esse estado de coisas. Em uma sociedade que se encaminha para direções mais progressistas, os adolescentes escolhem pautas conservadoras para diferenciar-se e posar de rebeldes nas redes sociais. Ao contrário da minha geração, que precisou enfrentar o conservadorismo e, por isso mesmo, dirigiu sua rebeldia para defender liberdades e direitos de um espectro mais amplo.

 

No dizer da minha filha, e eu concordo, hippies eram antibelicistas porque conviviam com uma guerra monstruosa, hipsters são esnobes porque estão rodeados pelo consumo massificado e muitos adolescentes, atualmente, se viram para o conservadorismo mais canhestro porque querem chamar a atenção, mas não tem maturidade nem inteligência para admitir as consequências de seus pensamentos e atos. E é com essa massa de manobra que aqueles que estão por trás do cenário contam para servir de “tropa de choque” e intimidar o pensamento crítico. Diante da desinformação reinante e das bolhas criadas pelas redes sociais, até ser neonazi pode ser “descolado” para grupos sociais famintos por protagonismo e pertencimento.

 

Somem-se a isso os rebanhos pentecostais e carismáticos e é uma receita para o triunfo da ignorância e do não-pensamento. O messianismo demonstrado pelos defensores do Escola sem Partido já nos dá uma amostra do que pode vir por aí. Não admira que, nesse cenário absolutamente delirante, o Supremo Tribunal Federal esteja cogitando em liberal o ensino religioso confessional nas escolas públicas, em flagrante desrespeito ao Estado Laico e às mais caras tradições republicanas.

 

Se esse arremedo de Inquisição vingar, teremos em um extremo os professores escolares sendo perseguidos pela emissão de qualquer pensamento crítico e no outro extremo a eliminação de qualquer relevância intelectual de nossas universidades devido à supressão sumária do diálogo acadêmico que nos liga a um vasto grupo de instituições neste e em outros continentes. Em seu lugar entrariam repertórios de almanaque como substitutos ao material didático e obscuros pensadores de guetos intelectuais inexpressivos para obliterar os currículos das nossas universidades. E a presença religiosa seria cada vez mais opressiva e obscurantista, em retorno a estruturas e pensamentos do passado que deveriam ser motivo de constrangimento e não de orgulho.

 

E eu me pergunto: o que aconteceria se, de repente, os anarquistas enlouquecessem e resolvessem exigir a substituição de Marx por Proudhon e começassem a atormentar os meios acadêmicos e as escolas e encontrassem grupos sociais que lhes dessem respaldo nessa insanidade? Seria patético e impossível, não é mesmo? Afinal, mesmo que muitos não gostem, Proudhon fora de seu diálogo com Marx parece um pensador muito menor, mesmo tendo gerado uma tradição de seguidores na academia e fora dela.

 

Guardadas as devidas proporções, os delírios dos seguidores de Mises estão nessa categoria do patético e do impossível. Apenas que, diferente dos anarquistas, que se situam na extrema-esquerda do espectro e não conseguem seduzir o senso comum ou a imaginação dos ignorantes, os seguidores de Mises, por encontrar-se na extrema-direita, acabam por receber o apoio e o beneplácito dos centros de poder. E é por isso que hoje estamos na iminência de mergulhar no caminho irreversível da mais obscurantista teocracia.

 

Nesta altura do campeonato, perdemos tempo e pontos preciosos e não temos uma defesa que impeça a goleada, se me perdoam a metáfora futebolística. É hora de começar a pensar em cautelares para garantir o direito à liberdade de cátedra e em ações coletivas para impedir vereadores de extrapolar suas funções, invadindo salas de aula e violando flagrantemente os direitos dos professores. Se não começarmos a fortalecer nossas defesas, nem adianta cogitar em contratar bons ataques.

O APOCALIPSE ZUMBI 

18 set

(com alerta veemente de figuras de linguagem e outros recursos literários)

 

1.

 

Sábado, oito horas da manhã, a campainha toca e Amanda pula da cama apavorada sem saber o dia, a hora ou o lugar. Respira fundo e percebe que era um dia em que poderia ter descansado dormindo até mais tarde, mas agora esse despertar brusco vai espantar de vez qualquer sono. Maldizendo da sorte, calça seus chinelos e vai em direção à porta. Protegida dos olhares externos, dá uma espiada e depara com uma dupla de Testemunhas de Jeová e solta um palavrão involuntário.

A vontade de Amanda é abrir a porta e mandar os dois para um lugar bem sonoro, mas ela não o faz porque tem plena consciência de que, para a mentalidade masoquista desse tipo de crente, qualquer hostilidade que possa ser encarada como “sofrer para espalhar a palavra” é um prazer muito maior até do que converter alguém com suas lorotas. Depois de algum tempo, os dois desistem e vão para a próxima porta invadir a privacidade de outro incauto, desrespeitando qualquer direito constitucional com seu proselitismo fanático.

 

Com a manhã perdida, a professora Amanda desencava um pacote de provas para corrigir e, depois de encher a máquina de lavar, ventilar a casa e retirar da geladeira os ingredientes para o preparo do almoço, senta-se e passa duas horas seguidas corrigindo garranchos, erros de concordância, raciocínios lineares e uma porção de “enrolation” de alunos que não estudam e enchem as provas de “piadinhas” esperando safar-se por causa da progressão continuada. E a professora respira fundo, mas não encontra o ar necessário para seus pulmões e vai cuidar da casa, do almoço e ligar o computador para pagar as contas pela internet.

 

O orçamento está estourando e Amanda não sabe como fará para comer na semana seguinte, mas ao menos os remédios que precisa ainda pode conseguir de graça. Há tempos que não sobra grande coisa para roupas, sapatos e muito menos livros ou cinema. A internet é a companheira mais barata, já que a televisão aberta é tão lastimável que nem dá para descrever.

 

Amanda apostou suas fichas na democracia, nos governos populares, saiu à rua para defender a presidenta legitimamente eleita, assinou dúzias de petições online para defender seus direitos e os das minorias, inundou as redes sociais de textões e memes ultracríticos e, no entanto, o golpe veio, os direitos foram atropelados, seus textos no Facebook valeram-lhe vários bloqueios e uma reclamação na escola que deixou suas aulas por um fio.

 

A professora precisa comer, morar e vestir mesmo que o que ganha mal dê para isso, mas também precisa pensar e expressar seu pensamento e agora não pode mais. O medo das retaliações calou Amanda, notícias de professores sendo perseguidos, espancados, virando balconistas em lojas de conveniência pipocam todos os dias em sua TL e o clima de ameaça é constante. A escola chegou a um ponto em que mandar um aluno prestar atenção pode criar um incidente de proporções desmedidas.

 

Amanda toma seu chá e espera um milagre.

 

2.

 

Josué quer chorar e não consegue. Seu irmão foi assassinado, mas ele não pode sequer pronunciar-lhe o nome porque o pastor disse que seu irmão era um pecador pervertido e o expulsou da igreja e da comunidade. Seus pais passaram a fingir que ele jamais havia existido, nunca mais pronunciaram seu nome e nem falaram com ele ou sobre ele.

 

Mas Josué se lembra o tempo todo de como seu irmão o protegia na escola, quando ser crente era motivo de chacota. Lembra-se de como estava sempre lhe mostrando músicas que eles não poderiam ouvir e falando de temas que eram proibidos. De como ficou assustado quando seu irmão contou publicamente que gostava de rapazes e queria ser feliz. Da solidão que sentiu quando os pais o proibiram até de visitá-lo.

 

E agora Jeremias está morto, assassinado por gente que não gosta de rapazes que gostam de rapazes. E essas e outras pessoas dizem que foi castigo de deus e que seu irmão era um pecador. Josué quer gritar ao mundo que seu irmão era bom, ele não entende o pecado e nem entende deus. E tem medo.

 

E senta-se em seu canto com a bíblia aberta e o choro engasgado, esperando por um milagre…

 

3.

 

Fernando é um sujeito “antenado”. Frequenta a academia e cuida muito para que seu corpo esculpido mantenha os músculos firmes. Come o que o instrutor manda e não tem tempo para “frescuras”. Conversa com seus amigos sobre muitas coisas e tem opiniões fortes como ele mesmo.

 

Fernando jamais leu um livro, na escola estava sempre colando e dando “jeitos” de passar de ano. Não lê revistas também, só as de fisiculturismo. Para se sentir informado, conversa com algum colega que lê as revistas da recepção do dentista. Gosta de filmes de porrada e de carros velozes, se o filme tiver gente dando porrada e carros que correm até acabar em porrada, melhor ainda.

 

Fernando e seus amigos não gostam de gays, mas eles não dizem “gay” e sim “bichona” porque eles são muito machos e não usam palavras de florzinhas. Quando sai na noite e vê um gay, ele tem vontade de desancar de porrada o desgraçado para ver se vira homem na marra. E às vezes, quando está com seus amigos em bando, é exatamente isso o que fazem, espancam gays.

 

Ele e seus amigos não entendem nada de política, mas gostam de candidatos com atitude. Odeiam qualquer um que defenda os “direitos humanos”, que chamam de comunista e “esquerdopata” e também sentariam porrada se seus caminhos se cruzassem, mas os comunistas estão todos nas universidades e nas escolas doutrinando as criancinhas e isso é inaceitável.

 

No dia anterior houve um desfile gay e Fernando e seus amigos ficaram na saída do metrô a postos. Quando viram um rapaz com toda a pinta de “bicha” sair em direção ao terminal começaram a segui-lo. Depois de um tempo, o rapaz percebeu a apressou o passo, essa foi a deixa para que o alcançassem e o espancassem brutalmente, chutando-o quando já se encontrava no chão desacordado. Depois foram comemorar.

 

Hoje Fernando ouviu na televisão que um jovem gay, brutalmente espancado a caminho do terminal, faleceu sozinho na calçada e seu corpo ficou horas aguardando o IML. A enormidade de ter ajudado a assassinar uma pessoa nem sequer perturba o “maromba”, afinal, era só uma “bichona”…

 

Fernando acreditou que derrubando os “esquerdopatas” canalhas acabaria com a corrupção. Quando alguém lhe diz que a corrupção piorou, ele começa logo a berrar para calar o interlocutor porque não quer ter o trabalho de pensar. Agora deu para dizer que direita e esquerda é tudo a mesma coisa e que bom mesmo eram os militares. Por isso, ele e seus amigos resolveram votar num candidato que chamam de “mito” e que vai acabar com a “putaria” dos direitos humanos.

 

Fernando puxa ferro todo dia e espera por um milagre…

 

4.

 

Ricardo é advogado e é liberal, estudou sempre em boas escolas e faculdades bem ranqueadas. Acredita em meritocracia, afinal, filho de um juiz e uma promotora sempre estudou muito e merece conquistar seu espaço. Ele sabe que o mercado só premia quem se esforça e por isso despreza os pobres, os bolsistas e toda essa renca de fracassados que clama por justiça social.

 

Ricardo passou os últimos três anos estudando feito louco para prestar concurso para um juizado federal. Sonha com o prestígio e a estabilidade do cargo, com o alto salário e com o orgulho que seus pais vão sentir quando passar. Ele sabe que vai passar porque é impossível alguém que ralou tanto na vida não conseguir capturar seus sonhos.

 

Ele apoiou o impeachment porque estava cansado de ver a economia sendo gerida por pessoas incapazes de aceitar que o mercado é soberano. Quando vê alguém falando em golpe, imediatamente “carteira” o incauto e coloca para correr. Detesta esses mimimis de esquerdistas e quer mais mesmo é que sejam todos presos.

 

Ultimamente anda preocupado, boatos de suspensão por tempo indeterminado de qualquer concurso público se sucedem em sua TL do Facebook e ele e seus colegas concurseiros se perguntam se já não seria hora de descarar este governo e implantar um parlamentarismo eternamente ao centro para dar jeito neste país desgraçado.

 

Enquanto nada disso acontece, Ricardo estuda suas apostilas. E nas férias torra ao sol em Miami esperando por um milagre…

 

5.

 

E naquele sábado, naquele país, para aquela gente, o único milagre possível acontece. Subitamente os mortos brotam das sepulturas rasgando a terra e quebrando as pedras e marcham rumo aos que pensam que estão vivos. E arrastam-se pelas ruas arrancando as pessoas de seu marasmo e esmigalhando suas carnes tristes e solitárias, enquanto partem seus crânios e consomem seus cérebros mecanicamente. E tanto se esperou que agora já não há para onde correr e aqueles que perceberam sabem que é tarde demais…

REPRESENTAÇÕES, PÓS-MODERNIDADE E OS CRO-MAGNONS DA DIREITA

14 set

Que existe um problema de diálogo social no Brasil (e no mundo) é um fato público e notório, uma vez que estamos tendo que retomar algumas lutas do século XIX e outras, pasmem, pré-Iluministas. Senão vejamos, nos últimos três anos este blog já teve que se pronunciar defendendo um governo legitimamente eleito contra um golpe jurídico-parlamentar, denunciando a retirada de direitos sociais garantidos por uma Constituição soberana, combatendo o crescimento dos crimes de ódio contra mulheres, negros e a comunidade LGBT, denunciando a indústria da desinformação, dos fake news, da manipulação e da mentira propriamente dita, bem como o crescimento atroz da censura e da perseguição anti-intelectual diante da Ciência e da Arte. E, para amargura pessoal daquela que aqui escreve, perdemos todas essas batalhas e o país está hoje em uma situação que envergonha e humilha qualquer ser minimamente pensante, diante da indiferença da maioria de sua população.

 

A esquerda brasileira, sempre dividida, digladia-se atribuindo culpas e responsabilidades e clamando por autocríticas, como quem promove autos de fé e espera produzir catarse da violência autoinfligida. Enquanto isso, uma direita oportunista dá voz e protagonismo a uma súcia de trogloditas para que aterrorizem os espaços públicos e virtuais e mantenham a sociedade como refém do obscurantismo. E enquanto brigamos entre nós para descobrir onde erramos, as oportunidades de diálogo social se estreitam cada vez mais porque a direita apela ao atavismo visceral enquanto a esquerda procura por racionalidade onde esta sequer jamais existiu.

 

Vários de meus amigos marxistas são tão virulentos quanto a própria direita ao criticar o fenômeno da pós-modernidade. Enquanto a direita combate as pautas identitárias porque não considera o outro sequer como humano ou digno de interlocução, alguns setores da esquerda acusam essas mesmas pautas de provocarem rachas e rupturas na luta revolucionária. Não admira que, cada vez mais, os grupos perseguidos e espezinhados socialmente estejam procurando desempenhar suas lutas renegando filiações ideológicas tradicionais.

 

Não tenho a pretensão de dominar a bibliografia e nem o jargão pós-moderno, não apenas porque minha filiação teórica é marxista, mas também porque sempre tive a impressão de que esses teóricos estavam mais ligados à área das Ciências Sociais do que da História. É claro que essa é uma percepção minha e é provável que eu esteja enganada, além do que não compartilho a pretensão de dominar o conhecimento em todas as suas nuances, que acomete uma boa parte da nova geração. Prefiro dominar com propriedade a leitura de uma ou duas dúzias de autores, do que me aventurar a dar palpite em temas e domínios complexos apenas de orelhada (em parte por isso abandonei os vídeos, as pessoas solicitavam cada vez mais autores que me eram estranhos, e eu precisava ler muita coisa fora de contexto para poder responder, correndo o risco de interpretar equivocadamente algum autor, por estar fora da minha área de atuação).

 

O que entendo por pós-modernidade é um conjunto de conceitos que descartam a existência de um campo de existência real (desculpem a redundância) para trabalhar com suas leituras, versões, percepções e representações no âmbito social e cultural. É um tipo de leitura que rejeita filiações ideológicas e equaliza forças históricas e sociais (que de modo algum são iguais, idênticas ou igualitárias) e promove o primado das identidades em volta de áreas de concentração como gênero, raça e sexualidades, descartando sumariamente a divisão classista. É uma discussão de grande envergadura e, certamente, concordo que foi um dos fatores responsáveis por inviabilizar qualquer possibilidade de coesão nos movimentos de esquerda.

 

Entretanto, o que me assusta nessa discussão é a distância que ela adquire da sociedade real e das necessidades básicas do ser humano, o que permitiu que essa direita fundamentalista com ranço inquisitório ocupasse os espaços públicos e virtuais e sequestrasse o raciocínio de parcelas cada vez maiores da população. E isso se dá porque o nível de abstração dessa discussão é característico dos meios acadêmicos e está fora do alcance da grande maioria da sociedade, afinal, como tratar de versões e representações com pessoas que ainda precisam da ficção religiosa para manter a sanidade perante a vida? É evidente que a partir do momento em que uma parte considerável das discussões da esquerda migrou da fábrica para os meios intelectuais e adquiriu essa complexidade teórica, sua capacidade para promover qualquer mudança social se esvaiu em elucubrações abstratas.

 

E não estou dizendo, com isso, que a vivência acadêmica deva ser menosprezada, perseguida ou descartada. Ao contrário, sou defensora ferrenha da atividade intelectual e da necessidade constante dessa reflexão teórica sobre o mundo que nos cerca. Se ainda existe racionalidade nesta arena apocalíptica do capitalismo é exatamente devido à existência de uma sólida tradição intelectual contestatória que remonta ao século XII no Ocidente.

 

Quanto mais não fosse o atoleiro que estamos vivendo, bastaria o exemplo da cultura islâmica, que era intelectualmente florescente na virada para o segundo milênio e que a perseguição cristã, os interesses econômicos e o fundamentalismo religioso transformaram nesse deserto intelectual que hoje vemos. Os perigos de ceder ao discurso anti-intelectual estão cada dia mais presentes no convívio social e caracterizam uma tragédia anunciada. Por isso deixo claro aqui que, embora não simpatize com seus pressupostos teóricos, nada tenho contra os pós-modernos que justifique seu silenciamento.

 

O que estou argumentando, dentro das minhas limitações de expressão, é que existe uma esquerda blassé  que descartou a luta de classes e o materialismo dialético em prol do ideário pós-moderno. E esqueceu que vivemos em um país cujas instituições a duras penas se esforçam por sobreviver ao assalto das hordas predatórias de uma elite que se mantém intelectualmente ligada a um pensamento repleto de ranços coloniais. Se a modernidade e o Iluminismo não estão presentes nas percepções da maioria da população brasileira, que dirá a pós-modernidade.

 

Nesse sentido, parece que vivemos de anacronismo em anacronismo. Com grupos anarquistas primitivistas que defendem o isolamento social e o fim da civilização para agrupar-se em comunidades ciclistas veganas. Com feministas trotskistas brancas que defendem uma sororidade que ignora solenemente a clivagem de classe e raça. Com defensores da visão classista que renegam a existência do machismo e do racismo. Com militantes incapazes de gerar uma visão sistêmica que permita o agrupamento em lutas sensatas e plausíveis para além do espectro da política partidária. Com o esfacelamento da identidade básica do ser de esquerda que sempre primou pela solidariedade, pela defesa ferrenha da igualdade e da socialização de bens e serviços.

 

Enquanto isso na Sala da Justiça…

 

Pois é, enquanto isso existe uma direita troglodita que renega todo e qualquer processo civilizatório e se vale da ignorância e da falta de informação dos meios públicos e virtuais para promover o preconceito e a intolerância, emprestando as técnicas do fundamentalismo religioso para capturar a lealdade dos incautos. E nós estamos impotentes porque passamos a maior parte do tempo apelando para a racionalidade com pessoas que estão abandonando seu lado racional para entregar-se a atavismos catárticos, que compensam a miséria social e intelectual celebrando a violência que liberta das frustrações e amarguras pessoais. É uma questão de tempo para a convulsão social.

 

Principalmente porque essa nova geração de liberais, que renega a dicotomia entre a direita e a esquerda, promove as plataformas da direita sob o primado de um falso cientificismo, que atribui valores de veracidade a visões de mundo toscas e simplistas. E quando alguns setores da esquerda alcançam o limbo que se encontra acima do bem e do mal (e renegam a própria História do pensamento esquerdista) acabam por engrossar as hostes do não-pensamento tão ao gosto dos promotores do status quo direitista. Temos então o caldo de cultura ideal para a promoção de demagogos portadores de verdades milenares e soluções finais simplistas e autoritárias.

 

E aí o camarada Vladimir perguntaria o que fazer?

 

Precisamos descobrir como retomar as lutas essenciais e o espaço público, deixando que a Academia lide com o pensamento acadêmico e retomando o diálogo com a sociedade real. Precisamos ser menos professores e mais companheiros, reaprendendo com nossos semelhantes tudo aquilo que considerávamos superado pela História. Precisamos viver as condições do mundo em que vivemos para não correr o risco de que todos se tornem trogloditas e sejamos nós os únicos anacrônicos.

 

Paz, pão, terra e liberdade a todos os camaradas do mundo!

A ARTE E A VIDA

13 set

Há algum tempo que deixei para trás a pretensão de definir o que seja Arte, junto com outras arrogâncias da juventude. O conceito é por demais complexo e abrangente, ao mesmo tempo em que apresenta minúcias técnicas que desconheço, por pertencer a outro ramo das Humanidades. Movimento-me confortavelmente por uma História Social dos Movimentos Artísticos, mas não tenho erudição suficiente para ir além dessa leitura.

 

Por isso resolvi escrever este texto, que é muito mais um apanhado de experiências de vida perante a Arte, de que um tratado acadêmico. E resolvi entrar nesta seara porque os tempos aziagos em que vivemos são tão obscurantistas que estamos a um passo de ver fogueiras de livros. E, como em outros tempos igualmente tristes e perigosos, é a Arte que primeiro está sendo colocada na berlinda.

 

Sempre gostei de desenhar e, ao longo da vida, cometi algumas telas de que não me arrependo, mas nunca tive a pretensão de mergulhar no mundo da Arte porque me sinto muito mais confortável numa vida de contemplação que de produção. Principalmente porque nunca encontrei uma linguagem que fosse minha e sempre flertei com os artistas do meu agrado, seria inútil empreender uma carreira artística sem ter o quê e nem como dizer. E é por isso que tenho uma enorme admiração por quem se envereda pelos caminhos dilacerantes do autoconhecimento em busca de uma linguagem que diga de si e do mundo para produzir Arte.

 

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Hieronymus Bosch (1450-1516) As tentações de Santo Antão (acervo permanente do MASP)

A primeira exposição de Arte que visitei foi no início dos anos 70, quando a minha professora Mabel indicou que havia uma mostra de Rafael Barradas no parquinho do Prado. Era minha professora favorita e eu imediatamente pedi aos meus pais que me levassem para ver esse artista, que Mabel afirmava ser um dos maiores do Uruguay. O parquinho do Prado ficava relativamente perto de casa e ali funciona, desde os anos ‘30 até hoje, o Museo de Bellas Artes Juan Manuel Blanes, em um prédio que foi declarado monumento histórico nacional em 1975. O Prado (recebeu o nome do bairro em que está localizado e, por favor, não o confundam com o museu homônimo em Madri porque “prado” em espanhol designa qualquer pradaria) enfrentou altos e baixos, e passou por reformas, mas o prédio que abriga o museu é um delicioso exemplo de influência italiana rodeado de estátuas e “fontanas” de clara inspiração pagã.

 

Rafael Barradas (1890-1929) foi um pintor e desenhista uruguaio que fez sua carreira artística na Espanha, sendo amigo do grande poeta Federico García Lorca. Quando vi suas obras pela primeira vez e eu nem sabia o que era Arte quanto mais o que seria Modernismo ou Academicismo, o que me seduziu na época foi sua paleta de cores, que ia do pastel ao vibrante conforme o tema retratado. Qual não foi a minha surpresa quando em 2015, ao visitar junto a minha filha a exposição de Pablo Picasso no Centro Cultural Banco do Brasil, dei de cara com Barradas sendo considerado um expoente da Geração de 27.

 

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Rafael Barradas (1890-1929) Homem no café (Atocha)

 

Sim, aquela primeira exposição que vi gerou uma vida inteira de visitas a museus e mostras, sempre que a condição financeira me permitiu. E despertou meu interesse e minha predileção por vários movimentos artísticos. Mas foi um comentário de outro professor, já no início dos anos 80 que me levou a sair do senso comum e procurar um olhar mais desafiador.

 

João Nanni, que tinha uma história de vida mais ligada ao teatro, um dia questionou em aula “quem disse que o Belo tem que ser bonito?”. E usando como exemplo os contos góticos de Edgar Alan Poe, tão primorosamente escritos em que cada palavra ocupa seu lugar cuidadosamente calculado, explicou que o horror pode ser Belo. Que em Arte, esse termo quase nunca é sinônimo de bonito e sim de impactante.

 

Já fui sozinha visitar algumas exposições e já me distanciei de companhias que desdenhavam ou desperdiçavam a ocasião ímpar da contemplação diante do que não entendiam. Quando não entendo uma obra ou um autor, minha reação é sair pesquisando e quando me sinto perturbada ou desafiada, prefiro mergulhar em meu íntimo e entender o porquê antes de sair desancando qualquer expressão artística. Mas eu precisei de uma vida para aprender a ser assim, tive a sorte de conviver com professores inteligentes, de ter pais tolerantes e de ter educado uma filha artista, com quem aprendo coisas novas sempre.

 

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Pablo Picasso (1881-1973) Guernica (Museo Reina Sofia)

 

Por isso quando leio comentários do naipe de: “não quero que meu filho seja exposto a essas influências degeneradas” sempre extraio o seguinte subtexto: “não quero que meu filho aprenda a questionar minhas crenças porque o meu conceito de respeito exige que meu filho jamais seja mais inteligente do que eu”. É isso o que estamos vendo nessa mixórdia que critica desde a Lei Rouanet (que está longe de ser satisfatória) até a integridade moral dos artistas, para promover e manter uma educação que reproduza nos filhos, cópias medíocres e pioradas dos pais. Sobre Arte a discussão está longe de passar, até porque os críticos são ignorantes confessos que jamais visitam museus na vida e nada sabem sobre linguagens e movimentos artísticos.

 

Eu venho de uma linhagem de mulheres que sempre primou por lutar para que a próxima geração seja melhor e encontrei um companheiro de vida que compartilha esse e outros ideais. Por isso jamais me ocorreria limitar o acesso da minha filha a qualquer tipo de Arte, por mais polêmico ou ofensivo que possa ser às crenças do vulgo. Sempre acreditei e defendo que a Honestidade é condição indispensável para conseguir ser um educador decente.

 

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Diego Rivera (1886-1957) Os semeadores (acervo permanente do MASP)

 

Muito mais que o respeito inspirado no medo ou que o cultivo de uma imagem heroica, é a capacidade de dizer “não sei, não conheço, vamos descobrir juntos?” que faz um do relacionamento familiar um ambiente saudável de aprendizado. A escola não educa, no sentido de que a transmissão de disciplina, bons modos, valores e crenças é obrigação dos pais, cabe à escola transmitir conhecimento de maneira crítica e promover a formação de seres humanos com capacidade para compreender e questionar qualquer conteúdo com respeito e eficiência. Se isso não está acontecendo, é muito mais por ingerência dos pais, que não desempenham seu papel de maneira adequada, deixando os filhos ao léu de comportamentos quase animalescos de tão permissivos e mimados ou (quando o fazem) seguem premissas lastimavelmente autoritárias e antiquadas de educação, do que dos professores esmagados entre um Estado que os quer destruir e uma sociedade que os quer silenciar.

 

Se amanhã eu acordasse e nada me restasse da minha vida a não ser as lembranças, uma parte significativa delas seria percorrendo museus com minha filha e meu marido e sentindo uma paz indescritível na presença do Belo. Mesmo quando uma obra me tira o fôlego e o sono por sua crueza ou quando muda inteiramente minha perspectiva sobre um assunto que eu acreditava saber, mesmo quando as misérias do mundo retratadas na Arte me esmagam, eu não trocaria essa experiência por nenhum dinheiro no mundo. Se uma manifestação artística não nos “acorda”, desafia ou impressiona, então ela não é Arte e não passa de artesanato ou decoração, é o que eu penso.

 

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Cândido Portinari (1903-1962) Os retirantes (acervo permanente do MASP)

 

Mas, muito além dessa polêmica, deve ficar claro que as pessoas toscas e ignorantes tem todo o direito de não gostar, não frequentar e nem aceitar ambientes artísticos. Escolher uma vida medíocre ou limitada por imposição de crenças morais ou religiosas é uma escolha entre tantas outras, mesmo que com isso essas pessoas condenem seus filhos a uma vida incompleta perante o processo civilizatório. O que essas pessoas não tem direito algum (e nós não podemos permitir) é de perseguir artistas, instituições, professores, escolas, universidades e meios de comunicação, na tentativa de impor arbitrariamente à sociedade a sua ignorância como padrão.

 

Precisamos reagir urgente e prontamente, de maneira incisiva e categórica, antes que comecem a espancar artistas e queimar quadros e livros.  

A IDENTIDADE DA REPÚBLICA

11 set

O que identifica uma República? Muitos dirão que é o voto livre, secreto e universal e eu não nego sua importância. Mas será que isso basta?

 

Outros vão referir-se a instituições sólidas e fortes e à divisão tripartite de poderes. E é evidente que um equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário é o desejado e que esses poderes sejam autônomos e sólidos o suficiente para que um não domine os outros. Mas será que isso basta?

 

Há quem defenda que isonomia e soberania são indispensáveis a uma nação republicana. E eu sou a primeira a admitir que não se pode ser uma nação de verdade quando se depende política e economicamente de centros de poder localizados alhures. Mas será que isso basta?

 

Pessoalmente, eu acredito que não se pode ter uma República sem que exista uma separação radical entre Igreja e Estado. Qualquer regime que mantenha vínculos religiosos não pode ser chamado de República, não importa o quanto insistam seus integrantes. E qualquer estrutura política que permita clérigos e pastores como seus integrantes também não.

 

Para os que fugiram da escola ou tinham convicções pessoais fortes a ponto de ignorar a matéria em nome de suas crenças, basta lembrar como é que surgiu o conceito moderno de República. O momento que marcou a derrota pontual do Antigo Regime, das monarquias absolutistas de direito divino e dos clérigos coletores de impostos na França e estabeleceu as bases do que conhecemos hoje como regime republicano foi a Revolução Francesa de 1789. Montesquieu talvez seja o pensador que mais se debruçou sobre esse tema das leis e das instituições, mas certamente não foi o único.

 

De Kant a Nietzsche, passando por Marx e por todos os utopistas do arco socialista, a análise do Estado, seus desdobramentos e as identidades republicanas deixavam implícita a necessidade da separação entre Igreja e Estado.  Durante o século XIX, aos trancos, monarquias se travestiram em regimes parlamentares e Repúblicas foram fundadas e refundadas no Ocidente. E, se não foram do modo como se queria, uma boa parte da responsabilidade deve ser dividida entre os oligarcas e o clero.

 

Na América Latina, no século XIX viu-se o surgimento de vários modelos republicanos. Ideais no planejamento, mas certamente cheios de problemas na vida real porque, afinal, não se passa de sociedades estamentais a regimes universais da noite para o dia. Assim, revoluções e guerras civis estão na origem e na construção das mais variadas repúblicas que nos cercam.

 

E aí é que podemos observar porque eu considero a separação entre Igreja e Estado como essencial numa República. Sem o banimento da fé e seus arautos de volta para dentro de seus templos é impossível manter regimes universais. O pensamento religioso é excludente por definição e resulta na corrosão de qualquer instituição pública que a ele se associe.

 

Os idealistas republicanos do século XIX na América Latina defendiam que a educação deveria ser laica, universal e gratuita. Contra eles sempre vigorou o monopólio do ensino confessional, que ainda pode ser observado na profusão de colégios privados cristãos em nossos países. Bem adentrado o século XX ainda lutávamos para que educação pública superasse os ranços cristãos e oferecesse um ensino de qualidade a todas as crianças existentes nos países do nosso continente.

 

Mas o ensino religioso sempre separou meninas de meninos (quando não segregados em salas diferentes e com professores e conteúdo diferentes, ao menos tratados de forma diferenciada) e mascarou a reprodução constante da misoginia que caracteriza as práticas judaico-cristãs. É uma das batalhas mais insanas do século XX ter que transformar o ensino em obrigatório para conseguir que as meninas pudessem frequentar livremente as escolas sem ser podadas por famílias conservadoras a mando de religiosos fanatizados. Uma boa parte das denominações evangélicas e das prelazias católicas ainda considera as mulheres inferiores aos homens e preconiza seu papel de fêmeas reprodutoras em detrimento de sua humanidade de seres pensantes.

 

E que dizer da questão social?

 

Aos pobres o ensino público porque os colégios confessionais são destinados aos mais afortunados. Mas as massas que sustentam os templos são as mais miseráveis e ignorantes, então como permitir que exista um ensino laico de qualidade, que compartilhe com os estratos mais baixos da sociedade as ideias da modernidade política e científica? Nesse sentido, a ação massacrante dos interesses econômicos dominantes encontra no proselitismo religioso um parceiro à altura para a destruição do ensino público e a manutenção dos pobres em um sistema de crenças medieval.

 

Homofobia e misoginia são as faces mais evidentes de seu machismo, mas o racismo e um elitismo esnobe de amargar também caracterizam a educação de perfil confessional. Parece que a modernidade jamais chegou às hostes cristãs mais radicais, que dirá a contemporaneidade. E essas ideias são absolutamente incompatíveis com os princípios republicanos, não importa como venham travestidas de falsa modernidade.

 

Então, para vocês que estão aflitos para saber se teremos eleições livres em 2018, com voto secreto e universal, gostaria de lembrar que a pergunta pertinente é:

 

Ainda seremos uma República em 2018?

 

Afinal, não há qualquer equilíbrio entre os três poderes e o Judiciário obliterou os outros dois, adquirindo um protagonismo partidário de moldes inquisitoriais enquanto ignora a corrupção moral que o consome. Presunção de inocência, direito a todas as instâncias de defesa e a necessidade de provas cabais para qualquer condenação são princípios solenemente ignorados na atualidade, contanto que se consigam os benefícios pecuniários e políticos desejados por magistrados e promotores. Mesmo se para isso for necessário destruir o país até os parcos alicerces.

 

Isonomia e soberania são vistas como bobagens da esquerda, enquanto o governo golpista rifa alegremente cada pedaço do solo nacional aos interesses das corporações transnacionais. A chancelaria permanece nas mãos dos mesmos que defendem a dependência e uma política alinhada aos mais desprezíveis princípios imperialistas e neoliberais. Afinal, esses homens velhos, brancos (e outros nem tanto) e ricos que constituem o governo golpista nem se consideram parte da nação, mantendo vidas de luxo obsceno fora daqui sempre que podem.

 

E ainda há a presença massiva de bancadas religiosas nas três instâncias dos legislativos, que pressionam sem parar para encaixar seus apaniguados nos cargos dos executivos e aprovam seus projetos obscurantistas recorrendo a todo tipo de expediente duvidoso. Ignorando solenemente todo e qualquer avanço intelectual e científico e demonizando-nos em nome de sua fé. Sempre no primado da hipocrisia de defender religiões de “amor” enquanto espezinham e esmigalham todo aquele que não faz parte de sua fé.

 

Pois é, enquanto meus amigos anarquistas e socialistas passaram a década discutindo qual é o melhor modelo de socialismo ou quem é o anarquista mais puro, aqui no mundo real nós estamos quase de volta ao século XIX e a caminho do XVIII. Em um futuro muito breve, esses meus amigos correm o risco de mandar os filhos à escola para que aprendam que o Criacionismo é mais importante que a realidade científica, desde que seja a crença de alguém, e terão que conviver com os debiloides que defendem que a terra é plana e outras tantas sandices soltas por aí. Não admira que nesse caldo de cultura sinistramente “retrô” ainda tenhamos que ver os tão limpinhos e ainda assim “brancaleônicos” defensores da volta da monarquia.

 

E estaremos ainda mais longe do que jamais estivemos de ter uma sociedade realmente justa, plural e universal, com o agravante que as crianças aprenderão nas escolas, sob o olhar rigoroso dos clérigos e pastores, que qualquer utopia socialista ou comunista não passa de uma revanche social promovida por assassinos de criancinhas. Que as mulheres são inferiores aos homens e por isso devem permanecer trancadas em casa parindo filhos até a exaustão ou a morte e que toda expressão sexual fora do binômio macho-fêmea é anormal, antinatural e pecaminosa. E que a obediência aos superiores é a melhor das virtudes…

 

E o que faremos, então, quando os destroços da República forem mera lembrança? Será que teremos que emular a geração de 1789 e enforcar oligarcas políticos e juízes corruptos nas tripas de padres fanáticos e pastores venais? Em momentos como este em que a ironia tem um gosto amargo e triste, cadê meus amigos de luta?

“I HOPE THE KOREANS LOVE THEIR CHILDREN TOO”

5 set

Ontem dei de cara com esse status lacônico da minha irmã no Facebook. E imediatamente respondi “we share the same biology…” ecoando outro verso de Sting na canção Russians, de 1985. E pensei em quantos de nossos amigos entenderiam a referência.

 

De repente, meus mais de cinquenta anos pesaram ao lembrar que nós fomos crianças de Terceiro Mundo durante a Guerra Fria. Que acompanhamos o pouso na Lua, a Retirada de Saigon, os assassinatos do Che Guevara e de Salvador Allende, a derrubada do Muro de Berlin, a luta contra o apartheid e pela liberdade de Nelson Mandela. E tudo isso com o relógio nuclear pairando sobre nossas vidas.

 

E acompanhamos sim, desde a mais tenra idade, porque o nosso era um lar politizado. E, embora submetidas diariamente ao impacto da indústria cultural estadunidense, sempre tivemos acesso a uma pluralidade maior de autores e artistas, na medida em que nossa condição social permitia. E, claro, torcíamos pelos soviéticos diante da boçalidade constante dos americans e seus marines.

 

Vejam que hoje a eleição de Donald Trump nem chega a surpreender diante do impacto que foi a candidatura, a vitória e a reeleição de Ronald Reagan a partir de 1980. Reagan era um ator de terceira categoria, que teria que aprender muito para chegar a ser um canastrão, por isso se manteve na indústria cinematográfica agindo como informante das agências de inteligência de seu país e perseguindo comunistas reais e imaginários. Os Estados Unidos já tiveram muitos presidentes medíocres ou inexpressivos, mas Reagan era de uma burrice e ignorância atrozes.

 

Era um valentão dado a bravatas e frases de efeito, mas totalmente ignorante em relação à política externa e economia. Sob sua batuta, a tensão nuclear escalou a um ponto que as pessoas construíam bunkers em seu país, considerando a guerra como uma realidade iminente. A cada conflito protagonizado por países do Terceiro Mundo, inseridos na esfera de influência das duas potências, ficávamos esperando quem detonaria a primeira bomba nuclear, e tínhamos certeza que seria ele.

 

E não estou falando apenas de caipiras ignorantes nos grotões do Cinturão da Bíblia, crianças impressionáveis no terceiro mundo ou imprensa sensacionalista que usava a tensão nuclear para desviar a atenção das reformas neoliberais promovidas por Reagan e Margareth Tatcher, que mergulharam o ocidente em uma sucessão de crises, miséria e morte. A paranoia nuclear chegou a tal ponto que E. P. Thompson, um dos mais brilhantes historiadores britânicos, abandonou a pesquisa acadêmica para dedicar-se ao ativismo anti-nuclear, escrevendo livros e protestando nos portões dos silos e bases nucleares no Reino Unido. É nesse clima que a canção de Sting deve ser ouvida e foi todo esse cortejo de lembranças que o status da minha irmã trouxe de volta.

 

Para os jovens nascidos após o desmonte da União Soviética deve ser até estranho esse tipo de lembrança de viver em um mundo em crise permanente. A ideia de que éramos reféns dos cenários de guerra idealizados no Pentágono e no Kremlin e estávamos sempre pensando quem seria o primeiro a apertar o botão vermelho. E que mundo iríamos herdar desses velhos idiotas e encarquilhados.

 

A História se repete? Certamente não, nem como tragédia e nem como farsa, afinal a espirituosa tirada de Marx é muito mais uma provocação política que um axioma teórico, mesmo que seduza os voos retóricos de muita gente ainda. O que temos hoje é um cenário bem diferenciado, guardadas as devidas proporções para não incorrer em anacronismos baratos.

 

A Coréia do Norte não é a União Soviética. Não tem a importância geopolítica de Cuba, do Irã ou do Afeganistão. É um pequeno país miserável e inexpressivo no cenário internacional, que joga sua derradeira cartada nessa reedição barata do clima da Guerra Fria.

 

A Coréia do Norte é uma ditadura que de comunista nem sequer tem a sombra. É o espelho em negativo da Coréia do Sul, também miserável e tão ditatorial quanto, embora tenha o cuidado de camuflar seus governos corruptos em uma aparência de democracia eleitoral. E seus mísseis e bombas são uma tentativa patética de desviar a atenção do mundo da precária posição política e econômica em que se encontra.

 

Os Estados Unidos não tem interesse algum em impedi-la de produzir seus mísseis e bombas porque isso lhes fornece um álibi para ter um inimigo externo demonizado com quem apavorar sua população. Basta ver o caso do Irã, que é muito mais útil à geopolítica estadunidense sofrendo sanções por pretensa produção de armas químicas do que estabelecendo uma paz negociada na região. Haja vista a atitude mesquinha e hipócrita de Barack Obama e Hilary Clinton quando Brasil e Turquia conseguiram negociar com o Irã, indo contra as pretensões imperialistas dos EUA e de Israel.

 

Aos Estados Unidos interessa muito mais que a Coréia do Norte seja uma ameaça constante, do que entrar em uma guerra com que não podem arcar. Afinal, as incursões intermináveis e fracassadas no Oriente Médio cobram seu preço, mostrando que os alvos imediatistas podem tornar-se problemas crônicos a médio e longo prazo. A questão é: Donald Trump sabe disso?

 

Essa é a grande incógnita. Quando o comandante de um navio não tem a menor noção de navegação ou de geografia, torna-se necessário dormir de salva-vidas amarrado. E a essas quantas andamos.

 

Cabe ressaltar que a imprensa brasileira cumpre seu papel sensacionalista, gerando pânico em quem ainda presta atenção, para desviar o foco das nossas próprias mazelas. Afinal, a cada dia fica mais evidente que a emissora líder de audiência e suas concorrentes ajudaram a promover o golpe de estado jurídico-parlamentar e agora tem que lidar com o rescaldo de um país arruinado e loteado por quadrilhas de saqueadores. Nada mais natural que usar o perigo nuclear para escamotear as informações sobre figuras preponderantes da “República” involucradas até o pescoço em escândalos de corrupção, propinas e compra de sentenças.

 

E na esteira desse asqueroso caldo de cultura golpista, nossa política externa deixou de ter qualquer protagonismo ou importância, sacrificada no altar do ego entreguista dos partidos que promoveram e deram suporte à deposição fraudulenta da nossa presidenta legitimamente eleita. Partidos cujos luminares tiram os sapatos diante das alfândegas estadunidenses e falam fino com os poderosos, enquanto desprezam nossos vizinhos da América Latina. A ausência de uma vigorosa política externa pacifista do Brasil e seu alinhamento “capachildo” aos interesses dos EUA me preocupa muito mais em um cenário de guerra do que as bombas norte-coreanas.

 

Como dizia minha avó Maria Garbonez, em um dito popular que dispensa tradução, “al que mucho se agacha, el culo se le ve” e mais não digo.