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MULHERES, MEMÓRIAS E IDENTIDADES

8 nov

Este é um texto que tem tudo para desagradar aos poucos que privam da minha companhia neste blog. E digo isso sem qualquer pretensão à polêmica, uma vez que percebo este blog muito mais como um registro do que uma interlocução social, dada a escassa atividade aqui realizada. Assim, aqui vou agora desagradar feministas, religiosos, liberais e alguns setores das esquerdas.

 

Toda essa gritaria histérica sobre os Estudos de Gênero, promovida pelos setores ultraconservadores e encampada por uma parte da sociedade que não tem o acesso necessário à informação para poder avaliar seu sentido, me levou a pensar sobre algumas questões bem pontuais do ser mulher. Foram também a releitura de Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade da filósofa Judith Butler, bem como o debate constante com a minha filha sobre diversos aspectos da Teoria Queer e outras tantas questões da moderna percepção da “mulherice”, que me levaram a querer pontificar esse tema. Muito mais, é evidente, do ponto de vista do historiador (como sempre faço) já que careço das credenciais e da experiência para discutir o tema em termos filosóficos.

 

Nesse sentido, não vou entrar nos aspectos filosóficos do ser, mas restringir-me a alguns aspectos do devir histórico feminino. Selecionar alguns conhecimentos prosaicos e ver como a percepção sobre eles foi mudando de acordo com a temporalidade e a historicidade dos sujeitos. E, como este é o meu blog, e não uma revista científica, pretendo manter o texto inteligível e leve o suficiente para permitir a leitura dos leigos.

 

A divisão de trabalhos e tarefas pode ser considerada uma das marcas da organização social em comunidades humanas desde o paleolítico. Não admira, nesse sentido, que Karl Marx a escolhesse como chave para o entendimento da evolução histórica das sociedades, ao criar o conceito de modo de produção. Para sobreviver, desde sempre, é necessário organizar quem vai caçar, quem vai colher, quem vai tecer e quem vai nos proteger dos predadores.

 

Sociedades assim organizadas, no início, não dividiam as tarefas de acordo com o gênero porque não se entendiam como homens e mulheres, havia uma hierarquia que se baseava na idade e na experiência, além da força e da destreza, que permitia que algumas mulheres caçassem lado a lado com os homens. A lenta transformação que possibilitou a supremacia social masculina nas regiões do Oriente, em que a civilização em termos históricos surgiu, pode ser entendida pensando-se a organização das religiões monoteístas, dos conceitos de propriedade privada e de herança, bem como o estabelecimento das monarquias. Nos setores dominantes dessas sociedades, a necessidade de manter o controle da pureza da descendência, tanto aliado ao exercício do poder quanto à transmissão da propriedade, acabou gerando formas de confinamento doméstico e criando modelos de sociabilidade em que essas tarefas passaram a ser vistas como femininas.

 

Simplista? Não necessariamente, afinal, o parágrafo acima apenas resume radicalmente vários séculos de transformações sociais e culturais. Não é uma análise em profundidade e sim um ponto de partida para pensar sobre tarefas e identidades.

 

A afirmação de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se, que já ninguém questiona academicamente, diz respeito exatamente a esse aprender de tarefas e comportamentos ligados histórica e socialmente ao feminino. Para entender, de um ponto de vista marxista, como esses elementos externos acabaram ligados intrinsecamente à identidade feminina é necessário pensar exatamente como a divisão de trabalhos foi sendo modificada ao migrar de um modo de produção a outro e como as mulheres acabaram perdendo o protagonismo nos mundos do trabalho à medida que as castas e as classes foram definindo-se. É uma tarefa complexa e nada inédita, já existe uma considerável produção acadêmica sobre esses temas, basta pesquisar, o que eu pretendo aqui é refletir um pouco sobre como esses processos nos impactam atualmente.

 

Na Europa pré Revolução Industrial (e em muitos locais no Terceiro Mundo até hoje) às mulheres pobres, camponesas ou citadinas, estavam reservadas tarefas pesadas e complexas de manutenção das condições de sobrevivência da família. Fabricação de sabão caseiro, agricultura de subsistência, fiar, tecer e costurar, dominar um repertório complexo de plantas e sementes usadas tanto na alimentação quanto na medicina caseira, ser as guardiãs dos rituais de passagem do nascimento à morte, ainda quando também acabassem sendo as provedoras do fogo (lar) na ausência ou morte do homem. Seguindo uma hierarquia que reproduzia os modelos primitivos de idade e experiência, essas mulheres pobres eram as guardiãs do que entendemos por cultura no sentido antropológico.

 

A industrialização ocidental redefiniu a maneira de encarar o trabalho e criou a hierarquia produtiva da remuneração. Embora miseravelmente pagos, homens eram valorizados acima das mulheres nesse novo modelo de produção e as tarefas domésticas (por não receberem qualquer remuneração financeira) passaram a ser desprezadas e relegadas ao feminino em um sentido pejorativo. Mesmo quando a exploração descontrolada nas tecelagens, minas de carvão e outros meios de produção obrigou ao trabalho insano de mulheres e crianças em jornadas de até dezesseis horas diárias para sobreviver, a existência de um serviço doméstico porcamente remunerado prestado às classes superiores em alguns locais (e a escravidão em outros) rebaixaram ainda mais a hierarquia das tarefas consideradas femininas.

 

E, mesmo assim, ao longo do século XX, em boa parte dos lares das classes médias ocidentais, a educação das meninas para uma vida de esposas, mães e donas-de-casa era tido como a normalidade social. Entre as mulheres pobres, o imperativo da sobrevivência sobrepunha as mais diversas formas de trabalho remunerado e não remunerado, mas entre os setores médios e altos da população ocidental o ideal de domesticidade implicava no recolhimento e nas tarefas manuais consideradas femininas. A necessidade de quebrar esse modelo impulsionou a organização das primeiras feministas ocidentais, oriundas desses setores médios e altos da população e com reivindicações bem diferenciadas daquelas das mulheres pobres e trabalhadoras.

 

Essencialmente diferentes também da primeira geração de mulheres revolucionárias na Rússia. No período soviético leninista, as mulheres tiveram uma liberdade de organização e protagonismo até então inédita nesse país, mas posteriormente (mesmo com sua participação massiva durante os combates na Segunda Guerra Mundial) sua autonomia acabou solapada durante o stalinismo. E, embora desempenhando cargas de trabalho similares às masculinas, foi o ressurgimento das restrições de cunho moral e comportamental que reduziu o protagonismo das mulheres soviéticas no período pós-leninista.

 

As ativistas ocidentais reivindicavam em um primeiro momento o direito ao voto (sufragistas) e posteriormente a liberdade para trabalhar (dentro dos setores médios e nos países em que o pai ou o marido podiam legalmente impedi-las) e finalmente a equiparação salarial com os trabalhadores masculinos (feministas). Sua lutas eram pontuais e classistas, não podendo ser entendidas como aspirações da totalidade das mulheres, uma vez que ignoravam as necessidades das trabalhadoras pobres, das camponesas e das mulheres não brancas. Ignoravam também as especificidades culturais ligadas à divisão classista da sociedade nos significados de ser mulher.

 

E quem me segue aqui há mais de ano sabe da minha implicância com esse tipo de militância. Passei mais de uma década me considerando pós-feminista, antes de descobrir que a minha defesa da incorporação das lutas classistas, étnicas e raciais se chamava interseccionalidade e tinha seu lugar no feminismo do século XXI. Devo essa percepção à minha filha, que já conhecia e participava desses debates antes de toda essa celeuma em torno de Judith Butler e da falsa interpretação das questões do gênero pelos conservadores.

 

A desvalorização dos saberes culturais femininos dentro dos modelos de produção e exploração capitalistas foi encampada (inadvertidamente) por diversos setores do feminismo devido a esse viés classista. A construção da percepção de uma eventual libertação mediante o abandono da domesticidade demonizou habilidades ancestrais ligadas aos trabalhos manuais e às memórias étnicas e culturais. Rendeiras, bordadeiras, tecelãs e trabalhadoras de todos os tipos de agulhas passaram a ser vistas como artesãs (no afã de monetizar todas as formas de trabalho) e esses saberes, que antes pertenciam a uma boa parte das mulheres, deixaram o cotidiano para radicar-se na periferia dos mundos do trabalho.

 

Do mesmo modo as sociedades médicas do século XIX perseguiram e baniram as remanescentes das curandeiras, herboristas e benzedeiras (que já vinham sendo demonizadas desde as fogueiras das bruxas), para poder promover a imagem do médico de família, que cobrava por consulta. Do mesmo modo os saberes culinários têm sido encampados na profissionalização dos ditos cheffs por homens excepcionalmente bem remunerados para cozinhar como se isso fosse uma grande coisa. Existe uma espécie de gentrificação profissional quando um saber que faz parte das chamadas atribuições femininas passa a ser desempenhado em termos profissionais por homens e seus salários relegam ainda mais a autoimagem feminina a um limbo marginal e desacreditado.

O estigma da submissão acompanha (nos meios politizados) qualquer mulher que sinta prazer nos trabalhos de agulha ou na culinária não remunerada. Da mesma maneira, nos meios populares, homens que façam trabalhos manuais considerados femininos como forma de lazer e sem remuneração são acerbamente criticados e tem inclusive sua sexualidade questionada. Nos modelos de produção e exploração capitalista, quem não “gera valor” (expressão odiosa) com seu trabalho, não tem sua identidade social reconhecida.

 

Se os meus leitores estão habituados às “tretas” das redes sociais, talvez se lembrem do menino crocheteiro, que teve sua página do Facebook denunciada e eliminada por uma dessas patrulhas moralistas. A denúncia afirmava que, sendo menor de idade, ele estava violando as normas do próprio Facebook ao manter uma página pública, mas o que estava por trás da sanha dos binários era o fato de que eles entendiam o crochê como uma atividade feminina e não conseguiam aceitar a felicidade do menino tecendo e ensinando a tecer. Afortunadamente, o menino refez sua página e vai de vento em popa, feliz com suas agulhas e conta com todo o meu apoio, por pouco que isso signifique.

 

As técnicas ligadas ao crochê são percebidas, ainda hoje, como algo feminino. Entretanto, entre as centenas de mulheres com quem tive que conviver em toda a minha vida, posso citar poucas que dominam esse tipo de saber sem ser profissionais. E não é um saber inútil, afinal, além de um excelente lazer é um meio de não depender da indústria têxtil, que explora sem remissão seus trabalhadores desde sempre.

 

Os saberes femininos ao longo da História permitiram a transmissão de meios de sobrevivência, de sociabilidade e de autonomia. A organização da divisão de trabalho capitalista precarizou os ambientes de transmissão desses saberes e usurpou o modo de disseminação do conhecimento mediante a manipulação da remuneração. Os diversos setores do feminismo que não conseguiram perceber esses conhecimentos como instrumentos de poder na luta pela sobrevivência ajudaram a precarizar ainda mais a condição feminina das mulheres pobres.

 

Isso significa que eu quero que todas nós aprendamos a bordar, tecer e cozinhar? Claro que não, do mesmo modo que também não quero correr pelada pelos bosques homenageando a Lua e nem quero estudar medicina ou engenharia. O que defendo aqui é que precisamos entender como se organiza a sociedade que nos alija de uma justa remuneração ao mesmo tempo em que nos rouba saberes ancestrais, enquanto perdemos tempo discutindo o que é ou o que não é ser mulher.

 

Nesse sentido, adorei o pensamento de Judith Butler exatamente porque ela entende que o feminino é uma série de aprendizados performativos e não uma condição inerente às portadoras de vaginas e úteros. Eu quero que ser mulher seja o que eu quiser ser, o que você quiser e o que todas nós imaginarmos, sem ser mediado por padres, pastores ou políticos. E que isso inclua desde uma camponesa do Nepal até uma acadêmica de Oxford, incluindo as mulheres trans e sem que modelos de feminilidade X ou Y sejam impostos de cima para baixo por quem quer que seja.

 

Isso é tão difícil de entender?

 

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FEMINISMO E LEGADOS

8 jun

No segundo semestre de 1991 fiz minha primeira disciplina no Mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Era precisamente a disciplina da minha orientadora, a saudosa Professora Eni de Mesquita Samara, referência obrigatória nos Estudos de Gênero. Profissional eclética, Eni reunia em torno de si uma variada fauna de orientandos que ia desde os estudos sobre Família Escrava (que era o meu caso) até Relações de Gênero e História das Mulheres.

 

Guardo ótimas lembranças das acaloradas discussões sobre bibliografia, documentos e conceitos, sempre levadas com bom humor e seriedade acadêmica. Eu já era feminista de um jeito meio acanhado e difuso porque não conseguia me situar no meio “chique” da USP, com minhas origens operárias. As plataformas defendidas por várias das minhas colegas eram tão diferentes da realidade de três gerações da minha família, que frequentemente me sentia deslocada nesse meio. Mas aprendi com minha orientadora a diferenciar quem era feminista de fato de quem o era apenas de discurso.

 

A Professora Eni era cirúrgica em seus comentários e não tinha meias palavras. Mais de uma vez a vi defendendo a remuneração correta para todo e qualquer tipo de trabalho feminino e os direitos inclusive das empregadas domésticas, o que naqueles tempos era considerado uma excentricidade e hoje (em seu meio social) uma traição. Além de seu combate ao “parasitismo” praticado por dondocas e patricinhas, que pareciam pensar que os homens tinham a obrigação de sustentá-las.

 

Se alguém dissesse à Professora Eni que, em pleno 2017, uma acadêmica respeitada seria levada aos tribunais por uma ex-orientanda e humilhada publicamente pelos esbirros da ignorância e do fundamentalismo, quem sabe como teria reagido. Uma coisa é certa, ela jamais teria ficado parada vendo essa mixórdia de pensamento conservador, intolerância e cerceamento de direitos. Provavelmente estaria na linha de frente no combate ao obscurantismo e à perseguição que ora ocorre.

 

Tristes dias vivemos, mas não apenas tristes, frustrantes, infelizes e odientos também. Quando a ignorância, em seu sentido mais lato, espalha-se como um incêndio devastador, apoiada pela intolerância e pelo fundamentalismo. São dias em que uma postura crítica pode custar uma carreira e quem arbitra isso é quem menos tem condição ou legitimidade, uma vez que a inviolabilidade da cátedra é uma tradição universitária medieval.

 

Ainda me lembro de uma discussão da historiografia hispano-americana sobre misoginia, que classificava o “marianismo” (culto à virgem Maria) como uma forma de discurso regulador na dominação patriarcal. Eram outros tempos, a graduação não era relâmpago nas instituições particulares e nos programas de pós havia uma compreensão tácita de que estávamos analisando discursos e não crenças. Tive mais de uma colega católica que sabia perceber perfeitamente a diferença entre analisar criticamente os discursos da ideologia religiosa, produzidos nas instâncias do poder clerical a serviço do domínio social, e questionar a própria fé.

 

A sociedade ficou mais rasa. Com o crescimento do fundamentalismo religioso é muito difícil fazer alguém muito jovem entender as nuances conceituais de uma discussão qualquer, quanto mais uma densa discussão acadêmica. A interpretação e aceitação literal dos textos impede que uma parte razoável dos jovens estudantes desenvolva sua capacidade intelectual plena e gera situações chocantes e constrangedoras.

 

Eu aprendi com Eni de Mesquita Samara que o Feminismo vai muito além das feministas. Que um debate acadêmico se dá a partir da compreensão em profundidade dos textos produzidos pela historiografia e para isso é necessário um domínio cada vez maior da análise e desconstrução dos discursos e das narrativas. Também aprendi que personalizar as discussões e usar exceções como argumento é um recurso da pobreza intelectual que não consegue se aprofundar o mínimo necessário para entender um texto teórico.

 

Os estudos envolvendo Gênero, Família e História das Mulheres têm mais de três décadas de vivência no mundo acadêmico brasileiro e no âmbito internacional datam da primeira metade do século XX com Simone de Beauvoir. E não foram tempos fáceis, mesmo entre uma parte considerável dos marxistas levou tempo demais para que essas linhas de estudo fossem toleradas, precisou surgir o trabalho da Professora Heleyeth Saffioti para reconciliar as duas tendências. E mesmo assim muitos acadêmicos ortodoxos ainda torcem o nariz e relativizam a importância desses estudos.

 

E para quem pensa que são textos de um panfletarismo apaixonado, repletos de invectivas e anátemas contra o machismo, a religião e os “hômi”, deixem-me dizer que estão redondamente enganados. São textos densos, estudos de Demografia Histórica, Geografia Humana, Sociologia e História, repletos de tabelas e planilhas analisando os números do gênero, da violência, da natalidade, da mortalidade e do impacto das ideologias de dominação na trajetória das mulheres em diferentes locais e épocas.

 

São textos que mergulham no universo documental através de várias abordagens teóricas e metodológicas e dialogam com a produção internacional em termos de igualdade, embora isso nada signifique para a indigência intelectual de algum vereador campineiro arauto da “nova” onda conservadora. Tenho o maior respeito pela produção intelectual dos GT’s de Gênero ligados à ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), que em mais de vinte anos de existência conseguiram mapear as questões da opressão e da violência e desmascarar os discursos produzidos na política, na religião e na medicina para excluir as mulheres de sua cidadania plena. Não estamos falando aqui de nenhum grupo de estudantes que desnuda os seios em praça pública e sim das carreiras acadêmicas de algumas das intelectuais mais sólidas de nosso país.

 

Ativismo feminista é uma necessidade em uma sociedade que elege mentecaptos apoiados pelo poder econômico para as casas legislativas e permite que algumas instâncias do Judiciário “concursem” uma casta de tecnocratas movidos a decoreba e sem qualquer capacidade cultural relevante. A ofensiva do neo-pentecostalismo, em sua voracidade por cargos públicos, ameaça superlativamente os direitos reprodutivos femininos e nossa própria integridade física, uma vez que sua visão moral binária limitada está sempre pensando em “castigos” para tudo o que não se enquadre em sua tosca visão de mundo. Ser feminista é resistir a essas forças esmagadoras para que nossas filhas e netas tenham perspectivas na vida e para que a memória de nossas lutas não se perca.

 

Mas somente uma leitura rasa, tosca e ignorante poderia confundir o debate acadêmico com “doutrinação” ou “assédio”. Do vereador campineiro que conseguiu aprovar uma moção de repúdio a Simone de Beauvoir (em nome da família tradicional), passando pelos delirantes defensores de que ensinar sobre a igualdade de gênero nas escolas vai obrigar nossos filhos a “virar gays”, até a pobreza intelectual e a indigência mental de alguns alunos de pós que não sabem ler um texto acadêmico ou analisar um discurso, nosso país mergulha nas águas profundas da intolerância e do obscurantismo. E corremos o risco de regredir um século em nossos direitos devido a essa maré neo-conservadora (que de novo só tem a tecnologia).

 

A memória e o legado de pesquisadoras sérias e exímias professoras como Eni de Mesquita Samara e Heleyeth Saffioti nos cobram uma postura. As nossas companheiras na linha de frente do debate acadêmico não podem ficar sozinhas. Precisamos apoiar e reverberar nossa indignação com essa tentativa infame e canalha de desqualificar os Estudos de Gênero e a Universidade propriamente dita.

 

Mas, acima de tudo, precisamos desmascarar os manipuladores que passam a vida divulgando estereótipos negativos sobre as feministas. As minhas professoras na USP e na UNICAMP eram mulheres que não abriam mão de ter amor em suas vidas, que tinham filhos e lutavam por eles. Que, mesmo quando sozinhas, não faziam juízos de valor ou caráter sobre a vida pessoal de suas alunas.

 

Minha filha nasceu enquanto eu cursava o doutorado. E, nos anos que se seguiram, sempre que precisei ir à USP para participar de algum congresso, banca ou qualquer outra atividade acadêmica, eram as minhas professoras feministas que mais ficavam felizes de ver as fotos que esta mãe coruja não parava de tirar. Eni de Mesquita Samara e Maria Helena Capelato até me passaram um “sabão” bem humorado, entre gargalhadas, na única ocasião em que apareci sem um álbum recente de fotos, porque o deixara com a minha mãe para mostrar às vizinhas.

 

Não somos espantalhos mal-amados nem passamos a vida movidas pelo ódio e a inveja às genitálias masculinas. Somos mulheres trabalhadoras que queremos equidade total de direitos para todos sem exceção, para nós, para a comunidade LGBT, para indígenas e quilombolas, para pobres e remediados. Queremos que o nosso quinhão na cidadania não seja uma concessão paternalista e sim um direito inalienável.

 

Queremos que nossa cidadania seja plena e que não esteja sujeita ao arbítrio dos fanáticos religiosos e nem dos interesses econômicos escusos que dominam as casas legisladoras.

Nós que estamos na casa dos cinquenta anos, somos a terceira geração de lutadoras e precisamos manter o legado para as que virão. Por isso eu apoio Marlene de Fáveri e defendo seu direito à inviolabilidade da cátedra. Porque um dia Eni de Mesquita Samara me abriu as portas da USP e apoiou meus estudos muito antes das cotas sociais.

SOBRE MARGARETH TATCHER

11 abr

Não questiono a importância histórica dessa senhora, uma vez que as consequências de seus atos ainda estão presentes no domínio da nossa realidade. Questiono veementemente aqueles que defendem suas atitudes, alegando que devemos separar a política da militância feminista e reconhecer a grande mulher que ela foi… Posso entender que certos setores da direita neoliberal entoem odes à musa da privatização, mas não que ela se torne uma referência de gênero para qualquer feminista, quer de direita ou esquerda.

 

Eu estava para completar dezessete anos em 1981 quando Bobby Sands realizou sua greve de fome e acompanhei dia a dia (na medida em que a censura do período militar permitiu) sua agonia, enquanto a dita “dama de ferro” sorria e se recusava a comentar. O sorriso desse rapaz na única foto veiculada na nossa mídia se gravou de tal maneira em minha mente que, meses atrás, vendo Anthony Bourdain visitar um muro na Irlanda, que reproduzia esse rosto, meus olhos ainda se encheram de lágrimas. Eu não esqueço…

 

E não esqueço dos mineiros e dos outros grevistas que essa senhora derrotou com requintes de perversidade, das famílias que despejou e do caos econômico que suas ideias megalômanas criaram… Ao longo da década de oitenta foi essa senhora que me afastou definitivamente de certo feminismo que via como vitória a ocupação do poder, mesmo quando exercido da maneira mais calhorda possível. Que vitória foi essa afinal?

 

Sempre considerei e considero que minha lealdade maior e principal é com o gênero humano e não com a identidade de gênero feminino, socialmente construída, que hoje compartilhamos. Nesse sentido, repito incansavelmente o que disse a uma feminista uspiana há uns quinze anos atrás: NÃO SE COMBATE OPRESSÃO DE GÊNERO PRATICANDO OPRESSÃO DE CLASSE. Para mim, Margareth Tatcher merece ser execrada, junto a Ronald Reagan, João Paulo II e tantos outros que tornaram a vida dos trabalhadores ainda mais miserável, em defesa dos privilégios de setores minoritários do poder econômico.

 

Dito isto, devo afirmar que não desmereço as lutas feministas, ao contrário!!!! Considero-me pós-feminista porque não acredito que para conquistar igualdade e respeito devamos transformar os homens em inimigos e usar as mesmas ferramentas que nos oprimiram durante milênios. Dou muito valor ao meu papel social de mãe e companheira e sempre briguei pelo direito de lutar lado a lado com meu marido pela construção de um mundo melhor. PARA TODOS!!!!

 

É claro que a misoginia me ofende e que as injustiças me revoltam. Mas não é defendendo mulheres lastimáveis como Margareth Tatcher que vamos conseguir superar a opressão política e religiosa que nos persegue. Especialmente porque essa senhora foi um dos principais defensores dessa opressão em seu país e no Terceiro Mundo em particular.

 

Sou solidária com toda a força do meu caráter aos sobreviventes da década de oitenta que saíram às ruas para comemorar a morte da “dama de ferro”, por mais grotesco que isso pareça. Afinal, a morte de sua principal algoz foi a única reparação que essas pessoas receberam até hoje, após terem sido sacrificadas no altar erguido pelo neoliberalismo ao deus-mercado… E se alguém ainda não percebeu que a crise que assola a Europa hoje somente foi possível graças à ideologia defendida por Margareth Tatcher, então é melhor ir correndo estudar História…

SOBRE PRINCESAS E MULHERES QUE NÃO SE DÃO AO RESPEITO…

2 abr

Tem sido a prática sistemática das elites ocidentais desde sempre responsabilizar os pobres por sua pobreza e pelas sequelas decorrentes de sua condição. Desde a sociedade vitoriana que incentivava o excedente de mão de obra para manter os salários baixos, e mesmo assim criticava a “ociosidade” e a “vagabundagem” dos pobres. É claro, o ócio é para os ricos…

Do mesmo modo, hoje vemos um fenômeno similar na sociedade estadunidense, quando as circunstâncias impedem totalmente que os pobres se alimentem adequadamente, devido à barbárie do meio consumista, e mesmo assim são criticados acerbamente por consumir junk food e desenvolver altos níveis de obesidade e as doenças que lhe são correlatas…

Entretanto, muito perto de nós um fenômeno idêntico está acontecendo e apenas a hipocrisia nos impede de percebê-lo. Está sendo cansativo acompanhar as redes sociais devido à constante divulgação de posts oriundos da pior mentalidade de classe média, que criticam e moralizam sobre a condição dos pobres. Nem vou entrar no mérito das críticas ao projeto bolsa-família ou às cotas universitárias, que já são suficientemente preconceituosos por si…

Refiro-me especialmente às críticas constantes que as meninas que frequentam bailes funk recebem na rede.

E friso: ESSAS MENINAS ESTÃO SENDO CRITICADAS NÃO POR VESTIR POUCA ROUPA OU REBOLAR (SENÃO MUITAS ATRIZES GLOBAIS TAMBÉM O SERIAM) ELAS ESTÃO SENDO ACHINCALHADAS PORQUE SÃO POBRES, NEGRAS E NÃO SE ADEQUAM AOS PADRÕES DE BELEZA MIDIÁTICOS. É simples assim!!!

A mídia oferece apenas esse modelo de comportamento para a maioria das jovens que se encontram na pobreza: a vulgaridade está no bbb e nas novelas, não surgiu por acaso. Essas meninas não têm parâmetros para analisar e criticar o fenômeno, uma vez que a escola é deficitária e não transmite conteúdo crítico e a mídia glorifica esses comportamentos quando são praticados por mulheres “bonitas” (leia-se brancas, de classe média e no padrão exigido de beleza).

Homens que dividem as mulheres entre aquelas que se dão ao respeito e as que não, apoiam  (mesmo que não percebam) a cultura do estupro e a criminalização da pobreza. Mas são homens e somos obrigadas a dar um desconto porque foram criados assim… Triste mesmo é ver mulheres produzindo e reproduzindo esse tipo de discurso de exclusão lastimável, porque acreditam ter alguma superioridade moral, resultado de alguns centímetros a mais de tecido sobre o corpo…

Vídeo

Cantinho da História 6: 8 de março

10 mar

Sexto episódio da série, dialogando com Luciana Tsuchiya.

SOBRE AMÉLIAS, FEMINISMO, LEALDADE E IDENTIDADE.

22 nov

Já de algum tempo venho me questionando sobre a identidade feminina após o ciclo fértil. O que significa ser mulher quando os ovários murcham e a idade se faz sentir em um sem fim de detalhes mínimos, que nos transformam em mulheres de meia-idade. O busto cai, os problemas de saúde se acentuam, os ossos descalcificam, as articulações já não são tão flexíveis…

 

E, no entanto, malgrado o naufrágio da memória imediata, o cérebro continua tão arguto como sempre. Acumulando a vantagem da experiência e do conhecimento, o pensamento flui com uma capacidade assustadora e se torna fácil devanear através da filosofia. Aos olhos de nossa mente, ainda somos jovens…

 

Ainda amamos, mas o amor precisa adaptar-se às limitações do corpo e da vida social. Já não “pintam climas” se os filhos estiverem acordados. O corpo já não produz os hormônios necessários para a parte mecânica do sexo, então é preciso recorrer à reposição hormonal e aos produtos que facilitem a parte física do ato.

 

Muito já se discorreu sobre o orgasmo feminino e as particularidades físicas de nossos corpos, e, no entanto, é no cérebro que a maior parte da vivência sexual se dá, é no pensamento que despejamos nossas fantasias e que racionalizamos nossos atos de amor. É a lembrança dos momentos passados lado a lado, que forma o laço de confiança e lealdade, que permite que permaneçamos junto ao amado, mesmo quando ambos lutamos para controlar as barrigas e as dores e câimbras decorrentes do cansaço de nossas jornadas. É o pensamento que transforma a emoção em experiência, em memória e forja a nossa identidade dentro do casal.

 

E, nesse sentido, pouco importa de que tipo de casal se trata, podemos ter qualquer denominação sexual (hétero, homo, bi), religiosa (católico, protestante, espírita) ou política (comunista, anarquista, socialdemocrata), que ainda assim precisaremos definir nossa identidade como parte integrante de um relacionamento em que as memórias contam tanto quanto o cotidiano.

 

É por isso que alguns aspectos do feminismo mais clássico sempre me incomodaram. A luta por direitos iguais e tratamento igualitário dentro de todas as instâncias da sociedade, não deveria ter sido atrelada a uma competição de excelência contra o sexo masculino. Deveríamos ser complementares e não inimigos, afinal, dentro das lutas sociais que se nos apresentam, somos oprimidos por inimigos comuns, e o fato de nossos companheiros terem sido educados para esperar que desempenhemos determinados papéis, deveria ser visto com mais paciência e menos beligerância.

 

Incomoda-me profundamente o feminismo que escolheu o homem como inimigo e vendeu a ideia de que devemos viver sozinhas, já que o homem ideal ainda não nasceu. É um pensamento arrogante e tão preconceituoso quanto o modo como a sociedade nos impinge seus modelos históricos. E, no final, gera mulheres que dissociam sexo de amor e se comportam do modo que tanto criticam nos homens.

 

Não desdenho das conquistas históricas das gerações que me antecederam, mas me preocupo demais com a cobrança que ainda se faz à minha geração, de relegarmos o âmbito doméstico à esfera da escravidão. Na fala de algumas das minhas conhecidas, dedicar-se á família é “ser Amélia”, e numa leitura totalmente canhestra da música do saudoso Mário Lago, transformam um símbolo do companheirismo e da lealdade em um sinônimo de subserviência. Coincidentemente, são as mesmas mulheres que delegam às “auxiliares domésticas” a gestão de suas casas, pensando que combatem a opressão de gênero, quando de fato estão praticando opressão de classe.

 

Recentemente, devido aos ajustes do mercado de trabalho à modernidade, me vi sem função social e sem emprego, em uma idade em que dificilmente terei outra oportunidade. Por isso, precisei redefinir alguns aspectos da minha identidade e assumir minha casa, que antes eu “tocava” da melhor maneira possível, mas que mais de uma década de estudos acadêmicos haviam transformado em um segundo plano das minhas prioridades. E, para surpresa e frustração de algumas pessoas do meu entorno afetivo, me descobri feliz sendo “Amélia”.

 

Afinal, amélia é quem arregaça as mangas e apoia o companheiro nos maus momentos, tanto quanto nos bons, atuando como co-piloto na gestão da vida a dois, permitindo que a sua força seja o sustento emocional nas dificuldades. E, como dizia Mário Lago: “quando há amor, todos somos amélias”, não importa o gênero. E, se depois de uma vivência profissional variada, o que sobrar for o âmbito doméstico, precisamos estar preparadas para viver essa experiência sem transformá-la em sofrimento e frustração.

 

A nossa sociedade menospreza o trabalho doméstico por ter sido sempre desempenhado por escravos ou servos, por ser pessimamente remunerado além de repetitivo e contraproducente. Entretanto, alguém precisa limpar, ordenar, lavar, passar, cozinhar e assumir as responsabilidades necessárias para produzir uma dinâmica saudável na convivência cotidiana. É isso que separa um lar de uma residência, um refúgio de uma mera moradia.

 

O nosso problema talvez seja permitir que os outros definam nossa identidade a partir de seus preconceitos. Quando, na verdade, quem somos ou como nos vemos deveria ser um exercício de autoconhecimento constantemente aprimorado e exclusivamente pessoal. A relação de alteridade não pode tornar-nos reféns do olhar dos outros.

 

Modelos comportamentais pré-estabelecidos de gênero e sexualidade transformaram-se no único parâmetro de compreensão da realidade que a sociedade de massas impinge diariamente a todos nós. E quem não se enquadra nessas leituras fáceis, quando não tem seus comportamentos patologizados e medicalizados, acaba lutando ferrenhamente por direitos que, embora já garantidos constitucionalmente, precisam ser reivindicados e defendidos dia após dia contra a uniformização forçada. Na contrapartida, ao defender esses direitos, grupos sociais minoritários se voltam a excessos de agressividade e constroem modelos paralelos tão cerceantes quanto os que a sociedade impõe.

 

Em conclusão, não sou uma historiadora que, constrangidamente, “está” dona-de-casa. Sou historiadora porque o desemprego não me impede de produzir meu trabalho intelectual e décadas de estudos não desaparecem apenas porque não existe uma remuneração monetária. Mas sou também dona-de-casa porque minha capacidade criativa encontrou uma surpreendente válvula de escape e fonte de realização pessoal na culinária e nos aspectos comunitários da domesticidade. A minha identidade é uma soma desses aspectos, que não podem ser hierarquizados em termos de valor ou desvalor. A minha identidade me pertence para ser definida a partir dos meus próprios termos e sempre vou defender o direito de todos nós ao status de indivíduos, em detrimento dos papéis massivos socialmente estabelecidos.