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OS GOLPISTAS E A VERGONHA SELETIVA

25 jun

Eu não me lembro de uma coleção de seres lamentáveis do calibre deste governo desde a “Era Sarney”. Nem mesmo os incompetentes espantalhos falsamente neoliberais do homem com “aquilo roxo” são páreo para os pigmeus morais que ora dizem que nos governam. Um conjunto de nulidades mal ajambrado, cuja única capacidade notória é a de promover negociatas, chicanas e barganhas.

 

E é na condição de “comerciantes” que eles fingem governar, enquanto rifam sem piedade o patrimônio nacional, material e imaterial. Dos recursos minerais à mão de obra, dos direitos sociais, humanos e trabalhistas à produção cultural, passando pelos aspectos imateriais como a imagem e a identidade de nosso país, tudo é pasto. E as transnacionais se refestelam nessa orgia em que o dinheiro público banca a dilapidação de uma nação que ainda ontem aspirava à soberania.

 

Esta semana, o pigmeu mor arrastou sua carcaça em uma viagem de resultados duvidosos, oferecendo suas pechinchas à Rússia e à Noruega. Nem vou entrar no mérito das gafes atrozes cometidas por esse dublê de mordomo que se apossou da presidência na base do golpe. Basta dizer que, nem ele e nem sua equipe tem a menor noção de como funciona a diplomacia brasileira ou de como se portar perante qualquer chefe de estado.

 

Caberia perguntar o que leva um sujeito que abriu incognitamente as Olimpíadas, devido ao pavor de ser vaiado em rede mundial, que colocou o exército na rua por não tolerar ser desafiado por manifestações populares, que distribuiu mancheias de benesses para evitar o assédio da imprensa; o que leva um indivíduo desses a submeter-se ao desdém e ao tratamento frio dos governantes de outros países e ao escárnio de seus jornalistas, para ainda fingir que isso é uma vitória e que tudo transcorre na maior das normalidades.

 

O que o golpista esperava desta viagem? Será que pensou ser festejado e aclamado como estadista? Logo ele, que nem sequer de geografia entende. Será que pretendia vender-se como salvador do Brasil? Logo ele, que foi à Europa rifar nossas vidas por uns poucos dinheiros.

 

Eu não sei o que ele esperava, mas posso perceber o que conseguiu entre uma gafe e outra. Mostrou a um público mais vasto que não passa mesmo de um ocupante ilegítimo da presidência, guindado ao poder por um golpe administrativo de qualidade duvidosa e apoiado por uma súcia de gente sem noção de isonomia nem de soberania. Tornou público e notório o que temos denunciado desde aquele dia fatídico de abril de 2016.

 

E então, como uma reação em cadeia, à medida que as gafes e os chás de cadeira se sucediam, as redes sociais passaram a ecoar desde as piadas mais vulgares até os protestos de indignação mais veementes. Houve alguns, e não foram poucos, que expressaram ter “vergonha de ser brasileiro”, a esses reservo meu mais profundo desprezo. Prefiro os fabricantes de memes aos indignados de ocasião.

 

Que o golpista nos cobre de vergonha ao expor o país ao ridículo com sua mera existência, isso eu não discuto. O que não posso concordar é que atrelemos a autoestima de nossa condição nacional a um sujeitinho desse naipe. A única vergonha que nos cabe, nesse caso, é a de não defenestrá-lo do poder da maneira que merece.

 

Imagino que se realmente a indignação e a “vergonha” fossem sinceras, deveriam estender-se à atuação pregressa de quem apoiou um golpe de estado contra um governo que estava longe de ser perfeito, mas que ao menos era legítimo. Aos que se revoltaram de modo histriônico contra uma corrupção suposta e deletéria, mas hoje se calam perante o desmando, a chantagem e a negociata escancarada. Aos que, por despeito e preconceitos, preferiram arruinar o país a dividi-lo irmãmente com o resto de nós meros cidadãos.

 

A vergonha, como se pode constatar, assim como a indignação, tem caráter seletivo e encobre a hipocrisia de quem se considera mais cidadão que os outros. Vivemos em uma sociedade híbrida, em que castas e classes sociais convivem na exclusão. E em que a consciência de si supera a necessidade de “nós”.

 

A casta branca, de sobrenomes e origens coloniais, que ocupa vastas parcelas do Judiciário, de modo quase vitalício e hereditário, também transforma os estados da federação em sucedâneos das capitanias, exercendo o poder local e elegendo seus membros menos inteligentes para o Legislativo, a fim de que representem seus interesses. Nesse sentido, quando falamos em classes, temos a percepção errônea de que a nossa sociedade é suficientemente moderna para conseguir superar esses impasses e gerar uma luta genuína de classes conscientes de si e para si. Ledo engano.

 

Para que as classes sociais adquirissem esse nível de autonomia, precisaríamos superar o pensamento de casta, que ainda relega os pobres (não brancos em sua maioria) à subserviência dos piores e mais degradantes empregos, sempre servindo aos abastados, quando não totalmente excluídos do espaço social real e metafórico.

 

Fala-se tanto em classe média e em empreendedorismo que dá náuseas, mas a classe média que eu conheci nas últimas décadas não tem perfil empreendedor, ao contrário: matam-se por cursar profissões que “façam dinheiro” em detrimento da sociedade, ou viram concurseiros profissionais na expectativa de conseguir um lugar no serviço público e nunca mais trabalhar de verdade. E pensam que a sociedade lhes deve isso porque sua autoimagem emula uma superioridade na pirâmide social que inexiste na vida real. Empreendedor mesmo é o pobre, que cria suas oportunidades a despeito de um sistema que o quer dócil, submisso e invisível.

 

Em meio a essa miscelânea social, que não decide se finalmente ingressa na modernidade classista ou nos mantém para sempre nas relações herdadas dos tempos coloniais, vicejam narrativas de sucesso e meritocracia engendradas na mais pura fantasia. Sujeitos que sempre viveram no privilégio, elegem-se para cargos públicos com discursos enfatizando seu “trabalho” embora jamais tenham trabalhado de verdade, passando a vida a “negociar” sua trajetória nas altas rodas com o dinheiro dos outros. E não faltam aí discursos e narrativas valorizando as origens desses medalhões bem sucedidos à custa do erário público.

 

Nesse caldo de cultura patriarcal, racista, misógino e nepotista não estranha que o golpista se veja como a encarnação do Brasil, de certa forma ele representa bem a casta parasita a que pertence. Só se esqueceram do resto de nós, pretendendo governar um país sem povo. A vergonha seletiva, como se vê, rende seus frutos: quem até hoje ainda se refere à Presidenta Legitimamente Eleita como “anta”, cala-se convenientemente sobre o golpista e atribui a vergonha à nação e não a quem de direito.

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