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FEMINISMO E LEGADOS

8 jun

No segundo semestre de 1991 fiz minha primeira disciplina no Mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Era precisamente a disciplina da minha orientadora, a saudosa Professora Eni de Mesquita Samara, referência obrigatória nos Estudos de Gênero. Profissional eclética, Eni reunia em torno de si uma variada fauna de orientandos que ia desde os estudos sobre Família Escrava (que era o meu caso) até Relações de Gênero e História das Mulheres.

 

Guardo ótimas lembranças das acaloradas discussões sobre bibliografia, documentos e conceitos, sempre levadas com bom humor e seriedade acadêmica. Eu já era feminista de um jeito meio acanhado e difuso porque não conseguia me situar no meio “chique” da USP, com minhas origens operárias. As plataformas defendidas por várias das minhas colegas eram tão diferentes da realidade de três gerações da minha família, que frequentemente me sentia deslocada nesse meio. Mas aprendi com minha orientadora a diferenciar quem era feminista de fato de quem o era apenas de discurso.

 

A Professora Eni era cirúrgica em seus comentários e não tinha meias palavras. Mais de uma vez a vi defendendo a remuneração correta para todo e qualquer tipo de trabalho feminino e os direitos inclusive das empregadas domésticas, o que naqueles tempos era considerado uma excentricidade e hoje (em seu meio social) uma traição. Além de seu combate ao “parasitismo” praticado por dondocas e patricinhas, que pareciam pensar que os homens tinham a obrigação de sustentá-las.

 

Se alguém dissesse à Professora Eni que, em pleno 2017, uma acadêmica respeitada seria levada aos tribunais por uma ex-orientanda e humilhada publicamente pelos esbirros da ignorância e do fundamentalismo, quem sabe como teria reagido. Uma coisa é certa, ela jamais teria ficado parada vendo essa mixórdia de pensamento conservador, intolerância e cerceamento de direitos. Provavelmente estaria na linha de frente no combate ao obscurantismo e à perseguição que ora ocorre.

 

Tristes dias vivemos, mas não apenas tristes, frustrantes, infelizes e odientos também. Quando a ignorância, em seu sentido mais lato, espalha-se como um incêndio devastador, apoiada pela intolerância e pelo fundamentalismo. São dias em que uma postura crítica pode custar uma carreira e quem arbitra isso é quem menos tem condição ou legitimidade, uma vez que a inviolabilidade da cátedra é uma tradição universitária medieval.

 

Ainda me lembro de uma discussão da historiografia hispano-americana sobre misoginia, que classificava o “marianismo” (culto à virgem Maria) como uma forma de discurso regulador na dominação patriarcal. Eram outros tempos, a graduação não era relâmpago nas instituições particulares e nos programas de pós havia uma compreensão tácita de que estávamos analisando discursos e não crenças. Tive mais de uma colega católica que sabia perceber perfeitamente a diferença entre analisar criticamente os discursos da ideologia religiosa, produzidos nas instâncias do poder clerical a serviço do domínio social, e questionar a própria fé.

 

A sociedade ficou mais rasa. Com o crescimento do fundamentalismo religioso é muito difícil fazer alguém muito jovem entender as nuances conceituais de uma discussão qualquer, quanto mais uma densa discussão acadêmica. A interpretação e aceitação literal dos textos impede que uma parte razoável dos jovens estudantes desenvolva sua capacidade intelectual plena e gera situações chocantes e constrangedoras.

 

Eu aprendi com Eni de Mesquita Samara que o Feminismo vai muito além das feministas. Que um debate acadêmico se dá a partir da compreensão em profundidade dos textos produzidos pela historiografia e para isso é necessário um domínio cada vez maior da análise e desconstrução dos discursos e das narrativas. Também aprendi que personalizar as discussões e usar exceções como argumento é um recurso da pobreza intelectual que não consegue se aprofundar o mínimo necessário para entender um texto teórico.

 

Os estudos envolvendo Gênero, Família e História das Mulheres têm mais de três décadas de vivência no mundo acadêmico brasileiro e no âmbito internacional datam da primeira metade do século XX com Simone de Beauvoir. E não foram tempos fáceis, mesmo entre uma parte considerável dos marxistas levou tempo demais para que essas linhas de estudo fossem toleradas, precisou surgir o trabalho da Professora Heleyeth Saffioti para reconciliar as duas tendências. E mesmo assim muitos acadêmicos ortodoxos ainda torcem o nariz e relativizam a importância desses estudos.

 

E para quem pensa que são textos de um panfletarismo apaixonado, repletos de invectivas e anátemas contra o machismo, a religião e os “hômi”, deixem-me dizer que estão redondamente enganados. São textos densos, estudos de Demografia Histórica, Geografia Humana, Sociologia e História, repletos de tabelas e planilhas analisando os números do gênero, da violência, da natalidade, da mortalidade e do impacto das ideologias de dominação na trajetória das mulheres em diferentes locais e épocas.

 

São textos que mergulham no universo documental através de várias abordagens teóricas e metodológicas e dialogam com a produção internacional em termos de igualdade, embora isso nada signifique para a indigência intelectual de algum vereador campineiro arauto da “nova” onda conservadora. Tenho o maior respeito pela produção intelectual dos GT’s de Gênero ligados à ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), que em mais de vinte anos de existência conseguiram mapear as questões da opressão e da violência e desmascarar os discursos produzidos na política, na religião e na medicina para excluir as mulheres de sua cidadania plena. Não estamos falando aqui de nenhum grupo de estudantes que desnuda os seios em praça pública e sim das carreiras acadêmicas de algumas das intelectuais mais sólidas de nosso país.

 

Ativismo feminista é uma necessidade em uma sociedade que elege mentecaptos apoiados pelo poder econômico para as casas legislativas e permite que algumas instâncias do Judiciário “concursem” uma casta de tecnocratas movidos a decoreba e sem qualquer capacidade cultural relevante. A ofensiva do neo-pentecostalismo, em sua voracidade por cargos públicos, ameaça superlativamente os direitos reprodutivos femininos e nossa própria integridade física, uma vez que sua visão moral binária limitada está sempre pensando em “castigos” para tudo o que não se enquadre em sua tosca visão de mundo. Ser feminista é resistir a essas forças esmagadoras para que nossas filhas e netas tenham perspectivas na vida e para que a memória de nossas lutas não se perca.

 

Mas somente uma leitura rasa, tosca e ignorante poderia confundir o debate acadêmico com “doutrinação” ou “assédio”. Do vereador campineiro que conseguiu aprovar uma moção de repúdio a Simone de Beauvoir (em nome da família tradicional), passando pelos delirantes defensores de que ensinar sobre a igualdade de gênero nas escolas vai obrigar nossos filhos a “virar gays”, até a pobreza intelectual e a indigência mental de alguns alunos de pós que não sabem ler um texto acadêmico ou analisar um discurso, nosso país mergulha nas águas profundas da intolerância e do obscurantismo. E corremos o risco de regredir um século em nossos direitos devido a essa maré neo-conservadora (que de novo só tem a tecnologia).

 

A memória e o legado de pesquisadoras sérias e exímias professoras como Eni de Mesquita Samara e Heleyeth Saffioti nos cobram uma postura. As nossas companheiras na linha de frente do debate acadêmico não podem ficar sozinhas. Precisamos apoiar e reverberar nossa indignação com essa tentativa infame e canalha de desqualificar os Estudos de Gênero e a Universidade propriamente dita.

 

Mas, acima de tudo, precisamos desmascarar os manipuladores que passam a vida divulgando estereótipos negativos sobre as feministas. As minhas professoras na USP e na UNICAMP eram mulheres que não abriam mão de ter amor em suas vidas, que tinham filhos e lutavam por eles. Que, mesmo quando sozinhas, não faziam juízos de valor ou caráter sobre a vida pessoal de suas alunas.

 

Minha filha nasceu enquanto eu cursava o doutorado. E, nos anos que se seguiram, sempre que precisei ir à USP para participar de algum congresso, banca ou qualquer outra atividade acadêmica, eram as minhas professoras feministas que mais ficavam felizes de ver as fotos que esta mãe coruja não parava de tirar. Eni de Mesquita Samara e Maria Helena Capelato até me passaram um “sabão” bem humorado, entre gargalhadas, na única ocasião em que apareci sem um álbum recente de fotos, porque o deixara com a minha mãe para mostrar às vizinhas.

 

Não somos espantalhos mal-amados nem passamos a vida movidas pelo ódio e a inveja às genitálias masculinas. Somos mulheres trabalhadoras que queremos equidade total de direitos para todos sem exceção, para nós, para a comunidade LGBT, para indígenas e quilombolas, para pobres e remediados. Queremos que o nosso quinhão na cidadania não seja uma concessão paternalista e sim um direito inalienável.

 

Queremos que nossa cidadania seja plena e que não esteja sujeita ao arbítrio dos fanáticos religiosos e nem dos interesses econômicos escusos que dominam as casas legisladoras.

Nós que estamos na casa dos cinquenta anos, somos a terceira geração de lutadoras e precisamos manter o legado para as que virão. Por isso eu apoio Marlene de Fáveri e defendo seu direito à inviolabilidade da cátedra. Porque um dia Eni de Mesquita Samara me abriu as portas da USP e apoiou meus estudos muito antes das cotas sociais.

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