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COMO EU ME TORNEI CIDADàBRASILEIRA

17 jun

No dia 09 de fevereiro de 1974, aos meus nove anos de idade, embarquei em um avião rumo ao Brasil. Chovia a cântaros em Montevideo e poucos familiares foram nos despedir no aeroporto. Minha mãe não queria despedidas e a amargura que a assolava passou despercebida para mim, na novidade da viagem.

 

Meu pai viera a São Paulo de ônibus em setembro do ano anterior, para arrumar trabalho e preparar a nossa perspectiva no novo país. Era uma viagem de trinta e seis horas em ônibus que minha mãe preferiu não enfrentar com duas crianças. Sendo assim, sacrificou uma parte do pouco dinheiro que nos garantiria um recomeço e comprou as passagens de avião.

 

Sobre o que nos levou a emigrar só posso afirmar que foi um conjunto particular de circunstâncias. A crise do petróleo, que se abateu de modo maciço sobre o Uruguay, por ser um país pequeno, deixando oportunidades muito limitadas para operários especializados como meus pais. O recrudescimento da ditadura que (por causa da pequenez do país) era vivenciado de maneira cada vez ameaçadora por todos nós.

 

Os brasileiros comuns de então, espalhados por cidades populosas ou em lugares longe das notícias, podiam passar anos sem ser confrontados com a existência de uma ditadura. Esse era um luxo que os uruguaios desconhecíamos, a cada dia boletins das Forças Conjuntas eram transmitidos em cadeias de rádio e televisão, informando sobre sua luta contra a “sedição”. Listas de quem estava sendo preso eram divulgadas quase todos os dias (ou ao menos é assim que parece a partir das minhas memórias infantis) e, vez por outra, havia algum conhecido.

 

Quando o marido da nossa vizinha Cuca (Maria de Los Angeles) foi preso e seu nome apareceu no comunicado noturno, minha mãe saiu à rua para chorar com as outras vizinhas. Era um rapaz simpático, estudante de arquitetura e com um filho recém-nascido. Havia meu primo Adolfo, de quem já falei neste blog, e o clima era tão pesado que parecia (aos meus olhos infantis) que era sempre noite ou chuva.

 

Então, quando desembarcamos em São Paulo, era um nunca acabar de surpresas. Tudo era tão imenso, rápido e cheio de gente. Os cheiros da cidade eram agressivos e a miséria se espalhava pelos viadutos e praças. Minha mãe costumava sentir-se culpada vendo as crianças nas ruas, enquanto a cidade nos oferecia oportunidades limitadíssimas, mas ainda assim concretas.

 

E logo da chegada, já ingressamos com a solicitação da Modelo 19, que era uma carteira de identidade que nos permitiria a permanência definitiva em território brasileiro. E caímos nas mãos dos despachantes e da burocracia. Um nunca acabar de papéis, certidões, exames, vacinas, que se prolongou por oito anos.

 

Perdi a conta de quantas vezes renovei a vacina internacional. Sempre faltava algum papel e eram sempre os mesmos papéis que remetíamos a Brasília, sem resultado. Mesmo quando a fábrica em que meu pai trabalhava se mudou para Jundiaí e nós com ela, precisávamos continuar indo a São Paulo para manter a papelada rodando.

 

Do prédio do DOPS, no Parque Dom Pedro, tenho lembranças escassas. Só fui descobrir muitos anos depois que ali se torturava presos políticos, só me lembro de que era mal cuidado, escuro, com um clima sufocante e barulhento. Os funcionários eram esmolambados, com barbas por fazer e fedendo a cigarro, e não consigo lembrar se jamais vi alguma mulher por lá nos anos 70.

 

Em um determinado momento foi requerido, junto ao exame médico, testes de sangue para sífilis, para minha mãe e eu. Na época eu acabara de completar quinze anos e ainda brincava de stop com minhas colegas da escola. Não consigo esquecer o constrangimento de minha mãe (uma pessoa tão séria em todos os sentidos) com aquela suspeição de doença venérea e ainda por cima me envolvendo. Ela perguntou ao despachante o porquê de eu ter que fazer o teste sendo tão jovem e o cara (na maior grosseria) afirmou que no Brasil as meninas de quinze anos já eram sexualmente ativas.

 

E eu creio (não me lembro ao certo) que esse foi um divisor de águas. Quando um novo ofício de Brasília chegou solicitando pela enésima vez um mesmo documento de alfândega, minha mãe juntou uns dinheiros, comprou uma passagem de ônibus e foi para Brasília ver o que estava acontecendo. Desceu do ônibus lá, foi até o Ministério da Justiça, pediu para falar com algum funcionário e mostrou um saco de cartas e protocolos, todos se referindo ao mesmo documento durante mais de três anos, e conseguiu com esse gesto “desentocar” nosso requerimento.

 

Somente muitos anos depois consegui avaliar o tanto de desespero e de coragem que foi preciso para minha mãe fazer aquela viagem sozinha, sem conhecer ninguém e tendo que voltar de ônibus no mesmo dia de Brasília a Jundiaí. Mas o processo andou e por volta de 1982 conseguimos nossos RG’s modelo 19, que eram azuis e nos permitiam residir no Brasil pelo resto da vida. Embora houvesse limitações aos nossos direitos, respiramos aliviados por um ano ou dois.

 

E então veio Ibrahim Abi Akel e sua nova Lei de Estrangeiros, com recadastramentos periódicos e uma série de outros constrangimentos que visavam barrar a imigração chinesa, mas acabavam atingindo a todos nós.

 

Em algum momento por volta de 1985 eu me enchi de ser estrangeira e perguntei aos meus pais se eles topariam pedir a cidadania brasileira, uma vez que (após uma década) não havia mais para onde voltar. Nada, nada, ao menos nos livraria dos recadastramentos e da ameaça de perseguição que sentíamos dos comunicados da Polícia Federal. Anos depois, já mais consciente do modo como as coisas funcionam no Brasil, acabamos aprendendo a não levar tão a sério as ameaças dos noticiários, mas naquele momento ainda acreditávamos que a deportação era um fato possível nos estertores da ditadura.

 

E foi a minha vez, era uma época em que não existia internet, nem celulares e os postos da polícia federal no interior serviam apenas para questões burocráticas menores, por isso peguei o Cometa e desci na rodoviária nova de São Paulo (tão imensa!!!) e fui ao posto da polícia feminina e perguntei como chegar ao prédio novo da polícia federal. Era assim que fazíamos quando queríamos descobrir um endereço em São Paulo, ou perguntávamos à polícia feminina ou (se estivéssemos na rua) aos “Romeu e Julieta” que eram duplas de policiais (um homem e uma mulher) que faziam a ronda a pé no Centro ajudando as pessoas a se localizar. No meu caso, a moça puxou um brochurão com endereços e ônibus e me indicou como ir de metrô à República e chegar ao prédio novo.

 

E eu fui. Na recepção perguntei como fazia para me naturalizar brasileira e fui encaminhada a um cubículo andares acima, onde dois policiais me deram uma lista de documentos e informações que teria que apresentar. Ainda brincaram muito se eu sabia o que estava fazendo.

Aliás, até hoje, tantos anos depois, ainda ouço piadas sobre a “burrice” de virar cidadã brasileira e confesso que me constrange ver tanta gente que faz pouco do próprio país. Não sou uma pessoa patriota, quando se é desenraizado na infância fica difícil pertencer a qualquer lugar e eu aprendi a respeitar igualmente qualquer lugar que me permita existir. Mas nunca me arrependi de ter tomado essa iniciativa, aqui construí minha vida, encontrei meu ofício de historiadora, um amor para toda a vida e minha própria família. Saí no lucro, como dizem.

 

Para encerrar, após a entrada dos papéis, levou mais um ano para viabilizar nossa nova cidadania (sempre a burocracia!!!). Em 07 de fevereiro de 1987 (apenas dois dias antes de completar treze anos do meu desembarque) recebi um telegrama padrão do Ministério da Justiça, que dizia o seguinte:

“TENHO O PRAZER DE INFORMAR QUE ASSINEI ATO DE DECLARAÇAO DE IGUALDADE DE DIREITOS PT FAÇO VOTOS QUE CONTINUE A AJUDAR, COM SEU TRABALHO, O NOSSO PAIS PT PAULO BROSSARD”

 

Em 26 de maio de 1987 foi emitido meu primeiro RG como cidadã brasileira, que eu exibi orgulhosamente à assistente social do SAE da UNICAMP ao pedir uma bolsa de trabalho para estudantes carentes em meu primeiro ano na Universidade. Aquele fevereiro de 1987 que me trouxe a notícia da cidadania, também foi o mês em que após a segunda chamada do vestibular, pude fazer minha matrícula e correr atrás dos meus sonhos. Hoje já se vão trinta anos e uma vida e ainda me lembro da expectativa e da esperança daqueles tempos.

 

Para mim, a cidadania é algo conquistado e não negociável. Quando me pedem satisfações devido à minha militância ou querem saber quais as minhas intenções ao socializar sistematicamente o conhecimento que adquiri na Universidade, tudo o que posso dizer é que ainda estou ajudando. E vou ajudar enquanto puder.

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