Tag Archives: pequeno-burgueses

BALZAC E OS RENTISTAS DO SÉCULO XXI

1 jul

Em algum momento da década de ’90, adquirimos A Comédia Humana de Honoré de Balzac. Era uma promoção com desconto e parcelada, mesmo assim penamos para pagar, mas como recusar uma “oferta irrecusável”? Não consigo sequer lembrar se foi uma oferta de livraria ou da própria editora, mas o resultado é que os dezessete grossos volumes nos acompanham desde então.

 

No ano e meio que se seguiu à chegada dos volumes, passei a ler freneticamente em meu tempo livre (que era pouco) e cheguei até o décimo terceiro antes de enjoar. Na verdade, a palavra correta seria “empapuçar”, mas não sei se todo mundo entenderia. E meu cansaço nada teve a ver com o autor ou o tamanho da obra, foi muito mais uma questão das personagens.

 

Chegou um momento em que aquela profusão de rentistas começou a me incomodar. Eram de todos os tipos, banqueiros, comerciantes, remediados, pequenos e grandes burgueses, todos com uma única ambição: amealhar alguns milhares de francos para consolidar uma renda e depois viver flanando em Paris. O que diferia de um romance para o outro eram os caminhos dessas ambições e se o rentista ou aspirante a essa condição era o herói ou o vilão da trama.

 

Até hoje considero Ilusões Perdidas o melhor concebido dos romances que compõem a Comédia. E Luciano de Rubempré é uma daquelas personagens que poderiam ter saído da pena de Flaubert ou de Dostoievski, em suas ambições frustradas e suas ingênuas ilusões de grandeza. E, evidentemente, a Paris de Balzac é um nunca acabar de salões, salas de visitas, gabinetes, pequeno comércio e restaurantes chics como O Rochedo de Cancale.

 

E talvez seja isso que me incomoda até hoje, em uma Paris efervescente de Arte, de lutas políticas, de revolucionários e intelectuais, as escolhas de Balzac eram aqueles burgueses (pequenos e grandes) absolutamente desprezíveis, em todos os sentidos que esse adjetivo possa ter. Gente procurando casamentos e rendas e vivendo apenas para seus apetites mais primários, ocupando a cidade e seus salões com a mediocridade de suas intrigas e ódios. Heróis e vilões, virtuosos e pervertidos, abençoados e malditos, todos não passavam de burgueses sem remissão (ou ao menos assim me pareciam quando li).

 

Ultimamente, venho repensando essa questão e lembrando com frequência de Balzac e sua obra. Ao ver o governo golpista rifar o país para garantir os lucros dos rentistas e ver gente pobre sonhando com boladas de dinheiro e casinhas de aluguel para viver sem trabalhar. Ao ver tanta gente que se compraz com a miséria social para poder desfrutar de seus privilégios e sentir-se superior, sinto-me de volta às páginas da Comédia.

 

Se há uma coisa que os rentistas de Balzac têm em comum com os atuais é a completa indiferença pelas questões sociais. A ideia de que sua renda só se consolida a partir da exploração sistemática de uma grande porção de seres humanos não apenas nem lhes passa pela cabeça como também não lhes importaria se fossem confrontados com essa realidade. Uma caridade cristã vazia e protocolar substitui a contento qualquer veleidade de justiça social.

 

E todos aspiram a uma sociedade em que os pobres saibam seu lugar, mesmo aqueles que hoje são pobres, mas percebem a si mesmos como milionários em embrião. Talvez porque a mentalidade rentista no Brasil seja herdeira de uma época em que ainda existia escravidão e os “capitalistas” eram listados por seus sobrenomes quatrocentões nos almanaques anuais. Uma época de doutores e bacharéis devidamente enfatiotados com seus fraques e cartolas, se é que vocês conseguem captar de onde vem a empáfia dos nossos atuais.

 

Por definição, um rentista é um parasita. É alguém que entrega seu dinheiro (seja qual for a origem) ou seus bens a um Banco, para que este os administre, invista e lhe retorne os juros em forma de renda. Sua renda se reproduz a partir da especulação financeira e existe em um universo em que a maioria das pessoas mal consegue ter acesso a um salário minimamente decente.

 

Quando um empresário ou um industrial opta por ser rentista, sua empresa passa a ser um aspecto secundário de seus negócios e o lucro que poderia ser investido na produção ou na melhora das condições de trabalho, passa a “turbinar” o mercado financeiro e a custear uma vida de luxos e privilégios, em detrimento do país e da sociedade. Muitos argumentarão que não há nada de errado nisso e que ele merece o dinheiro que ganhou e que a liberdade no capitalismo é a liberdade de consumir e especular. Nada novo, essa é uma discussão que data do século XIX, como também data de mais de cento e cinquenta anos atrás a crítica a essa mentalidade farisaica e predatória.

 

A disputa entre o Capital e o Trabalho é tão injusta, desigual e desonesta, que acaba por desiludir uma boa parte dos trabalhadores de qualquer esperança de um mínimo de equidade ou equilíbrio. Talvez seja por isso que, em uma sociedade em que a indústria cultural vende os mitos do sucesso capitalista, muitos trabalhadores sonhem em tornar-se patrões ou rentistas. Quem poderia culpá-los?

 

A enormidade do que significa hoje a exploração capitalista deixa poucas alternativas. Na iminência de escolher entre o inominável e o inaceitável, talvez a reação mais inteligente (em nome da saúde mental) seja abster-se e sonhar com o que não se pode alcançar. É assim que se fisgam, geração após geração, os sonhos e as esperanças de quem sobrevive no limiar do sistema.

 

Os patéticos rentistas de Balzac pariram várias gerações de parasitas pelo mundo afora. Os nossos, descendem de escravocratas e auferem seus lucros tanto do Estado quanto dos Bancos. O que não muda é o sonho pequeno burguês de viver sem trabalhar, assistindo aos outros trabalharem até a exaustão.

 

A ideia de que o direito dos outros é um privilégio, mas o seu privilégio é um direito de nascença, de “berço”, de casta.

 

Podem me chamar de anacrônica, mas acredito que Karl Marx é tão necessário agora quanto o foi nos tempos de Balzac, considerando que este faleceu dois anos após a publicação do Manifesto Comunista. E não para patrocinar revoluções, mas para ajudar a pensar e entender como esta enorme engrenagem de moer gente funciona. Como se constrói o lucro e para quem vai, como se estrutura o mercado e quem o sustenta.

 

Conhecimento e crítica, sem os quais estamos fadados a viver para sustentar rentistas e outros tantos parasitas.

Anúncios