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TRAGÉDIA E FARSA

6 abr

Lá pelo fim dos anos 80, quem foi meu contemporâneo na graduação há de lembrar, a disciplina de Brasil III (que contemplava o período republicano) foi oferecida no IFCH da UNICAMP por Maria José Trevisan, conhecida como Mara. Era uma professora com um perfil não tão brilhante e assertivo quanto as estrelas que brilhavam na constelação do nosso curso de História, mas sempre foi muito querida por nós alunos. Guardo até o hoje o exemplar de seu livro com dedicatória, que ela ofertou a cada um de nós por ocasião de nossa formatura.

 

Ao abordar a disciplina, como era costume no IFCH, a ementa contemplava os principais debates intelectuais e historiográficos pensando o Brasil do período republicano. E não era pouca a expectativa, afinal a minha turma tivera Brasil I com Silvia Hunold Lara e Brasil II com Sidney Chalhoub. Mara, nesse sentido, me deixou uma lembrança muito honesta de alguém que sabia das próprias limitações e estava ali aprendendo junto conosco, o que (no final) possibilitou uma das disciplinas mais livres e proveitosas que já cursei.

 

Um dos debates mais interessantes que fizemos foi sobre a “polêmica das ideias”. Para quem não é da área vale uma rápida explicação, na década de ‘70 Roberto Schwartz, que na época era um dos maiores especialistas em Machado de Assis, publicou uma série de ensaios intitulada Ao vencedor as batatas, alusão evidente ao romance Quincas Borba. Ali se encontra o texto As ideias fora do lugar, que suscitou a polêmica.

 

Schwartz argumentava que no Brasil as ideias eram retiradas de contexto e absorvidas pelos grupos sociais dominantes para adaptar-se aos seus interesses. Tomava como exemplo o ideário liberal do século XIX, que considerava absolutamente desvirtuado ao ser pervertido nas argumentações tanto de liberais quanto de conservadores, ao sabor da ocasião ou das expectativas. E enveredava por uma análise que localizava o Brasil como um lugar exótico e sui generis fora do tempo e fora da História, onde as coisas aconteciam de modo bizarro (ao menos essa foi a nossa conclusão).

 

Maria Sylvia de Carvalho Franco respondeu a ele com um texto primoroso, alegando que as ideias não apenas estavam no lugar, mas também eram absolutamente coerentes com a vocação predatória das elites brasileiras. Mudando a perspectiva de análise, a autora conseguiu dar sentido e desconstruir a interpretação exótica de Schwartz, que era muito mais literária que histórica. E isso rendeu uma das polêmicas mais interessantes na nossa disciplina, dividindo os que concordavam com Schwartz (e identificavam “jabuticabas” em tudo o que acontecia no Brasil) e os que concordávamos com a Maria Sylvia e não alimentávamos nenhuma ilusão quanto ao caráter histórico das elites locais.

 

Elites perfeitamente enquadradas no mais selvagem capitalismo predatório, que aceitavam com alegria o papel de subalternos “capachildos” auxiliares do neocolonialismo europeu e estadunidense, desde que pudessem rapinar à vontade o país e entregar seu povo à própria sorte, sumido na miséria e na ignorância.

 

Lembro a vocês que este é um blog e não uma publicação acadêmica, então quem estiver interessado nas referências deve pesquisar por si mesmo. Neste momento, ao descrever de memória tanto ideias como eventos, torço para que meus leitores se interessem e vão ler os textos em questão. E vou além, adoraria ver as novas gerações apreciando devidamente Quincas Borba e Memorial de Aires, dois maravilhosos romances de Machado de Assis, que dissecam sem piedade (e com porções generosas de ironia) a elite brasileira do século XIX, tanto do meio rural quanto urbanizado.

 

Volta e meia, quando o grau de bizarrice do noticiário atinge níveis alarmantes, como é o caso dos últimos quatro anos, relembro com saudades os debates nas aulas da Mara, do Sidney, da Silvia, do Paulo Miceli, da Maria Helena Capelato e de tantos outros professores inesquecíveis nos meus treze anos de graduação e pós. Foram momentos épicos, quando pensávamos a construção da historiografia e, ao mesmo tempo, acompanhávamos o desenrolar da redemocratização. Afinal, para quem não percebeu, minha graduação se deu entre os governos Sarney e Collor e acompanhou a tristemente célebre eleição presidencial de 1989, bem como a vitória de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, e meu mestrado acompanhou o período de derrocada e o impeachment de Fernando Collor.

 

De certa forma, este blog e meus vídeos são uma maneira de manter vivo um espaço de discussão que já não existe mais em minha vida, uma vez que estou definitivamente fora do meio acadêmico. Uma maneira imperfeita porque a internet promove muito mais o monólogo que o diálogo, mas vá lá. Uma maneira de continuar pensando a sociedade brasileira e seus paradoxos, seus enigmas e suas aberrações.

 

Nesse sentido, o insight que temos para hoje, nesta semana triste e vergonhosa em que o golpe de Estado de 2016 se consolida (graças à pantomima judiciária ora em curso) é meio que uma homenagem tardia à lucidez sem par de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Porque nestes quatro anos de destruição sistemática de nossas estruturas democráticas, o Brasil conseguiu a proeza de viver a História como tragédia e farsa ao mesmo tempo. Na melhor tradição que nos irmana ao velho barbudo, podemos afirmar que as elites brasileiras não são “jabuticabas” (como afirmam uns e outros), mas um bizarro e asqueroso bando de carniceiros e rapinadores, que se alimenta com volúpia dos restos deixados pelas grandes potências, enquanto subjuga o resto de nós sem qualquer senso de decência.

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OS CÃES E AS CARAVANAS

2 abr

Este é um daqueles textos com potencial para desagradar a todos e mais alguns e romper amizades contingentes. Dado o momento delicado da nossa vida política, ponderei demais antes de me sentar ao teclado e digitar estas “mal traçadas linhas”. O que tiver que ser, será.

 

Recentemente ouvi de um colega em plena viagem ufanista, que pessoas como eu são “cassandras do apocalipse” porque estão sempre vaticinando o pior dos cenários. Confesso que talvez essa crítica fizesse mais sentido em meus tempos de juventude, quando eu era pouco mais que uma mistura malfeita de Mortícia Adams e Funérea Covarasa. A passagem do tempo me castigou o suficiente para suavizar alguns desses aspectos da minha personalidade, mas não me trouxe a cegueira política que parece caracterizar esse meu amigo.

 

Continuo afirmando, como fiz meses atrás, que a probabilidade de que as eleições deste ano sejam adiadas para 2020 é um dado que está na mesa e que cresce a cada dia. Fingir que estamos vivendo dentro da normalidade institucional não ajuda a superar esta etapa política aziaga, da mesma forma que constatar que o golpe se consolidou parece não ser suficiente para motivar a resistência de amplo espectro. Parece que estamos brincando de política ao invés de nos comportarmos como seres políticos, como cidadãos pensantes e agentes.

 

Estão dados vários fenômenos que o meio acadêmico não nos preparou para perceber e nem para lidar. O ritmo lento da Academia, principalmente entre nós historiadores que precisamos de distanciamento temporal para analisar nosso objeto de estudo, parece ter contagiado a nossa percepção do presente. A velocidade de deterioração da nossa sociedade e das estruturas políticas que a representam, está deixando pelo caminho mais de um analista.

 

Em menos de uma década assistimos impotentes à “futebolização” do espectro político. De repente, alguns poucos setores da população acostumados à indiferença passaram a escolher partidos e candidatos como quem escolhe um time para torcer. E trouxeram para o cenário eleitoral toda a violência, fanatismo e paixões dos convescotes domingueiros regados a testosterona, que são usuais ao esporte bretão.

 

Os partidos políticos, sem exceção, a reboque da mídia, investiram nesse “vestir de camiseta” que afastou qualquer análise madura ou projeto de país possível. As redes sociais pululam de declarações de amor a candidatos (sem discussão alguma de seus projetos) e manifestações de ódio aos que são considerados seus “inimigos”, personalizando da maneira mais lamentável o cenário já caótico que vivemos. É uma armadilha que se fechou sobre nós e da qual está cada dia mais difícil escapar, à medida que o ódio se alastra.

 

Nesse tom de discurso, a função essencial da política que é o diálogo entre adversários para estabelecer a melhor governança da sociedade, passou a ser vista como sinal de fraqueza e de corrupção. A criminalização do diálogo político e sua substituição por uma pantomima de galos de briga estão transformando nosso país em pasto para as grandes potências se refestelarem com nossos recursos e ativos. E enquanto isso a sociedade troca impropérios, ofensas, sopapos e agora tiros.

 

Eu passei o ano de 2016 na rua lutando para impedir o golpe e manter o mandato da presidenta legitimamente eleita. Mesmo quando o campo majoritário do PT já a considerava uma baixa necessária para preservar a candidatura de Lula em 2018. Mesmo quando éramos poucas centenas de pessoas aqui em Campinas, transformando nossas passeatas em esforços patéticos, enquanto a população nos pontos de ônibus nos olhava como se fôssemos malucos.

 

Participei de passeatas, reuniões e livros. Por dois anos publiquei incansavelmente aqui neste blog uma série de análises e defesas do processo democrático republicano, apenas para ver cada estrutura do que identifica uma República esfacelar-se diante dos meus olhos, diante do rolo compressor do dinheiro e da indiferença geral. Da mesma forma que transformei meu canal no YouTube em um foco de resistência ao obscurantismo promovido pela evangelização da política, na forma dos projetos Escola sem Partido.

 

Porque lado a lado com a criminalização da política e a promoção de líderes messiânicos, avança a passos largos a evangelização de nosso Estado, que jamais chegou a ser inteiramente laico, como se espera de uma República. A ingerência de padres e pastores acreditando que podem e devem legislar, a partir de seu pensamento mágico e supersticioso, sobre os costumes da sociedade civil cresceu e se alastrou. E produziu boas teses e dissertações acadêmicas, mas não nos ajudou a resistir e a combater essa avalanche de moralismo barato e farisaico que hoje se abate sobre todos nós e ameaça transformar nosso sistema de ensino em um cemitério intelectual.

 

E essa deterioração sociopolítica não vai mudar porque este ou aquele candidato venha a ganhar as eventuais eleições majoritárias. Enganam-se e são enganados todos aqueles que se deixam embriagar pelas multidões, quer seja de aldeões com tochas e forcados, quer seja de ativistas com bandeiras vermelhas. Porque o desmonte do Estado e da economia, promovidos a partir da politização do Judiciário e das ações do governo golpista, apoiado pelo Congresso mais venal já eleito e com a conivência da grande mídia, não poderá ser revertido na canetada por presidente algum.

 

Da mesma forma que o esgarçamento das relações sociais nos setores médios da população está promovendo momentos de verdadeira barbárie, a ação sem pejo das forças policiais e militares criminalizando a pobreza e reprimindo de maneira violenta crimes cujos mandantes encontram-se alhures, estamos fabricando as bombas-relógio que vão detonar nosso cotidiano e ameaçam transformar-nos em médio ou curto prazo em uma nova Somália.

 

E isso porque acreditamos que nossas bolhas de convivência são representativas da sociedade como um todo, quando não passam de ambientes localizados. A maioria da população permanece indiferente, tocando suas vidas do jeito que dá, esperando o ônibus para casa enquanto nós marchamos pelas ruas. E votará a partir de uma postura contingente e pragmática, não por convicção política e nem empolgada pelo fla-flu dos setores médios, mas pensando em como colocar comida na mesa e garantir sua sobrevivência.

 

Para quem estamos falando quando formulamos nossos belos textos de análise sociopolítica? Para além da vaidade de ver nossos pensamentos formulados na página escrita existe um círculo vicioso de auto-referenciamento que não conseguimos superar. Não alcançamos a população mais simples, aquela que não frequenta comícios nem passeatas e que não vê a rua como sua porque as autoridades não deixam.

 

Nesse sentido, eu tenho plena consciência de que escrevo apenas para registro histórico e de que as minhas palavras são impotentes diante do cenário que me cerca. Venho votando nos candidatos “menos piores” desde que recebi meu título de eleitor e, eventualmente, anulando o voto quando a escolha que se me apresenta é inaceitável. Mas nem por isso considero que a destruição da política ou de suas estruturas seja viável ou um ganho ao processo civilizatório.

 

Não sou mais criança para acreditar em milagre e nem milagreiros ou em sistemas perfeitos ou em pensamentos mágicos de qualquer espécie. Se queremos uma sociedade justa e equitativa precisamos investir em educação radical e manter a sanidade e a racionalidade mesmo em face do inimaginável. Por isso não acompanho os delírios ufanistas desse meu colega que acredita que a vitória de seu candidato na eleição presidencial deste ano irá resolver de forma mágica todos os problemas do país.

 

Talvez eu seja mesmo uma Cassandra do Apocalipse. Se for esse o caso, aqui estarei de olhos abertos encarando a realidade, sem deixar-me seduzir por cantos de sereias mágicas. Foi um longo caminho para chegar a ser quem sou e pretendo seguir caminhando sempre.

Um registro deste blog

12 dez

MEMÓRIAS DE UM BLOG NÃO FINANCIADO v2

 

Segue aqui uma seleção de textos deste blog, em formato PDF, para melhor entender o que tentei expressar nestes cinco anos.

O APOCALIPSE ZUMBI 

18 set

(com alerta veemente de figuras de linguagem e outros recursos literários)

 

1.

 

Sábado, oito horas da manhã, a campainha toca e Amanda pula da cama apavorada sem saber o dia, a hora ou o lugar. Respira fundo e percebe que era um dia em que poderia ter descansado dormindo até mais tarde, mas agora esse despertar brusco vai espantar de vez qualquer sono. Maldizendo da sorte, calça seus chinelos e vai em direção à porta. Protegida dos olhares externos, dá uma espiada e depara com uma dupla de Testemunhas de Jeová e solta um palavrão involuntário.

A vontade de Amanda é abrir a porta e mandar os dois para um lugar bem sonoro, mas ela não o faz porque tem plena consciência de que, para a mentalidade masoquista desse tipo de crente, qualquer hostilidade que possa ser encarada como “sofrer para espalhar a palavra” é um prazer muito maior até do que converter alguém com suas lorotas. Depois de algum tempo, os dois desistem e vão para a próxima porta invadir a privacidade de outro incauto, desrespeitando qualquer direito constitucional com seu proselitismo fanático.

 

Com a manhã perdida, a professora Amanda desencava um pacote de provas para corrigir e, depois de encher a máquina de lavar, ventilar a casa e retirar da geladeira os ingredientes para o preparo do almoço, senta-se e passa duas horas seguidas corrigindo garranchos, erros de concordância, raciocínios lineares e uma porção de “enrolation” de alunos que não estudam e enchem as provas de “piadinhas” esperando safar-se por causa da progressão continuada. E a professora respira fundo, mas não encontra o ar necessário para seus pulmões e vai cuidar da casa, do almoço e ligar o computador para pagar as contas pela internet.

 

O orçamento está estourando e Amanda não sabe como fará para comer na semana seguinte, mas ao menos os remédios que precisa ainda pode conseguir de graça. Há tempos que não sobra grande coisa para roupas, sapatos e muito menos livros ou cinema. A internet é a companheira mais barata, já que a televisão aberta é tão lastimável que nem dá para descrever.

 

Amanda apostou suas fichas na democracia, nos governos populares, saiu à rua para defender a presidenta legitimamente eleita, assinou dúzias de petições online para defender seus direitos e os das minorias, inundou as redes sociais de textões e memes ultracríticos e, no entanto, o golpe veio, os direitos foram atropelados, seus textos no Facebook valeram-lhe vários bloqueios e uma reclamação na escola que deixou suas aulas por um fio.

 

A professora precisa comer, morar e vestir mesmo que o que ganha mal dê para isso, mas também precisa pensar e expressar seu pensamento e agora não pode mais. O medo das retaliações calou Amanda, notícias de professores sendo perseguidos, espancados, virando balconistas em lojas de conveniência pipocam todos os dias em sua TL e o clima de ameaça é constante. A escola chegou a um ponto em que mandar um aluno prestar atenção pode criar um incidente de proporções desmedidas.

 

Amanda toma seu chá e espera um milagre.

 

2.

 

Josué quer chorar e não consegue. Seu irmão foi assassinado, mas ele não pode sequer pronunciar-lhe o nome porque o pastor disse que seu irmão era um pecador pervertido e o expulsou da igreja e da comunidade. Seus pais passaram a fingir que ele jamais havia existido, nunca mais pronunciaram seu nome e nem falaram com ele ou sobre ele.

 

Mas Josué se lembra o tempo todo de como seu irmão o protegia na escola, quando ser crente era motivo de chacota. Lembra-se de como estava sempre lhe mostrando músicas que eles não poderiam ouvir e falando de temas que eram proibidos. De como ficou assustado quando seu irmão contou publicamente que gostava de rapazes e queria ser feliz. Da solidão que sentiu quando os pais o proibiram até de visitá-lo.

 

E agora Jeremias está morto, assassinado por gente que não gosta de rapazes que gostam de rapazes. E essas e outras pessoas dizem que foi castigo de deus e que seu irmão era um pecador. Josué quer gritar ao mundo que seu irmão era bom, ele não entende o pecado e nem entende deus. E tem medo.

 

E senta-se em seu canto com a bíblia aberta e o choro engasgado, esperando por um milagre…

 

3.

 

Fernando é um sujeito “antenado”. Frequenta a academia e cuida muito para que seu corpo esculpido mantenha os músculos firmes. Come o que o instrutor manda e não tem tempo para “frescuras”. Conversa com seus amigos sobre muitas coisas e tem opiniões fortes como ele mesmo.

 

Fernando jamais leu um livro, na escola estava sempre colando e dando “jeitos” de passar de ano. Não lê revistas também, só as de fisiculturismo. Para se sentir informado, conversa com algum colega que lê as revistas da recepção do dentista. Gosta de filmes de porrada e de carros velozes, se o filme tiver gente dando porrada e carros que correm até acabar em porrada, melhor ainda.

 

Fernando e seus amigos não gostam de gays, mas eles não dizem “gay” e sim “bichona” porque eles são muito machos e não usam palavras de florzinhas. Quando sai na noite e vê um gay, ele tem vontade de desancar de porrada o desgraçado para ver se vira homem na marra. E às vezes, quando está com seus amigos em bando, é exatamente isso o que fazem, espancam gays.

 

Ele e seus amigos não entendem nada de política, mas gostam de candidatos com atitude. Odeiam qualquer um que defenda os “direitos humanos”, que chamam de comunista e “esquerdopata” e também sentariam porrada se seus caminhos se cruzassem, mas os comunistas estão todos nas universidades e nas escolas doutrinando as criancinhas e isso é inaceitável.

 

No dia anterior houve um desfile gay e Fernando e seus amigos ficaram na saída do metrô a postos. Quando viram um rapaz com toda a pinta de “bicha” sair em direção ao terminal começaram a segui-lo. Depois de um tempo, o rapaz percebeu a apressou o passo, essa foi a deixa para que o alcançassem e o espancassem brutalmente, chutando-o quando já se encontrava no chão desacordado. Depois foram comemorar.

 

Hoje Fernando ouviu na televisão que um jovem gay, brutalmente espancado a caminho do terminal, faleceu sozinho na calçada e seu corpo ficou horas aguardando o IML. A enormidade de ter ajudado a assassinar uma pessoa nem sequer perturba o “maromba”, afinal, era só uma “bichona”…

 

Fernando acreditou que derrubando os “esquerdopatas” canalhas acabaria com a corrupção. Quando alguém lhe diz que a corrupção piorou, ele começa logo a berrar para calar o interlocutor porque não quer ter o trabalho de pensar. Agora deu para dizer que direita e esquerda é tudo a mesma coisa e que bom mesmo eram os militares. Por isso, ele e seus amigos resolveram votar num candidato que chamam de “mito” e que vai acabar com a “putaria” dos direitos humanos.

 

Fernando puxa ferro todo dia e espera por um milagre…

 

4.

 

Ricardo é advogado e é liberal, estudou sempre em boas escolas e faculdades bem ranqueadas. Acredita em meritocracia, afinal, filho de um juiz e uma promotora sempre estudou muito e merece conquistar seu espaço. Ele sabe que o mercado só premia quem se esforça e por isso despreza os pobres, os bolsistas e toda essa renca de fracassados que clama por justiça social.

 

Ricardo passou os últimos três anos estudando feito louco para prestar concurso para um juizado federal. Sonha com o prestígio e a estabilidade do cargo, com o alto salário e com o orgulho que seus pais vão sentir quando passar. Ele sabe que vai passar porque é impossível alguém que ralou tanto na vida não conseguir capturar seus sonhos.

 

Ele apoiou o impeachment porque estava cansado de ver a economia sendo gerida por pessoas incapazes de aceitar que o mercado é soberano. Quando vê alguém falando em golpe, imediatamente “carteira” o incauto e coloca para correr. Detesta esses mimimis de esquerdistas e quer mais mesmo é que sejam todos presos.

 

Ultimamente anda preocupado, boatos de suspensão por tempo indeterminado de qualquer concurso público se sucedem em sua TL do Facebook e ele e seus colegas concurseiros se perguntam se já não seria hora de descarar este governo e implantar um parlamentarismo eternamente ao centro para dar jeito neste país desgraçado.

 

Enquanto nada disso acontece, Ricardo estuda suas apostilas. E nas férias torra ao sol em Miami esperando por um milagre…

 

5.

 

E naquele sábado, naquele país, para aquela gente, o único milagre possível acontece. Subitamente os mortos brotam das sepulturas rasgando a terra e quebrando as pedras e marcham rumo aos que pensam que estão vivos. E arrastam-se pelas ruas arrancando as pessoas de seu marasmo e esmigalhando suas carnes tristes e solitárias, enquanto partem seus crânios e consomem seus cérebros mecanicamente. E tanto se esperou que agora já não há para onde correr e aqueles que perceberam sabem que é tarde demais…

JATINHOS

15 jun

Não são apenas os políticos brasileiros que adoram viajar em jatinhos de terceiros. Autoridades dos três poderes, de primeiro e segundo escalão frequentemente são acusadas de prevaricar com a iniciativa privada em viagens suspeitas. E sempre dá em nada.

 

Quando não estão embarcando nos jatinhos de grandes empresários, costumam atormentar a Força Aérea para ter caronas gratuitas em seus aviões. Aparentemente são pessoas “boas demais” para pagar uma passagem e viajar como o mais comum dos mortais. E também viajam muito.

 

Eu estou em vias de completar cinquenta e três anos e posso afirmar que viajei de avião sete vezes em toda a minha vida. A maior parte no período dos governos petistas, quando as passagens passaram a ser mais acessíveis, embora nem tanto assim. Mas muitas autoridades brasileiras viajam de avião do mesmo jeito que eu ligo a máquina de lavar, a cada três dias.

 

A promiscuidade dessas “caronas” nem sequer fica no âmbito da privacidade. É comum ver fotos e outras evidências desses contatos pouco republicanos sendo divulgadas em redes sociais e na imprensa “amiga”. Como uma grande e simpática família feliz.

 

Neste momento aziago (para dizer o mínimo) em que o golpe de Estado atinge uma voracidade pantagruélica, engolindo instituições, direitos, nosso futuro e os sonhos e esperanças das próximas gerações, vemos a devassa realizada entre autoridades que se digladiam. E como não poderiam faltar, denúncias de voos em jatinhos particulares atingindo uma boa parte dos envolvidos. Políticos, gestores, juízes, ministros e golpistas em geral em algum momento privaram da intimidade dos hoje delatores (e de tantos outros), em voos locais ou internacionais.

 

Autoridades que recebem salários cheios de “penduricalhos” varando anos e anos acima do teto constitucional, que pressionam para receber aumentos muito acima da média do que o resto de nós cidadãos comuns recebe, e que ainda por cima percebem seus privilégios como direitos, enquanto nos esfolam vivos para continuar se regalando nos jatinhos dos poderosos do mercado econômico.

 

Se uma devassa tivesse qualquer possibilidade de ser empreendida, eu poderia propor que se começasse afastando os usuários de jatinhos. Que cada vez que um infeliz se candidatasse a qualquer posto nos três poderes (eletivo ou concursado), fosse feita uma análise e indeferidos sumariamente os usuários de jatinhos. Que ao votar, levássemos em conta esse tipo de promiscuidade, antes de compactuar com o nepotismo e o patrimonialismo que historicamente caracterizam a política brasileira.

 

E que as autoridades brasileiras passassem a usar aviões comuns, como o resto dos cidadãos, pagando do próprio bolso (sem auxílio público algum) suas passagens e restringindo sua circulação geográfica ao estritamente necessário. A partir daí, quem sabe, outras “mordomias” poderiam ser repensadas e talvez estivéssemos mais perto de ter “servidores” públicos ao invés de parasitas do Estado. Mas é claro que, no mundo real, o mais provável é que os privilégios cresçam enquanto o golpista espalha nosso dinheiro para angariar apoios.

 

Ironias à parte, fica aqui a sugestão para que algum blogueiro mais antenado comece o levantamento dos “usuários de jatinho” antes das próximas eleições. Garanto que as informações surgidas seriam de utilidade pública indiscutível. Sempre é um começo…

SAUDADE E AÑORANZA: SOBRE TRADUÇÃO, SENSO COMUM E POLÍTICA

15 set

Quem já não ouviu o célebre tango Cuesta abajo, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera? O tema foi escrito em 1934 e os versos finais do estribilho são: “Sueño com el pasado que añoro, el tiempo viejo que lloro y que nunca volverá”.

 

O verbo añorar (em um busca rápida nos dicionários do Google) é traduzido como “sentir saudade” e sua forma substantivada añoranza é traduzida como “saudade, nostalgia”. São palavras que existem no léxico da região em torno do Rio da Prata há mais de cem anos. Como eu não sou linguista, apenas curiosa, não posso asseverar se são formas derivadas de algum dialeto italiano ou apenas evoluções locais da língua espanhola.

 

Mas certamente, você já deve ter ouvido ou lido na mídia, que o português é a única língua do mundo que tem uma palavra específica para designar o sentimento de saudade, não é mesmo?

 

Eu, que vivo no Brasil há quarenta e dois anos, cansei de ver matérias totalmente superficiais e irrelevantes sobre isso em telejornais, programas de variedades e programas de auditório. “Saudade, a palavra que não tem tradução” é uma frase repetida até a náusea, virou até verbete da Wikipédia! E jamais vi algum jornalista mais inteligente sequer fazendo um esforço para encontrar sinônimos em outras línguas.

 

Se pensarmos que traduzir implica em conhecer a cultura em que a palavra foi gerada e encontrar um sinônimo adequado que aproxime seu significado do entendimento do leitor, não existiriam palavras “intraduzíveis”. Mesmo quando o tradutor não encontrasse um sinônimo específico, haveria ao menos uma formação conceitual similar. Afinal, uma das funções da linguagem é expressar o ser humano e seu entorno, e sentir saudades não é patrimônio exclusivo dos lusófonos.

 

A nostalgia e todos os sentimentos correlatos dela advindos existem para todos os seres humanos e deve existir neste mundo ao menos uma meia dúzia de palavras que expressem um significado similar ao termo saudade.

 

Então, por que a mídia insiste nessa bobagem?

 

A construção de um senso comum sobre o que é ser brasileiro nos meios midiáticos merece um estudo crítico. Engolimos cotidianamente uma série de chavões que nos rotulam e categorizam, sem qualquer senso crítico. Para além do jornalismo fácil, uma identidade brasileira vem sendo construída e não é um reflexo do real:

 

– a beleza da mulher brasileira, que é quase uma cafetinagem de nossos corpos e existências;

– o jeitinho brasileiro, que quando convém vira empreendedorismo e quando não sem-vergonhice;

– a excelência no futebol, que permite o endeusamento de qualquer moleque que chuta uma bola e sua crucificação, quando o time encontra um adversário à altura, ou melhor;

– a exuberância da nossa natureza, do nosso carnaval; das culinárias regionais;

– a palavra saudade, que não tem tradução.

 

Todo um conjunto de diferenciais exóticos que nos tornam “únicos”, mas, ao mesmo tempo, folclóricos e periféricos na ordem de importância mundial. É quase uma justificativa para compensar nossa suposta insignificância na ordem das coisas e mostrar um suposto valor, uma identidade que valide nossa existência.

 

A construção desse senso comum em volta de uma série de “nadas” é um primor de manipulação. Afinal, quais mulheres brasileiras são as consideradas belas? O jeitinho significa que o resto do planeta não tem jogo de cintura e nem “se vira”? Todo brasileiro é obrigado a gostar de carnaval e futebol? A construção de uma identidade em torno dessas bobagens está muito aquém dos projetos históricos de Nação formulados no século XX.

 

Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Celso Furtado. Duas gerações de pensadores brasileiros que propuseram modelos de leitura e análise da realidade brasileira, baseados na História e na Economia, à procura de uma identidade e de um projeto de Nação. Pensadores que ficariam estarrecidos com a banalização dessa identidade feita pela mídia.

 

E é neste ponto que eu chamo a atenção para a facilidade com que se pode criar um senso comum sobre qualquer coisa a partir de nada, basta a repetição reiterada e constante dos mesmos argumentos, mesmo que sem qualquer evidência que os corrobore. O poder midiático reside nisso e não é pouca coisa. Não é um poder a ser subestimado.

 

Estamos tendo a evidência concreta disso na última década, com a atuação da mídia como um poder paralelo e que subjuga a narrativa dos poderes políticos constitucionais. Não é à toa que Lula, após ganhar sua primeira eleição, correu para ser legitimado na maior rede televisiva do país, nem é pouco sintomático que políticos dos Legislativos e dos Executivos federais, estaduais e municipais, percam um tempo precioso promovendo suas imagens no meio midiático.

 

Por isso, não é de estranhar que o Judiciário tenha aderido a essas práticas. Para ter sua existência validada e seu trabalho reconhecido, é necessário aparecer na mídia. O como aparecer é que se tornou uma questão decisiva.

 

O desempenho histriônico dos ministros do Supremo na TV Justiça seria risível se estes não fossem os derradeiros guardiões do Direito Constitucional. As coletivas de imprensa ridículas do Ministério Público seriam motivo para anulação de processos, se elas não estivessem intrinsecamente ligadas a uma construção narrativa que visa interferir diretamente nos destinos políticos do país. A mídia encontrou em muitos quadros do Judiciário uma cumplicidade tácita, baseada no ego e na vaidade desses Juízes e Promotores que se consideram salvadores do Brasil.

 

Essa ligação profana, que se intensifica sempre que estamos às vésperas de períodos eleitorais, está produzindo réus sem evidência concreta de crime (apenas convicções), presunção de inocência apenas para os amigos, mesmo quando as provas contra estes se acumulam, e uma visão maniqueísta, primária e tosca do conceito de Justiça.

 

E está virando senso comum. Mesmo quando uma boa parte das pessoas não tenha a capacidade para perceber que isso está longe de ser bom senso ou mesmo senso crítico.

 

A depender da mídia brasileira, teremos em breve um clima de filme do Velho Oeste, com bandidos estereotipados e juízes enforcadores.  Quem duvida, tente convencer qualquer pessoa na rua de que saudade tem tradução em outras línguas sim, e veja o tamanho do estrago já causado.

LUIZA ERUNDINA E DILMA ROUSSEFF: O FARDO DO FEMININO NA PÓLIS PATRIARCAL

10 maio

No ano de 1986 eu trabalhava na extinta Aerovento Equipamentos Industriais, em Várzea Paulista, como arquivista e operadora de telex. Naquele então a única colega de trabalho com quem tinha afinidades, estava firmemente empenhada em me filiar ao PCdoB. Em sua disposição para conquistar minha adesão ao partido, essa jovem me arrumou convite para um evento na Câmara de Vereadores de Jundiaí, que receberia Luiza Erundina, que já não me lembro se estava em campanha ou se já era deputada constituinte.

 

Quando chegamos, o local estava abarrotado e muita gente acompanhava do lado de fora. Nunca vou esquecer a pequenina Luiza Erundina com um conjunto de calça e blusa de tergal de um tom esmaecido e óculos tão grande e tão fora de moda na época. Simpatizei imediatamente, não apenas porque era uma mulher de esquerda, dizendo as coisas que eu gostaria de dizer, mas porque seu despojamento físico era de uma honestidade como nunca vi igual na vida pública.

 

Para os mais jovens deve parecer risível falar de uma época em que não existiam celulares, internet, bancos de dados virtuais e nem mesmo computadores pessoais. Naquela época, se queríamos saber alguma coisa sobre uma pessoa pública deveríamos recorrer aos arquivos físicos dos jornais locais, pesquisando manualmente cada exemplar ou procurar pessoas bem informadas e perguntar. E foi assim que eu me informei sobre Luiza Erundina, perguntando e visitando as bibliotecas para ler os jornais.

 

Minha família era de operários, então não possuíamos casa própria, carro ou telefone. Se eu quisesse ligar para alguém deveria ter sempre fichas telefônicas na bolsa e torcer para que os “orelhões” mais próximos não estivessem depredados. Para me deslocar andava muito a pé e usava o ônibus e o metrô quando ia à Capital. Talvez por isso à época sua figura de mulher vinda de um meio similar ao meu tenha exercido tamanho impacto.

 

Em 1987 minha família conseguiu finalmente a cidadania brasileira e tirei meu título de eleitor. Lamentei profundamente não poder votar em Erundina para prefeita de São Paulo e chorei no meio da calçada ao ver sua foto na capa de uma revista na banca, depois de eleita, no alto do Terraço Itália, ladeada por duas enormes bandeiras vermelhas tremulando ao vento e com a vista panorâmica de São Paulo ao fundo. É uma foto que jamais esquecerei, tão cheia de promessas e tão simbólica, ao mesmo tempo.

 

Quando ela foi eleita, eu já havia deixado para trás o “destino” natural classista e estava cursando História na UNICAMP. Acompanhei sua gestão com admiração e respeito, mas sempre com receio de uma sociedade que não a aceitava. De uma sociedade, cujas instâncias públicas julgavam e condenavam sua condição de mulher solteira, sua idade, suas ideias, sua aparência e suas capacidades.

 

Em 1988 o PT ganhou duas prefeituras imensas (São Paulo e Campinas) e, por ser um partido relativamente modesto, não possuía quadros capacitados para preencher toda a estrutura do executivo. Nós, que acompanhávamos com atenção as conquistas do partido, vimos com crescente alarme como essas vitórias eleitorais atraíram todo tipo de gente ordinária e interesseira para engrossar as administrações petistas. A tendência então conhecida como Articulação ditou a política interna das gestões e empurrou goela abaixo de Luiza Erundina e Jacó Bittar (prefeito de Campinas) alianças inaceitáveis em nome do pragmatismo na hora de governar.

 

Quando vejo alguns situando o momento de capitulação do PT na Carta aos Brasileiros, lembro-me perfeitamente que o pragmatismo passou a imperar quando da necessidade de administrar as duas imensas prefeituras paulistas. Luiza Erundina viu-se obrigada a confiar em gente do calibre de Luiz Eduardo Greenhalgh, que baseava sua biografia em ter sido advogado de presos políticos, mas que acabou por transformar-se em estafeta do banqueiro orelhudo Daniel Dantas. Por aceitar a disciplina do partido, Erundina viu sua honestidade questionada e maculada quando, posteriormente, essas figuras se envolveram em escândalos de corrupção.

 

Nesse trajeto houve 1989, quando Lula perdeu a eleição devido às manobras da mídia e ao preconceito dos setores mais conservadores da população. As vitórias nas prefeituras e uma campanha impecável haviam criado a ilusão de que a vitória estava ao alcance, mas não foi o que aconteceu. E essa derrota criou um constrangimento imenso porque projetou o nome de Luiza Erundina como presidenciável, devido a sua experiência positiva como administradora e à solidez de sua formação política. Para muitos de nós, ela era uma candidata muito mais viável que o Lula para as eleições seguintes.

 

Mas a Articulação de José Dirceu (que jamais apoiou Erundina e queria Plínio de Arruda Sampaio para prefeito de São Paulo) sempre quis o Lula, por isso deu-lhe um “banho de loja” e passou uma década “polindo” sua imagem até levá-lo à presidência e isso significou sacrificar Luiza Erundina da maneira mais covarde. Foi nessa época que eu abandonei a militância mais ativa, tenho votado no PT como aquela escolha do “menos pior”, mas há mais de vinte anos que não cultivo ilusões. Apoio as medidas corretas, as vitórias contra o obscurantismo e os programas sociais, mas não estou cega aos defeitos inerentes à estrutura machista e pragmática do partido.

 

Desde então, sempre que Luiza Erundina se candidata ao Legislativo, voto nela com convicção e nunca tive qualquer motivo para me arrepender. Em todas as pautas em que votou no Congresso, me representou de maneira exemplar e sua figura corajosa em meio a essa fauna de sujeitinhos patéticos me enche de orgulho. Sua dignidade, mesmo quando empurrada para partidos que estão longe de ser minimamente aceitáveis é algo que me enche de tristeza.

 

Para entender o que está acontecendo com Dilma Rousseff é necessário conhecer a trajetória de Luiza Erundina. É necessário saber que, dentro do PT convivem oportunistas que trouxeram alianças para garantir a governabilidade e um grupo que considera o Lula com uma adoração fanática como o quadro mor do partido. E esses grupos não apoiam mulheres que se destacam.

 

Dilma Rousseff foi indicada porque obedeceria à disciplina partidária como apenas uma antiga guerrilheira idealista e raivosamente honesta poderia obedecer. Sua função era manter a casa funcionando para a volta do Lula e suportar em suas costas fortes, de mulher determinada, todos os escândalos e descalabros promovidos pela mídia e pelos aliados de ocasião. E ela o fez.

 

A ausência de carisma e a dificuldade de negociar que tanto lhe criticam estavam nos cálculos daqueles que não suportam que qualquer mulher do partido ofusque a figura onipresente de Lula. E é por isso que hoje boa parte do partido não questiona a decisão de sacrificá-la se isso puder beneficiar uma eventual eleição do Lula. E é o que farão.

 

Ontem, 09 de Maio de 2016, o Congresso brasileiro protagonizou mais uma etapa lamentável da grande mixórdia em que se transformou a guerra interna entre os poderes. Não vou entrar em detalhes sobre esse enredo rocambolesco que nos envergonha internacionalmente dia após dia. Mas quando hoje se fala em pedir a cassação de Waldir Maranhão, me apavora pensar que Luiza Erundina é uma das suplentes da mesa diretora da presidência da Câmara dos Deputados.

 

Não quero acordar um dia para ver Luiza Erundina presenciar impotente á imolação pública de Dilma Rousseff, realizada por um Senado repleto de figuras asquerosas, plasticadas, tingidas e cheias de botox e colágeno, chafurdando na lama das negociatas e com síndrome de macho alfa que se recusa a envelhecer. Mesmo com todas as diferenças políticas entre as duas, não creio que passe despercebido a Luiza Erundina que o destino de Dilma Rousseff é uma repetição de sua própria trajetória, apenas amplificada pela dimensão do que se encontra envolvido.

 

E enquanto isso o partido articula a futura candidatura do Lula. Como João Romão sendo homenageado enquanto Bertoleza era arrastada de volta à escravidão…