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JATINHOS

15 jun

Não são apenas os políticos brasileiros que adoram viajar em jatinhos de terceiros. Autoridades dos três poderes, de primeiro e segundo escalão frequentemente são acusadas de prevaricar com a iniciativa privada em viagens suspeitas. E sempre dá em nada.

 

Quando não estão embarcando nos jatinhos de grandes empresários, costumam atormentar a Força Aérea para ter caronas gratuitas em seus aviões. Aparentemente são pessoas “boas demais” para pagar uma passagem e viajar como o mais comum dos mortais. E também viajam muito.

 

Eu estou em vias de completar cinquenta e três anos e posso afirmar que viajei de avião sete vezes em toda a minha vida. A maior parte no período dos governos petistas, quando as passagens passaram a ser mais acessíveis, embora nem tanto assim. Mas muitas autoridades brasileiras viajam de avião do mesmo jeito que eu ligo a máquina de lavar, a cada três dias.

 

A promiscuidade dessas “caronas” nem sequer fica no âmbito da privacidade. É comum ver fotos e outras evidências desses contatos pouco republicanos sendo divulgadas em redes sociais e na imprensa “amiga”. Como uma grande e simpática família feliz.

 

Neste momento aziago (para dizer o mínimo) em que o golpe de Estado atinge uma voracidade pantagruélica, engolindo instituições, direitos, nosso futuro e os sonhos e esperanças das próximas gerações, vemos a devassa realizada entre autoridades que se digladiam. E como não poderiam faltar, denúncias de voos em jatinhos particulares atingindo uma boa parte dos envolvidos. Políticos, gestores, juízes, ministros e golpistas em geral em algum momento privaram da intimidade dos hoje delatores (e de tantos outros), em voos locais ou internacionais.

 

Autoridades que recebem salários cheios de “penduricalhos” varando anos e anos acima do teto constitucional, que pressionam para receber aumentos muito acima da média do que o resto de nós cidadãos comuns recebe, e que ainda por cima percebem seus privilégios como direitos, enquanto nos esfolam vivos para continuar se regalando nos jatinhos dos poderosos do mercado econômico.

 

Se uma devassa tivesse qualquer possibilidade de ser empreendida, eu poderia propor que se começasse afastando os usuários de jatinhos. Que cada vez que um infeliz se candidatasse a qualquer posto nos três poderes (eletivo ou concursado), fosse feita uma análise e indeferidos sumariamente os usuários de jatinhos. Que ao votar, levássemos em conta esse tipo de promiscuidade, antes de compactuar com o nepotismo e o patrimonialismo que historicamente caracterizam a política brasileira.

 

E que as autoridades brasileiras passassem a usar aviões comuns, como o resto dos cidadãos, pagando do próprio bolso (sem auxílio público algum) suas passagens e restringindo sua circulação geográfica ao estritamente necessário. A partir daí, quem sabe, outras “mordomias” poderiam ser repensadas e talvez estivéssemos mais perto de ter “servidores” públicos ao invés de parasitas do Estado. Mas é claro que, no mundo real, o mais provável é que os privilégios cresçam enquanto o golpista espalha nosso dinheiro para angariar apoios.

 

Ironias à parte, fica aqui a sugestão para que algum blogueiro mais antenado comece o levantamento dos “usuários de jatinho” antes das próximas eleições. Garanto que as informações surgidas seriam de utilidade pública indiscutível. Sempre é um começo…

SAUDADE E AÑORANZA: SOBRE TRADUÇÃO, SENSO COMUM E POLÍTICA

15 set

Quem já não ouviu o célebre tango Cuesta abajo, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera? O tema foi escrito em 1934 e os versos finais do estribilho são: “Sueño com el pasado que añoro, el tiempo viejo que lloro y que nunca volverá”.

 

O verbo añorar (em um busca rápida nos dicionários do Google) é traduzido como “sentir saudade” e sua forma substantivada añoranza é traduzida como “saudade, nostalgia”. São palavras que existem no léxico da região em torno do Rio da Prata há mais de cem anos. Como eu não sou linguista, apenas curiosa, não posso asseverar se são formas derivadas de algum dialeto italiano ou apenas evoluções locais da língua espanhola.

 

Mas certamente, você já deve ter ouvido ou lido na mídia, que o português é a única língua do mundo que tem uma palavra específica para designar o sentimento de saudade, não é mesmo?

 

Eu, que vivo no Brasil há quarenta e dois anos, cansei de ver matérias totalmente superficiais e irrelevantes sobre isso em telejornais, programas de variedades e programas de auditório. “Saudade, a palavra que não tem tradução” é uma frase repetida até a náusea, virou até verbete da Wikipédia! E jamais vi algum jornalista mais inteligente sequer fazendo um esforço para encontrar sinônimos em outras línguas.

 

Se pensarmos que traduzir implica em conhecer a cultura em que a palavra foi gerada e encontrar um sinônimo adequado que aproxime seu significado do entendimento do leitor, não existiriam palavras “intraduzíveis”. Mesmo quando o tradutor não encontrasse um sinônimo específico, haveria ao menos uma formação conceitual similar. Afinal, uma das funções da linguagem é expressar o ser humano e seu entorno, e sentir saudades não é patrimônio exclusivo dos lusófonos.

 

A nostalgia e todos os sentimentos correlatos dela advindos existem para todos os seres humanos e deve existir neste mundo ao menos uma meia dúzia de palavras que expressem um significado similar ao termo saudade.

 

Então, por que a mídia insiste nessa bobagem?

 

A construção de um senso comum sobre o que é ser brasileiro nos meios midiáticos merece um estudo crítico. Engolimos cotidianamente uma série de chavões que nos rotulam e categorizam, sem qualquer senso crítico. Para além do jornalismo fácil, uma identidade brasileira vem sendo construída e não é um reflexo do real:

 

– a beleza da mulher brasileira, que é quase uma cafetinagem de nossos corpos e existências;

– o jeitinho brasileiro, que quando convém vira empreendedorismo e quando não sem-vergonhice;

– a excelência no futebol, que permite o endeusamento de qualquer moleque que chuta uma bola e sua crucificação, quando o time encontra um adversário à altura, ou melhor;

– a exuberância da nossa natureza, do nosso carnaval; das culinárias regionais;

– a palavra saudade, que não tem tradução.

 

Todo um conjunto de diferenciais exóticos que nos tornam “únicos”, mas, ao mesmo tempo, folclóricos e periféricos na ordem de importância mundial. É quase uma justificativa para compensar nossa suposta insignificância na ordem das coisas e mostrar um suposto valor, uma identidade que valide nossa existência.

 

A construção desse senso comum em volta de uma série de “nadas” é um primor de manipulação. Afinal, quais mulheres brasileiras são as consideradas belas? O jeitinho significa que o resto do planeta não tem jogo de cintura e nem “se vira”? Todo brasileiro é obrigado a gostar de carnaval e futebol? A construção de uma identidade em torno dessas bobagens está muito aquém dos projetos históricos de Nação formulados no século XX.

 

Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Celso Furtado. Duas gerações de pensadores brasileiros que propuseram modelos de leitura e análise da realidade brasileira, baseados na História e na Economia, à procura de uma identidade e de um projeto de Nação. Pensadores que ficariam estarrecidos com a banalização dessa identidade feita pela mídia.

 

E é neste ponto que eu chamo a atenção para a facilidade com que se pode criar um senso comum sobre qualquer coisa a partir de nada, basta a repetição reiterada e constante dos mesmos argumentos, mesmo que sem qualquer evidência que os corrobore. O poder midiático reside nisso e não é pouca coisa. Não é um poder a ser subestimado.

 

Estamos tendo a evidência concreta disso na última década, com a atuação da mídia como um poder paralelo e que subjuga a narrativa dos poderes políticos constitucionais. Não é à toa que Lula, após ganhar sua primeira eleição, correu para ser legitimado na maior rede televisiva do país, nem é pouco sintomático que políticos dos Legislativos e dos Executivos federais, estaduais e municipais, percam um tempo precioso promovendo suas imagens no meio midiático.

 

Por isso, não é de estranhar que o Judiciário tenha aderido a essas práticas. Para ter sua existência validada e seu trabalho reconhecido, é necessário aparecer na mídia. O como aparecer é que se tornou uma questão decisiva.

 

O desempenho histriônico dos ministros do Supremo na TV Justiça seria risível se estes não fossem os derradeiros guardiões do Direito Constitucional. As coletivas de imprensa ridículas do Ministério Público seriam motivo para anulação de processos, se elas não estivessem intrinsecamente ligadas a uma construção narrativa que visa interferir diretamente nos destinos políticos do país. A mídia encontrou em muitos quadros do Judiciário uma cumplicidade tácita, baseada no ego e na vaidade desses Juízes e Promotores que se consideram salvadores do Brasil.

 

Essa ligação profana, que se intensifica sempre que estamos às vésperas de períodos eleitorais, está produzindo réus sem evidência concreta de crime (apenas convicções), presunção de inocência apenas para os amigos, mesmo quando as provas contra estes se acumulam, e uma visão maniqueísta, primária e tosca do conceito de Justiça.

 

E está virando senso comum. Mesmo quando uma boa parte das pessoas não tenha a capacidade para perceber que isso está longe de ser bom senso ou mesmo senso crítico.

 

A depender da mídia brasileira, teremos em breve um clima de filme do Velho Oeste, com bandidos estereotipados e juízes enforcadores.  Quem duvida, tente convencer qualquer pessoa na rua de que saudade tem tradução em outras línguas sim, e veja o tamanho do estrago já causado.

LUIZA ERUNDINA E DILMA ROUSSEF: O FARDO DO FEMININO NA PÓLIS PATRIARCAL

10 maio

No ano de 1986 eu trabalhava na extinta Aerovento Equipamentos Industriais, em Várzea Paulista, como arquivista e operadora de telex. Naquele então a única colega de trabalho com quem tinha afinidades, estava firmemente empenhada em me filiar ao PCdoB. Em sua disposição para conquistar minha adesão ao partido, essa jovem me arrumou convite para um evento na Câmara de Vereadores de Jundiaí, que receberia Luiza Erundina, que já não me lembro se estava em campanha ou se já era deputada constituinte.

 

Quando chegamos, o local estava abarrotado e muita gente acompanhava do lado de fora. Nunca vou esquecer a pequenina Luiza Erundina com um conjunto de calça e blusa de tergal de um tom esmaecido e óculos tão grande e tão fora de moda na época. Simpatizei imediatamente, não apenas porque era uma mulher de esquerda, dizendo as coisas que eu gostaria de dizer, mas porque seu despojamento físico era de uma honestidade como nunca vi igual na vida pública.

 

Para os mais jovens deve parecer risível falar de uma época em que não existiam celulares, internet, bancos de dados virtuais e nem mesmo computadores pessoais. Naquela época, se queríamos saber alguma coisa sobre uma pessoa pública deveríamos recorrer aos arquivos físicos dos jornais locais, pesquisando manualmente cada exemplar ou procurar pessoas bem informadas e perguntar. E foi assim que eu me informei sobre Luiza Erundina, perguntando e visitando as bibliotecas para ler os jornais.

 

Minha família era de operários, então não possuíamos casa própria, carro ou telefone. Se eu quisesse ligar para alguém deveria ter sempre fichas telefônicas na bolsa e torcer para que os “orelhões” mais próximos não estivessem depredados. Para me deslocar andava muito a pé e usava o ônibus e o metrô quando ia à Capital. Talvez por isso à época sua figura de mulher vinda de um meio similar ao meu tenha exercido tamanho impacto.

 

Em 1987 minha família conseguiu finalmente a cidadania brasileira e tirei meu título de eleitor. Lamentei profundamente não poder votar em Erundina para prefeita de São Paulo e chorei no meio da calçada ao ver sua foto na capa de uma revista na banca, depois de eleita, no alto do Terraço Itália, ladeada por duas enormes bandeiras vermelhas tremulando ao vento e com a vista panorâmica de São Paulo ao fundo. É uma foto que jamais esquecerei, tão cheia de promessas e tão simbólica, ao mesmo tempo.

 

Quando ela foi eleita, eu já havia deixado para trás o “destino” natural classista e estava cursando História na UNICAMP. Acompanhei sua gestão com admiração e respeito, mas sempre com receio de uma sociedade que não a aceitava. De uma sociedade, cujas instâncias públicas julgavam e condenavam sua condição de mulher solteira, sua idade, suas ideias, sua aparência e suas capacidades.

 

Em 1988 o PT ganhou duas prefeituras imensas (São Paulo e Campinas) e, por ser um partido relativamente modesto, não possuía quadros capacitados para preencher toda a estrutura do executivo. Nós, que acompanhávamos com atenção as conquistas do partido, vimos com crescente alarme como essas vitórias eleitorais atraíram todo tipo de gente ordinária e interesseira para engrossar as administrações petistas. A tendência então conhecida como Articulação ditou a política interna das gestões e empurrou goela abaixo de Luiza Erundina e Jacó Bittar (prefeito de Campinas) alianças inaceitáveis em nome do pragmatismo na hora de governar.

 

Quando vejo alguns situando o momento de capitulação do PT na Carta aos Brasileiros, lembro-me perfeitamente que o pragmatismo passou a imperar quando da necessidade de administrar as duas imensas prefeituras paulistas. Luiza Erundina viu-se obrigada a confiar em gente do calibre de Luiz Eduardo Greenhalgh, que baseava sua biografia em ter sido advogado de presos políticos, mas que acabou por transformar-se em estafeta do banqueiro orelhudo Daniel Dantas. Por aceitar a disciplina do partido, Erundina viu sua honestidade questionada e maculada quando, posteriormente, essas figuras se envolveram em escândalos de corrupção.

 

Nesse trajeto houve 1989, quando Lula perdeu a eleição devido às manobras da mídia e ao preconceito dos setores mais conservadores da população. As vitórias nas prefeituras e uma campanha impecável haviam criado a ilusão de que a vitória estava ao alcance, mas não foi o que aconteceu. E essa derrota criou um constrangimento imenso porque projetou o nome de Luiza Erundina como presidenciável, devido a sua experiência positiva como administradora e à solidez de sua formação política. Para muitos de nós, ela era uma candidata muito mais viável que o Lula para as eleições seguintes.

 

Mas a Articulação de José Dirceu (que jamais apoiou Erundina e queria Plínio de Arruda Sampaio para prefeito de São Paulo) sempre quis o Lula, por isso deu-lhe um “banho de loja” e passou uma década “polindo” sua imagem até levá-lo à presidência e isso significou sacrificar Luiza Erundina da maneira mais covarde. Foi nessa época que eu abandonei a militância mais ativa, tenho votado no PT como aquela escolha do “menos pior”, mas há mais de vinte anos que não cultivo ilusões. Apoio as medidas corretas, as vitórias contra o obscurantismo e os programas sociais, mas não estou cega aos defeitos inerentes à estrutura machista e pragmática do partido.

 

Desde então, sempre que Luiza Erundina se candidata ao Legislativo, voto nela com convicção e nunca tive qualquer motivo para me arrepender. Em todas as pautas em que votou no Congresso, me representou de maneira exemplar e sua figura corajosa em meio a essa fauna de sujeitinhos patéticos me enche de orgulho. Sua dignidade, mesmo quando empurrada para partidos que estão longe de ser minimamente aceitáveis é algo que me enche de tristeza.

 

Para entender o que está acontecendo com Dilma Roussef é necessário conhecer a trajetória de Luiza Erundina. É necessário saber que, dentro do PT convivem oportunistas que trouxeram alianças para garantir a governabilidade e um grupo que considera o Lula com uma adoração fanática como o quadro mor do partido. E esses grupos não apoiam mulheres que se destacam.

 

Dilma Roussef foi indicada porque obedeceria à disciplina partidária como apenas uma antiga guerrilheira idealista e raivosamente honesta poderia obedecer. Sua função era manter a casa funcionando para a volta do Lula e suportar em suas costas fortes, de mulher determinada, todos os escândalos e descalabros promovidos pela mídia e pelos aliados de ocasião. E ela o fez.

 

A ausência de carisma e a dificuldade de negociar que tanto lhe criticam estavam nos cálculos daqueles que não suportam que qualquer mulher do partido ofusque a figura onipresente de Lula. E é por isso que hoje boa parte do partido não questiona a decisão de sacrificá-la se isso puder beneficiar uma eventual eleição do Lula. E é o que farão.

 

Ontem, 09 de Maio de 2016, o Congresso brasileiro protagonizou mais uma etapa lamentável da grande mixórdia em que se transformou a guerra interna entre os poderes. Não vou entrar em detalhes sobre esse enredo rocambolesco que nos envergonha internacionalmente dia após dia. Mas quando hoje se fala em pedir a cassação de Waldir Maranhão, me apavora pensar que Luiza Erundina é uma das suplentes da mesa diretora da presidência da Câmara dos Deputados.

 

Não quero acordar um dia para ver Luiza Erundina presenciar impotente á imolação pública de Dilma Roussef, realizada por um Senado repleto de figuras asquerosas, plasticadas, tingidas e cheias de botox e colágeno, chafurdando na lama das negociatas e com síndrome de macho alfa que se recusa a envelhecer. Mesmo com todas as diferenças políticas entre as duas, não creio que passe despercebido a Luiza Erundina que o destino de Dilma Roussef é uma repetição de sua própria trajetória, apenas amplificada pela dimensão do que se encontra envolvido.

 

E enquanto isso o partido articula a futura candidatura do Lula. Como João Romão sendo homenageado enquanto Bertoleza era arrastada de volta à escravidão…

AS DELATORAS MEMÓRIAS DE FHC

29 out

A edição 109 da Revista Piauí, referente ao mês de outubro corrente, trouxe uma seleção de trechos dos Diários da Presidência, material produzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na vigência de seu mandato (entre 1995 e 2002), e que será lançado em vários volumes pela Companhia das Letras entre 2015 e 2017.

São quase dez páginas, naquele formato clássico da revista, que atormenta os leitores preguiçosos e leva mais de um despeitado a classificá-la como “esnobe”, assim como a seus leitores. Eu gosto da Piauí, onde mais você encontra hoje na imprensa nacional artigos bem elaborados, sem a pressão imediatista da audiência pela audiência? Nem sempre concordo com os articulistas, mas aprecio o espaço de diálogo oferecido.

Li atentamente as “memórias” daquele que, em meus tempos de pós-graduanda chamávamos de “o déspota esclarecido” e confirmaram bastante a imagem que tenho feito dele durante estes anos todos. Há uma profusão no texto de episódios em que o personagem é ovacionado, aplaudido de pé, dá lições de História, enfim aquele ego que todos nós conhecemos.

Entretanto, o que mais salta à vista nos trechos selecionados para divulgação é uma sucessão de barganhas, negociatas e chantagens promovidas pelas figuras de sempre do PMDB, PFL (hoje DEM) e PPB (hoje PP). Apenas no episódio referente à chacina de Eldorado dos Carajás e nas negociações com a CUT, Fernando Henrique reclama da ação do PT. Em todos os outros episódios narrados, o ex-presidente perde o sono às voltas com Sarney, ACM, Marco Maciel, Maluf, Jáder Barbalho e outros tantos que todos nós conhecemos de sobra.

Para salvaguardar o Real e manter a política neoliberal, FHC não hesitou em negociar e sacrificar seus quadros mais valiosos (o episódio da ex-ministra Dorotéa Werneck fala por si), oferecendo aos congressistas e seus partidos toda sorte de cargos e ministérios. O fato de deixar claro que essa política de barganhas o enoja e classificar como “armadilha” a rotina de negociar com o Congresso, torna ainda mais incompreensível sua atitude atual.

É bastante característica a maneira oportunista como se aproveita, hoje, para explorar os factoides produzidos pela mídia e denunciar o PT como foco da corrupção, quando todos os ingredientes desses escândalos já estavam presentes em sua gestão. Sendo que, não tendo a capacidade e a vontade política para combatê-los, preferiu usar o “engavetador” Geraldo Brindeiro para desaparecer com os processos e a barganha para sabotar as CPI’s.

Estou esperando o lançamento do livro completo para verificar se estes trechos publicados pela Piauí são apenas um chamariz ou se lá se encontram mais evidências da hipocrisia do discurso atual do ex-presidente. Só espero que não seja obrigada a ler uma gigantesca egotripp em lugar da análise política que é de se esperar.

Detalhe, lá pelas tantas encontro duas frases que me levam às gargalhadas:

Mais tarde tive uma longa conversa com Serra. Aí sim, fomos mais a fundo a respeito da nossa relação. (…)” (p.25);

ao que se segue a narrativa de um ajuste medíocre de contas entre os dois sobre a postura de Serra em relação ao Real e às reformas. Imagino os humoristas e chargistas políticos delirando com imagens do acontecido.

Sempre soube que Fernando Henrique escrevia mal, aquele seu malfadado livrinho Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962) despertava a cruel ironia de muitos dos meus professores no IFCH da UNICAMP, pelo simplismo e a ignorância crassa sobre a escravidão. Entretanto, não esperava um trecho como este, de ambiguidade homoerótica, que parece ter passado despercebido tanto ao autor quanto à equipe de edição.

Enfim, aguardemos as “memórias”…