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VONTADE DE IR MORAR NO MATO COM CACHORROS

27 maio

E eis que chegou o momento em que não basta apenas ter opiniões, acima de tudo torna-se necessário ter projetos. Para amadurecer como sociedade, precisamos pensar e explicitar reivindicações que vão além do irrealizável ou das pautas alheias. Para superar a atual crise do modelo neoliberal, precisamos admitir que o pensamento de esquerda também enfrenta um isolamento abissal.

 

Diante de um fato consumado, que é um locaute das transportadoras travestido de greve de caminhoneiros, novamente nos transformamos em um mar de estilhaços apontados uns contra os outros. Que o movimento em curso é complexo, não há dúvidas, que a realidade vai muito além de escolher lados e que as vozes que se sobrepõem formam uma melopeia de discursos desencontrados, não há como negar. Mas podemos destrinchar algumas meadas e acompanhar seu percurso.

 

  1. Que a imprensa chame de “greve” não surpreende, afinal, já se vão ao menos quatro anos em que a grande mídia não faz nada além de desinformar. Entretanto, que intelectuais acadêmicos e de partidos de esquerda usem a mesma terminologia para um movimento que se autointitula autônomo, aí já não dá para aceitar. Greve se faz contra patrão, se eu sou meu próprio patrão, qual o sentido da greve? E se os donos das transportadoras instrumentalizam tanto seus funcionários quanto seus prestadores de serviço autônomos para usá-los como arma contra o governo (qualquer que seja este), isso se chama locaute e está longe de ser uma greve.
  2. Greves têm pautas definidas e, mesmo quando pedem acima do que podem receber, os sindicatos e associações de classe o fazem para ter um patamar de negociação. Reivindicações genéricas, sem foco e impossíveis de serem cumpridas (como foi o caso das jornadas de junho de 2013) tendem a perder-se na própria incapacidade de designar negociadores. Se ninguém nos representa, quem irá nos defender?
  3. A participação de empresários com solicitações de intervenção militar e a permanência dos caminhoneiros parados na estrada, a despeito da passagem do tempo e das perdas econômicas causadas, parece indicar além do locaute, a intenção de promover o caos e desabastecimento para tornar necessária a presença do exército nas ruas.
  4. A ideia de alguns setores da esquerda de tentar cooptar ou conscientizar essa massa de manobra e “colar” uma pauta progressista nesse mar de reacionarismo seria cômica se não fosse trágica. Principalmente porque é um pensamento de curto prazo, com fins claramente eleitoreiros e que ainda prega o Fora Temer quando este já não significa mais nada.
  5. Neoliberal ou desenvolvimentista, os dois projetos dependem dessa matriz energética medonha que é o combustível fóssil. A diferença é que, enquanto o desenvolvimentista investe na consolidação de um projeto nacional e autossuficiente, o neoliberal privatiza a benefício do capital estrangeiro e reduz seu próprio povo à miséria e à escravidão. Mas nenhum dos dois é capaz de discutir uma alternativa energética mais limpa e mais barata, e olha que vivemos no Brasil, local rico em ventos, luz solar e biomassa. Se a esquerda realmente tivesse um projeto de futuro, estaria pautando essa discussão, ao invés de virar macaca de auditório das transportadoras.
  6. Nesse sentido, apesar de todo o meu respeito pelo ex-presidente Lula, o espetáculo do lançamento de sua pré-candidatura à presidência me cobriu de vergonha alheia. Messianismo e sebastianismo se misturam em uma ingenuidade de dar pena, como se fosse possível dado o grau de descalabro que enfrentamos, que uma única pessoa fosse “salvar” o país de maneira milagrosa e sobrenatural. E aí entra algo que eu considero a mais absoluta desonestidade intelectual por parte dos promotores desse espetáculo de manipulação das ilusões dos eleitores mais ingênuos. Uma vez que o ex-presidente está preso, sem a menor possibilidade concreta de disputar uma eleição, mesmo se o STF anular o processo do triplex, o tucanato judiciário tem mais uma série de processos abertos que pode acelerar e conseguir novas condenações. E, em caso de milagre milagroso, se conseguir disputar e ganhar, ainda terá o Congresso e o Judiciário contra e se verá impossibilitado de governar. E tirando aqueles militantes mais fanáticos (principalmente o povo igrejeiro que acredita em milagres) eu tenho a impressão que a maior parte dos intelectuais do partido sabe de tudo isso, mas está brincando com os sentimentos da militância, “jogando para a galera” e pensando muito mais em como isso será relatado nos livros de História do futuro, do que pensando em benefício do país e de todos nós.
  7. Nesse sentido, se você me segue aqui no blog sabe que desde o ano passado eu venho cantando a bola de que não haverá eleições e, se houver, as cartas estarão marcadas. Até me animei com a possibilidade de formação de uma frente ampla progressista, mas os nomes que surgiram não me apaixonam e até me assustam, dada sua capacidade limitada de lidar com grandes crises como a que ora atravessamos. E considerando o modo como estamos nos atacando nas redes sociais, vamos continuar fragmentados, fragilizados e impotentes enquanto o golpe já se consolidou e a direita institucional patina sem candidato viável.
  8. Eu quero um projeto sensato, plausível, com a humildade de admitir que nós da esquerda não somos nem perfeitos e nem infalíveis. Sem demagogia, sem messianismo, sem promessas, mas com cheiro de futuro. E não vejo projeto algum, só os mesmos chavões e clichês batidos.

 

E é por isso que o desânimo me ataca e me faz pensar na possibilidade de virar ermitã, no meio do mato, rodeada de cachorros e para sempre longe do hospício ambulante das redes sociais. Se não o faço é porque me falta o numerário para poder abandonar esta vida de trabalho e porque a família ainda é uma âncora poderosa. Mas se o futuro Mad Max, que os últimos dias deixaram entrever, se tornar realidade…

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FÊNIX

14 maio

Ao fim do ano passado, considerei que este blog já havia cumprido seu objetivo, reuni o material produzido em um PDF e comecei a planejar um podcast sobre Teoria de História e Historiografia. A escalada da violência verbal e virtual era tamanha que considerei 2018 como o ano em que seria mais prudente ficar longe das redes sociais, ao menos até passada a eleição. Imaginava que este ano seria difícil e aziago, como os quatro anteriores, mas não pensava que o esgarçamento do processo civilizatório seria tão rápido.

 

Quando da covarde execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson, e toda a violência verbal (as notícias inventadas pelos office-boys do golpe e o papel asqueroso e demagógico da grande mídia) que se seguiu, retomei o blog e comecei a ponderar mais amargamente sobre o fardo que ora carregamos. Estamos em maio e o Dia das Mães Sangrento (e as chacinas que se lhe seguiram) está completando doze anos, e aqui no Tucanistão ainda se resolve a ocupação do espaço urbano queimando os pobres e suas moradias. Na iminência de uma nova eleição, a paisagem política chega a ser desesperadora de tão previsível.

 

Mas, evidentemente, o tom de urgência (e a velocidade frenética do bombardeio informativo) das mídias que nos rodeiam e sufocam promove a sensação de que estamos próximos ao fim do mundo. Que as escolhas são todas de vida ou morte, que a moral é binária e que as pessoas são burdamente unidimensionais. Que se o rumo da vida e das coisas não seguir um certo roteiro, estaremos fadados ao Apocalipse.

 

Nós da esquerda somos tão tristemente conscientes de nossa identidade ontológica, como agentes da História, que temos a tendência a racionalizar nossos atos, para ter um mínimo de controle sobre o legado da memória que deixaremos. Talvez porque muito de nós sejamos oriundos das Ciências Humanas, em que o grau de autoconsciência é intensificado à medida que amadurecemos nossas percepções da vida e do mundo. O certo é que a obsessão atual por controlar narrativas não é nova e nem original, uma vez que escalada desta atmosfera anticlimática também não o é.

 

Da mesma forma que o martírio sebastianista vivido hoje por Lula (eterna figura de proa, capitão, imediato e timoneiro do PT) parece rememorar sacrifícios similares, tanto históricos quanto míticos. O que é novo (ao menos para mim) é esse clima de histeria coletiva em setores mais aguerridos da militância, sujeito a paroxismos de desespero e incorporando uma cegueira seletiva assustadora em relação a suas possibilidades reais do participar da eleição ou mesmo de ser libertado da prisão. Só me lembro de ter vivido tal desespero em função de uma eleição em 1971, no Uruguay, quando ainda acreditávamos que se poderia barrar a iminente ditadura com uma vitória nas urnas. E eu só tinha sete anos.

 

Atualmente, quando olho à minha volta e procuro as panelas que tanto soaram em favor do golpe de 2016, só encontro sussurros e vergonha. Do mesmo modo que as esquerdinhas que ajudaram a promover o clima de falsa contestação social que favoreceu ao golpe, os paneleiros & friends association hoje mal envergam suas camisas amarelas (mesmo em ano de Copa) na ânsia de passar despercebidos. E não é apenas porque o governo golpista promoveu o desmonte sistemático da sociedade como a conhecíamos, atingindo-os como dano colateral na sanha de penalizar os pobres.

 

É também porque a orgia de ódio desenfreado a que se entregaram sem pensar nas conseqüências hoje contagiou amplos setores da população e parece um romper de barragem, semeando destruição e pânico. Na esteira desse comportamento deplorável crescem as chances eleitorais daquele deputado lastimável, misto de protofascista e macho alfa de última categoria, tão admirado por velhos e adolescentes. E aquela classe média composta por funcionários públicos e profissionais liberais (hoje esmagada pela política econômica suicida dos golpistas) assiste atônita ao seu ódio sendo cuspido de volta pelos partidários da ditadura e da tortura.

 

E, nesse sentido, eu não seria humana se a tentação de dizer “bem feito” e “eu avisei” não me atazanasse a cada vez que encontro essas figuras patéticas na feirinha de orgânicos ou no supermercado. E não apenas isso, a vontade que me acomete quando os vejo desviando o olhar das minhas camisetas vermelhas é de desejar que esse deputado brutamontes e ignorante ganhe mesmo as eleições e termine o trabalho de destruição que esses paneleiros sem cérebro começaram. Aos liberais para que aprendam finalmente que a economia não é nada sem a História, aos ignorantes para que percebam que os atos odientos tem conseqüências trágicas e aos defensores da ditadura e da tortura para que finalmente sofram na própria carne o que desejam aos outros.

 

E me surpreendo com a tentação de jogar de vez a matéria fecal no ventilador e sair fazendo a crítica da crítica da crítica. Já que os “companheiros” de sempre passam a vida cobrando autocrítica do resto de nós, mas nunca assumem as idiotices que fazem. Ou simplesmente fechar minhas redes e me refugiar entre os livros pela próxima década.

 

E já que os militantes (e uma parte da classe média apavorada) associam o tal deputado ao Apocalipse, por que não? Talvez o país precise implodir e queimar até a mais insignificante estrutura para purgar esse ódio malsão e toda essa mesquinharia ordinária que minou o projeto progressista. Para que renasça como uma fênix ou para que se acabe de vez nas cinzas do próprio opróbrio.

 

Só o tempo dirá o que será necessário para reconstruir a civilidade. Certo é que remendos e paliativos não garantem a superação das crises e apenas adiam a hecatombe que nos ameaça. Então, por que não abraçar de vez os fados e mergulhar no abismo de olhos abertos?

 

E que 2018 seja o fim deste interregno medonho, mesmo que o que nos espera seja o caos, ainda será melhor que esta escalada sem fim de expectativas anticlimáticas. Ou não?

 

Concluo com um aviso. Este texto está repleto de oposições dialéticas, paradoxos, ironia, sarcasmo, hipérboles e metáforas. Lamentavelmente, vivemos uma época tão aziaga pela superficialidade dos leitores, que é preciso avisar. Paz.

TRAGÉDIA E FARSA

6 abr

Lá pelo fim dos anos 80, quem foi meu contemporâneo na graduação há de lembrar, a disciplina de Brasil III (que contemplava o período republicano) foi oferecida no IFCH da UNICAMP por Maria José Trevisan, conhecida como Mara. Era uma professora com um perfil não tão brilhante e assertivo quanto as estrelas que brilhavam na constelação do nosso curso de História, mas sempre foi muito querida por nós alunos. Guardo até o hoje o exemplar de seu livro com dedicatória, que ela ofertou a cada um de nós por ocasião de nossa formatura.

 

Ao abordar a disciplina, como era costume no IFCH, a ementa contemplava os principais debates intelectuais e historiográficos pensando o Brasil do período republicano. E não era pouca a expectativa, afinal a minha turma tivera Brasil I com Silvia Hunold Lara e Brasil II com Sidney Chalhoub. Mara, nesse sentido, me deixou uma lembrança muito honesta de alguém que sabia das próprias limitações e estava ali aprendendo junto conosco, o que (no final) possibilitou uma das disciplinas mais livres e proveitosas que já cursei.

 

Um dos debates mais interessantes que fizemos foi sobre a “polêmica das ideias”. Para quem não é da área vale uma rápida explicação, na década de ‘70 Roberto Schwartz, que na época era um dos maiores especialistas em Machado de Assis, publicou uma série de ensaios intitulada Ao vencedor as batatas, alusão evidente ao romance Quincas Borba. Ali se encontra o texto As ideias fora do lugar, que suscitou a polêmica.

 

Schwartz argumentava que no Brasil as ideias eram retiradas de contexto e absorvidas pelos grupos sociais dominantes para adaptar-se aos seus interesses. Tomava como exemplo o ideário liberal do século XIX, que considerava absolutamente desvirtuado ao ser pervertido nas argumentações tanto de liberais quanto de conservadores, ao sabor da ocasião ou das expectativas. E enveredava por uma análise que localizava o Brasil como um lugar exótico e sui generis fora do tempo e fora da História, onde as coisas aconteciam de modo bizarro (ao menos essa foi a nossa conclusão).

 

Maria Sylvia de Carvalho Franco respondeu a ele com um texto primoroso, alegando que as ideias não apenas estavam no lugar, mas também eram absolutamente coerentes com a vocação predatória das elites brasileiras. Mudando a perspectiva de análise, a autora conseguiu dar sentido e desconstruir a interpretação exótica de Schwartz, que era muito mais literária que histórica. E isso rendeu uma das polêmicas mais interessantes na nossa disciplina, dividindo os que concordavam com Schwartz (e identificavam “jabuticabas” em tudo o que acontecia no Brasil) e os que concordávamos com a Maria Sylvia e não alimentávamos nenhuma ilusão quanto ao caráter histórico das elites locais.

 

Elites perfeitamente enquadradas no mais selvagem capitalismo predatório, que aceitavam com alegria o papel de subalternos “capachildos” auxiliares do neocolonialismo europeu e estadunidense, desde que pudessem rapinar à vontade o país e entregar seu povo à própria sorte, sumido na miséria e na ignorância.

 

Lembro a vocês que este é um blog e não uma publicação acadêmica, então quem estiver interessado nas referências deve pesquisar por si mesmo. Neste momento, ao descrever de memória tanto ideias como eventos, torço para que meus leitores se interessem e vão ler os textos em questão. E vou além, adoraria ver as novas gerações apreciando devidamente Quincas Borba e Memorial de Aires, dois maravilhosos romances de Machado de Assis, que dissecam sem piedade (e com porções generosas de ironia) a elite brasileira do século XIX, tanto do meio rural quanto urbanizado.

 

Volta e meia, quando o grau de bizarrice do noticiário atinge níveis alarmantes, como é o caso dos últimos quatro anos, relembro com saudades os debates nas aulas da Mara, do Sidney, da Silvia, do Paulo Miceli, da Maria Helena Capelato e de tantos outros professores inesquecíveis nos meus treze anos de graduação e pós. Foram momentos épicos, quando pensávamos a construção da historiografia e, ao mesmo tempo, acompanhávamos o desenrolar da redemocratização. Afinal, para quem não percebeu, minha graduação se deu entre os governos Sarney e Collor e acompanhou a tristemente célebre eleição presidencial de 1989, bem como a vitória de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, e meu mestrado acompanhou o período de derrocada e o impeachment de Fernando Collor.

 

De certa forma, este blog e meus vídeos são uma maneira de manter vivo um espaço de discussão que já não existe mais em minha vida, uma vez que estou definitivamente fora do meio acadêmico. Uma maneira imperfeita porque a internet promove muito mais o monólogo que o diálogo, mas vá lá. Uma maneira de continuar pensando a sociedade brasileira e seus paradoxos, seus enigmas e suas aberrações.

 

Nesse sentido, o insight que temos para hoje, nesta semana triste e vergonhosa em que o golpe de Estado de 2016 se consolida (graças à pantomima judiciária ora em curso) é meio que uma homenagem tardia à lucidez sem par de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Porque nestes quatro anos de destruição sistemática de nossas estruturas democráticas, o Brasil conseguiu a proeza de viver a História como tragédia e farsa ao mesmo tempo. Na melhor tradição que nos irmana ao velho barbudo, podemos afirmar que as elites brasileiras não são “jabuticabas” (como afirmam uns e outros), mas um bizarro e asqueroso bando de carniceiros e rapinadores, que se alimenta com volúpia dos restos deixados pelas grandes potências, enquanto subjuga o resto de nós sem qualquer senso de decência.

OS CÃES E AS CARAVANAS

2 abr

Este é um daqueles textos com potencial para desagradar a todos e mais alguns e romper amizades contingentes. Dado o momento delicado da nossa vida política, ponderei demais antes de me sentar ao teclado e digitar estas “mal traçadas linhas”. O que tiver que ser, será.

 

Recentemente ouvi de um colega em plena viagem ufanista, que pessoas como eu são “cassandras do apocalipse” porque estão sempre vaticinando o pior dos cenários. Confesso que talvez essa crítica fizesse mais sentido em meus tempos de juventude, quando eu era pouco mais que uma mistura malfeita de Mortícia Adams e Funérea Covarasa. A passagem do tempo me castigou o suficiente para suavizar alguns desses aspectos da minha personalidade, mas não me trouxe a cegueira política que parece caracterizar esse meu amigo.

 

Continuo afirmando, como fiz meses atrás, que a probabilidade de que as eleições deste ano sejam adiadas para 2020 é um dado que está na mesa e que cresce a cada dia. Fingir que estamos vivendo dentro da normalidade institucional não ajuda a superar esta etapa política aziaga, da mesma forma que constatar que o golpe se consolidou parece não ser suficiente para motivar a resistência de amplo espectro. Parece que estamos brincando de política ao invés de nos comportarmos como seres políticos, como cidadãos pensantes e agentes.

 

Estão dados vários fenômenos que o meio acadêmico não nos preparou para perceber e nem para lidar. O ritmo lento da Academia, principalmente entre nós historiadores que precisamos de distanciamento temporal para analisar nosso objeto de estudo, parece ter contagiado a nossa percepção do presente. A velocidade de deterioração da nossa sociedade e das estruturas políticas que a representam, está deixando pelo caminho mais de um analista.

 

Em menos de uma década assistimos impotentes à “futebolização” do espectro político. De repente, alguns poucos setores da população acostumados à indiferença passaram a escolher partidos e candidatos como quem escolhe um time para torcer. E trouxeram para o cenário eleitoral toda a violência, fanatismo e paixões dos convescotes domingueiros regados a testosterona, que são usuais ao esporte bretão.

 

Os partidos políticos, sem exceção, a reboque da mídia, investiram nesse “vestir de camiseta” que afastou qualquer análise madura ou projeto de país possível. As redes sociais pululam de declarações de amor a candidatos (sem discussão alguma de seus projetos) e manifestações de ódio aos que são considerados seus “inimigos”, personalizando da maneira mais lamentável o cenário já caótico que vivemos. É uma armadilha que se fechou sobre nós e da qual está cada dia mais difícil escapar, à medida que o ódio se alastra.

 

Nesse tom de discurso, a função essencial da política que é o diálogo entre adversários para estabelecer a melhor governança da sociedade, passou a ser vista como sinal de fraqueza e de corrupção. A criminalização do diálogo político e sua substituição por uma pantomima de galos de briga estão transformando nosso país em pasto para as grandes potências se refestelarem com nossos recursos e ativos. E enquanto isso a sociedade troca impropérios, ofensas, sopapos e agora tiros.

 

Eu passei o ano de 2016 na rua lutando para impedir o golpe e manter o mandato da presidenta legitimamente eleita. Mesmo quando o campo majoritário do PT já a considerava uma baixa necessária para preservar a candidatura de Lula em 2018. Mesmo quando éramos poucas centenas de pessoas aqui em Campinas, transformando nossas passeatas em esforços patéticos, enquanto a população nos pontos de ônibus nos olhava como se fôssemos malucos.

 

Participei de passeatas, reuniões e livros. Por dois anos publiquei incansavelmente aqui neste blog uma série de análises e defesas do processo democrático republicano, apenas para ver cada estrutura do que identifica uma República esfacelar-se diante dos meus olhos, diante do rolo compressor do dinheiro e da indiferença geral. Da mesma forma que transformei meu canal no YouTube em um foco de resistência ao obscurantismo promovido pela evangelização da política, na forma dos projetos Escola sem Partido.

 

Porque lado a lado com a criminalização da política e a promoção de líderes messiânicos, avança a passos largos a evangelização de nosso Estado, que jamais chegou a ser inteiramente laico, como se espera de uma República. A ingerência de padres e pastores acreditando que podem e devem legislar, a partir de seu pensamento mágico e supersticioso, sobre os costumes da sociedade civil cresceu e se alastrou. E produziu boas teses e dissertações acadêmicas, mas não nos ajudou a resistir e a combater essa avalanche de moralismo barato e farisaico que hoje se abate sobre todos nós e ameaça transformar nosso sistema de ensino em um cemitério intelectual.

 

E essa deterioração sociopolítica não vai mudar porque este ou aquele candidato venha a ganhar as eventuais eleições majoritárias. Enganam-se e são enganados todos aqueles que se deixam embriagar pelas multidões, quer seja de aldeões com tochas e forcados, quer seja de ativistas com bandeiras vermelhas. Porque o desmonte do Estado e da economia, promovidos a partir da politização do Judiciário e das ações do governo golpista, apoiado pelo Congresso mais venal já eleito e com a conivência da grande mídia, não poderá ser revertido na canetada por presidente algum.

 

Da mesma forma que o esgarçamento das relações sociais nos setores médios da população está promovendo momentos de verdadeira barbárie, a ação sem pejo das forças policiais e militares criminalizando a pobreza e reprimindo de maneira violenta crimes cujos mandantes encontram-se alhures, estamos fabricando as bombas-relógio que vão detonar nosso cotidiano e ameaçam transformar-nos em médio ou curto prazo em uma nova Somália.

 

E isso porque acreditamos que nossas bolhas de convivência são representativas da sociedade como um todo, quando não passam de ambientes localizados. A maioria da população permanece indiferente, tocando suas vidas do jeito que dá, esperando o ônibus para casa enquanto nós marchamos pelas ruas. E votará a partir de uma postura contingente e pragmática, não por convicção política e nem empolgada pelo fla-flu dos setores médios, mas pensando em como colocar comida na mesa e garantir sua sobrevivência.

 

Para quem estamos falando quando formulamos nossos belos textos de análise sociopolítica? Para além da vaidade de ver nossos pensamentos formulados na página escrita existe um círculo vicioso de auto-referenciamento que não conseguimos superar. Não alcançamos a população mais simples, aquela que não frequenta comícios nem passeatas e que não vê a rua como sua porque as autoridades não deixam.

 

Nesse sentido, eu tenho plena consciência de que escrevo apenas para registro histórico e de que as minhas palavras são impotentes diante do cenário que me cerca. Venho votando nos candidatos “menos piores” desde que recebi meu título de eleitor e, eventualmente, anulando o voto quando a escolha que se me apresenta é inaceitável. Mas nem por isso considero que a destruição da política ou de suas estruturas seja viável ou um ganho ao processo civilizatório.

 

Não sou mais criança para acreditar em milagre e nem milagreiros ou em sistemas perfeitos ou em pensamentos mágicos de qualquer espécie. Se queremos uma sociedade justa e equitativa precisamos investir em educação radical e manter a sanidade e a racionalidade mesmo em face do inimaginável. Por isso não acompanho os delírios ufanistas desse meu colega que acredita que a vitória de seu candidato na eleição presidencial deste ano irá resolver de forma mágica todos os problemas do país.

 

Talvez eu seja mesmo uma Cassandra do Apocalipse. Se for esse o caso, aqui estarei de olhos abertos encarando a realidade, sem deixar-me seduzir por cantos de sereias mágicas. Foi um longo caminho para chegar a ser quem sou e pretendo seguir caminhando sempre.

Um registro deste blog

12 dez

MEMÓRIAS DE UM BLOG NÃO FINANCIADO v2

 

Segue aqui uma seleção de textos deste blog, em formato PDF, para melhor entender o que tentei expressar nestes cinco anos.

O APOCALIPSE ZUMBI 

18 set

(com alerta veemente de figuras de linguagem e outros recursos literários)

 

1.

 

Sábado, oito horas da manhã, a campainha toca e Amanda pula da cama apavorada sem saber o dia, a hora ou o lugar. Respira fundo e percebe que era um dia em que poderia ter descansado dormindo até mais tarde, mas agora esse despertar brusco vai espantar de vez qualquer sono. Maldizendo da sorte, calça seus chinelos e vai em direção à porta. Protegida dos olhares externos, dá uma espiada e depara com uma dupla de Testemunhas de Jeová e solta um palavrão involuntário.

A vontade de Amanda é abrir a porta e mandar os dois para um lugar bem sonoro, mas ela não o faz porque tem plena consciência de que, para a mentalidade masoquista desse tipo de crente, qualquer hostilidade que possa ser encarada como “sofrer para espalhar a palavra” é um prazer muito maior até do que converter alguém com suas lorotas. Depois de algum tempo, os dois desistem e vão para a próxima porta invadir a privacidade de outro incauto, desrespeitando qualquer direito constitucional com seu proselitismo fanático.

 

Com a manhã perdida, a professora Amanda desencava um pacote de provas para corrigir e, depois de encher a máquina de lavar, ventilar a casa e retirar da geladeira os ingredientes para o preparo do almoço, senta-se e passa duas horas seguidas corrigindo garranchos, erros de concordância, raciocínios lineares e uma porção de “enrolation” de alunos que não estudam e enchem as provas de “piadinhas” esperando safar-se por causa da progressão continuada. E a professora respira fundo, mas não encontra o ar necessário para seus pulmões e vai cuidar da casa, do almoço e ligar o computador para pagar as contas pela internet.

 

O orçamento está estourando e Amanda não sabe como fará para comer na semana seguinte, mas ao menos os remédios que precisa ainda pode conseguir de graça. Há tempos que não sobra grande coisa para roupas, sapatos e muito menos livros ou cinema. A internet é a companheira mais barata, já que a televisão aberta é tão lastimável que nem dá para descrever.

 

Amanda apostou suas fichas na democracia, nos governos populares, saiu à rua para defender a presidenta legitimamente eleita, assinou dúzias de petições online para defender seus direitos e os das minorias, inundou as redes sociais de textões e memes ultracríticos e, no entanto, o golpe veio, os direitos foram atropelados, seus textos no Facebook valeram-lhe vários bloqueios e uma reclamação na escola que deixou suas aulas por um fio.

 

A professora precisa comer, morar e vestir mesmo que o que ganha mal dê para isso, mas também precisa pensar e expressar seu pensamento e agora não pode mais. O medo das retaliações calou Amanda, notícias de professores sendo perseguidos, espancados, virando balconistas em lojas de conveniência pipocam todos os dias em sua TL e o clima de ameaça é constante. A escola chegou a um ponto em que mandar um aluno prestar atenção pode criar um incidente de proporções desmedidas.

 

Amanda toma seu chá e espera um milagre.

 

2.

 

Josué quer chorar e não consegue. Seu irmão foi assassinado, mas ele não pode sequer pronunciar-lhe o nome porque o pastor disse que seu irmão era um pecador pervertido e o expulsou da igreja e da comunidade. Seus pais passaram a fingir que ele jamais havia existido, nunca mais pronunciaram seu nome e nem falaram com ele ou sobre ele.

 

Mas Josué se lembra o tempo todo de como seu irmão o protegia na escola, quando ser crente era motivo de chacota. Lembra-se de como estava sempre lhe mostrando músicas que eles não poderiam ouvir e falando de temas que eram proibidos. De como ficou assustado quando seu irmão contou publicamente que gostava de rapazes e queria ser feliz. Da solidão que sentiu quando os pais o proibiram até de visitá-lo.

 

E agora Jeremias está morto, assassinado por gente que não gosta de rapazes que gostam de rapazes. E essas e outras pessoas dizem que foi castigo de deus e que seu irmão era um pecador. Josué quer gritar ao mundo que seu irmão era bom, ele não entende o pecado e nem entende deus. E tem medo.

 

E senta-se em seu canto com a bíblia aberta e o choro engasgado, esperando por um milagre…

 

3.

 

Fernando é um sujeito “antenado”. Frequenta a academia e cuida muito para que seu corpo esculpido mantenha os músculos firmes. Come o que o instrutor manda e não tem tempo para “frescuras”. Conversa com seus amigos sobre muitas coisas e tem opiniões fortes como ele mesmo.

 

Fernando jamais leu um livro, na escola estava sempre colando e dando “jeitos” de passar de ano. Não lê revistas também, só as de fisiculturismo. Para se sentir informado, conversa com algum colega que lê as revistas da recepção do dentista. Gosta de filmes de porrada e de carros velozes, se o filme tiver gente dando porrada e carros que correm até acabar em porrada, melhor ainda.

 

Fernando e seus amigos não gostam de gays, mas eles não dizem “gay” e sim “bichona” porque eles são muito machos e não usam palavras de florzinhas. Quando sai na noite e vê um gay, ele tem vontade de desancar de porrada o desgraçado para ver se vira homem na marra. E às vezes, quando está com seus amigos em bando, é exatamente isso o que fazem, espancam gays.

 

Ele e seus amigos não entendem nada de política, mas gostam de candidatos com atitude. Odeiam qualquer um que defenda os “direitos humanos”, que chamam de comunista e “esquerdopata” e também sentariam porrada se seus caminhos se cruzassem, mas os comunistas estão todos nas universidades e nas escolas doutrinando as criancinhas e isso é inaceitável.

 

No dia anterior houve um desfile gay e Fernando e seus amigos ficaram na saída do metrô a postos. Quando viram um rapaz com toda a pinta de “bicha” sair em direção ao terminal começaram a segui-lo. Depois de um tempo, o rapaz percebeu a apressou o passo, essa foi a deixa para que o alcançassem e o espancassem brutalmente, chutando-o quando já se encontrava no chão desacordado. Depois foram comemorar.

 

Hoje Fernando ouviu na televisão que um jovem gay, brutalmente espancado a caminho do terminal, faleceu sozinho na calçada e seu corpo ficou horas aguardando o IML. A enormidade de ter ajudado a assassinar uma pessoa nem sequer perturba o “maromba”, afinal, era só uma “bichona”…

 

Fernando acreditou que derrubando os “esquerdopatas” canalhas acabaria com a corrupção. Quando alguém lhe diz que a corrupção piorou, ele começa logo a berrar para calar o interlocutor porque não quer ter o trabalho de pensar. Agora deu para dizer que direita e esquerda é tudo a mesma coisa e que bom mesmo eram os militares. Por isso, ele e seus amigos resolveram votar num candidato que chamam de “mito” e que vai acabar com a “putaria” dos direitos humanos.

 

Fernando puxa ferro todo dia e espera por um milagre…

 

4.

 

Ricardo é advogado e é liberal, estudou sempre em boas escolas e faculdades bem ranqueadas. Acredita em meritocracia, afinal, filho de um juiz e uma promotora sempre estudou muito e merece conquistar seu espaço. Ele sabe que o mercado só premia quem se esforça e por isso despreza os pobres, os bolsistas e toda essa renca de fracassados que clama por justiça social.

 

Ricardo passou os últimos três anos estudando feito louco para prestar concurso para um juizado federal. Sonha com o prestígio e a estabilidade do cargo, com o alto salário e com o orgulho que seus pais vão sentir quando passar. Ele sabe que vai passar porque é impossível alguém que ralou tanto na vida não conseguir capturar seus sonhos.

 

Ele apoiou o impeachment porque estava cansado de ver a economia sendo gerida por pessoas incapazes de aceitar que o mercado é soberano. Quando vê alguém falando em golpe, imediatamente “carteira” o incauto e coloca para correr. Detesta esses mimimis de esquerdistas e quer mais mesmo é que sejam todos presos.

 

Ultimamente anda preocupado, boatos de suspensão por tempo indeterminado de qualquer concurso público se sucedem em sua TL do Facebook e ele e seus colegas concurseiros se perguntam se já não seria hora de descarar este governo e implantar um parlamentarismo eternamente ao centro para dar jeito neste país desgraçado.

 

Enquanto nada disso acontece, Ricardo estuda suas apostilas. E nas férias torra ao sol em Miami esperando por um milagre…

 

5.

 

E naquele sábado, naquele país, para aquela gente, o único milagre possível acontece. Subitamente os mortos brotam das sepulturas rasgando a terra e quebrando as pedras e marcham rumo aos que pensam que estão vivos. E arrastam-se pelas ruas arrancando as pessoas de seu marasmo e esmigalhando suas carnes tristes e solitárias, enquanto partem seus crânios e consomem seus cérebros mecanicamente. E tanto se esperou que agora já não há para onde correr e aqueles que perceberam sabem que é tarde demais…

JATINHOS

15 jun

Não são apenas os políticos brasileiros que adoram viajar em jatinhos de terceiros. Autoridades dos três poderes, de primeiro e segundo escalão frequentemente são acusadas de prevaricar com a iniciativa privada em viagens suspeitas. E sempre dá em nada.

 

Quando não estão embarcando nos jatinhos de grandes empresários, costumam atormentar a Força Aérea para ter caronas gratuitas em seus aviões. Aparentemente são pessoas “boas demais” para pagar uma passagem e viajar como o mais comum dos mortais. E também viajam muito.

 

Eu estou em vias de completar cinquenta e três anos e posso afirmar que viajei de avião sete vezes em toda a minha vida. A maior parte no período dos governos petistas, quando as passagens passaram a ser mais acessíveis, embora nem tanto assim. Mas muitas autoridades brasileiras viajam de avião do mesmo jeito que eu ligo a máquina de lavar, a cada três dias.

 

A promiscuidade dessas “caronas” nem sequer fica no âmbito da privacidade. É comum ver fotos e outras evidências desses contatos pouco republicanos sendo divulgadas em redes sociais e na imprensa “amiga”. Como uma grande e simpática família feliz.

 

Neste momento aziago (para dizer o mínimo) em que o golpe de Estado atinge uma voracidade pantagruélica, engolindo instituições, direitos, nosso futuro e os sonhos e esperanças das próximas gerações, vemos a devassa realizada entre autoridades que se digladiam. E como não poderiam faltar, denúncias de voos em jatinhos particulares atingindo uma boa parte dos envolvidos. Políticos, gestores, juízes, ministros e golpistas em geral em algum momento privaram da intimidade dos hoje delatores (e de tantos outros), em voos locais ou internacionais.

 

Autoridades que recebem salários cheios de “penduricalhos” varando anos e anos acima do teto constitucional, que pressionam para receber aumentos muito acima da média do que o resto de nós cidadãos comuns recebe, e que ainda por cima percebem seus privilégios como direitos, enquanto nos esfolam vivos para continuar se regalando nos jatinhos dos poderosos do mercado econômico.

 

Se uma devassa tivesse qualquer possibilidade de ser empreendida, eu poderia propor que se começasse afastando os usuários de jatinhos. Que cada vez que um infeliz se candidatasse a qualquer posto nos três poderes (eletivo ou concursado), fosse feita uma análise e indeferidos sumariamente os usuários de jatinhos. Que ao votar, levássemos em conta esse tipo de promiscuidade, antes de compactuar com o nepotismo e o patrimonialismo que historicamente caracterizam a política brasileira.

 

E que as autoridades brasileiras passassem a usar aviões comuns, como o resto dos cidadãos, pagando do próprio bolso (sem auxílio público algum) suas passagens e restringindo sua circulação geográfica ao estritamente necessário. A partir daí, quem sabe, outras “mordomias” poderiam ser repensadas e talvez estivéssemos mais perto de ter “servidores” públicos ao invés de parasitas do Estado. Mas é claro que, no mundo real, o mais provável é que os privilégios cresçam enquanto o golpista espalha nosso dinheiro para angariar apoios.

 

Ironias à parte, fica aqui a sugestão para que algum blogueiro mais antenado comece o levantamento dos “usuários de jatinho” antes das próximas eleições. Garanto que as informações surgidas seriam de utilidade pública indiscutível. Sempre é um começo…