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Ponderações 6

17 maio

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COMPANHEIROS DE VIAGEM

28 abr

Folheando a edição número 1000 de Carta Capital, datada desta semana, encontro a reprodução de dois ensaios sensacionais de Umberto Eco. Em A sociedade líquida (publicado originalmente em 2015), o Mestre afirma “Com a crise do conceito de comunidade, emerge um individualismo desenfreado, onde ninguém mais é companheiro de viagem de ninguém, e sim seu antagonista, alguém contra quem é melhor se proteger.”. E o eco dessas palavras reverbera em mim de uma maneira tão pungente que preciso escrever.

 

Se você que está lendo este texto já foi meu aluno, deve lembrar-se de uma das minhas citações favoritas. Já contei e recontei este trecho de Érico Veríssimo em aulas, formaturas, palestras e mesmo assim continua sendo um dos pontos definidores da minha vida. Se você nunca foi meu aluno, preste atenção com paciência e carinho e quem sabe também se apaixona pelo autor gaucho.

 

Em Olhai os lírios do campo, Eugênio conversa com Olívia na noite de formatura e compara a vida com um transatlântico, afirmando que fará tudo o que estiver ao seu alcance para não passar sua existência na terceira classe. Anos depois, Olívia retoma o assunto em uma carta e lhe diz que a pergunta essencial na vida não é “em que classe eu quero viajar?” e sim “estarei sendo um bom companheiro de viagem?”. Essa resposta epistolar para um diálogo nunca encerrado é meio que o ponto de virada no livro e, ao menos para mim, uma das argumentações mais bonitas sobre a vida e seus assuntos.

 

A expressão companheiro de viagem adquire significados mais profundos para nós comunistas e para mim em particular. E isso porque eu encaro a vida e o próprio comunismo como uma viagem em que, mais importante que o destino, é o processo de crescimento e transformação durante a caminhada. Se isso lembrou a você a concepção de utopia de Eduardo Galeano, então você me entendeu perfeitamente.

 

Muito tenho argumentado neste blog sobre o “ser ou não ser” que acomete as esquerdas planetárias e sobre a incapacidade da “nova” direita para entender quem somos e como pensamos, motivo pelo qual é mais fácil defender nossa eliminação. A triste realidade é que nem a direita mais tradicional e nem mesmo alguns setores que se consideram mais puros da própria esquerda conseguem ir além das analogias primárias com regimes e grupos que já se afirmaram comunistas um dia e se perderam pelos caminhos da vida e seus percalços.  E é por isso que passamos mais tempo discutindo o pensamento raso de quem não nos entende, do que fazendo-nos entender por quem vale a pena.

 

Um dos motivos que me levou a usar na internet o bordão “Stalin matou foi pouco” (e seja quem for o autor, eu rendo minha homenagem à perspicácia dessa síntese) foi exatamente essa fixação da direita e dos trotskistas com estatísticas e contagens de mortes coligidas de maneira obscura e incluindo até intempéries como se até estas fossem responsabilidade do velho bigodudo. Não há uma única vez (nos últimos dez anos) em que eu me reafirme comunista, sem que apareça algum infeliz para jogar na minha cara, nas minhas costas e na minha conta as “mortes do Stalin”. E a cada ano aumentam, de vinte milhões no começo já passaram recentemente a mais de cem milhões, parece que todas as pessoas que faleceram na extinta União Soviética e no Leste Europeu, por ocasião da Segunda Guerra Mundial e nas décadas de 30-40-50 são culpa direta dele, como se as tivesse assassinado com as próprias mãos.

 

Se não fosse anacronismo, até a Peste Negra e a Gripe Espanhola entrariam na conta dos crimes de Stalin…

 

Poucos (bem poucos na verdade) têm um entendimento minimamente aceitável sobre o ideário comunista, tanto teórico quanto pragmático. A maioria repete sem cessar e sem pensar os argumentos de uns poucos críticos, nem sempre honestos. E menos ainda são aqueles capazes de entender que se possa defender uma utopia revolucionária sem necessariamente pregar a morte como única solução de conflitos.

 

A utilização da expressão companheiro de viagem vem de uma época em que o axioma do manifesto “Proletários do mundo, uni-vos!” ainda ecoava nos versos da Internacional e levava várias gerações de idealistas a colocar a mochila no ombro e combater os franquistas na Espanha, os nazistas na guerra europeia e o colonialismo branco nos outros continentes. Eram companheiros de viagem que se reconheciam e se ajudavam na luta, mas com o surgimento de líderes e vanguardas, a viagem virou um saudosismo de militantes velhos e o termo companheiro foi banalizado a ponto de ser aplicado até a amantes não casados. Mas o comunismo autêntico não vem através dos líderes e nem das vanguardas, ele surge da união dos que se dispõem a mudar e a lutar.

 

Em um mundo de possibilidades, quem é comunista escolhe viver percebendo no outro uma identidade passível de união, ao invés de um inimigo que é necessário destruir. Mas, que isso não signifique que nos tornamos carneiros indo para o abate nas mãos das hostes de ignaros com forcados e tochas (e agora com 9mm’s). É necessário que saibam que nos temem pelos motivos errados, mas que ainda assim devem temer-nos.

 

Porque um dia, distante ou não, as pessoas vão compreender o que significa “uma terra sem amos” e aí seremos todos realmente companheiros de viagem. Até lá, cuidado, porque Newton já dizia sobre as forças contrárias equivalentes provocadas quando se exerce pressão. Mesmo quando não estamos dispostos a sair matando, este lastimável cabo de guerra (provocado pela mídia grande e por grupos de interesse e políticos sem escrúpulos) pode acabar arrebentando.

 

E quem despertou estas forças certamente terá motivos para se arrepender.

“VOCÊ SÓ SE DÁ COM GENTE DE ESQUERDA?”

21 abr

A anedota da primeira metade do século XX começa com um paciente entrando no consultório médico e relatando os sintomas de uma profunda depressão. O médico lhe diz para se animar, que seu problema não é físico e lhe recomenda que vá assistir ao espetáculo de um famoso palhaço que se encontra na cidade. Então o paciente se vira e responde: “o senhor não entende, eu sou o famoso palhaço”…

 

Já vi essa anedota reproduzida várias vezes, desde um diálogo em um romance da Agatha Christie até ser contada por Gil Grissom, o entomologista emblemático que liderou a equipe do C.S.I. Vegas por nove temporadas. Uma variação interessante (e por variação eu entendo quando se usa o mesmo tema de modo inteiramente diferente) relata que Sinatra gostava de contar que ouvira dois caras em um bar se lamentando sobre mulheres, ao som da jukebox tocando uma música dele. Lá pelas tantas, um deles todo emocionado perguntara: “nós temos a ele, mas a quem esse cara ouve quando está na fossa?”.

 

Palhaços que não podem alegrar a si mesmos. Intérpretes que traduzem a angústia de suas gerações, mas que não tem quem lhes traduza. Poetas como Maiakovski, que para animar a um amigo suicida dissera “é preciso arrancar alegria ao futuro” e tempos depois acabara por se suicidar também. É condição dos artistas retratar os mal-estares de suas próprias épocas e refletir a ambiguidade do mundo.

 

Assim como é condição inerente à contemporaneidade este sentimento de que a cada momento estamos sendo deixados para trás, seja pela tecnologia, seja pela História. Os europeus do século XIX sentiam vertigens com a velocidade entre trinta e quarenta quilômetros horários de um trem a vapor ou apavoravam-se diante das imagens animadas de trens em movimento nos primeiros filmes cinematográficos. Que diriam das nossas tecnologias e desse sentimento de obsolescência que nos assalta diariamente diante da deterioração civilizatória que atravessamos?

 

Será que se sentiriam como o palhaço incapaz de encontrar alguém que o faça rir?

 

Conferindo minha TL no Facebook, verifico que foi no passado dia 7 de abril que fechei ao público a página do Cantinho da História. Rolando o mouse e revisando as publicações, descubro que foi em 10 de maio de 2013 que fiz minhas primeiras postagens por lá. Por um momento, meu TOC incipiente me faz desejar que eu tivesse conseguido resistir mais um mês para realizar um ciclo de cinco anos completos, mas me vejo obrigada a concluir que a data do encerramento é emblemática e que a duração da página é um período que fala por si.

 

Embora pessoalmente tenda a acreditar que o golpe de 2016 teve seu verdadeiro início em 2005 com a farsa do “Mensalão”, que permitiu condenações sem provas e distorções grotescas no processo penal (em um julgamento claramente político), as cronologias oficiais dirão que foi com os protestos de 2013 que tudo começou. Então, minha página (que se destinava inicialmente à divulgação dos vídeos do canal) durou o tempo exato que levaram para desestabilizar o governo legitimamente eleito, promover o golpe de estado, consolidar o governo golpista e retirar o candidato favorito às eleições que não acontecerão. E, mesmo não sento petista, assumo essa cronologia exatamente porque ela coincide com o processo de embrutecimento e radicalização da convivência social e a escalada da barbárie.

 

Nesse período, não houve um único dia sem que a página recebesse perguntas ou pedidos de vídeos, de indicações bibliográficas e até de conselhos acadêmicos. E respondi prontamente a todos os que me procuraram, mesmo quando não tinha certeza se algumas perguntas tão absurdas ou tolas eram dúvidas genuínas. E houve haters e trolls sabotando a página, bem como pessoas de todos os tipos, inclusive as interessantes que faziam com que o projeto valesse a pena.

 

Mas eu não podia fazer todos os vídeos que me eram solicitados, fosse por não ter acesso aos livros pedidos, fosse por ser humanamente impossível uma pessoa sozinha produzir tal volume de gravações. E, é claro, deveria ser evidente que não tenho a resposta para toda e qualquer pergunta que possa surgir. Preciso estudar muito e nem sempre as bibliotecas públicas ou os bancos de dados fornecem os materiais necessários.

 

Já reclamei demais neste blog sobre a falta de polidez e de civilidade, sobre a onipresença de gente folgada clamando que se lhes dê tudo pronto, sobre as agruras de estar publicamente na internet, enfim. Neste texto prefiro ir além e pensar na pergunta que lhe dá título e que me foi feita por um habitué do Cantinho, que jamais leu um único texto deste blog, mas que me abordava semanalmente com perguntas pessoais de todos os tipos. No dia em questão, o jovem me abordou para saber se estava triste com a questão do Lula e o diálogo foi avançando até chegar nesse questionamento.

 

Essa pergunta do internauta me fez pensar e refletir sobre o “núcleo duro” da minha vida. E, de fato, meu entorno afetivo mais próximo só tem gente dos vários espectros da esquerda e, embora eu tenha alguns parentes que são sabidamente de direita, não sou de conviver o suficiente para chegar a desenvolver atritos. Da mesma forma que há muito tempo que meu número de amigos de verdade vem sendo reduzido pelas parcas e pelas distâncias, mas ainda assim sua quase totalidade pode ser vista como de esquerda.

 

O Cantinho me trouxe muitos amigos virtuais, mas o tempo e as circunstâncias deixaram que somente aqueles com fatores de afinidade permanecessem. E “ser de esquerda” é um fator preponderante porque amizade (como eu a entendo) requer respeito, mas também requer um nível de afinidade acima das conveniências sociais. Eu não confio em quem diz que tem amigos de todos os matizes e não deixa a política interferir na amizade, isso me soa por demais hipócrita e superficial, a não ser que a amizade derive do respeito profissional porque aí as convenções são outras.

 

E eu encerrei a página do Cantinho no Facebook em parte porque a maioria dos oito mil inscritos não estava nem um pouco interessada nas questões políticas que me inquietam na atualidade. Recebi várias admoestações para me ater às questões históricas e historiográficas e “deixar de bobagens”, como se a minha disposição de ajudar tivesse se transformado em uma obrigação. E recebi também exigências de retirada de conteúdo, por parte de jovens prepotentes que (tenho certeza) jamais teriam sido tão invasivos e descorteses se eu me situasse no espectro do gênero masculino.

 

Considero o Cantinho da História como um projeto encerrado, que se esgotou exatamente porque o público a que era destinado passou a exigir mais do que minha ajuda e passou a querer ter ingerência em minhas ideias e convicções. Comecei o Ponderações movida pela necessidade de abordar o mal-estar contemporâneo do embrutecimento e da manipulação do pensamento por forças sociais situadas alhures de nós. E é um projeto de curta duração, que visa apenas a chamar a atenção para as armadilhas das narrativas hegemônicas e da homogeneização do ensino e do pensamento.

 

É a minha contribuição pessoal para combater os famigerados projetos de sujeição do ensino ao neopentecostalismo e outras aberrações religiosas. É uma afirmação dos ideais republicanos de uma escola laica, universal e gratuita, que hoje estão sendo destruídos pela sanha neoliberal. Existe um excesso de “neo” ideias visando a restauração de uma sociedade antiquada, decrépita e atrasada, baseada no fundamentalismo religioso e na sublimação da ignorância e da mediocridade.

 

E eu sei perfeitamente que não vou mudar o mundo sozinha, mas prefiro contribuir para a manutenção dos valores iluministas, do que me abster e deixar que a barbárie se alastre. Como poderia lutar por meu sonho comunista, se assistisse extática à demolição da nossa sociedade por parte daqueles que querem que regridamos a estruturas arcaicamente pré-modernas? Como poderia ser gentil e educada convivendo virtualmente com os brucutus que desejam a mordaça ou a morte para mim e meus pares?

 

Quando houver por bem de encerrar o Ponderações, outro projeto surgirá. Ainda quero estruturar um podcast para abordar meus autores favoritos, de Marx e Thompson a Le Goff e Sérgio Buarque, sem ser pautada por um público utilitarista que espera que eu os exima de ler e estudar. Só me falta o conhecimento tecnológico para viabilizar esse novo projeto, mas isso é apenas uma questão de tempo.

 

E dedico estas claudicantes e confusas anotações aos meus amigos e parentes de esquerda, que não me deixam desistir nem entregar os pontos. Aos loucos e sonhadores que pensam para muito além deste mundinho besta e sacrificam parte considerável de suas vidas na transformação e na esperança de uma vida melhor para todos, não apenas para os seus. Porque ser “de esquerda” é muito mais que defender um partido como se este fosse a camiseta de um time qualquer, é reivindicar o ser humano com todos os seus defeitos e contradições, mesmo que o preço a pagar seja tão alto que não exista ninguém que nos entenda ou nos defenda.

REPRESENTAÇÕES, PÓS-MODERNIDADE E OS CRO-MAGNONS DA DIREITA

14 set

Que existe um problema de diálogo social no Brasil (e no mundo) é um fato público e notório, uma vez que estamos tendo que retomar algumas lutas do século XIX e outras, pasmem, pré-Iluministas. Senão vejamos, nos últimos três anos este blog já teve que se pronunciar defendendo um governo legitimamente eleito contra um golpe jurídico-parlamentar, denunciando a retirada de direitos sociais garantidos por uma Constituição soberana, combatendo o crescimento dos crimes de ódio contra mulheres, negros e a comunidade LGBT, denunciando a indústria da desinformação, dos fake news, da manipulação e da mentira propriamente dita, bem como o crescimento atroz da censura e da perseguição anti-intelectual diante da Ciência e da Arte. E, para amargura pessoal daquela que aqui escreve, perdemos todas essas batalhas e o país está hoje em uma situação que envergonha e humilha qualquer ser minimamente pensante, diante da indiferença da maioria de sua população.

 

A esquerda brasileira, sempre dividida, digladia-se atribuindo culpas e responsabilidades e clamando por autocríticas, como quem promove autos de fé e espera produzir catarse da violência autoinfligida. Enquanto isso, uma direita oportunista dá voz e protagonismo a uma súcia de trogloditas para que aterrorizem os espaços públicos e virtuais e mantenham a sociedade como refém do obscurantismo. E enquanto brigamos entre nós para descobrir onde erramos, as oportunidades de diálogo social se estreitam cada vez mais porque a direita apela ao atavismo visceral enquanto a esquerda procura por racionalidade onde esta sequer jamais existiu.

 

Vários de meus amigos marxistas são tão virulentos quanto a própria direita ao criticar o fenômeno da pós-modernidade. Enquanto a direita combate as pautas identitárias porque não considera o outro sequer como humano ou digno de interlocução, alguns setores da esquerda acusam essas mesmas pautas de provocarem rachas e rupturas na luta revolucionária. Não admira que, cada vez mais, os grupos perseguidos e espezinhados socialmente estejam procurando desempenhar suas lutas renegando filiações ideológicas tradicionais.

 

Não tenho a pretensão de dominar a bibliografia e nem o jargão pós-moderno, não apenas porque minha filiação teórica é marxista, mas também porque sempre tive a impressão de que esses teóricos estavam mais ligados à área das Ciências Sociais do que da História. É claro que essa é uma percepção minha e é provável que eu esteja enganada, além do que não compartilho a pretensão de dominar o conhecimento em todas as suas nuances, que acomete uma boa parte da nova geração. Prefiro dominar com propriedade a leitura de uma ou duas dúzias de autores, do que me aventurar a dar palpite em temas e domínios complexos apenas de orelhada (em parte por isso abandonei os vídeos, as pessoas solicitavam cada vez mais autores que me eram estranhos, e eu precisava ler muita coisa fora de contexto para poder responder, correndo o risco de interpretar equivocadamente algum autor, por estar fora da minha área de atuação).

 

O que entendo por pós-modernidade é um conjunto de conceitos que descartam a existência de um campo de existência real (desculpem a redundância) para trabalhar com suas leituras, versões, percepções e representações no âmbito social e cultural. É um tipo de leitura que rejeita filiações ideológicas e equaliza forças históricas e sociais (que de modo algum são iguais, idênticas ou igualitárias) e promove o primado das identidades em volta de áreas de concentração como gênero, raça e sexualidades, descartando sumariamente a divisão classista. É uma discussão de grande envergadura e, certamente, concordo que foi um dos fatores responsáveis por inviabilizar qualquer possibilidade de coesão nos movimentos de esquerda.

 

Entretanto, o que me assusta nessa discussão é a distância que ela adquire da sociedade real e das necessidades básicas do ser humano, o que permitiu que essa direita fundamentalista com ranço inquisitório ocupasse os espaços públicos e virtuais e sequestrasse o raciocínio de parcelas cada vez maiores da população. E isso se dá porque o nível de abstração dessa discussão é característico dos meios acadêmicos e está fora do alcance da grande maioria da sociedade, afinal, como tratar de versões e representações com pessoas que ainda precisam da ficção religiosa para manter a sanidade perante a vida? É evidente que a partir do momento em que uma parte considerável das discussões da esquerda migrou da fábrica para os meios intelectuais e adquiriu essa complexidade teórica, sua capacidade para promover qualquer mudança social se esvaiu em elucubrações abstratas.

 

E não estou dizendo, com isso, que a vivência acadêmica deva ser menosprezada, perseguida ou descartada. Ao contrário, sou defensora ferrenha da atividade intelectual e da necessidade constante dessa reflexão teórica sobre o mundo que nos cerca. Se ainda existe racionalidade nesta arena apocalíptica do capitalismo é exatamente devido à existência de uma sólida tradição intelectual contestatória que remonta ao século XII no Ocidente.

 

Quanto mais não fosse o atoleiro que estamos vivendo, bastaria o exemplo da cultura islâmica, que era intelectualmente florescente na virada para o segundo milênio e que a perseguição cristã, os interesses econômicos e o fundamentalismo religioso transformaram nesse deserto intelectual que hoje vemos. Os perigos de ceder ao discurso anti-intelectual estão cada dia mais presentes no convívio social e caracterizam uma tragédia anunciada. Por isso deixo claro aqui que, embora não simpatize com seus pressupostos teóricos, nada tenho contra os pós-modernos que justifique seu silenciamento.

 

O que estou argumentando, dentro das minhas limitações de expressão, é que existe uma esquerda blassé  que descartou a luta de classes e o materialismo dialético em prol do ideário pós-moderno. E esqueceu que vivemos em um país cujas instituições a duras penas se esforçam por sobreviver ao assalto das hordas predatórias de uma elite que se mantém intelectualmente ligada a um pensamento repleto de ranços coloniais. Se a modernidade e o Iluminismo não estão presentes nas percepções da maioria da população brasileira, que dirá a pós-modernidade.

 

Nesse sentido, parece que vivemos de anacronismo em anacronismo. Com grupos anarquistas primitivistas que defendem o isolamento social e o fim da civilização para agrupar-se em comunidades ciclistas veganas. Com feministas trotskistas brancas que defendem uma sororidade que ignora solenemente a clivagem de classe e raça. Com defensores da visão classista que renegam a existência do machismo e do racismo. Com militantes incapazes de gerar uma visão sistêmica que permita o agrupamento em lutas sensatas e plausíveis para além do espectro da política partidária. Com o esfacelamento da identidade básica do ser de esquerda que sempre primou pela solidariedade, pela defesa ferrenha da igualdade e da socialização de bens e serviços.

 

Enquanto isso na Sala da Justiça…

 

Pois é, enquanto isso existe uma direita troglodita que renega todo e qualquer processo civilizatório e se vale da ignorância e da falta de informação dos meios públicos e virtuais para promover o preconceito e a intolerância, emprestando as técnicas do fundamentalismo religioso para capturar a lealdade dos incautos. E nós estamos impotentes porque passamos a maior parte do tempo apelando para a racionalidade com pessoas que estão abandonando seu lado racional para entregar-se a atavismos catárticos, que compensam a miséria social e intelectual celebrando a violência que liberta das frustrações e amarguras pessoais. É uma questão de tempo para a convulsão social.

 

Principalmente porque essa nova geração de liberais, que renega a dicotomia entre a direita e a esquerda, promove as plataformas da direita sob o primado de um falso cientificismo, que atribui valores de veracidade a visões de mundo toscas e simplistas. E quando alguns setores da esquerda alcançam o limbo que se encontra acima do bem e do mal (e renegam a própria História do pensamento esquerdista) acabam por engrossar as hostes do não-pensamento tão ao gosto dos promotores do status quo direitista. Temos então o caldo de cultura ideal para a promoção de demagogos portadores de verdades milenares e soluções finais simplistas e autoritárias.

 

E aí o camarada Vladimir perguntaria o que fazer?

 

Precisamos descobrir como retomar as lutas essenciais e o espaço público, deixando que a Academia lide com o pensamento acadêmico e retomando o diálogo com a sociedade real. Precisamos ser menos professores e mais companheiros, reaprendendo com nossos semelhantes tudo aquilo que considerávamos superado pela História. Precisamos viver as condições do mundo em que vivemos para não correr o risco de que todos se tornem trogloditas e sejamos nós os únicos anacrônicos.

 

Paz, pão, terra e liberdade a todos os camaradas do mundo!

O ANÃO GEDDEL

7 jul

Eu tenho verdadeira ojeriza da História do Tempo Presente e concordo inteiramente com Eric J. Hobsbawm quando afirma que este é um domínio impossível. Na maior parte do tempo, quando evocamos tempos que nos são contemporâneos, a memória (funcional e emocional) interfere demais na análise dos fatos. Isso sem contar que as fontes ainda estão muito recentes para sofrer uma crítica e uma análise mais profunda.

 

Respeito muito quem se aventura em um campo de pesquisa tão pantanoso e consegue manter um mínimo de objetividade, sem reproduzir os discursos vigentes ou o senso comum produzido pelos meios de comunicação. E, principalmente, respeito os historiadores que se atrevem a adentrar nessa seara em que qualquer desocupado de bar, padaria ou fila de banco pensa que sabe mais do que nós profissionais. Ainda mais em tempos em que a internet dá voz a todo tipo de fraude, ignorância e má-fé, que são absorvidas como verdades divinas por uma turba ansiosa por frases feitas e “verdades fáceis”.

 

Nesse sentido, quando eu uso meu blog para dialogar sobre os assuntos do momento e dar alguma dimensão histórica ao que nos atropela, não tenho a menor pretensão de estar gerando uma análise crítica essencialmente profissional. Eu prefiro perceber este meio como um ambiente em que posso me expressar como cidadã consciente e relativamente bem informada. E eu despendo uma parte considerável do meu tempo para procurar e selecionar informação de qualidade, que me permita uma visão crítica razoavelmente acurada.

 

Este preâmbulo é muito mais para racionalizar o simples fato de que vivemos em uma dinâmica social em que a seletividade das memórias vem sendo usada sistematicamente para construir “fatos e versões” ao sabor de interesses políticos e econômicos que beiram o criminoso.

 

É deprimente ver a crença quase divina com que os setores conservadores defendem o argumento de que a corrupção começou com o governo do Partido dos Trabalhadores, escolhendo deliberadamente fechar os olhos para tudo que contradiga essa percepção. O silêncio cínico e cúmplice que cerca o governo golpista e seus asseclas e a defesa de políticos espúrios e folclóricos como a solução para o país beira a infantilidade crassa. Em tempos de redes sociais, um dedo médio vulgarmente erguido serve como argumento aos defensores da tortura, da violência e do conservadorismo.

 

Assim, quando vejo uns e outros arregalando ingênuos olhos vazios e se perguntando de onde surgiu Geddel Vieira Lima, tenho vontade de perguntar se essas pessoas passaram a década de ’90 com a cabeça enterrada na areia. Já não bastasse a falácia de ignorar solenemente os escândalos de corrupção que nos acompanham bissextamente desde o Primeiro Reinado, ainda por cima silenciam em uma cumplicidade abjeta em relação aos períodos Sarney, Collor e FHC e suas negociatas escancaradas. E fingem que os notórios “anões do orçamento” nunca existiram.

 

E aqui começa a pesar a questão da ignorância e da desinformação. Quantos de nós sabemos exatamente como funciona o Orçamento da União? O que é uma emenda ao Orçamento e como se encaixa na dinâmica de poder que opõe Executivo e Legislativo?

 

A mídia acostumou o público a encarar a gestão de recursos públicos como algo folclórico e amadorístico, comparando sempre a administração pública com o entorno doméstico, de maneira bem rasa e superficial. Entretanto, o Orçamento da União é um campo de batalha que desafia a habilidade e a capacidade de negociação dos poderes da República. Foi concebido de maneira a impedir um protagonismo excessivo do Executivo e acabou por tornar-se uma fonte de barganhas e negociatas.

 

A capacidade de um presidente e seu ministério para estabelecer o contingenciamento de verbas públicas, a cada ano, deve obedecer às Diretrizes de Regulação Orçamentária e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso quer dizer que existe um protocolo legal destinado a restringir a liberdade do Executivo na hora de destinar verbas à saúde, educação, infraestrutura, dívida pública e gestão de salários. Entretanto, além dessas limitações, o Orçamento ainda tem que ser examinado por uma Comissão no Congresso e aprovado, deixando os planos econômicos do Executivo à mercê das idiossincrasias do Legislativo.

 

Para ter suas verbas contingenciadas sem grande interferência, os presidentes e seus ministros acostumaram-se a recorrer ao expediente das emendas orçamentárias. Destinando uma verba (geralmente bilionária) à negociação com os deputados das comissões, o Executivo conseguia manter minimamente a integridade de seus orçamentos. Essas emendas eram usadas pelos deputados para conseguir lugar no Orçamento da União para obras de infraestrutura destinadas a favorecer governadores e prefeitos de seus estados de origem.

 

Líderes do Congresso como Eduardo Cunha e Michel Temer amealharam suas redes de apoio negociando emendas com os parlamentares mais inexpressivos, mas essa é uma prática de longa data.

 

No início dos anos 90 o escândalo dos “anões do orçamento” sacudiu o país. Eram assim chamados por tratar-se de deputados desconhecidos, provenientes do “baixo clero” da Câmara, que se apropriaram das comissões durante décadas sem chamar a mínima atenção. Esses deputados negociavam propinas dos governadores e prefeitos para incluir as emendas necessárias e ainda desviavam parcelas significativas nas minúcias do orçamento em benefício próprio.

 

O líder desse esquema, que foi apelidado de anão-mor era João Alves de Almeida, deputado eleito pela Bahia, que durante trinta anos transitou por vários partidos até acabar no PPR (hoje PP). João Alves passou duas décadas desviando dinheiro do orçamento e “lavando” esses “ganhos” com prêmios de loteria. Ao ser inquirido pela imprensa se não considerava estranho a mesma pessoa ganhar duzentas vezes na loteria, respondeu que era deus que o abençoava.

 

Os anões do orçamento eram tipinhos lombrosianos no pior sentido do termo, insignificantes politicamente agigantavam-se ao negociar a solvência dos governos. Chegaram a desviar algo em equivalente a cem milhões de reais do orçamento público, em valores de 1993. Ao ser expostos e acabar em uma CPI que varou os noticiários durante semanas, vários renunciaram, outros foram cassados e Geddel Vieira Lima está entre os que foram absolvidos devido a sua rede de relacionamentos políticos.

 

Quando algum ministro do Supremo (aliás mais do que um) do alto de sua empáfia hipocritamente moralista declarou que o “mensalão petista” era o maior escândalo de corrupção da História da República brasileira, esqueceu-se oportunamente dos anões do orçamento. Mas também silenciou sobre as dezenas de escândalos ocorridos durante o período militar e nas primeiras gestões da “Nova República”. Esse exercício de memória seletiva parece ter atacado uma parte considerável das bases de apoio do conservadorismo nacional, que hoje mantém suas panelas em silêncio cúmplice enquanto o grupo golpista dilapida bens e recursos públicos sem qualquer pejo ou pudor.

 

Ofende a inteligência quando os setores “apartidários”, as esquerdas nanicas e uma boa parte dos paneleiros & friends association argumentam de modo simplista e infantil que “se tirar dinheiro da corrupção dá para investir em educação e saúde”. Um orçamento minimamente justo em termos de educação e saúde requer muitos bilhões de reais e a corrupção (sempre exacerbada pelo sensacionalismo dos meios de comunicação) dificilmente alcança os valores (estes sim exorbitantes) das renúncias fiscais, do perdão das dívidas previdenciárias de bancos e grandes empresas, e do repasse dos juros destinados aos rentistas e portadores de títulos da dívida pública. Se de algum lugar se deveria estancar a sangria dos cofres públicos com urgência é exatamente dessa pilhagem promovida pelos setores ligados às altas finanças e ao empresariado tosco que prefere lucrar no mercado financeiro a investir na produção.

 

A corrupção deve ser combatida sem tréguas. Mas deve ser combatida dentro da lei, sem arroubos moralistas, sem vendetas partidárias e sem destruir amplos setores da economia nacional para beneficiar os interesses espúrios dos conglomerados transnacionais. A corrupção se combate começando pelos próprios juízes, ministros e promotores que recebem “salários e penduricalhos” muito acima do teto constitucional e por isso não tem moral e nem decência para acusar ninguém.

 

A longa carreira parlamentar de figuras como João Alves e Geddel Vieira Lima se deu sob as asas da omissão judicial. Ver as cenas patéticas do anão aprisionado somente pode ser catártico para quem pensa pequeno. Mais do que a prisão e a humilhação pública, aqueles que desviam os recursos públicos devem devolver suas fortunas e ressarcir a sociedade pelos prejuízos causados.

 

DIALOGAR COM A DIREITA?

29 mar

Leio e ouço frequentemente, daquelas “lideranças” trotskistas de sempre, que a esquerda precisa fazer autocrítica, que precisa sair dos meios acadêmicos e das redes sociais e reencontrar as bases. Confesso que concordo em parte, mas tenho uma imensa preguiça de gente que exige o que não faz. Não vejo nenhum dos “protagonistas” de 2013 desculpando-se por ter entregado as ruas de mão-beijada à direita mais asquerosa do país, e nem lamentando ter apoiado e promovido a demonização do PT, na esperança de colher pífios triunfos eleitorais.

 

De qualquer modo, exortações para que se dialogue com a direita, e se “esclareça” aos ignaros porque a nossa posição é a mais iluminada, são o que não falta nas redes sociais. Pessoas mandando as outras estudarem História ou tentando impor suas interpretações sobre a sociedade, a ciência e política são frequentes nos dois lados do espectro. Talvez a esquerda seja mais polida e menos vulgar e ignorante que a direita, mas ainda assim todos nós (e eu me incluo nisso) passamos uma boa parte do tempo tentando ensinar aos outros como viver e como pensar.

 

E aí é que está um erro bastante crasso que atinge os dois lados. Estamos nos extremos do espectro ideológico e estamos ignorando o “centro”, que inclui não apenas os moderados, mas também os indiferentes e os indecisos, que eventualmente podem escolher qualquer dos dois lados porque não tem ideologia alguma e atendem a interesses absolutamente pragmáticos. Nós da esquerda perdemos um tempo precioso tentando dialogar com pessoas que não querem ouvir, que não podem e nem querem ser convencidas de nada e que querem (na maior parte do tempo) reduzir-nos ao silêncio na base do grito.

 

Por que qualquer pessoa minimamente inteligente perderia tempo tentando conversar com quem defende monarquia, intervenção militar, tortura, ódio às minorias e mordaças nos meios escolares? Quem acredita que os comunistas estão batendo à porta e que o Brasil precisa de “valores” familiares e religiosos, inclusive que será necessário matar esquerdistas, feministas, gays e pobres porque são todos bandidos, está muito além de qualquer diálogo. Ouvir e ler esse tipo de asneiras proferidas aos gritos, em maiúsculas, assassinando o vernáculo e abusando do calão mais ordinário, é uma prova de resistência que vai arruinando a nossa saúde, enquanto esses ignaros se sentem triunfantes.

 

Mas quem se dirige à grande maioria silenciosa, que vive e trabalha sofridamente e está fora do burburinho das redes sociais e da política? Essa multidão é que define eleições e ora pende à direita ou à esquerda, conforme a pauta discutida, mas não abraça nenhuma ideologia política conscientemente, embora siga padres e pastores. Essa maioria que espera salvadores milenaristas e entrega sua confiança a líderes carismáticos sem pensar nas consequências.

 

Conversar e dialogar requer que se ouça mais do que se fale, a princípio, para entender como as pessoas pensam e o porquê de suas atitudes, requer menos fascínio pelo som da própria voz e menos pretensão de ensinar. É preciso paciência para parar em filas, em praças, em comércios e estar disposto a dar o benefício da dúvida e aceitar quando os argumentos das pessoas simples são mais sensatos e reais que os nossos. É necessário adequar a fala para ter a certeza de ser compreendido e para não humilhar ou melindrar quem vem de outras experiências sociais e culturais.

 

E, não menos importante, dialogar requer admitir que a outra parte abriga uma identidade própria, um ethos construído sob as mais diversas circunstâncias, que precisa ser respeitado para que nos repeitem e confiem em nossas intenções.

 

Nos anos 90, um amigo anarquista contava a seguinte história, chegando a uma favela (naquela época não se chamavam comunidades) para promover uma atividade junto à sociedade de moradores, fez-se a roda e as necessidades das pessoas foram ouvidas, debatidas e traçaram-se planos para atividades futuras. Já no final, uma senhora aproxima-se do meu amigo e agradece dizendo que gostou muito de poder falar sobre as reais necessidades do bairro e que esse grupo de jovens era muito melhor que o pessoal que vinha, falava e falava sobre “o tal de troço”, deixava os panfletinhos e depois ia embora. Meu amigo perguntou sobre os tais panfletos e ela acabou procurando e mostrando um apanhado de frases de Trotsky, distribuído por aquele mesmo pessoal de sempre.

 

O “troço” virou a nossa piada particular em casa durante mais de uma década. E seus seguidores também. Especialmente aqueles que deixam crescer o cavanhaque e usam óculos redondos e se juntam como boybands.

 

Por essas e outras é que eu não acredito em autocrítica. Quem discursa ao invés de dialogar e quem usa uma retórica auto-recorrente, somente entendida por seus pares, dificilmente tem capacidade para indicar os defeitos dos outros porque não percebe sequer os próprios. Mas acredito firmemente na necessidade de “desencastelar” nossa militância e parar de falar para nós mesmos e nossos amigos.

 

Se não queremos a eleição de um proto-fascista defensor da tortura e do genocídio dos pobres, precisamos conversar cada vez mais com as pessoas no âmbito social e entender a causa da ascensão desse tipo de aberração. Precisamos ter argumentos claros e sem barroquismos para oferecer a quem está preocupado muito mais com ter comida na mesa e poder pagar as contas do que com os direitos das minorias. Em um momento em que a sociedade afunda no obscurantismo e na miséria promovidos pelo golpe, algumas lutas pontuais são luxos diante do emergencial.

 

Não é que o pobre seja contra os Direitos Humanos, a maioria silenciosa só não vê tudo isso sair do papel e reverter em alguma melhoria para suas mazelas. A abstração de algumas de nossas discussões não tem qualquer relação com a vida real dessa maioria e nós não percebemos porque nosso patamar de luta muitas vezes já superou o essencial e o básico. Precisamos reaprender a ouvir e a falar e a lutar.

 

Mas também precisamos abandonar de vez as “tretas” pautadas pela mídia e pelos ideólogos dessa direita extremista que pensa que pode vencer na base do clichê, da frase feita e do grito, sem apresentar argumentos ou projeto de país. O Brasil é grande e cheio de possibilidades, não podemos deixar que o processo massacrante de desmonte da democracia, promovido pelos golpistas, nos apequene a ponto de perder de vista que o que realmente importa são as pessoas. É hora de deixar essa direita e seus sequazes falando sozinhos e ir cuidar do que realmente interessa.

 

Como dizia César Isella:

 

                                 “Te digo hermano que entiendas que hacer la Revolución

                                   no és juntar dós o trés locos, cuatro balas y um cañón,

                                   te digo hermano que entiendas que és tiempo

                                   de hacer la Revolución, pero empieza por vós mismo

                                   y después seremos dós, diez, cien, mil, mi país…”

PEQUEÑA NARRATIVA SOBRE LA REALIDAD NEOLIBERAL

23 mar

Sem susto que o texto vai em português mesmo. Utilizei o espanhol no título para remeter ao breve estudo de caso que pretendo realizar aqui. Trata-se da Espanha e por isso a licença poética.

 

Quantos ainda se lembram da crise financeira de 2008? Vários dos mais importantes bancos de investimentos “bombaram” carteiras de títulos imobiliários (com baixíssimas perspectivas de resgate) e os venderam a outros bancos menores, que os venderam a seus correntistas, que não sabiam em que estavam investindo. Pessoas de classe média na Europa e nos EUA hipotecaram suas casas para investir nessas carteiras de títulos podres porque a promessa de remuneração era muito sedutora, embora totalmente fictícia.

 

Os executivos que repassaram esses títulos aos bancos e os gerentes de contas que os venderam a seus correntistas embolsaram bônus milionários de produtividade. Fortunas absolutamente voláteis mudaram de mãos durante uns dois ou três anos. Em 2008 a bolha estourou, bancos faliram, os governos tiveram que socorrer a economia que ameaçava um efeito dominó semelhante ao de 1929, mas ninguém pensou em indenizar os correntistas. Eles investiram em um mercado de alto risco, sem sequer saber do que tratava (confiando em seus gerentes e contadores) e perderam seu dinheiro, suas casas e seus futuros.

 

Um dos casos mais dramáticos foi o da Espanha, que por conta disso caiu nas garras da tróika da União Europeia e mergulhou em um nunca acabar de misérias.

 

Um dos fenômenos mais impactantes foi o dos suicídios. Aposentados, pais de família que chegaram a matar os próprios filhos e depois se suicidar, casais de idosos, várias centenas em um período de menos de dois anos (fenômeno que se alastrou pela Europa e pelos EUA alcançando o número de dez mil suicídios nesse período). Era um tormento ligar o noticiário da TVE e ouvir os dramas cotidianos de famílias jogadas na rua e suicídios dos mais grotescos.

 

E então a classe média indignada saiu às ruas para protestar e protestou e muitos de nós repostamos seus protestos porque nos pareciam justos, afinal, era uma crise do capitalismo e as pessoas estavam sendo esfoladas vivas para continuar sustentando o sistema e os privilégios de sempre. E vieram as eleições e os indignado elegeram Mariano Rajoy…

 

Mariano Rajoy, garboso expoente da mais arbitrária direita “papamissas”, hipócrita e farisaica, ligada à Opus dei (isso lembra alguém?). Mariano Rajoy, envolvido em escândalos de corrupção e defensor anacrônico do franquismo. Eleito pelos indignados para consertar a Espanha, Rajoy aproveitou para desmantelar a seguridade social e implantar quanta barbaridade a tróika exigisse, em troca de financiamento que jamais chegou ao povo espanhol, mas que enriqueceu a seus asseclas e manteve o “financeirismo”, relegando a conta à população trabalhadora.

 

E assim a Espanha se apequenou mais e mais. No rastro da indignação surgiu o Podemos, partido que se diz de esquerda mas é incapaz de formar uma coalizão com o PSOE, a Izquierda Unida, Esquerra Republicana de Catalunya e outros tantos partidos menores de esquerda e centro-esquerda. Assim, o PP de Rajoy se mantém no poder após impasses que chegaram a durar mais de um semestre.

 

E vale esse registro todo porque devemos pensar que a agenda neoliberal não ganha eleições, não é compatível com regimes democráticos e nem sequer é compatível com as constituições da maioria dos países civilizados. A agenda neoliberal vem sendo insidiosamente imposta na rabeira das crises econômicas e institucionais. Imposta a governos dóceis por organismos internacionais, como é o caso da Espanha, ou por governos ilegítimos e golpistas, a despeito da vontade popular, como é o nosso caso.

 

Sempre travestida de programa de salvação nacional, como castigo para governos de esquerda que “esbanjam” orçamento com seguridade social, essa agenda pode ser imposta pelos grandes bancos, pelas agências de fomento ou pelas classificatórias. Ou pode ser abraçada por uma súcia de congressistas mercenários dispostos a sangrar o erário público até a exaustão, e depois voltar a seus feudos regionais, como se nenhuma responsabilidade lhes coubesse na miséria que assolará o país. Sacripantas que chamam seus privilégios de “direitos” e a seguridade social de “privilégio”.

 

Parasitas capazes de imolar três gerações inteiras de cidadãos no altar do neoliberalismo, em troca de suas trinta moedas de prata. E o fazem debochando de nós cidadãos, amparados por uma mídia rancorosa cheia de “gusanos” e por uma casta judiciária narcisista. E há quem festeje…

 

Delenda Lula, delenda PT, delenda Brasil de todos nós…