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O ANÃO GEDDEL

7 jul

Eu tenho verdadeira ojeriza da História do Tempo Presente e concordo inteiramente com Eric J. Hobsbawm quando afirma que este é um domínio impossível. Na maior parte do tempo, quando evocamos tempos que nos são contemporâneos, a memória (funcional e emocional) interfere demais na análise dos fatos. Isso sem contar que as fontes ainda estão muito recentes para sofrer uma crítica e uma análise mais profunda.

 

Respeito muito quem se aventura em um campo de pesquisa tão pantanoso e consegue manter um mínimo de objetividade, sem reproduzir os discursos vigentes ou o senso comum produzido pelos meios de comunicação. E, principalmente, respeito os historiadores que se atrevem a adentrar nessa seara em que qualquer desocupado de bar, padaria ou fila de banco pensa que sabe mais do que nós profissionais. Ainda mais em tempos em que a internet dá voz a todo tipo de fraude, ignorância e má-fé, que são absorvidas como verdades divinas por uma turba ansiosa por frases feitas e “verdades fáceis”.

 

Nesse sentido, quando eu uso meu blog para dialogar sobre os assuntos do momento e dar alguma dimensão histórica ao que nos atropela, não tenho a menor pretensão de estar gerando uma análise crítica essencialmente profissional. Eu prefiro perceber este meio como um ambiente em que posso me expressar como cidadã consciente e relativamente bem informada. E eu despendo uma parte considerável do meu tempo para procurar e selecionar informação de qualidade, que me permita uma visão crítica razoavelmente acurada.

 

Este preâmbulo é muito mais para racionalizar o simples fato de que vivemos em uma dinâmica social em que a seletividade das memórias vem sendo usada sistematicamente para construir “fatos e versões” ao sabor de interesses políticos e econômicos que beiram o criminoso.

 

É deprimente ver a crença quase divina com que os setores conservadores defendem o argumento de que a corrupção começou com o governo do Partido dos Trabalhadores, escolhendo deliberadamente fechar os olhos para tudo que contradiga essa percepção. O silêncio cínico e cúmplice que cerca o governo golpista e seus asseclas e a defesa de políticos espúrios e folclóricos como a solução para o país beira a infantilidade crassa. Em tempos de redes sociais, um dedo médio vulgarmente erguido serve como argumento aos defensores da tortura, da violência e do conservadorismo.

 

Assim, quando vejo uns e outros arregalando ingênuos olhos vazios e se perguntando de onde surgiu Geddel Vieira Lima, tenho vontade de perguntar se essas pessoas passaram a década de ’90 com a cabeça enterrada na areia. Já não bastasse a falácia de ignorar solenemente os escândalos de corrupção que nos acompanham bissextamente desde o Primeiro Reinado, ainda por cima silenciam em uma cumplicidade abjeta em relação aos períodos Sarney, Collor e FHC e suas negociatas escancaradas. E fingem que os notórios “anões do orçamento” nunca existiram.

 

E aqui começa a pesar a questão da ignorância e da desinformação. Quantos de nós sabemos exatamente como funciona o Orçamento da União? O que é uma emenda ao Orçamento e como se encaixa na dinâmica de poder que opõe Executivo e Legislativo?

 

A mídia acostumou o público a encarar a gestão de recursos públicos como algo folclórico e amadorístico, comparando sempre a administração pública com o entorno doméstico, de maneira bem rasa e superficial. Entretanto, o Orçamento da União é um campo de batalha que desafia a habilidade e a capacidade de negociação dos poderes da República. Foi concebido de maneira a impedir um protagonismo excessivo do Executivo e acabou por tornar-se uma fonte de barganhas e negociatas.

 

A capacidade de um presidente e seu ministério para estabelecer o contingenciamento de verbas públicas, a cada ano, deve obedecer às Diretrizes de Regulação Orçamentária e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso quer dizer que existe um protocolo legal destinado a restringir a liberdade do Executivo na hora de destinar verbas à saúde, educação, infraestrutura, dívida pública e gestão de salários. Entretanto, além dessas limitações, o Orçamento ainda tem que ser examinado por uma Comissão no Congresso e aprovado, deixando os planos econômicos do Executivo à mercê das idiossincrasias do Legislativo.

 

Para ter suas verbas contingenciadas sem grande interferência, os presidentes e seus ministros acostumaram-se a recorrer ao expediente das emendas orçamentárias. Destinando uma verba (geralmente bilionária) à negociação com os deputados das comissões, o Executivo conseguia manter minimamente a integridade de seus orçamentos. Essas emendas eram usadas pelos deputados para conseguir lugar no Orçamento da União para obras de infraestrutura destinadas a favorecer governadores e prefeitos de seus estados de origem.

 

Líderes do Congresso como Eduardo Cunha e Michel Temer amealharam suas redes de apoio negociando emendas com os parlamentares mais inexpressivos, mas essa é uma prática de longa data.

 

No início dos anos 90 o escândalo dos “anões do orçamento” sacudiu o país. Eram assim chamados por tratar-se de deputados desconhecidos, provenientes do “baixo clero” da Câmara, que se apropriaram das comissões durante décadas sem chamar a mínima atenção. Esses deputados negociavam propinas dos governadores e prefeitos para incluir as emendas necessárias e ainda desviavam parcelas significativas nas minúcias do orçamento em benefício próprio.

 

O líder desse esquema, que foi apelidado de anão-mor era João Alves de Almeida, deputado eleito pela Bahia, que durante trinta anos transitou por vários partidos até acabar no PPR (hoje PP). João Alves passou duas décadas desviando dinheiro do orçamento e “lavando” esses “ganhos” com prêmios de loteria. Ao ser inquirido pela imprensa se não considerava estranho a mesma pessoa ganhar duzentas vezes na loteria, respondeu que era deus que o abençoava.

 

Os anões do orçamento eram tipinhos lombrosianos no pior sentido do termo, insignificantes politicamente agigantavam-se ao negociar a solvência dos governos. Chegaram a desviar algo em equivalente a cem milhões de reais do orçamento público, em valores de 1993. Ao ser expostos e acabar em uma CPI que varou os noticiários durante semanas, vários renunciaram, outros foram cassados e Geddel Vieira Lima está entre os que foram absolvidos devido a sua rede de relacionamentos políticos.

 

Quando algum ministro do Supremo (aliás mais do que um) do alto de sua empáfia hipocritamente moralista declarou que o “mensalão petista” era o maior escândalo de corrupção da História da República brasileira, esqueceu-se oportunamente dos anões do orçamento. Mas também silenciou sobre as dezenas de escândalos ocorridos durante o período militar e nas primeiras gestões da “Nova República”. Esse exercício de memória seletiva parece ter atacado uma parte considerável das bases de apoio do conservadorismo nacional, que hoje mantém suas panelas em silêncio cúmplice enquanto o grupo golpista dilapida bens e recursos públicos sem qualquer pejo ou pudor.

 

Ofende a inteligência quando os setores “apartidários”, as esquerdas nanicas e uma boa parte dos paneleiros & friends association argumentam de modo simplista e infantil que “se tirar dinheiro da corrupção dá para investir em educação e saúde”. Um orçamento minimamente justo em termos de educação e saúde requer muitos bilhões de reais e a corrupção (sempre exacerbada pelo sensacionalismo dos meios de comunicação) dificilmente alcança os valores (estes sim exorbitantes) das renúncias fiscais, do perdão das dívidas previdenciárias de bancos e grandes empresas, e do repasse dos juros destinados aos rentistas e portadores de títulos da dívida pública. Se de algum lugar se deveria estancar a sangria dos cofres públicos com urgência é exatamente dessa pilhagem promovida pelos setores ligados às altas finanças e ao empresariado tosco que prefere lucrar no mercado financeiro a investir na produção.

 

A corrupção deve ser combatida sem tréguas. Mas deve ser combatida dentro da lei, sem arroubos moralistas, sem vendetas partidárias e sem destruir amplos setores da economia nacional para beneficiar os interesses espúrios dos conglomerados transnacionais. A corrupção se combate começando pelos próprios juízes, ministros e promotores que recebem “salários e penduricalhos” muito acima do teto constitucional e por isso não tem moral e nem decência para acusar ninguém.

 

A longa carreira parlamentar de figuras como João Alves e Geddel Vieira Lima se deu sob as asas da omissão judicial. Ver as cenas patéticas do anão aprisionado somente pode ser catártico para quem pensa pequeno. Mais do que a prisão e a humilhação pública, aqueles que desviam os recursos públicos devem devolver suas fortunas e ressarcir a sociedade pelos prejuízos causados.

 

DIALOGAR COM A DIREITA?

29 mar

Leio e ouço frequentemente, daquelas “lideranças” trotskistas de sempre, que a esquerda precisa fazer autocrítica, que precisa sair dos meios acadêmicos e das redes sociais e reencontrar as bases. Confesso que concordo em parte, mas tenho uma imensa preguiça de gente que exige o que não faz. Não vejo nenhum dos “protagonistas” de 2013 desculpando-se por ter entregado as ruas de mão-beijada à direita mais asquerosa do país, e nem lamentando ter apoiado e promovido a demonização do PT, na esperança de colher pífios triunfos eleitorais.

 

De qualquer modo, exortações para que se dialogue com a direita, e se “esclareça” aos ignaros porque a nossa posição é a mais iluminada, são o que não falta nas redes sociais. Pessoas mandando as outras estudarem História ou tentando impor suas interpretações sobre a sociedade, a ciência e política são frequentes nos dois lados do espectro. Talvez a esquerda seja mais polida e menos vulgar e ignorante que a direita, mas ainda assim todos nós (e eu me incluo nisso) passamos uma boa parte do tempo tentando ensinar aos outros como viver e como pensar.

 

E aí é que está um erro bastante crasso que atinge os dois lados. Estamos nos extremos do espectro ideológico e estamos ignorando o “centro”, que inclui não apenas os moderados, mas também os indiferentes e os indecisos, que eventualmente podem escolher qualquer dos dois lados porque não tem ideologia alguma e atendem a interesses absolutamente pragmáticos. Nós da esquerda perdemos um tempo precioso tentando dialogar com pessoas que não querem ouvir, que não podem e nem querem ser convencidas de nada e que querem (na maior parte do tempo) reduzir-nos ao silêncio na base do grito.

 

Por que qualquer pessoa minimamente inteligente perderia tempo tentando conversar com quem defende monarquia, intervenção militar, tortura, ódio às minorias e mordaças nos meios escolares? Quem acredita que os comunistas estão batendo à porta e que o Brasil precisa de “valores” familiares e religiosos, inclusive que será necessário matar esquerdistas, feministas, gays e pobres porque são todos bandidos, está muito além de qualquer diálogo. Ouvir e ler esse tipo de asneiras proferidas aos gritos, em maiúsculas, assassinando o vernáculo e abusando do calão mais ordinário, é uma prova de resistência que vai arruinando a nossa saúde, enquanto esses ignaros se sentem triunfantes.

 

Mas quem se dirige à grande maioria silenciosa, que vive e trabalha sofridamente e está fora do burburinho das redes sociais e da política? Essa multidão é que define eleições e ora pende à direita ou à esquerda, conforme a pauta discutida, mas não abraça nenhuma ideologia política conscientemente, embora siga padres e pastores. Essa maioria que espera salvadores milenaristas e entrega sua confiança a líderes carismáticos sem pensar nas consequências.

 

Conversar e dialogar requer que se ouça mais do que se fale, a princípio, para entender como as pessoas pensam e o porquê de suas atitudes, requer menos fascínio pelo som da própria voz e menos pretensão de ensinar. É preciso paciência para parar em filas, em praças, em comércios e estar disposto a dar o benefício da dúvida e aceitar quando os argumentos das pessoas simples são mais sensatos e reais que os nossos. É necessário adequar a fala para ter a certeza de ser compreendido e para não humilhar ou melindrar quem vem de outras experiências sociais e culturais.

 

E, não menos importante, dialogar requer admitir que a outra parte abriga uma identidade própria, um ethos construído sob as mais diversas circunstâncias, que precisa ser respeitado para que nos repeitem e confiem em nossas intenções.

 

Nos anos 90, um amigo anarquista contava a seguinte história, chegando a uma favela (naquela época não se chamavam comunidades) para promover uma atividade junto à sociedade de moradores, fez-se a roda e as necessidades das pessoas foram ouvidas, debatidas e traçaram-se planos para atividades futuras. Já no final, uma senhora aproxima-se do meu amigo e agradece dizendo que gostou muito de poder falar sobre as reais necessidades do bairro e que esse grupo de jovens era muito melhor que o pessoal que vinha, falava e falava sobre “o tal de troço”, deixava os panfletinhos e depois ia embora. Meu amigo perguntou sobre os tais panfletos e ela acabou procurando e mostrando um apanhado de frases de Trotsky, distribuído por aquele mesmo pessoal de sempre.

 

O “troço” virou a nossa piada particular em casa durante mais de uma década. E seus seguidores também. Especialmente aqueles que deixam crescer o cavanhaque e usam óculos redondos e se juntam como boybands.

 

Por essas e outras é que eu não acredito em autocrítica. Quem discursa ao invés de dialogar e quem usa uma retórica auto-recorrente, somente entendida por seus pares, dificilmente tem capacidade para indicar os defeitos dos outros porque não percebe sequer os próprios. Mas acredito firmemente na necessidade de “desencastelar” nossa militância e parar de falar para nós mesmos e nossos amigos.

 

Se não queremos a eleição de um proto-fascista defensor da tortura e do genocídio dos pobres, precisamos conversar cada vez mais com as pessoas no âmbito social e entender a causa da ascensão desse tipo de aberração. Precisamos ter argumentos claros e sem barroquismos para oferecer a quem está preocupado muito mais com ter comida na mesa e poder pagar as contas do que com os direitos das minorias. Em um momento em que a sociedade afunda no obscurantismo e na miséria promovidos pelo golpe, algumas lutas pontuais são luxos diante do emergencial.

 

Não é que o pobre seja contra os Direitos Humanos, a maioria silenciosa só não vê tudo isso sair do papel e reverter em alguma melhoria para suas mazelas. A abstração de algumas de nossas discussões não tem qualquer relação com a vida real dessa maioria e nós não percebemos porque nosso patamar de luta muitas vezes já superou o essencial e o básico. Precisamos reaprender a ouvir e a falar e a lutar.

 

Mas também precisamos abandonar de vez as “tretas” pautadas pela mídia e pelos ideólogos dessa direita extremista que pensa que pode vencer na base do clichê, da frase feita e do grito, sem apresentar argumentos ou projeto de país. O Brasil é grande e cheio de possibilidades, não podemos deixar que o processo massacrante de desmonte da democracia, promovido pelos golpistas, nos apequene a ponto de perder de vista que o que realmente importa são as pessoas. É hora de deixar essa direita e seus sequazes falando sozinhos e ir cuidar do que realmente interessa.

 

Como dizia César Isella:

 

                                 “Te digo hermano que entiendas que hacer la Revolución

                                   no és juntar dós o trés locos, cuatro balas y um cañón,

                                   te digo hermano que entiendas que és tiempo

                                   de hacer la Revolución, pero empieza por vós mismo

                                   y después seremos dós, diez, cien, mil, mi país…”

PEQUEÑA NARRATIVA SOBRE LA REALIDAD NEOLIBERAL

23 mar

Sem susto que o texto vai em português mesmo. Utilizei o espanhol no título para remeter ao breve estudo de caso que pretendo realizar aqui. Trata-se da Espanha e por isso a licença poética.

 

Quantos ainda se lembram da crise financeira de 2008? Vários dos mais importantes bancos de investimentos “bombaram” carteiras de títulos imobiliários (com baixíssimas perspectivas de resgate) e os venderam a outros bancos menores, que os venderam a seus correntistas, que não sabiam em que estavam investindo. Pessoas de classe média na Europa e nos EUA hipotecaram suas casas para investir nessas carteiras de títulos podres porque a promessa de remuneração era muito sedutora, embora totalmente fictícia.

 

Os executivos que repassaram esses títulos aos bancos e os gerentes de contas que os venderam a seus correntistas embolsaram bônus milionários de produtividade. Fortunas absolutamente voláteis mudaram de mãos durante uns dois ou três anos. Em 2008 a bolha estourou, bancos faliram, os governos tiveram que socorrer a economia que ameaçava um efeito dominó semelhante ao de 1929, mas ninguém pensou em indenizar os correntistas. Eles investiram em um mercado de alto risco, sem sequer saber do que tratava (confiando em seus gerentes e contadores) e perderam seu dinheiro, suas casas e seus futuros.

 

Um dos casos mais dramáticos foi o da Espanha, que por conta disso caiu nas garras da tróika da União Europeia e mergulhou em um nunca acabar de misérias.

 

Um dos fenômenos mais impactantes foi o dos suicídios. Aposentados, pais de família que chegaram a matar os próprios filhos e depois se suicidar, casais de idosos, várias centenas em um período de menos de dois anos (fenômeno que se alastrou pela Europa e pelos EUA alcançando o número de dez mil suicídios nesse período). Era um tormento ligar o noticiário da TVE e ouvir os dramas cotidianos de famílias jogadas na rua e suicídios dos mais grotescos.

 

E então a classe média indignada saiu às ruas para protestar e protestou e muitos de nós repostamos seus protestos porque nos pareciam justos, afinal, era uma crise do capitalismo e as pessoas estavam sendo esfoladas vivas para continuar sustentando o sistema e os privilégios de sempre. E vieram as eleições e os indignado elegeram Mariano Rajoy…

 

Mariano Rajoy, garboso expoente da mais arbitrária direita “papamissas”, hipócrita e farisaica, ligada à Opus dei (isso lembra alguém?). Mariano Rajoy, envolvido em escândalos de corrupção e defensor anacrônico do franquismo. Eleito pelos indignados para consertar a Espanha, Rajoy aproveitou para desmantelar a seguridade social e implantar quanta barbaridade a tróika exigisse, em troca de financiamento que jamais chegou ao povo espanhol, mas que enriqueceu a seus asseclas e manteve o “financeirismo”, relegando a conta à população trabalhadora.

 

E assim a Espanha se apequenou mais e mais. No rastro da indignação surgiu o Podemos, partido que se diz de esquerda mas é incapaz de formar uma coalizão com o PSOE, a Izquierda Unida, Esquerra Republicana de Catalunya e outros tantos partidos menores de esquerda e centro-esquerda. Assim, o PP de Rajoy se mantém no poder após impasses que chegaram a durar mais de um semestre.

 

E vale esse registro todo porque devemos pensar que a agenda neoliberal não ganha eleições, não é compatível com regimes democráticos e nem sequer é compatível com as constituições da maioria dos países civilizados. A agenda neoliberal vem sendo insidiosamente imposta na rabeira das crises econômicas e institucionais. Imposta a governos dóceis por organismos internacionais, como é o caso da Espanha, ou por governos ilegítimos e golpistas, a despeito da vontade popular, como é o nosso caso.

 

Sempre travestida de programa de salvação nacional, como castigo para governos de esquerda que “esbanjam” orçamento com seguridade social, essa agenda pode ser imposta pelos grandes bancos, pelas agências de fomento ou pelas classificatórias. Ou pode ser abraçada por uma súcia de congressistas mercenários dispostos a sangrar o erário público até a exaustão, e depois voltar a seus feudos regionais, como se nenhuma responsabilidade lhes coubesse na miséria que assolará o país. Sacripantas que chamam seus privilégios de “direitos” e a seguridade social de “privilégio”.

 

Parasitas capazes de imolar três gerações inteiras de cidadãos no altar do neoliberalismo, em troca de suas trinta moedas de prata. E o fazem debochando de nós cidadãos, amparados por uma mídia rancorosa cheia de “gusanos” e por uma casta judiciária narcisista. E há quem festeje…

 

Delenda Lula, delenda PT, delenda Brasil de todos nós…

MEU PRIMO ADOLFO WASEM

9 nov

cholo

 

 

Tenho poucas, mas fortes lembranças do meu primo Adolfo Wasem. Para nós era conhecido como Cholo, para seus companheiros na guerrilha era Nepo. Para a ditadura uruguaia (1973-1985) foi um dos nove reféns. Para a mídia era um tupamaro. Para os órgãos de defesa dos Direitos Humanos, mais um nome em uma longa lista de baixas. Para as próximas gerações talvez uma nota de rodapé na vasta trama da História.

Para mim é a lembrança de um sorriso luminoso, que ficou impresso na foto do casamento dos meus pais. Um vislumbre de suas costas cheias de cicatrizes de queimaduras, durante um churrasco. Uma lembrança fugaz de seu casamento. E a última vez que o vi em uma feira de livros, acariciando feliz a barriga de sua companheira grávida.

O resto das minhas lembranças são sombras difusas porque eu era uma criança bem pequena quando todos esses fatos se deram. Lembro-me de visitar a casa da tia Nina, mas quem marcou essa lembrança foi seu irmão Raul, um tufo de cachos castanhos, sardas e grandes olhos, que eu nunca mais vi. Há também a visita que o Cholo nos fez, junto a um amigo, após voltar de sua viagem de “estudos”, que depois viríamos a descobrir que havia sido um treinamento de guerrilha fora do país. Dessa visita também só me lembro de sombras e o eco das risadas.

Em algum momento entre o fim dos anos 60 e o início dos 70 houve um churrasco de família, em Piedras Blancas na casa da tia Carmem, e é daí que vem a lembrança das horrendas cicatrizes de queimaduras que se estendiam por todas as suas costas e que eu fiquei olhando de longe, enquanto ele conversava com outras pessoas.

Todos sabiam que o tio Adolfo, seu pai, era um sujeito brutal e a história das queimaduras acontecera quando Cholo era uma criança de cinco ou seis anos (ao menos assim me contaram) e o pai o mandou pegar uma chaleira de água fervendo em cima do fogão. Sentado comodamente tomando seu mate, o velho Adolfo viu seu filho pequeno entornar sobre si a chaleira cheia, que era grande e desajeitada demais para uma criança carregar.

Nenhum de nós gostava do tio Adolfo. Era uma pessoa agressiva, ignorante e sem o mínimo de empatia com crianças. Era de uma geração que encarava a educação dos filhos como uma sucessão de castigos e maus tratos destinados a transformar meninos em homens. Não havia o menor resquício de gentileza ou carinho nele.

E, no entanto, aos meus olhos de criança, Cholo parecia gostar visivelmente do seu pai. Talvez visse nele algo que nós não conseguíamos ver. Quem vai saber?

A outra lembrança que me vem à mente é de um casamento no Registro Civil com um bando de moças vestidas em conjuntos de um cor-de-rosa puxado mais para o pink. Dos rapazes mal me lembro, mas Cholo e sua companheira Sonia eram tudo sorrisos. Do mesmo modo, quando me lembro da feira do livro (e não consigo precisar se era no hall da intendência ou da universidade) em que os encontramos cuidando de um stand, é dos seus sorrisos confiantes e da barriga de Sonia de que mais me lembro.

As lembranças seguintes são uma sucessão de borrões com notícias de jornal, desespero familiar e eu e minha irmã fazendo desenhos para mandar a ele na prisão. Depois a situação política foi ficando cada vez pior, à medida que a ditadura se instalava, comunicados na televisão e nas rádios todas as noites com listas e mais listas de prisões e nós sempre pensando quem seria o próximo conhecido a ser pego. Meu pai perdeu o emprego em 1973 e a economia estava em uma recessão medonha, o que nos trouxe ao Brasil no ano seguinte, na esteira do milagre econômico.

Nos primeiros dez anos após nossa chegada, as notícias eram escassas e todas ruins. A correspondência não era confiável e precisávamos esperar cartas trazidas por portadores, quando algum parente ou amigo vinha de visita anualmente. As notícias na mídia da época eram visivelmente censuradas. Aos poucos ficamos sabendo dos desaparecidos dos dois lados do Rio da Prata, das crianças sequestradas na Argentina, dos “suicidados” e “abatidos ao fugir” nas prisões brasileiras.

Um cortejo de horrores que assombrou meus pesadelos por anos e anos, enquanto eu crescia. E a cada distensão política, novos horrores eram revelados: torturas, execuções, a famigerada Operação Condor… A sensação de pertencer a um gueto clandestino, em um mundo em que as ideias políticas da minha família eram consideradas perigosas e deveriam ser eliminadas.

Em 1984, ficamos sabendo que Cholo lutava contra um câncer letal e que o tratamento na prisão era propositadamente precário. Ciente de sua condição, ele iniciou uma greve de fome reivindicando a liberação de todos os presos políticos da ditadura uruguaia. Aos meus olhos jovens de então, essa foi uma maneira heroica de dar sentido a uma morte tão tristemente anunciada.

E ele se foi.

E eu venho esquadrinhando o passado até hoje, para dimensionar a ferida aberta que sua morte deixou em nossa família. Trinta anos estudando História, dentro e fora da academia, pesquisando o século XIX para manter uma distância saudável dos traumas do século XX. E mesmo assim, acumulando informações sobre as ditaduras do cone sul nos anos 60-70-80, lendo relatórios, examinando documentos, acompanhando a historiografia brasileira e toda a asquerosa desinformação que vem sendo divulgada pela mídia nestes últimos anos, dando voz aos algozes e criminalizando as vítimas.

Diante da situação política atual e vendo a meninada ocupando escolas e apanhando da polícia, vendo a Ana Júlia peitar os deputados estaduais no Paraná, vendo a quantidade inaceitável de pobres de direita que nos rodeia, não consigo parar de pensar nos dois Adolfos. O Cholo, que morreu aos trinta e seis anos lutando pelo que acreditava, e seu pai brutalmente pragmático, que um dia lhe disse:

– Quando a situação apertar, quem vai entregar vocês são exatamente esses miseráveis que vocês tanto defendem e por quem estão lutando.

Ao lembrar o sorriso tão confiante e cheio de esperança do meu primo Cholo, tendo a pensar que ele sabia exatamente no que estava entrando, mas que não se importava de empenhar a própria vida diante da possibilidade de um futuro melhor.

Minha geração cresceu à sombra do desprendimento da sua, mas a maior parte dos meus colegas e amigos, no Brasil, foi alheada da realidade dessas lutas e cresceu no mundo paralelo construído pela televisão cúmplice dos ditadores. Em meu país de adoção, conheci e convivi com vários tipos de pessoas nestes tantos anos: pobres, remediados, classe média e alguns marginalizados de meios diversos. O denominador comum dominante até pouco tempo atrás era um pragmatismo absolutamente indiferente aos destinos da sociedade, desde que os destinos individuais se realizassem. Não eram de direita e nem de esquerda, eram por si apenas, como o tio Adolfo.

O que me traz à lembrança um catador de papel que certa vez vi ao sair da escola, que estampava em sua carroça a bandeira do Uruguai e a propaganda política de Jorge Pacheco Areco, o famigerado presidente colorado. Lá pelos idos de 1971, a população do meu país de origem vivia uma polarização política radical e era comum ver tomadas de partido como essa. Nunca entendi como alguém mergulhado na miséria poderia apoiar o governo que tudo lhe tirava, é uma imagem que me impressiona até hoje.

Alguns intelectuais consideram as polarizações burras. Eu não, eu as considero perigosas. Escolher um lado implica em negar a humanidade do outro. Para a esquerda significa querer “catequizar” os pobres de direita e promover sua “desalienação”. Para a direita significa eliminar fisicamente a esquerda de uma vez por todas.  A volta desses fantasmas nada de bom pressagia.

Cheguei a uma idade em que sou mais velha do que meu primo Cholo era ao partir. Uma vida é apenas isso, uma vida, nem mais nem menos. É o que fazemos dela que agiganta ou apequena nossos dias. Ao morrer tão jovem e ainda lutando, seu sorriso e sua esperança ficaram congelados no tempo. E eu ainda me sinto uma criança diante da sua memória.

ESTAMOS MAIS INFANTIS NA PERCEPÇÃO DA POLÍTICA?

8 set

 

Um dos aspectos mais tristes de ser pautado pelo bombardeio de informações, promovido pela variedade de mídias que nos cercam, é que perdemos a viabilidade de avaliar as notícias uma a uma pelo que valem ou por quem representam. Não existe tempo hábil, nem mesmo para os analistas profissionais, para enfrentar o volume de fatos, factoides e notícias divulgado diariamente. Para ter uma vaga noção da realidade que nos cerca precisamos de tempo e dedicação, dois luxos que quem trabalha para sobreviver desconhece.

 

Por isso consumimos opiniões e não notícias. Elegemos a revista ou a emissora que “nos representa”, o blogueiro ou jornalista que tem um perfil sociopolítico semelhante ao nosso, e terceirizamos o ofício de pensar. Afinal, somos pessoas comuns e pensar dá um trabalho danado e temos muito mais o que fazer, não é mesmo?

 

Pois é…

 

Pensar requer o hábito, a constância e a capacidade de analisar palavras e números em uma sentença ou em um discurso e perceber se eles correspondem a uma realidade possível ou a uma construção discursiva. Pensar requer conhecimento de figuras de linguagem para poder reconhecer uma metáfora, uma hipérbole ou uma ironia. E, não menos importante, pensar requer a humildade de saber que podemos estar errados e precisamos nos analisar, ao mesmo tempo em que analisamos as informações que nos chegam.

 

E é humanamente impossível fazer isso vinte e quatro horas por dia, todos os dias. Em algum momento “baixamos a guarda” e consumimos uma opinião como se fosse uma informação. Isso não seria tão ruim se, junto com a ideia de que opinião é informação, não viesse implícita a noção infantil de que estamos perante a “verdade dos fatos”.

 

Em algum momento um jornalista qualquer chamou de Fla-Flu a disputa política entre os projetos do PSDB e do PT, em uma alusão simplista ao derby do futebol carioca, e logo uma boa parte dos comentaristas passou a fazer analogias entre política e futebol. Daí passamos a uma situação em que os “donos” do discurso das identidades sociais encontraram mais um meio de classificar a sociedade civil como burra e manipulável. Do momento em que se criou essa percepção de que o brasileiro “torce” na política como torceria no futebol, choveram metáforas (sim, eu também uso e abuso das figuras de linguagem) associando esses dois âmbitos da convivência social.

 

De 2013 até o este momento, houve uma alteração significativa na percepção popular sobre a política e os políticos, promovida por esse fenômeno do consumo de opiniões. Jornalistas ficaram mais ousados e sensacionalistas na ânsia de pautar o pensamento popular e produzir resultados significativos para as aspirações sociopolíticas de seus patrões. Defensores e portadores de ideários sociais divergentes passaram a agir como cruzados em prol de verdades dúbias e duvidosas.

 

E nós consumimos todo esse festival de opiniões como se fossem fatos. É claro que cada um de nós consome as informações geradas nas mídias disponíveis, de acordo com nossa própria vivência e experiência. Nesse sentido, podemos ser bem sucedidos e evitar nove entre dez armadilhas midiáticas e cair na décima como “patinhos”.

 

Ou podemos escolher um determinado discurso, tendo plena consciência de que se trata de um discurso social e historicamente construído, que atende a nossas expectativas de atuação política, mas que não se trata de “A” verdade, e sim de mais “UMA” verdade possível. Ou podemos fingir que estamos acima dos discursos e que sabemos mais do que todo mundo como a sociedade funciona e passar a pregar a negação ou a omissão, perante o processo político, em nome de uma “pureza” intelectual totalmente utópica. Ou podemos…

 

E aí é que está, podemos ter múltiplas opções de ação, embora o discurso da mídia e das redes sociais nos leve a crer que só existem dois lados. Essa visão maniqueísta de “bem contra o mal”, tão difundida ultimamente, é que tem levado muitas pessoas a perceber a realidade nacional como a antessala do apocalipse. O mundo não acaba porque nossos adversários políticos consigam uma vitória, nem o mundo planetário e nem o nosso mundo pessoal e metafórico.

 

Mas nos pegamos agindo como adolescentes dramáticos, na medida em que pensamos que um retrocesso lamentável e atroz pode significar o fim do mundo, quando na verdade se trata de mais um percalço e a abertura de uma nova frente de luta.

 

Será que os jornalistas opinativos tem a dimensão que como é patético dizer que o Brasil se encontra mergulhado na pior crise de sua História? Afinal, será que revoluções do período regencial, a Guerra do Paraguai, as perseguições políticas medonhas da Era Vargas, a ditadura civil-militar mais recente e os planos econômicos dos períodos Sarney, Collor e FHC não foram crises? Será que a corrupção, onipresente em nossa sociedade desde a chegada da administração colonial portuguesa, somente agora atingiu níveis estratosféricos?

 

Essa abordagem dramática e sensacionalista da vida, tão ao gosto dos programas de entrevistas de auditório, que surgiram nos anos 80 e nos acompanham desde então explorando a miséria humana, chegou aos noticiários. E os noticiários passaram a “pingar sangue” como aquele antigo jornal Notícias Populares, que alguns devem lembrar. E os jornalistas se tornaram dramáticos, excessivos e hiperbólicos, manipulando as emoções da plateia com recursos histriônicos de complexidade shakespeariana.

 

É nesse caldo de cultura tão tóxico e egocêntrico que devemos pensar ao tentar analisar (mais uma vez) o fenômeno dos adolescentes mascarados. E eu não os chamo de Blackblocs porque, em sua absoluta maioria, esses meninos não sabem que a tática de defesa de manifestações foi criada para ser uma prática individual e não uma formação de grupinhos de camaradagem. Por não ter o mais mínimo conhecimento histórico e social, esses ativistas confundem Anarquismo com voluntarismo e promoção do caos.

 

Nos dias 1º e 6 de setembro passados, tivemos atos em defesa da democracia e dos direitos civis aqui em Campinas, desses atos que se convencionou chamar  #FORATEMER por conta da inequívoca ilegalidade do governo atual. No ato do dia 1º havia em torno de quatro mil pessoas, uma grande presença de famílias, militantes históricos da esquerda local, estudantes da UNICAMP e grupos feministas e LGBT’s. Foi um ato convocado no “susto” pelas redes sociais, e muito diferente dos atos anti-impeachment dos meses anteriores, que reuniram apenas militantes mais velhos e sindicalistas.

 

A presença policial foi bem pouca, talvez inclusive porque os atos anteriores beiravam apenas de trezentas a quinhentas pessoas. Não houve qualquer tipo de problema e os militantes mais velhos cuidávamos o tempo todo de manter a segurança necessária para evitar confrontos. A presença alegre dos universitários com seus tambores e cabelos coloridos deu um ritmo diferente à marcha pelas ruas centrais da cidade.

 

Já no dia 6, a composição do ato foi bem diferente. Primeiro porque não foi espontâneo, foi agendado assim que o outro se encerrou e houve chamadas constantes. O tempo não ajudou, na madrugada do dia 6 uma tempestade se abateu sobre a cidade e o dia permaneceu nublado e frio, impedindo as famílias com crianças pequenas de comparecer na mesma medida que no ato anterior. Mas mesmo assim ficamos em torno das quatro mil pessoas novamente.

 

Outra diferença foi a presença dos partidinhos trotskistas (mais uma vez) tentando apropriar-se da narrativa do protesto para reverter em votos para suas legendas nanicas. Onde estavam esses partidos quando denunciávamos o golpe? A maior parte fazendo o serviço sujo da direita, ao debilitar um governo legitimamente eleito, e surfando no antipetismo para fins eleitoreiros.

 

E, lá pela metade da marcha surgiram cinco adolescentes vestidos de preto, carregando mochilas gigantescas e com camisetas na cabeça servindo de máscaras. Cinco moleques patéticos, que não deviam ter mais do que treze anos, que se recusaram a retirar as “máscaras” quando pedimos e que (se tivéssemos deixado) certamente teriam arrumado um jeito de causar confusão. Acreditando tolamente que seu protagonismo na “luta” passa por promover o confronto para “expor” a truculência da polícia e assim poder “proteger” os outros manifestantes, no que parece uma distorção delirante da Síndrome de Munchhausen by Proxy.

 

E eu estou há dois dias matutando se a infantilidade desses meninos se deve apenas à sua pouca idade e ausência de conhecimento e experiência de vida, ou se o clima social de antessala do apocalipse promovido pela imprensa e por determinadas militâncias oportunistas não terá jogado um papel importante nessa percepção adolescente de que o mundo está acabando e precisamos “fazer coisas” para impedir…

 

Precisamos denunciar o golpe parlamentar, precisamos defender a democracia, precisamos lutar por nossos direitos, mas também precisamos parar de ser dramáticos. Uma derrota política não pressupõe o triunfo do mal, em letras maiúsculas e caracteres góticos. Uma derrota pressupõe reorganização, serenidade, estratégia e a continuidade da luta em termos civilizados.

 

Quando se trabalha com uma visão binária de “agora ou nunca”, “ou vai ou racha” ou “se você não está comigo, está contra mim”, corre-se o sério risco de passar a viver de chavões, clichês e palavras de ordem e, aí sim, perder totalmente o pé das realidades imediatas.

 

Não podemos permitir que essa infantilização do debate, que essa mentalidade adolescente voluntarista tome conta dos discursos e das instâncias de análise crítica da sociedade, afinal somos nós os adultos.

 

Lembrem-se: somos nós os adultos…

 

COMO EU EXPLICO ESSE CIRCO DE HORRORES AO MEU FILHO DE NOVE ANOS?

18 abr

Hoje acordamos com mais uma derrota de uma longa lista sofrida ao longo de uma vida vivida à esquerda. Abro o Facebook e encontro esta pergunta no status de vários amigos jovens, a idade das crianças varia, mas a perplexidade dos pais é uma constante. Sento-me então ao teclado e espero contribuir minimamente para desanuviar o ambiente.

 

Meus jovens amigos, deixem-me dizer-lhes primeiro que não importa se nossos filhos ou filhas tem seis, nove, quinze ou vinte anos. A responsabilidade de apresentá-los ao mundo de maneira honesta e digna é sempre nossa. Nós, pais e mães, temos a obrigação de dar sentido à loucura cotidiana e torná-la inteligível aos olhos de nossos filhos.

 

Não mintam em hipótese alguma, as crianças percebem e nunca mais vão confiar em vocês. Há uma condescendência e uma superioridade besta que a maior parte dos adultos tem ao pensar que as crianças são novas demais para entender os fatos da vida. Acredite, não são. Se a criança tem a capacidade de formular a pergunta é porque está pronta para a resposta.

 

Nove anos não é pouca coisa, especialmente se você sempre conversou honestamente com seu filho sobre o mundo. Eu tinha oito anos quando soube que meu primo estava sendo torturado pelos militares uruguaios e quando o marido da minha vizinha foi preso e logo depois um dos meus melhores amigos da escola teve que fugir com a família para a Austrália. Nunca mais vi qualquer um deles. E eu entendi perfeitamente.

 

Meus pais nunca me iludiram com fantasias meritocráticas, eu sempre soube que o mundo estava cheio de oportunidades para os ricos e aos pobres só restava o trabalho. E quando os pobres se juntavam para lutar era a morte ou a tortura que os estavam esperando no fim da linha. Não éramos de esquerda na esperança de chegar ao poder e sim porque era o certo.

 

Eleições ganhas não transformam as relações humanas e isso ficou claro nestes últimos anos. Podemos lutar por reformas, podemos apoiar a democracia e comemorar pequenas vitórias, mas o mundo continua o mesmo.

 

E é importante que as crianças saibam que o Céu e o Inferno são mitos e que os mocinhos quase nunca vencem. Que precisamos continuar lutando porque somos de uma linhagem de livre pensadores que não podem ser aprisionados em partidos, escolas, prisões ou hospícios. Porque as nossas mentes são livres.

 

Não somos como somos pela glória, por recompensas materiais ou esperando que o mundo se curve à nossa vontade. Somos como somos porque não temos a alternativa do cinismo, da hipocrisia religiosa ou do falso moralismo.

 

Crianças entendem e muito melhor que uma boa parte dos adultos.

Por que eu sou comunista?

4 out

Não esperem encontrar aqui uma longa dissertação teórica, recheada de citações de autores com nomes russos ou alemães, muito menos britânicos. Minha experiência é da prática e não da teoria, eu não cheguei ao comunismo em alguma experiência de “iluminação” proporcionada por professores universitários ou livros.

Meu pai era comunista, no sentido que o termo adquiriu nos anos ’30 e ’40, era um stalinista que defendia paredões. Não tinha qualquer ilusão sobre os seres humanos, então pensava que uma sociedade melhor só seria conseguida mediante a imposição e a coerção. Tivemos inúmeras discussões à mesa, à medida que eu amadurecia minhas próprias convicções. Na casa dos meus pais (sempre alugada e por isso passando a ser lembrança periodicamente: “lembra quando a gente morava na Emile Pilon? lembra da Rua da Várzea?”) a política era uma constante nas conversas. Passei a infância acreditando que a Revolução era inevitável, o destino da humanidade.

Minha mãe ainda é o que eu denominei “mariagarbonezista”. E eu explico, minha avó Maria Garbonez era uma mulher forte e decidida, que jamais vi sorrindo (porque não dava muita confiança às crianças) mas que possuía convicções muito fortes, após uma vida de sacrifícios criando doze filhos e tendo migrado de um vilarejo de fronteira para a capital do país, apenas com a coragem a a ajuda de alguns parentes. Minha avó criou seus filhos sem grandes devoções religiosas, mas com uma ética severíssima. Não tolerava desonestidade, fofoca ou injustiça. Não era nenhuma matrona, era um toquinho de gente que mal alcançava um metro e meio, mas que olhava qualquer um nos olhos e não baixava o olhar. Isso deu à minha mãe uma visão de mundo peculiar em que o individual e o coletivo só tem sentido quando todos colaboram, mas que não tolera acomodações injustas.

Meus pais se conheceram trabalhando em uma fábrica, e mesmo longe de constituir um casal perfeito, aprendi muito com eles sobre como o mundo do trabalho funcionava. Minha mãe nunca soube que a exploração que sofria trabalhando por produção se chamava mais-valia, mas poderia explicar para você com grande sofisticação matemática, com quantas dúzias das meias que cerzia o patrão pagava seu salário e a partir de quando na semana, seu trabalho se transformava no lucro do outro (e isso tendo frequentado apenas três anos de escola rural). Aprendi com meus pais tudo o que precisava sobre o que o homem é capaz de impingir ao semelhante para obter lucro.

Nesse sentido, eu sou comunista como muitas pessoas são budistas. Porque é muito mais do que uma ideia política, é uma visão de mundo, é uma identidade.

É então que surge a pergunta de sempre: e Mao, Pol Pot, Stálin, Fidel e o Che?

Uma coisa que a vida me ensinou é que o mundo é complexo demais para pensar que temos a solução da História e que basta uma ideia ou um regime para trazer um milagre milenarista que resolva todos os problemas da humanidade. Considero quem acredita nisso extremamente imaturo, como também considero igualmente imaturo quem acredita que a humanidade pode viver se quaisquer meios regulatórios e usando sua liberdade indiscriminadamente. Tanto a ditadura extrema quanto a liberdade extrema são ambas negadoras da civilização. Uma porque elimina o indivíduo em prol da sociedade e a outra porque implode a sociedade para beneficiar o ego e as paixões do indivíduo.

Já vi muitas críticas às experiências auto-denominadas comunistas. Desde as dos esquerdistas de que não passaram de “capitalismo de Estado” (o que concordo em parte) até as daqueles que abominam o comunismo porque querem conservar suas hierarquias e privilégios e então demonizam esses regimes. Cada um desses regimes deve ser entendido em seu momento histórico e em seu país de origem. Dizer que foram erros ou fracassos não basta, é necessário pensar porque aconteceram e o que se aprendeu com elas. São parte de nossa trajetória como seres humanos e não podem ser relegadas nem por quem defende a ideia e nem devem ser levianamente rotuladas por quem a combate.

O que aprendemos com elas é que não se pode obrigar os seres humanos a ser “iguais”, do mesmo modo que a imposição religiosa não conseguiu jamais transformar alguém em “bom”. Da mesma forma, se o planeta segue um sistema econômico, um único país não tem força e nem capacidade para se subtrair a ele sem gerar consequências. Vai daí que a maior parte dos direitos de auto-determinação dos povos sucumbem perante o poder econômico e os direitos individuais são atropelados perante o poder político. Do meu ponto de vista a implantação de um regime de viés comunista radical é uma impossibilidade histórica.

É nesse sentido que eu me denomino uma comunista sem partido, porque não acredito na disciplina partidária em que o indivíduo é tragado em prol da sociedade. Acredito que nós comunistas temos muito a contribuir no aprimoramento das instituições democráticas, se desistirmos do milenarismo e aprendermos a viver nossas ideias de modo prático. É o que eu tento fazer. Se alguém bate a minha porta pedindo um litro de leite e eu posso dar, eu dou. Disponibilizo de graça na internet o resultado de trinta anos de estudos, porque é tudo o que posso oferecer (vivo de modo frugal porque escolhi dividir minha vida com alguém tão idealista quanto eu). Fora isso, sou “marmitão”, “ombro amigo” e me disponho a ser solidária com quem precisa.

E faço isso não esperando recompensa ou reconhecimento (não acredito em deuses de qualquer tipo, paraísos ou infernos), apenas porque é isso que eu acredito que seja ser comunista. Também não considero que todos devam me tomar como referência, um mundo cheio de gente como eu seria um tédio. Aprendi a apreciar a diversidade e a aceitar os diferentes, mesmo quando a diferença se torna uma ameaça à minha existência. E isso porque eu tenho “desconfiômetro” e senso de ridículo e me sinto extremamente confortável em minha insignificância.

Eu sou comunista porque diante do que sei e do que sou, não poderia ser diferente.